Por Mohara Cherubin
Janaina Martins lembra com um sorriso do dia em que “virou mocinha”. Tinha apenas onze anos quando o sangue apareceu pela primeira vez, em casa, e correu para contar à mãe. As amigas também já começavam a menstruar e a empresária ficou feliz, era como se tivesse se tornado mulher de um dia para o outro. Nos primeiros meses, tudo parecia novidade, mas a euforia logo deu lugar à realidade dos ciclos longos, de sete dias, acompanhados de cólicas intensas que a faziam interromper o que estivesse fazendo.
Na adolescência, conciliava a rotina da escola com os treinos de natação. O medo de que a menstruação vazasse na piscina a acompanhava em cada mergulho. Usava apenas absorventes comuns, e as preocupações com manchas e constrangimentos eram constantes. Desde cedo, aprendeu que menstruar era também lidar com o desconforto de algo que não era capaz de controlar.
Os anos seguiram marcados por essa relação complexa com o corpo. As dores e o fluxo intenso persistiam, mas ela se adaptava a cada novo ciclo, sem deixar de lado os compromissos, o trabalho e a vida ativa. Teve duas gestações, aos 27 e aos 32 anos. A primeira foi tranquila, mas a segunda trouxe complicações, como varizes na vulva e dores fortes que a obrigavam a reduzir o ritmo. No parto cesárea, os médicos identificaram varizes pélvicas, condição rara e de risco. Anos mais tarde, um exame vascular revelou uma estenose na veia renal esquerda. O diagnóstico a levou a um cateterismo e a novas cirurgias de varizes.
Mesmo com os tratamentos, as dores não cessaram. Em 2016, seu ginecologista sugeriu a histerectomia, procedimento que consistiu na retirada do útero, das trompas e de um dos ovários. A cirurgia trouxe alívio imediato do fluxo e das cólicas que a acompanharam por quase trinta anos. Foi a primeira vez que se sentiu livre do ciclo que marcava sua rotina desde a infância.
Por alguns anos, o corpo permaneceu o mesmo. Até que, aos 45, as mudanças voltaram a se manifestar de outro modo. O sono, antes contínuo, tornou- se leve, interrompido por despertares no meio da noite. Ondas de calor surgiam de repente, e o humor oscilava sem explicação. Mais do que os sintomas físicos, o que mais a angustiava era o esquecimento. Sempre pontual, começou a perder compromissos e a confundir horários. Os exames hormonais confirmaram que Janaina estava entrando na menopausa. A notícia não provocou medo, mas exigiu aceitação, já que percebeu que não conhecia muito sobre essa fase, e que os médicos pouco falavam sobre ela. Acredita que a mulher deveria ser preparada ainda no período fértil, para compreender melhor as mudanças do corpo e da mente. Por conta das condições vasculares, não pode recorrer aos tratamentos hormonais convencionais, o que torna a adaptação ainda mais desafiadora.
Os filhos e amigos logo notaram as mudanças. A empresária, antes sempre organizada e de humor constante, passou a se mostrar mais irritada e distraída. As reações de espanto ao seu redor a fizeram perceber o quanto a menopausa altera não apenas o corpo, mas também a forma como os outros a enxergam. Hoje, aos 47 anos, Janaina encara a menopausa como um exercício de autoconhecimento. Aprendeu a reconhecer os próprios limites e a compreender as mensagens do corpo. Procura não se cobrar tanto, mesmo diante dos esquecimentos e das falhas de memória que ainda a incomodam. Vê nessa fase um convite à escuta e à reconciliação consigo mesma.
Como foi o que aconteceu com a jornalista Neivia Justa, que sangrou pela primeira vez aos 11 anos. Ela se recorda com nitidez da madrugada em que acordou com fortes cólicas e acreditou estar com um problema intestinal. Estudava em um colégio de freiras, daqueles em que as meninas usavam saias plissadas e o uniforme de educação física incluía uma sunga de jogadora de vôlei. Com medo de se sujar, improvisou enchendo a calcinha de papel. Foi o que a salvou. Ao chegar em casa, percebeu o sangue e chamou a mãe, que reagiu com euforia, e logo a notícia se espalhou por Fortaleza, local onde morava.
Desde pequena, sabia o que significava menstruar. Entendia o processo biológico, que o sangramento viria todos os meses, e que fazia parte do crescimento. A mãe a havia preparado para isso, já que seu corpo começou a se desenvolver bem cedo. Mas, além da explicação biológica, não houve grandes conversas. O tema da menstruação estava cercado de tabus, especialmente no que dizia respeito ao corpo feminino, à sexualidade e à virgindade, assuntos que não se discutiam abertamente em casa.
Na adolescência, Neivia passou a lidar com o ciclo menstrual de forma prática, mas sem afeto. Contou que nunca gostou de menstruar. O cheiro, o fluxo intenso, o desconforto, nada nisso lhe parecia natural. O medo de manchar a roupa era constante, principalmente nos dois primeiros dias de sangramento. Não conseguia usar absorvente interno e via a menstruação como um incômodo a ser suportado. Quando começou a vida sexual, o período menstrual continuava sendo uma barreira, era algo que preferia esconder, manter distante de qualquer relação.
Se lembra que, na época, a menstruação carregava ainda mais tabu do que hoje. Evitava praias, roupas claras, e dificilmente comentava sobre o assunto. Foi a primeira da turma a menstruar, o que a colocou, involuntariamente, no centro das atenções, uma posição que a incomodava. Com o tempo, aprendeu a reconhecer o próprio corpo, a identificar sintomas e ritmos. Seu ciclo era regular como um relógio, e essa previsibilidade lhe trazia certo controle sobre si mesma. As cólicas a acompanharam até a primeira gravidez, aos 32 anos; depois da segunda, desapareceram de vez.
Por volta de 47 anos os sintomas da menopausa começaram a dar sinais. O primeiro foi o calor noturno, acordava suada toda madrugada, sem entender o que acontecia. Vieram também a irritação constante e a sensação de estar em uma TPM que nunca terminava. Mesmo antes de os exames confirmarem, ela insistia com o médico que o corpo já estava mudando. Sabia reconhecer seus sinais, e estava certa. Neivia nunca tratou a menopausa como tabu. Pelo contrário, queria lidar com os sintomas o quanto antes. Iniciou a reposição hormonal logo que as alterações começaram e segue com o tratamento até hoje. Para ela, é uma questão de equilíbrio e bem-estar, sem medo nem preconceito.
Para ela, a falta de informação ainda é um dos maiores desafios. Acredita que, embora haja avanços, o tema continua cercado de desconhecimento e até negação. Muitas mulheres ainda não entendem o que estão sentindo ou acreditam estar adoecendo. Os médicos especializados são poucos, e o acolhimento é insuficiente. Por isso, enxerga na menopausa uma oportunidade de transformação coletiva, de falar mais, educar e incluir também as famílias — maridos, esposas, filhos, colegas e chefes — nesse diálogo.
Neivia encara o assunto com humor e naturalidade. Costuma brincar com o marido, que dorme enrolado em cobertores, como um pinguim, enquanto ela precisa do ar-condicionado ligado no máximo. Fala abertamente sobre estar na menopausa, sobre o corpo e a idade, como forma de desmistificar o envelhecimento feminino. Já escreveu sobre o tema e faz questão de mostrar que essa é apenas mais uma etapa que deve ser vivida com leveza.
Hoje, aos 56 anos, ela entende a menopausa como parte da sua identidade atual. Depois de retirar o útero, passou a compreender com mais clareza as transformações do corpo e do metabolismo. Acredita que aceitar e cuidar de si é o caminho para atravessar essa fase com serenidade. Para ela, a menopausa representa maturidade e liberdade. Deseja viver os melhores anos de sua vida agora, sem nostalgia e sem ansiedade. Encarar o presente como ele é, com seus desafios e descobertas, tem sido sua forma de existir plenamente, abraçando o corpo e o tempo como aliados, não inimigos.
Por Ingrid Lacerda
No meio da correria diária de Guarulhos, Rafael se sente invisível. Assim que acorda às 5h da manhã, vê seus certificados, e centralizado na parede de seu quarto, um diploma. Graduado em Administração e tecnólogo em RH, Rafael acumula qualificações que poderiam colocá-lo em bons cargos, aliás, concluiu a faculdade, buscou cursos, investiu em sua formação como qualquer profissional. Ele sabe que suas conquistas não foram poucas, mas também sente o peso das barreiras impostas por uma sociedade que ainda não aprendeu a lidar com a diversidade no mundo do trabalho.
Atualmente, trabalha como vendedor em uma franquia de tintas, mas, ainda deseja ir além. Com receio constante de ser reconhecido como uma pessoa trans no ambiente de trabalho, o medo não se restringe apenas ao julgamento dos colegas, mas se estende à reação de clientes, que muitas vezes podem reproduzir preconceitos de forma direta ou velada. Para ele, esta ansiedade funciona como um distanciamento, que reforça o sentimento de não pertencimento. O episódio não é isolado. Um levantamento revelou que 60% das pessoas trans empregadas no Brasil já sofreram algum tipo de constrangimento ou assédio no ambiente de trabalho.
Antes mesmo de buscar um emprego, pessoas trans encontram resistência no espaço escolar. Ele lembra como o preconceito, manifestado em forma de bullying, uso forçado do nome de registro e ausência de acolhimento institucional, faz com que muitos abandonem os estudos. Pesquisadores como Richard Miskolci definem esse processo não como evasão, mas como uma verdadeira expulsão, já que a escola se torna insustentável para aqueles que não se encaixam nos padrões de “normalidade” impostos pela sociedade. Isso evidencia que não se trata de falta de qualificação, mas de um ciclo de marginalização que começa cedo, assim, chegam à vida adulta já em desvantagem, empurrados para a informalidade ou para a prostituição compulsória.
Mesmo com dificuldades, Rafael conseguiu concluir a graduação e reconhece que sua trajetória é uma exceção. Muitos de seus amigos trans não conseguiram concluir o ensino médio, não por falta de vontade, mas porque a violência e o preconceito tornaram-se um caminho quase impossível de seguir.
A transfobia é caracterizada em ações de violência física, moral ou psicológica. É uma aversão aos trans, sendo manifesta em atos explícitos ou velados. São todos os tipos de rejeição, ódio e medo, partindo de uma visão distorcida de que a transexualidade não é algo humano. Ainda pode ser expressado em crimes de ódio, em alguma forma de ataque, já que o crime de ódio é uma ação de violência movida pelo ódio do grupo social ao qual a vítima faz parte, com o objetivo de atacar um grupo ou minoria social e não a pessoa que sofre o ataque.
Apesar da maior visibilidade do movimento LGBTQIA+, percebe-se que a violência contra essa população atinge níveis extremamente altos. O preconceito contra os transexuais provoca impactos em diversas áreas de suas vidas, como na educação escolar e no mercado de trabalho. Essa dificuldade é frequentemente relatada através das experiências vividas pela própria comunidade transgênera que não atinge o resultado desejado ao passar por processos seletivos na maioria das empresas, não sabendo, muitas das vezes, por qual motivo, além da transfobia, não alcançou o sucesso naquele momento e isto favorece à falta de mais preparo para uma possível próxima seletiva, pois ao saber onde pecou, o sujeito procura melhorar naquele quesito para obter êxito na sua busca por uma oportunidade profissional.
A ausência de oportunidades para pessoas trans não compromete apenas a renda, mas também a saúde emocional. Rafael, por exemplo, relata viver em constante dúvida sobre si mesmo - uma insegurança que não nasce de suas capacidades, mas do preconceito que enfrenta diariamente. Seu maior sonho é poder garantir uma vida digna para sua família, mas a barreira da exclusão profissional torna esse caminho mais árduo.
Pesquisas recentes confirmam essa realidade: pessoas trans estão entre as mais afetadas por ansiedade e depressão, frequentemente em decorrência da rejeição social e da instabilidade financeira. Especialistas ressaltam que a exclusão do mercado de trabalho não deve ser vista apenas como uma questão econômica, mas como uma violação de cidadania e dignidade.
Mesmo buscando oportunidades em áreas ligadas à sua formação ele percebe que a exclusão segue presente, ainda que mascarada por discursos de inclusão. Observa que muitas empresas estampam a diversidade em campanhas publicitárias, porém, na prática, esse discurso, majoritariamente, ultrapassa a porta de entrada.
Esperança
Rafael mantém a esperança de que o cenário possa mudar. Ele defende a criação de políticas públicas mais robustas e programas de capacitação que ultrapassem o campo do simbolismo, destacando que a demanda não é por privilégios, mas por oportunidades reais. Para ele, o objetivo é simples: demonstrar capacidade sem que a identidade de gênero se torne um obstáculo.
Algumas iniciativas já começam a surgir em diferentes cidades brasileiras, como programas de estágio voltados especificamente para pessoas trans e editais de concursos públicos com cotas afirmativas. Entretanto, o alcance dessas ações ainda é limitado diante da dimensão do problema e da persistência das barreiras estruturais. Enquanto isso, ele segue sua caminhada, e, no tempo em que essa transformação social não acontece de forma ampla, Rafael continua resistindo, transformando sua trajetória individual em símbolo das lutas coletivas que ainda precisam ser travadas no mercado de trabalho brasileiro.
Ao falar sobre exclusão e inclusão social é inevitável pensar nas pessoas transgêneras, um dos grupos mais afetados pela discriminação. Dessa forma, nota-se que a realidade desta comunidade é envolta por um tipo de transfobia que é estrutural. O preconceito e a violência contra trans são enormes e prejudiciais, acarretando em diversos empecilhos para que este grupo tenha acesso à educação escolar, à saúde e ao mercado de trabalho. No Brasil, algumas políticas públicas e projetos promovem a inclusão social dessa comunidade tão marginalizada, porém, ao observar que ela precisa de ajuda, percebe-se que essas políticas e projetos ainda caminham a passos lentos. A população transgênera carece de mais apelo à sua visibilidade para que suas necessidades sejam atendidas, garantindo uma vida digna. Acima de tudo isso, acredita-se que o primeiro passo para a qualidade de vida das pessoas trans está pautado no respeito, pois, por meio dele é possível compreender que cada indivíduo tem a sua importância e valor na sociedade e todos merecem a oportunidade de encontrar seu lugar no mundo.
Por Vitor Bonets
É tarde de sábado, mais um dia de visita. 20 minutos. É tudo que elas têm. Passado e presente, frente a frente, em uma mesa apertada para duas. Sacolas nas mãos, filas lotadas, muitas mulheres e poucos homens. Primas, irmãs e cunhadas ansiosas. Sem contar as "mainhas", que se precisar dormem em frente a Penitenciária Feminina de Sant'ana. Do lado de fora, um sol pra cada uma. Do lado de dentro, apenas a ânsia de ver o sol nascer redondo novamente. Desde o dia 12 de dezembro de 2020, Bruna não sabe o que é a liberdade. Ela é uma daquelas que, se pudesse, escreveria nas paredes da cela a quantidade de dias que faltam para voltar a ser livre. Por falta de espaço e ferramenta, não faz. Mas na cabeça, guarda a data da prisão e o dia em que sairá. Aliás, ao falar da possível saída, ela esboça um sorriso, frente a um olhar que já não parece ser tão doce quanto o das fotos antigas. Bruna foi vítima do amor cego. Seu crime, como brincam os mais jovens, talvez tenha sido amar demais.
Aos 16 anos, quando era apenas uma garota, ela conheceu Kaynan. O jovem, com 19, já era conhecido por todo o bairro do Livieiro, na zona Sul de São Paulo. Jogava bola como poucos, tinha nos pés uma leveza difícil de se encontrar nos campos e nas quadras. Mas leves mesmo eram suas mãos. Bobeou na frente do "muleke" era gol. Ou melhor, era bolso, onde ele guardava com maestria os pertences das vítimas que fazia pelas redondezas.
Não demorou muito para enxergarem o talento de Kaynan no bairro. E não, não era o talento nas quadras. Porém, "os meninos do ramo" não gostaram muito quando viram que o jovem atuava próximo às áreas deles. Então, certo dia, Kaynan foi chamado para uma conversa e tomou o famoso "salve". Sem violência, a princípio, mas ouviu palavras que certamente não foram de consolo. Entre toda a mensagem passada, uma coisa fez com que o jovem mudasse. Ele ouviu que se fosse para tirar de alguém, teria que ser dos que tem, dos endinheirados, e não de trabalhadores da comunidade. E então, não precisou de muito tempo para as mãos leves de Kaynan sentiram o peso de pegar em uma arma, essa até dada pelos meninos. E já que a peça já estava em mãos, e a cena já tinha sido roubada, o jovem se tornava protagonista da história. Porém, havia uma coadjuvante que ainda entraria em ação.
Ela era Bruna, que sabia do que Kaynan fazia nos últimos tempos. De mero furtador para assaltante número um do bairro. Não só sabia, como aproveitava de alguns privilégios que havia tido por ser a "namoradinha da vez" do jovem. Ninguém mexia com Bruna, muito menos ousava desrespeitá-la. Ela passava e as outras garotas abaixavam a cabeça. Era a "princesa da quebrada", intocável, cheia de si, na flor da idade e com um certo "poder" que cada vez mais subia para a mente. Mas em casa, o tratamento era diferente. Sua mãe, Dona Cleide, fazia de tudo para que Bruna não seguisse seus passos. Com toda experiência de quem já viveu as ruas, ela sabia que o caminho que a filha tomava só tinha um final. O dela mesma, como foi há 32 anos. Cleide não admitia o relacionamento da filha com Kaynan, não queria que ela se envolvesse com os meninos, mas já não era mais capaz de frear a garota. Talvez por não ficar tanto em casa devido ao trabalho de diarista, a mulher que tentava mostrar para filha um futuro melhor, não conseguiu a tirar das mãos do crime. Ela dizia à filha que depois que entra, não tem mais volta. Dizia que Kaynan, quando a casa caísse, não iria segurar nem a própria bronca, imagine a de Bruna. A menina decidiu não escutar a mãe e preferiu ficar com o jovem, que cada vez mais ganhava destaque pelas ruas. E no final, quem é peixe pequeno no meio do grande mar do crime vira isca de peixe grande.
Era dia 10 de dezembro. Kaynan recebeu uma missão. Coisa rápida e fácil, como a vida errada que levava. Ele só precisava pegar uma encomenda com os meninos e deixar em uma "casa bomba", local usado para o armazenamento de drogas vindas do crime. Porém, a única coisa que explodiu foi a liberdade de Kaynan. Ao virar na Rua João Semeraro, a polícia já o esperava no endereço. A fuga nem foi cogitada, pois já não havia mais para onde correr. Kaynan foi pego no flagra e desde esse dia a vida de Bruna virou de cabeça pra baixo. Ao ser preso, o jovem disse que Bruna o ajudava nos delitos. Era ela quem armazenava drogas e os objetos frutos de roubo em casa. Era ela quem entrava em contato com os mandantes do crime. Era ela quem decidia as missões que valiam a pena ou não para Kaynan. E foi ela o primeiro alvo da polícia após a prisão do namorado. A polícia localizou Bruna em casa e, de fato, encontrou drogas e produtos roubados. Porém, ela não sabia que Kaynan guardava os flagrantes em casa e, então, já era muito tarde para se explicar. Foi levada para o 3º DP (Sacomã) e prestou depoimento.
Dois dias depois, estava decretada sua prisão. Foi cúmplice e culpada por um amor que o levou para cadeia. E só pensava que era melhor ter escutado a própria mãe. Gleice avisou, pois sabia como tudo acontecia. Três décadas atrás, havia sido presa também com envolvimento em um amor criminoso. Ela também levou a culpa por crimes cometidos pelo namorado. Era jovem e também se vislumbrou com as regalias da vida bandida. Mas após passar quatro anos na cadeia entendeu o que tentou explicar para filha. Não vale a pena, mesmo que a pena seja pouca.
Hoje, mãe e filha se encontram. Uma na frente e outra atrás das grades. A vida separada pelas barras de ferro. Passado e presente. Só restam 20 minutos nos dias de visita e o gosto da liberdade e da falta dela. Os homens não estão mais presentes. As abandonaram, assim como a fila de espera para entrada na Penitenciária Feminina de Sant'Ana identifica um padrão. São mulheres do lado de fora que cuidam de mulheres do lado de dentro. Passados os 20 minutos, só as resta voltar para suas famílias. As de cela e as de ceia. Dividem e vestem laços de sangue, juntas e misturadas. Após pouco tempo de voo livre, uma das borboletas em formação volta para o casulo. A outra, em liberdade plena, pode voltar para casa sem medo de se tornar lagarta novamente.
Cleide e Bruna, dois lados da mesma moeda, duas faces de uma mulher leal. Duas encarceradas. Liberdade e cárcere. Memórias da prisão. De qualquer forma, passado e presente. Mas acima de tudo, juntas. Uma família, que ao lado de irmãs, primas e cunhadas, ganha outros familiares no convívio. Ainda sim, nada é como ver o sol nascer redondo, deitar na própria cama, comer uma boa comida e degustar do sabor de estar livre. Para Gleice, o crime não compensou. E para Bruna, os ensinamentos da mãe ainda ecoam nos ouvidos e pelas paredes da cela.
Por Arthur Rocha
A luz da tarde despeja um ouro velho sobre salas de convivência em centenas de instituições pelo País, iluminando partículas de poeira que dançam como memórias leves no ar parado. São nesses horários que os asilos respiram diferente, ou melhor, tentam respirar entre suspiros e os ruídos de mentes que se perdem. Em uma sala qualquer, mulheres idosas se reúnem ao redor de mesas cobertas de retalhos, tentando sobrepor o som de suas agulhas aos gritos que vêm do corredor. De alguma ala, sempre ecoam vozes conversando com fantasmas de entes falecidos há décadas, enquanto outras arrastam malas imaginárias na espera eterna por alguém que nunca virá.
Os que mantêm a lucidez trocam olhares de uma cumplicidade cansada, um silêncio que diz mais que palavras. Em outra sala, um homem tenta recordar o amigo da melodia de O Show tem que continuar, do Grupo Fundo de Quintal, mas a memória escorre pelos dedos a cada cinco minutos, como água entre as mãos. Lágrimas silenciosas molham instrumentos desafinados enquanto acordes simples se perdem nos labirintos do esquecimento. São cenas que se repetem diariamente em milhares de quartos e corredores pelo Brasil, histórias não contadas de resistência silenciosa.
O cenário é alimentado por números que assustam: segundo o Censo da Pessoa Idosa 2023, existem mais de 5,7 milhões de idosos vivendo sozinhos no Brasil, muitos deles completamente abandonados por suas famílias. A Fundação Perseu Abramo revela que cerca de 4 milhões de idosos não recebem visitas de familiares, nem mesmo em datas especiais como Natal ou aniversários.
Os refeitórios dessas instituições se transformam em palcos de dramas silenciosos. Em uma mesa, um homem empurra o prato com suspeita de veneno inexistente. Em outra, uma senhora perambula entre as cadeiras perguntando incessantemente pela filha que morreu há anos. Nos cantos, outros balançam travesseiros como se fossem bebês, cantarolando canções de ninar para fantasmas do passado. São cenas que se multiplicam por milhares de instituições, cada uma com seus personagens anônimos presos em labirintos mentais.
Os dados da Organização Mundial da Saúde mostram que o Brasil tem uma das maiores taxas de depressão entre idosos institucionalizados das Américas, chegando a 40%. A Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) 2019 aponta que 29,1% dos idosos relatam sentir solidão, um sentimento que se intensifica dramaticamente entre os que vivem em instituições.
Quando a noite chega, os corredores escuros se enchem de sons que testam a sanidade dos que ainda a mantêm. Gritos intermitentes ecoam pelo silêncio , pesadelos que se confundem com realidade, confusões mentais que se agravam com a escuridão, dores da alma que encontram voz quando não há mais distrações diurnas. Em quartos espalhados por todo o País, homens reorganizam as mesmas roupas repetidamente, mulheres conversam com quadros nas paredes, vozes discutem com sombras.
O Disque 100, canal de denúncias do Ministério dos Direitos Humanos, registra cerca de 40 mil denúncias de violação de direitos dos idosos anualmente, sendo o abandono uma das principais queixas. Os Conselhos Estaduais do Idoso estimam que para cada caso notificado, outros dez permanecem invisíveis , histórias que nunca chegam aos registros oficiais, se perdendo nos muros das instituições.
A verdade mais dura é que esses números representam apenas a ponta de um iceberg de abandono e sofrimento. Por trás de cada estatística, há dezenas de histórias não contadas , homens e mulheres que desaparecem da memória coletiva enquanto ainda respiram, que se tornam fantasmas em vida em instituições esquecidas nos quatro cantos do país.
Ainda assim, como pequenos milagres cotidianos, a resistência persiste. Em salas de atividades por todo o Brasil, mãos idosas continuam tecendo não apenas pontos e melodias, mas redes frágeis de sanidade que os mantêm à tona. Quando ajudam um companheiro a encontrar notas perdidas na escala musical, ou quando acalmam um vizinho em crise com palavras suaves, esses anônimos afirmam silenciosamente que mesmo onde a razão deserta, a humanidade ainda pode florescer em gestos simples.
Nessa teia invisível de afetos e paciência, entre gritos noturnos e lágrimas diurnas que nunca serão registrados em nenhuma pesquisa, milhares encontram a força suave que os impede de desistir completamente. E talvez essa seja a maior resistência de todas: permanecer são em ambientes que constantemente testam os limites da sanidade, dia após dia, sem plateia, sem reconhecimento, sem que ninguém lá fora sequer saiba que existem.
Por Rafael Rizzo
A luz dourada e cansada do final de tarde de uma terça-feira paulistana invadia o carro pelas frestas dos arranha-céus, pintando listras fugazes no painel e no rosto de José. Aceitei a corrida na Avenida Paulista, e o cheiro que me recebeu não era de um carro de aplicativo qualquer. Era um odor de vida vivida ali dentro; um misto do aromatizante de baunilha pendurado no retrovisor, do café que ele devia ter tomado horas antes e de algo mais profundo, o cheiro de um espaço que é, ao mesmo tempo, ferramenta de trabalho, refeitório e, por vezes, confessionário.
José me cumprimentou com um "boa tarde" que carregava o peso do dia inteiro. Seus olhos, vistos pelo retrovisor, eram fundos, cercados por uma teia fina de rugas que a tela do celular parecia ter gravado ali. As mãos, calejadas e grossas, seguravam o volante com uma firmeza que contrastava com a vulnerabilidade em sua voz quando disse ter começado como motorista de Uber há seis anos.
- "A gente ouve aquela conversa, né? 'Seja seu próprio chefe', 'faça seu próprio horário'. Parece um sonho." Ao dizer "sonho", ele soltou uma risada curta, um som seco, sem alegria, que morreu rapidamente no ar abafado do carro. Seus dedos tamborilaram no volante.
- "A maior mentira que já me contaram."
A primeira emoção que transpareceu em José foi o desengano. Não era raiva, não era tristeza ainda. Era o cansaço de um homem que perseguiu uma miragem e encontrou um deserto. Ele gesticulou com a mão direita, tirando-a do volante para desenhar um círculo no ar. Disse que era uma liberdade falsa e que era livre para escolher a hora que começa a se acorrentar. Conta que inicia o aplicativo às seis da manhã se quiser ter a chance de pagar as contas no fim do mês. Só desliga depois das sete, oito da noite. Isso num dia bom. Doze horas.
Ele disse o número como se fosse uma sentença.
- "Doze horas é o mínimo. É o chão. Mas nesse chão, você não constrói nada. Você só sobrevive."
Enquanto falava, o trânsito forçou a parar. José não olhou para os outros carros. Seu olhar se perdeu em algum ponto da rua, talvez vendo não os pedestres apressados, mas os boletos que o esperavam em casa. Havia uma quietude em seu corpo que era assustadora; a imobilidade de quem se sente encurralado.
- "E o corpo cobra", ele continuou. A voz agora um tom mais baixo, mais íntimo. Ele ajeitou as costas no banco, um movimento que era claramente para aliviar uma dor crônica na coluna, nos joelhos... Ficar sentado aqui o dia todo nos destrói aos poucos. Comemos mal, comemos rápido. Um salgado aqui, um lanche ali. Sua saúde vira um luxo que você não pode pagar, porque parar para se cuidar é deixar de ganhar o dinheiro do aluguel.
Foi quando ele falou sobre o risco que suas mãos, antes repousadas, voltaram a se agitar. Ele não gesticulava de forma ampla, mas seus dedos se fechavam e abriam sobre o volante, como se testassem a própria força. Ele tem o medo. Todo dia. Não sabe quem vai entrar no seu carro. Já entrou em cada lugar... Cada beco escuro, cada rua sem saída. Uma vez, de madrugada, entraram três rapazes. Ficaram o caminho todo em silêncio. Um deles só o olhava pelo retrovisor, conta.
Nesse momento, o tom de José ficou denso, pesado. A luz do dia já se despedia, e as luzes de neon dos prédios começavam a piscar, lançando sombras dançantes dentro do carro. O rosto dele ficou parcialmente na penumbra. Só pensava nos seus filhos. A cabeça só repetia o nome deles, um por um. Graças a Deus, não era nada. Eles desceram, pagaram e foram embora. Mas o gelo na espinha... esse ficou com ele por dias. A menção aos filhos mudou completamente a atmosfera. A dureza em sua voz se desfez, dando lugar a uma ternura que era quase palpável. São cinco, ele disse, e pela primeira vez, um sorriso genuíno, ainda que breve, tocou seus lábios. A mais velha tem catorze, o mais novo tem três. Ele pegou o celular por um instante no semáforo, a tela de bloqueio iluminando uma foto de um grupo de crianças sorridentes e um pouco bagunçadas. O olhar dele para a tela era o de um devoto.
- "É por eles. Tudo. Cada quilômetro rodado, cada 'bom dia' forçado, cada engarrafamento... é pensando no prato de comida deles, no material da escola, no remédio quando ficam doentes. A emoção embargou sua fala por um segundo. Ele pigarreou, virando o rosto para a janela como se quisesse esconder uma lágrima que teimava em se formar. A mão esquerda, que antes se fechava em tensão, agora repousava suavemente sobre a marcha, um gesto de cansaço e resignação. "Mas tem dia...", ele fez uma longa pausa, e o silêncio foi preenchido apenas pelo zumbido do ar-condicionado. Tem dia que a vontade é de desistir. De verdade. De parar o carro no acostamento, desligar esse aplicativo e nunca mais ligar. Se sente um rato de laboratório numa roda gigante. Corre, corre, corre e não sai do lugar. O dinheiro que entra mal cobre a gasolina, a manutenção do carro, o seguro... o que sobra é tão pouco pelo tanto que a gente se doa, confessa.
Seu suspiro foi profundo, um som que parecia vir do fundo da alma, carregando o peso de anos de exaustão. José é só um número para eles, para o aplicativo. Se quebrar o carro, em um minuto eles bloqueiam e ativam outro José qualquer. Não tem direito, não tem segurança, não tem amparo. É seu próprio patrão na hora de arcar com todos os custos e todos os riscos, mas é um empregado sem direitos na hora de receber. Chegando ao fim do trajeto, que no mapa parecia curto, a voz de José já não tinha o desengano do início, nem a tensão do medo, nem a ternura da família. O que restava era um esgotamento puro e simples. A energia de suas palavras havia se esvaído, deixando apenas a casca de um homem que se preparava para a próxima corrida, a próxima batalha.
