Maior loja de produtos da reforma agrária tem uma história de resistência política alimentar.
por
Inaiá Misnerovicz
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15/09/2026

Por Inaiá Misnerovicz

 

Em julho de 2016, uma pequena loja abria as portas nos Campos Elíseos, região central de São Paulo, com uma proposta que na época ainda soava como experimento: vender diretamente ao consumidor urbano os alimentos produzidos em assentamentos e acampamentos de Reforma Agrária. Dez anos depois, aquele primeiro Armazém do Campo deu origem à maior rede de comercialização de produtos da Reforma Agrária do Brasil, com mais de 20 unidades espalhadas pelo País.

Neste período, a unidade paulistana atravessou a pandemia, passou por mudanças no modelo de vendas e acompanhou a expansão  da rede para outros estados, chegando a um novo capítulo: a abertura do Restaurante da Reforma Agrária Popular, que serve refeições diariamente no mesmo espaço. Mas os números e marcos institucionais contam só uma parte da história. A outra parte é contada pelas pessoas que, ao longo desses anos, transformaram o Armazém em rotina. Em termos cronológicos a história do Armazém remonta a 2015, quando o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) organizou a primeira Feira Nacional da Reforma Agrária, no Parque da Água Branca, em São Paulo. O evento reuniu produtores de assentamentos e acampamentos de diferentes regiões do País e revelou uma demanda que ainda não tinha uma resposta permanente na cidade: moradores que queriam continuar tendo acesso, no dia a dia, aos alimentos agroecológicos que haviam conhecido na feira. Foi dessa constatação que nasceu, no ano seguinte, o primeiro Armazém do Campo, um ponto de encontro permanente entre a produção do campo e o consumidor urbano, vendendo o que a rede chama de comida de verdade: alimentos orgânicos e agroecológicos, com preços justos tanto para quem produz quanto para quem compra.

Ademar Luwig, um dos coordenadores da rede, resume o espírito do projeto. Para ele, alimentar é um ato político e não fazia sentido lutar contra o latifúndio para, na prática, seguir produzindo com veneno - e foi com esse raciocínio, somado ao sucesso da feira de 2015, que impulsionou a abertura da primeira loja. E se para o MST alimentar é um ato político, para os frequentadores do Armazém do Campo essa ideia se traduz em gestos menores, mas nem por isso menos significativos. Três histórias ajudam a entender porque o espaço é também um local de pertencimento.

Vizinho do Armazém, o professor de história Lúcio Menezes descreve essa proximidade quase como parte da própria casa: basta sair da porta, andar alguns metros e já está ali dentro. Para ele, o ato de comprar no Armazém do Campo ultrapassa o alimento em si. Ao pagar pelos produtos, ele sente que está comprando também a história de um movimento dos trabalhadores rurais brasileiros, que considera uma das histórias mais bonitas da história do País. Ele destaca ainda a dimensão de convívio do espaço, que enxerga como um ponto de encontro entre pessoas com visões de mundo parecidas com a sua, um lugar onde se sente à vontade, cercado só de gente que considera interessante.

A atriz Cris Couto acompanha o Armazém antes mesmo dele completar um ano, ela morava ao lado da primeira sede - na Alameda Eduardo Prado - e viu a loja abrir em 2016. Lembra da alegria da época, do entusiasmo em poder comprar ali o que gostava, sabendo que tudo era plantado por pessoas que cuidam da terra e se preocupam com o que colocam na comida. Ela também guarda na memória as rodas de samba dos primeiros anos, que aconteciam às sextas-feiras, num espaço pequeno, escondido no canto. Hoje, na sede atual, descreve um salão amplo, capaz de reunir quem quer dançar, cantar e encontrar com mais tranquilidade. Para ela, esse tipo de encontro presencial - num cotidiano dominado pelos celulares - não tem preço.

Talvez nenhuma história resuma tão bem o vínculo afetivo construído pelo Armazém quanto a do músico Lincoln Rodrigues. Há cerca de dois anos, desde o nascimento da filha, Amora, ele e a companheira escolheram o Armazém como o primeiro lugar para levar a bebê, depois de pesquisarem o que o espaço oferecia. Segundo conta, enxergaram ali um lugar de acolhimento, afeto e carinho. Desde então, a menina cresceu sendo acompanhada por quem trabalha na casa - a ponto de um pedido corriqueiro, um ovo mexido só com orégano, virar item batizado com nome próprio: o “ovo da Amora”. O apelido carinhoso ultrapassou a família: certa vez, foi a avó de Amora quem apareceu sozinha perguntando se faziam ovo mexido. A resposta, a princípio negativa, mudou assim que alguém da equipe reconheceu o pedido e perguntou se era para a Amora, e, diante da confirmação, topou fazer.

O Armazém segue ampliando o que oferece ao público. A principal novidade de 2026 é o Restaurante da Reforma Agrária Popular, que passa a funcionar de segunda a sábado, no horário de almoço, com cardápio à la carte e em buffet. Segundo Carina Ortega, gerente do Armazém em São Paulo, o projeto está em fase inicial e usa os mesmos insumos orgânicos e agroecológicos das áreas de assentamento e da agricultura familiar que já abastecem a loja. Ela descreve a iniciativa como um resgate direto da experiência das feiras nacionais: o cardápio será organizado por regiões do país, com uma tradição culinária diferente representada a cada dia da semana, uma forma de manter viva a “Culinária da Terra” que caracterizou a Feira Nacional de 2015.

A gerente também chama atenção para um ponto que costuma surpreender quem entra pela primeira vez na loja: boa parte dos produtos vendidos ali não é encontrada em outros mercados, porque o Armazém busca ativamente fornecedores de assentamentos e acampamentos - pequenos produtores que têm dificuldade de acesso a canais de comercialização e acabam dependendo de atravessadores, muitas vezes vendendo por um preço bem abaixo do que precisariam.
Para quem construiu o projeto, o significado do aniversário vai além dos números. Carina associa a data à consolidação de dez anos de trabalho em defesa da agricultura familiar e de um espaço de acolhimento construído a partir da ideia de que comer também é um gesto político. E é justamente nesse ponto que a história institucional encontra as histórias pessoais de Lúcio, Cris e Lincoln: cada um, à sua maneira, encontrou no Armazém do Campo não apenas um lugar para comprar comida, mas um espaço de pertencimento, seja pela história que carregam os alimentos, pelo salão onde dançam, ou pelo prato que ganhou o nome de uma criança que cresceu ali dentro. Dez anos depois da primeira feira na Água Branca, é esse tecido de vínculos cotidianos, tanto quanto os números de expansão, que sustenta o Armazém do Campo como projeto.
 

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Quando as portas dos vagões se abrirem, salve-se quem puder: o tempo e a saúde mental perdidos por estudantes e trabalhadores.
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Natália Matvyenko
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06/10/2026

Por Natália Matvyenko

 

O despertador toca às seis da manhã e a obrigação de João Paulo se inicia antes mesmo que o sol esteja alto. Morador do ABC paulista, ele compartilha o mesmo fardo de tantos outros forçados a buscar a capital para vislumbrar um salário melhor ou as cadeiras das faculdades. A logística se impõe como uma taxa diária cobrada em tempo de vida e sono. Ele contabiliza em média três horas e meia dentro dos vagões, uma jornada que o obriga a estar na plataforma da Linha 10-Turquesa por volta das sete da manhã. O trem chega e a lotação o acolhe em um abraço asfixiante. Manter-se em pé exige um esforço físico que vai além do equilíbrio. É uma luta constante contra a pressão de outros corpos que se aglomeram, encostando em todas as partes sem pedir licença. O trajeto se estende quase até o fim da linha, deixando para trás estações como Rio Grande da Serra e Mauá, enquanto despeja multidões de Santo André que também buscam deslocamento.

Chegar ao destino já significa chegar cansado, pois dentro desse ecossistema dos trilhos, regras próprias de etiqueta se formam, impostas pela pura necessidade física de coexistir em uma embalagem de sardinhas gigante. O desrespeito, medo e nojo se tornam rotina, exemplificados por quem vomita no meio do vagão pela manhã, enquanto a vida continua acontecendo ao redor do dejeto. A noite também cobra seu preço com as voltas de rolê e as figuras embriagadas que testam a paciência. João recorda uma cena que impunha uma exposição psicológica ao invés de física: uma mulher embriagada segurava uma garrafa de Cantinho de Vale, realizando acrobacias sem deixar cair uma gota com um bafo ácido de quem consumiu álcool o dia todo, os olhos fixos em um ponto invisível. Enquanto bailava, distribuía conselhos não solicitados e exigia transferências via Pix, intercalando as falas com uma chuva de saliva que alcançava quem estava perto. Esse teatro caótico constitui a bagagem cognitiva e corporal que João carrega diariamente para fazer chegar o final do mês.

A sobrevivência nos trilhos também exige estratégias calculadas. Julia vive essa corrida contra o próprio relógio. Biomédica em um laboratório na região central de São Paulo, tatuadora, criadora de conteúdo digital e atleta em preparação para competir no fisiculturismo pela categoria “bikini”, ela submete um corpo que exige nutrição e descanso milimetricamente calculados ao desgaste intermunicipal. O movimento começa por volta das 11h da manhã, logo após o treino. Ela embarca em Santo André, mas o horário teoricamente mais tranquilo não oferece conforto. Para garantir um assento, Julia viaja até a estação Tamanduateí e volta uma parada. É nesse trajeto que ela transforma o metrô em refeitório e almoça a caminho do trabalho, antes de desembarcar na estação Consolação. A engrenagem não para. Ela encerra o expediente às 21h, mergulhando em uma atmosfera ruidosa, marcada por gritos de quem também quer voltar para casa, cheiro de marmitas, perfumes fortes, salgadinhos para matar a fome e álcool de quem quer amortecer a rotina dura. O caminho é fragmentado entre transferências de trem e a espera por um ônibus, fazendo com que ela cruze a porta de casa apenas entre 22h40 e 23h, mantendo o ciclo da cidade em um estado perpétuo de trânsito e esgotamento.

Porém, qualquer estratégia logística rui quando a exaustão esbarra na violência, o esgotamento ganha contornos ainda mais pesados quando o corpo em trânsito se torna alvo. Após encerrar seu expediente como professora, Helena caminhou até a Linha 8-Diamante, com destino à estação Barra Funda, de onde seguiria para suas aulas na PUC. No trem lotado, a rara sorte de conseguir um lugar para sentar deu rapidamente lugar à vulnerabilidade, que alívio. Um homem embriagado sentou-se ao seu lado exalando um cheiro de álcool tão espesso que parecia roubar o ar já escasso do vagão. O que começou com lamentos desconexos escalou para a invasão física. Ele a encurralou no banco, iniciando uma série de toques inapropriados e aproximações agressivas. A cena de assédio só foi interrompida porque uma pessoa de baixa estatura, em meio aos homens mais altos que estavam presentes, percebeu a vulnerabilidade da jovem, atravessou o espaço mínimo do vagão e interveio, criando uma barreira para protegê-la. Os homens “másculos e de bem” dentro do vagão viram a cena e não fizeram nada.

Livre do agressor, Helena ainda precisou enfrentar a hostilidade da própria infraestrutura. Ela desembarcou na Barra Funda, um terminal que hoje opera sob a lógica do caos. Desde que os trens deixaram de fazer a viagem direta entre Rio Grande da Serra e Jundiaí, a linha é cortada ali. A plataforma se transforma em um campo de guerra pelas escadas de uma das rotas mais superlotadas da capital. Quando o relógio marcou 19h30, Helena continuava ilhada na estação, com o corpo tremendo pelo estresse. Pelo celular, veio o veredito de sua professora da universidade: era melhor desistir. O cansaço já havia vencido. Sem sequer pisar no campus, Helena engoliu a frustração e refez todo o percurso no sentido inverso, horas jogadas no lixo.

O ecossistema dos trilhos também é palco para o pânico silenciado, cruzando as violências estruturais com um estado contínuo de hiper vigilância. Natália conhece bem esse roteiro saído direto de uma novela de Walcyr Carrasco, sua rotina é um espelho das exigências contemporâneas que moem o jovem adulto: divide os dias entre um estágio, a faculdade, mais estágio, mais aulas, para depois chegar em casa, limpar tudo, tentar se exercitar e performar com excelência inabalável em todas essas frentes. Os sonhos ela deixa pra depois. Esses jovens precisam sobreviver para melhorar de vida. Em um dia de chuva e céu cinzento, a estrutura emocional cedeu. Ela voltava de uma redação onde trabalhava, um emprego que carregava o peso irônico de uma música do The Smiths: precisava de um trabalho, encontrou um, e se descobriu completamente miserável. Sem rotas de ônibus por perto, precisou gastar o dinheiro rigorosamente contado para o fim do mês com um carro de aplicativo até a estação Barra Funda.

O interior do vagão exalava o cheiro inebriante da chuva úmida misturado a perfumes fortes e ao aroma de marmitas abertas nas frestas de tempo do trabalhador. No cobiçado lugar na janela, Natália chorava. O pranto era o misto de “eu deveria estar feliz por ter um emprego” com “eu demoro 3 horas pra chegar em casa”, rompida por uma saúde mental esmigalhada pelo esgotamento, problemas familiares, o medo constante de ser assediada e a invalidação recente de uma pessoa querida, que minimizou sua dor por mensagem alegando que sua vida era boa demais para haver reclamação. De repente, a melancolia particular foi pausada por um terror coletivo. Uma onda de mulheres e crianças surgiu correndo pelos vagões, chorando e gritando. O pensamento imediato de Natália, já moldado pela ansiedade de quem espera o pior, foi fatalista: um massacre aconteceria ali dentro, uma invasão que encerraria seus dias naquele trem lotado.

A multidão em pânico começou a se esmagar. A estação de destino e as luzes de um shopping conhecido já despontavam pela janela, mas a composição parou de forma abrupta antes da plataforma. Pelo alto-falante, o maquinista avisou que a viagem não seguiria enquanto tentassem forçar a abertura das portas. No meio do caos e da falta de ar, desconhecidos deram as mãos para não serem pisoteados, alguém grita que tem um homem armado, enquanto um senhor idoso tentava quebrar a tensão com piadas para acalmar as mulheres e crianças, Natália se indaga se é um massacre como aqueles que fazem nas escolas. Pensa que pode ser um fim coletivo para quem estava ali. Quando o trem avançou, a verdade se dissipou: o pânico havia sido causado por um policial fora do horário de trabalho que sacou uma arma de fogo na multidão. Ao desembarcarem correndo na estação, temendo um tiroteio, os passageiros deram de cara com policiais armados com fuzis. A tensão evaporou assim que a corporação percebeu ser um colega de farda. O incidente não virou notícia e foi totalmente abafado. Procurar no Google, é inútil. Sobrou apenas o desespero de quem corria sob a chuva fina, absorvendo mais um trauma silencioso.

O terror de Natália, o trauma de Helena, a manobra exaustiva de Julia e o aperto asfixiante de João não são acasos da vida, a norma operante de uma metrópole que suga a vitalidade de quem a mantém de pé. Levantamentos da Rede Nossa São Paulo mostram que passageiros de ônibus, metrô e trem chegam a perder, em média, 2 horas e 47 minutos por dia em seus trajetos. Para uma parcela gigante da população, a realidade é ainda mais extrema: dados do Censo do IBGE de 2022 revelam que 24,5% dos trabalhadores em São Paulo levam de uma a duas horas diárias apenas na viagem de ida ao trabalho. É um pedaço massivo da vida dissolvido dentro de vagões e catracas.

A verdadeira taxação dessa mobilidade não atinge apenas o relógio, sufocando também o bolso. Um estudo da Universidade de Brasília (UnB) aponta que o gasto diário com transporte compromete até 18% de um salário mínimo para trabalhadores de baixa renda no Brasil, um corte de até R$ 260 mensais daqueles que menos têm. Essa dupla cobrança deságua diretamente na saúde mental. A ansiedade generalizada, os episódios de pânico, a depressão e os sintomas de “burnout” – palavra que caiu no vocabulário do brasileiro, a estafa por trabalhar demais –  deixam de ser diagnósticos isolados e se tornam uma condição inerente ao passageiro. O que sobra no fim da linha de uma viagem intermunicipal nunca é apenas um corpo que desce as escadas de uma estação, sistema despeja nas calçadas uma mente já esgotada que antes mesmo de encontrar um lugar no sofá de casa, já teme o toque do despertador da manhã seguinte.

 

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A Praça Roosevelt, no centro de São Paulo, é um exemplo vivo de como espaços públicos podem ser apropriados por diferentes grupos sociais ao longo do tempo. Kevin, 24 anos, praticante de BMX, representa uma geração que ressignificou o uso da praça: se antes esses espaços eram frequentados na infância para brincar em playgrounds, hoje funcionam como pontos de encontro organizados em torno de práticas esportivas e culturais urbanas.
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João Moura
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26/06/2026

Por João Moura e Natalia Matvyenko

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Documentário acompanha de perto o cotidiano das Cozinhas Solidárias do MTST — os fogões que não apagam, as mãos que cozinham, as histórias que se sentam à mesa. Mais do que registrar números e conquistas, ele busca mostrar o que está por trás de cada refeição servida: a articulação entre o campo e a cidade, a parceria com o MST que faz o arroz e o feijão dos assentamentos chegarem até a periferia urbana, e a rede de voluntárias que sustenta, dia após dia, uma resposta coletiva à fome que o Estado ainda não foi capaz de resolver sozinho. É um retrato da solidariedade como prática concreta e da comida como forma de resistência.
por
Chloé Dana e Leticia Falaschi
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25/06/2026

 

Por Chloé Dana e Leticia Falaschi

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A Trupe de Teatro Sem-Teto do MTST apresentou a peça "Capitães Sem-Teto: se essa rua fosse nossa", no final de 2025. A escolha da obra base, o clássico "Capitães da Areia" de Jorge Amado, partiu da identificação direta do movimento com os temas de marginalidade e invisibilidade social. No entanto, o grupo promoveu adaptações profundas para que os integrantes do MTST fossem representados no palco: o cenário deixou o trapiche baiano para ganhar a identidade de um escadão de "quebrada". O documentário busca se aprofundar na montagem e no processo de adaptação da peça.
por
Julia Naspolini e Cecilia Leite
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25/06/2026

Por Cecília Leite e Julia Naspolini

 

 

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No coração da Vila Madalena, em São Paulo, existe um supermercado que vende alimentos orgânicos pelo preço de custo, sem margem de lucro, sem intermediário. O Instituto Chão conecta mais de 550 agricultores familiares diretamente ao consumidor e se sustenta, há mais de uma década, pela contribuição voluntária de quem compra. Neste mini documentário, investigamos a engrenagem financeira e social por trás desse modelo: como ele funciona, quem ele beneficia e o que ele diz sobre outras formas possíveis de produzir, trabalhar e consumir.
por
Anna Cândida Xavier, Juliana Bertini e Maria Eduarda Cepeda
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24/06/2026

 

Por: Anna Cândida Xavier, Juliana Bertini e Maria Eduarda Cepeda.

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Nascida na garagem de uma casa em Perus, a Comunidade Cultural Quilombaque se transformou em um dos principais espaços de cultura, memória e resistência da periferia paulistana. Entre tambores, hortas, oficinas e mobilizações populares, este documentário acompanha a trajetória de pessoas que fizeram da arte uma ferramenta de transformação social. Mais do que um centro cultural, a Quilombaque é um lugar onde sonhos coletivos se tornam realidade e onde a luta pelo território, pelo meio ambiente e pela dignidade se entrelaçam com a história de uma comunidade que resiste há mais de duas décadas.
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Wildner Felix e Luis Henrique Oliveira
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23/06/2026

Por Wildner Felix e Luis Henrique Oliveira

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Ausência de políticas habitacionais e alta densidade demográfica histórica são um dos inúmeros fatores que dificultam a conquista da casa própria na Região Metropolitana de São Paulo devido à conurbação
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Oliver Santiago
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25/06/2026

Por Oliver Santiago

 

A cidade de São Paulo, que recentemente completou 470 anos, enfrenta hoje um de seus desafios mais urgentes: a segregação residencial em um território que já não respeita fronteiras administrativas. O que antes era uma "vila" tornou-se uma conurbação urbana gigantesca, integrando 39 municípios e cerca de 22 milhões de habitantes. No entanto, esse crescimento não foi acompanhado por uma distribuição equitativa de infraestrutura, resultando em um modelo de urbanização excludente.

Embora a metrópole seja um potente polo da construção civil, com canteiros de obras espalhados por todas as regiões, o cenário é marcado por uma contradição profunda: o aumento exponencial do déficit habitacional para a população de baixa renda caminha lado a lado com um grande volume de construções abandonadas. Desde a década de 1960, a promessa de trabalho formal e mobilidade social começou a falhar, transformando as periferias no único refúgio possível para os excluídos do progresso.

A mancha urbana de precariedade atravessa os limites da capital. Em 2010, 24 dos 39 municípios da região metropolitana possuíam favelas; em 2019, esse número saltou para 31 municípios. O número de domicílios em favelas na capital também cresceu significativamente, atingindo quase 13% do total de casas em 2019. Esse fenômeno criou o que especialistas chamam de "várias periferias". Diferente do padrão homogêneo de pobreza de décadas passadas, o território periférico atual é um mosaico heterogêneo: enclaves de riqueza (condomínios fechados) convivem porta a porta com áreas de extrema carência material e alta densidade demográfica, que chega a superar 300 habitantes por hectare em alguns assentamentos.

Como consequência, a segregação residencial deixa de ser apenas uma questão de moradia e passa a influenciar diretamente o acesso a direitos básicos. Moradores das periferias mais distantes enfrentam maiores tempos de deslocamento para chegar ao trabalho, à escola ou aos serviços de saúde. Enquanto regiões centrais concentram empregos, equipamentos públicos e oportunidades, parte significativa da população é empurrada para áreas onde a infraestrutura urbana ainda é insuficiente ou precária.

O mercado imobiliário exerce papel central nesse processo. A valorização constante dos terrenos em áreas bem localizadas dificulta o acesso da população de menor renda à moradia formal. Ao mesmo tempo, milhares de imóveis vazios ou subutilizados permanecem concentrados em regiões dotadas de infraestrutura completa, evidenciando um descompasso entre a oferta de habitação e as necessidades reais da população. O resultado é a expansão contínua das ocupações irregulares e dos assentamentos precários nas bordas da metrópole.

Além da dimensão econômica, a segregação também possui impactos sociais profundos. Estudos apontam que o local de moradia influencia as oportunidades de ascensão social, o acesso à educação de qualidade e até mesmo a expectativa de vida. Crianças e jovens que crescem em áreas marcadas pela ausência de serviços públicos enfrentam obstáculos adicionais para romper os ciclos de pobreza. Dessa forma, o território passa a reproduzir desigualdades que se perpetuam entre gerações.

Nos últimos anos, políticas habitacionais, programas de urbanização de favelas e iniciativas voltadas à produção de moradias populares buscaram amenizar esse cenário. No entanto, especialistas alertam que a solução exige mais do que a construção de novas unidades habitacionais. É necessário integrar moradia, transporte, emprego e planejamento urbano em uma estratégia capaz de reduzir as distâncias físicas e sociais que caracterizam a Região Metropolitana de São Paulo.

A realidade da maior metrópole brasileira demonstra que o crescimento urbano, quando não acompanhado por políticas de inclusão territorial, tende a aprofundar desigualdades históricas. Em uma região que concentra riqueza, inovação e oportunidades, o desafio permanece o mesmo: garantir que o direito à cidade seja efetivamente acessível a todos os seus habitantes, independentemente do CEP onde vivem.

Nesse contexto de déficit habitacional e crescente exclusão territorial, os movimentos de moradia passaram a desempenhar um papel cada vez mais relevante na disputa pelo espaço urbano. Em São Paulo, ocupações organizadas surgem como resposta à dificuldade de acesso à habitação formal e à existência de imóveis e terrenos considerados ociosos.

Um dos exemplos mais conhecidos é a Ocupação Luísa Mahin, organizada pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST). Localizada na zona sul da capital, no distrito do Grajaú, a ocupação recebeu esse nome em homenagem à figura histórica associada à resistência negra no Brasil. Assim como outras iniciativas do movimento, o local abriga famílias que alegam não possuir condições de arcar com os altos custos de aluguel ou financiamento imobiliário. Além de moradia, a ocupação promove atividades comunitárias, culturais e de formação política para seus moradores.

Cris do MTST explicou um dos fatores consequentes da conurbação na Região Metropolitana de São Paulo. Segundo a coordenadora da ocupação Luísa Mahin: "[..] a maior dificuldade que enfrentamos  é conseguir a própria casa. O prefeito que a gente tem que não ajuda em nada, as pessoas mais carentes, tem certos programas que falam que é programa social, programa para baixar renda, mas tenta um baixa renda salariado, sozinho, pedir um financiamento na caixa econômica, não consegue, pede até o rim da gente."

A coordenadora relembrou sobre os maiores desafios enfrentados pela ocupação, desde a chegada em 2023. "[..] Participo de um movimento que possibilita a gente lutar pela nossa moradia, fácil não é, porém, de uma forma correta, de uma forma que realmente vale a pena lutar pelo que a gente quer e a gente chegar a conseguir entrar num bom programa social, num programa que realmente está voltado para o pessoal de baixa renda."

"Tivemos, de início, cinco reintegrações seguidas, mas o movimento conta com um setor jurídico muito bom, que batalhou muito, porque aqui é uma área para casa, para moradia, o terreno estava totalmente abandonado, então, depois que ocupamos, aí o dono vem, quer falar que vai construir, enfim, mas a equipe de advogados conseguiram, a gente barrou cinco reintegração, lutamos muito, lutamos muito ainda, para chegar ao objetivo, e com muita luta, correndo atrás, indo para as ruas, hoje a gente teve a nossa conquista."

A Luísa Mahin integra uma longa trajetória de ocupações urbanas na capital paulista. Ao longo das últimas décadas, movimentos sociais organizaram ações semelhantes em diferentes regiões da cidade, especialmente em áreas marcadas por terrenos abandonados ou sem utilização social definida. Entre os exemplos mais conhecidos estão ocupações realizadas no centro da cidade, onde antigos edifícios comerciais e residenciais foram transformados em moradia para centenas de famílias.

Esses espaços se tornaram símbolos do debate sobre a função social da propriedade, princípio previsto na Constituição Federal. Para os movimentos de moradia, a ocupação representa uma forma de pressionar o poder público a ampliar as políticas habitacionais e dar destino a imóveis vazios. Já proprietários e setores do mercado imobiliário frequentemente apontam conflitos relacionados ao direito à propriedade e à segurança jurídica.

As ocupações também evidenciam uma contradição presente na metrópole paulistana: enquanto milhares de famílias enfrentam dificuldades para encontrar moradia digna, uma quantidade significativa de imóveis permanece desocupada ou subutilizada. O contraste é mais visível nas regiões centrais, onde edifícios vazios coexistem com uma crescente demanda habitacional.

Para especialistas em urbanismo, o fenômeno das ocupações revela não apenas a insuficiência das políticas habitacionais, mas também a necessidade de repensar o modelo de desenvolvimento urbano adotado pela metrópole. Mais do que um conflito fundiário, a questão habitacional em São Paulo expõe os limites de uma cidade que continua produzindo riqueza, mas que ainda encontra dificuldades para garantir o acesso demcrático ao espaço urbano.

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Muito além das refeições comunitárias, o Movimento Sem Teto do Centro fortalece a permanência de moradores e atrai novos militantes em uma rotina de afeto e mobilização política.
por
Eduarda Amaral e Emily de Matos
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22/06/2026

Por Eduarda Amaral e Emily de Matos

 

Todo domingo, a partir do meio-dia e meia, um cheiro de comida toma conta do térreo de um prédio na Avenida Nove de Julho, no centro de São Paulo. A fila que se forma é mista: moradores da ocupação, vizinhos do bairro, artistas, pesquisadores, militantes, pessoas em situação de rua. Todos comem juntos. É assim todo fim de semana, há anos, com entrada livre e almoço até às 16h30min, como o próprio movimento anuncia: comida para alimentar a luta. 

Desde 2017 funciona o projeto de cozinha coletiva da Ocupação 9 de Julho, cujo objetivo é suprir as necessidades do MSTC em relação à alimentação durante suas atividades e promover, através dos almoços abertos, uma maior visibilidade à luta por moradia. O que começou como uma necessidade interna tornou-se, ao longo dos anos, uma das iniciativas de soberania alimentar mais conhecidas da cidade, e um instrumento político deliberado nas mãos do Movimento Sem Teto do Centro.

A cozinha não funciona sozinha. Uma vez por mês um chefe com experiência é chamado para conduzir o almoço, em uma ação voluntária e aberta ao público. Nesses momentos, visitantes e moradores experienciam o espaço coletivo da Ocupação. Os domingos de evento incluem programação com shows, oficinas e ações de formação. Quem cozinha também é remunerado. As cozinheiras e cozinheiros responsáveis pela elaboração das refeições são moradoras e moradores de baixa renda das ocupações do MSTC, que recebem ajuda de custo pelo trabalho. A iniciativa, portanto, não é apenas um equipamento comunitário, é também fonte de renda para quem mora ali. Os almoços e a programação cultural fortalecem a organização de moradores e moradoras, além de proporcionar renda por meio do trabalho na própria cozinha. 

Por fora, uma rede de parcerias sustenta a operação: o projeto trabalha em parceria não apenas com outros movimentos de moradia e organizações sociais, mas também com a classe artística, tornando-se um importante centro cultural e ponto de encontro ativo para ativistas, intelectuais, artistas e lideranças políticas. A horta comunitária instalada no local também integra esse circuito: os moradores cuidam do plantio e todo o resultado da colheita vai para eles. 

Em domingos festivos, porém, a cozinha ganha um contorno diferente do habitual. O almoço é também festa de aniversário: o vereador e ativista histórico Eduardo Suplicy completa 85 anos, e a Ocupação comemora junto com o público. MPB toca em clima de festa, quase como um show, mas sem perder o acolhimento que é marca da casa. Da cozinha sai baião de dois, fumegante nas panelas grandes, enquanto um bar montado para a ocasião produz caipirinhas, sucos de cupuaçu e mate para quem circula pelo pátio. 

Espalhadas pelo espaço, barraquinhas apresentam projetos que decidiram contribuir ali dentro: o Projeto Gaia e o Simplesmente Sou dividem espaço com o resto da programação, cada um com sua proposta própria de cuidado e renda para quem mora ou já morou na ocupação. Naquela tarde (21), a celebração ganha ainda mais força com o anúncio de duas novas conquistas do espaço: o lançamento de um desfile de moda autoral, confeccionado pelas mãos das próprias moradoras, e a aula inaugural de um cursinho popular gratuito, promovido pelo Instituto Carmen Silva em parceria com o MEC.

A programação cultural se estende com a presença da Velha Guarda da Vai-Vai, convidada para ditar o ritmo após os parabéns. Para quem visita o local pela primeira vez, a liderança Carmen Silva faz questão de lembrar que a Nove de Julho é uma ocupação icônica, cuja história resiste desde 1997. Segundo Carmen, o movimento não agrega somente a moradia como segmento, mas integra cultura, educação e, acima de tudo, o bem-estar coletivo.

Em uma dessas barracas está Andrea Escobar, massoterapeuta, oferecendo atendimentos a quem se aproxima. Andrea conhece a engrenagem da luta por moradia por experiência própria. Em outubro de 2010, ela ingressou em um coletivo habitacional "no escuro" e sem nenhuma noção do que enfrentaria ao participar de uma ocupação. O início foi difícil, período em que enfrentou o desafio da adaptação guiada pela coragem. Andrea viu o cenário se transformar através da organização interna, dos mutirões de limpeza e da rotina na cozinha comunitária. Foi lá que conheceu seu companheiro, com quem, três anos e meio depois, deixou o local. O afastamento trouxe o arrependimento por ter interrompido a caminhada, mas hoje ela resgata esse fio direto com o passado. Enquanto participa ativamente das reuniões do Grupo de Base para conquistar a moradia definitiva, Andrea volta a ocupar os espaços da resistência em outra condição: oferecendo cuidado através de suas mãos, que funcionam como instrumento para aliviar as dores e amparar os percursos de quem continua na luta e atravessa histórias semelhantes à sua. 

Nem todas as pessoas que circulam pela ocupação carregam uma longa trajetória no movimento. Alguns chegaram há pouco tempo e encontraram ali um lugar para recomeçar. É o caso de Aline, que vive na Ocupação 9 de Julho há seis meses. Depois de passar dez anos em Marília, desembarcou em São Paulo e ficou na casa de uma pessoa que fazia parte do MSTC. O contato a aproximou da luta por moradia e a levou a integrar o movimento desde os primeiros dias na cidade. Com um sorriso largo atrás da mesa de doces de leite, ela apresenta a nova parceria entre a cooperativa Terra Viva, o MSTC, e o Projeto Gaia, vendendo os potes artesanais que fazem sua estreia no evento. Para ela, a experiência de construir renda e comunidade na ocupação é ao mesmo tempo maravilhosa e desafiadora, reflexo de uma luta diária que se renova a cada encontro, atividade e domingo compartilhado no pátio. 

O prédio tem quinze andares e um passado que ninguém ali esconde: foi a sede do INSS, depois ficou vinte anos fechado, as janelas cegas, o reboco caindo pedaço por pedaço sobre a calçada da Avenida Nove de Julho. Em 1997, um grupo decidiu que aquele vazio tinha um custo maior do que qualquer risco de ocupar, e entrou. Dali nasceria, alguns anos depois, o Movimento Sem Teto do Centro. Onde antes só havia papelada de autarquia e poeira, agora moram cerca de 120 famílias, e o prédio aprendeu a ter outros órgãos além dos apartamentos: uma escola, uma horta que sobe em vasos e canteiros pelos andares, uma galeria de arte, um brechó, e no terceiro andar, a cozinha, que é talvez o órgão mais vital de todos, porque é dali que sai o sangue que circula pelo resto do corpo. É a partir desse território que a comunidade se baseia para garantir que todas as crianças frequentem a escola e que os moradores acessem os postos de saúde, as rodas de samba e a cultura. 

Carmen Silva, que ajudou a fundar tudo isso, tem uma frase que repete como quem repete uma oração: a moradia é a porta de entrada para os outros direitos. Não é retórica. É quase uma fórmula química: do teto vem a escola, da escola vem o trabalho, do trabalho vem a mesa posta, e da mesa posta volta, de novo, a força para resistir a mais uma ameaça de despejo. A casa, ali, não é ponto final, é começo de frase. Para ela, a permanência no centro da cidade é a própria consolidação da cidadania, uma certeza de que a ocupação cumpre sua função social ao dar dignidade para quem antes era invisível. E é exatamente por isso que a cozinha nunca foi só sobre comer. É sobre provar, todo domingo, que a resistência tem cheiro, tem tempero, tem fila.

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Da escassez absoluta ao fomento público, o coletivo artístico adaptou o clássico da literatura brasileira, Capitães da Areia, para a realidade das ocupações urbanas e das novas relações de trabalho na periferia, com a peça "Capitães Sem-Teto: se essa rua fosse nossa"
por
Cecília Leite e Julia Naspolini
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22/06/2026

Por Cecília Leite e Julia Naspolini

O Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) surgiu em 1997, consolidando-se ao longo de quase três décadas como um dos maiores movimentos sociais urbanos da América Latina, com presença em 14 estados brasileiros. Sua base fundamenta-se na denúncia de que, embora a Constituição Federal brasileira garanta a moradia como um direito social e uma obrigação do Estado, o modelo de desenvolvimento das cidades é pautado pela lógica capitalista e pela especulação imobiliária. Esse sistema empurra milhões de pessoas para periferias precarizadas e negligenciadas, enquanto mantém imóveis vazios apenas para valorização financeira, gerando um déficit habitacional que afeta cerca de 5,8 milhões de pessoas que hoje vivem em condições de insegurança, sob ameaça de despejo ou em habitações precárias.

Para o MTST, a conquista da casa própria é o passo inicial, mas insuficiente para romper com a invisibilidade social de quem vive à margem. Por isso, o movimento expandiu sua atuação sob o lema "Teto, Trabalho e Pão", defendendo uma reforma urbana integral que garanta acesso a saneamento, transporte, educação e saúde. Essa visão ampla de cidadania inclui o combate à fome através das Cozinhas Solidárias e o reconhecimento do valor da economia popular e dos trabalhadores informais. É nesse processo de "ocupar a vida" e fortalecer politicamente as periferias que a cultura emerge como um pilar essencial de resistência, criando o terreno fértil para iniciativas coletivas de expressão e formação, como é o caso da Trupe de Teatro Sem-Teto.

Idealizado em meio à pandemia, o grupo consolidou-se a partir de uma frente de cultura do MTST que buscava o compartilhamento de poesia e arte como uma necessidade humana de expressão durante o isolamento. A Trupe concentra indivíduos que, ao longo da vida, enfrentaram vulnerabilidades ligadas às suas identidades e que encontraram na arte uma forma potente de se encontrar e se expressar. Pautada por um processo de construção artística profundamente coletivo, seu elenco é majoritariamente formado por pessoas sem-teto (sem moradia estável, segura e/ou adequada), que praticam teatro amador e compartilham uma identidade comum de luta, mas mantendo suas individualidades pulsantes. Esse processo criativo aberto permite que as diversas idades, sexualidades e religiosidades presentes no grupo sejam exploradas na construção das cenas, transformando as vivências pessoais dos militantes em ferramentas de criação. No fim, essa diversidade enriquece o coletivo, trazendo uma multiplicidade de perspectivas e personagens que dão voz e visibilidade às complexas realidades das periferias.

Cecília Azevedo, jovem ativista com formação em Teatro entrou para o movimento mesmo sem ser sem-teto, apenas para lutar pela causa, e foi uma das responsáveis pela formação da frente de cultura que originou a Trupe de Teatro Sem-Teto. Ela conta que a primeira apresentação da Trupe ocorreu em 2023, durante as comemorações do aniversário de 25 anos do MTST, e foi marcada por um cenário de superação. Sem qualquer recurso financeiro, o grupo precisou criar a peça de forma fragmentada: como não havia verba para o transporte dos integrantes, os ensaios aconteciam em diferentes regiões, como as zonas Norte, Leste, Sul (Grajaú e Capão Redondo) e o ABC, onde as cenas eram construídas separadamente para serem "costuradas" apenas no final. Esse processo contou com o apoio fundamental de grupos profissionais, como o Estudo de Cena, que auxiliou nos ensaios, e o Engenho Teatral, que cedeu espaço para as atividades.

A montagem foi um verdadeiro desafio logístico e artístico, com apenas um ensaio geral antes da estreia em um auditório histórico que quase não oferecia estrutura de luz ou técnica. Lutando contra o tempo e as rotinas corridas dos militantes, a Trupe utilizou materiais do próprio cotidiano das ocupações, como bambu e lona, para erguer o cenário, que trazia como símbolo central um barraquinho. Diante de um público de mais de 200 pessoas, a apresentação foi descrita como "mágica", pois, apesar de todas as adversidades, a execução foi impecável. O sucesso na estreia foi o que garantiu à Trupe o respeito e o apoio oficial do movimento, permitindo que, a partir dali, o grupo se consolidasse e conseguisse reservar a agenda dos seus integrantes para projetos futuros mais ambiciosos.

A consolidação definitiva da Trupe veio com a busca por recursos que permitissem um trabalho mais estruturado. O grupo inscreveu-se no Programa VAI, da Prefeitura de São Paulo, um edital de fomento a iniciativas culturais que possibilitou a realização de um desejo antigo: criar uma montagem com suporte financeiro adequado. Após a aprovação em 2024, o projeto começou a ser implementado no final daquele ano, mas ganhou força total ao longo de 2025, com ensaios semanais e uma dedicação integral à construção de cada detalhe do espetáculo, desde a preparação dos atores e a escrita do roteiro até a elaboração da cenografia e do figurino. O resultado desse esforço coletivo foi a peça "Capitães Sem-Teto: se essa rua fosse nossa", apresentada no final de 2025.

A escolha da obra base, o clássico "Capitães da Areia" de Jorge Amado, partiu da identificação direta do movimento com os temas de marginalidade e invisibilidade social. No entanto, o grupo promoveu adaptações profundas para que os integrantes do MTST fossem representados no palco: o cenário deixou o trapiche baiano para ganhar a identidade de um escadão de "quebrada". Além disso, para refletir a verdadeira base do movimento, o elenco majoritariamente masculino do livro original foi transformado em um grupo diverso que incluía muitas mulheres e pessoas de diferentes idades, além de integrar expressões de identidades LGBTQ+ e a convivência harmoniosa entre diferentes fés, como o Candomblé e o Cristianismo.

Um ponto crucial na adaptação do roteiro, realizada pela militante e roteirista conhecida como Poeta (Marilene Souza), foi a mudança do conflito central: para evitar os estigmas que frequentemente marginalizam os sem-teto, a peça substituiu a prática de roubos por discussões sobre as relações de trabalho contemporâneas. Na trama, os personagens enfrentam a exploração de um patrão inescrupuloso e as duras condições de "bicos" e subempregos, refletindo a realidade de quem, mesmo trabalhando exaustivamente, ainda luta contra a precariedade habitacional. Mesmo com o recurso público, a produção manteve o espírito de cooperação e sustentabilidade, priorizando a ajuda de custo para transporte e alimentação dos integrantes e utilizando materiais recicláveis, como caixotes de feira e papelão, para criar uma cenografia potente que marcou o amadurecimento artístico da Trupe.

A escolha da obra "Capitães da Areia" para a montagem de 2025 também foi estratégica por sua natureza coral, que permite explorar "muitas vidas ao mesmo tempo" através de diversas sub-tramas, fugindo da lógica de um protagonista único. Para a Trupe, era fundamental que o roteiro distribuísse o protagonismo, pois o objetivo central do grupo é dar visibilidade e oportunidade a todos os seus integrantes, reconhecendo o talento de pessoas que historicamente tiveram seus espaços de expressão negados. Esse processo de construção coletiva permitiu que os atores inserissem suas próprias identidades e vivências nas personagens, transformando o palco em um espelho da diversidade encontrada no próprio MTST.

Um dos eixos centrais dessa narrativa é a trajetória de Bala, interpretada por Rosa Ribeiro, que na adaptação tem um passado ligado ao Movimento Sem Terra (MST), trazendo para a cena a herança da luta política de seus pais. Sua jornada de transformação atinge o ápice após sofrer o luto pela morte de Dora e o trauma de um despejo na "quebrada". Diferente da Dora original, a versão da Trupe, vivida por Lilian Lins, é uma figura transgressora e "descolada" que trabalha em uma associação exploradora e incentiva os Capitães a se revoltarem contra as injustas relações de trabalho, sendo assassinada como "queima de arquivo" por sua insubmissão. A morte de Dora e o posterior acolhimento pelas Cozinhas Solidárias são o que impulsionam Bala a organizar o grupo para uma ocupação urbana, unindo o desespero à esperança da luta por direitos.

O roteiro também se aprofunda em questões de fé e estrutura familiar periférica através de personagens como a Pirula e o garoto Cleitinho. Pirula, interpretada por Luiza Neta, representa a figura da avó que assume o papel de mãe após a perda de um filho para a violência policial, uma realidade simbólica e triste que reflete a vida real da própria atriz. Essa densidade emocional permitiu a criação de cenas marcantes, como o momento de sincretismo religioso em que Pirula une sua prece católica ao canto de Candomblé da personagem Baiana (Maria Angélica), simbolizando a união de diferentes fés em um contexto de resistência. Além disso, a individualidade dos integrantes foi respeitada e celebrada, como no caso do ator Fran, que trouxe sua marca registrada, um leque com a bandeira LGBTQ+, e sua própria identidade sexual para a composição de seu personagem, provando que a diversidade da Trupe é o que realmente enriquece a obra coletiva.

O desfecho de "Capitães Sem-Teto: se essa rua fosse nossa" marca o ponto exato onde a ficção se dissolve na urgência da luta real, transformando o palco em um espaço de convocação política. O clímax é motivado por um cenário de desolação: após sofrerem um despejo violento na quebrada e enfrentarem o luto pela morte de Dora, os Capitães encontram-se desamparados. É nesse momento que o movimento social se manifesta através do acolhimento das Cozinhas Solidárias, um momento simbolizado na peça pela distribuição de um caldinho quente para os atores e para a própria plateia, unindo todos em um gesto de solidariedade comum.

A transformação da protagonista Bala é o fio condutor desse levante final. Ao ser relembrada sobre o passado de seus pais no MST, Bala compreende que a luta faz parte de sua identidade e que o movimento apareceu para ela em seu momento de maior desamparo. Com esse despertar, ela deixa de ser apenas uma líder de grupo para se tornar uma articuladora política, convocando os outros personagens e o público para lutar por seus direitos. A simbologia atinge sua plenitude quando o teatro rompe as barreiras físicas do auditório: os portões são abertos e a Trupe, acompanhada pela plateia, ocupa a rua de forma literal. Essa transição da cena para o espaço público concretiza o lema do movimento e transforma a arte em um ato de resistência viva.

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