Por Oliver Santiago
A cidade de São Paulo, que recentemente completou 470 anos, enfrenta hoje um de seus desafios mais urgentes: a segregação residencial em um território que já não respeita fronteiras administrativas. O que antes era uma "vila" tornou-se uma conurbação urbana gigantesca, integrando 39 municípios e cerca de 22 milhões de habitantes. No entanto, esse crescimento não foi acompanhado por uma distribuição equitativa de infraestrutura, resultando em um modelo de urbanização excludente.
Embora a metrópole seja um potente polo da construção civil, com canteiros de obras espalhados por todas as regiões, o cenário é marcado por uma contradição profunda: o aumento exponencial do déficit habitacional para a população de baixa renda caminha lado a lado com um grande volume de construções abandonadas. Desde a década de 1960, a promessa de trabalho formal e mobilidade social começou a falhar, transformando as periferias no único refúgio possível para os excluídos do progresso.
A mancha urbana de precariedade atravessa os limites da capital. Em 2010, 24 dos 39 municípios da região metropolitana possuíam favelas; em 2019, esse número saltou para 31 municípios. O número de domicílios em favelas na capital também cresceu significativamente, atingindo quase 13% do total de casas em 2019. Esse fenômeno criou o que especialistas chamam de "várias periferias". Diferente do padrão homogêneo de pobreza de décadas passadas, o território periférico atual é um mosaico heterogêneo: enclaves de riqueza (condomínios fechados) convivem porta a porta com áreas de extrema carência material e alta densidade demográfica, que chega a superar 300 habitantes por hectare em alguns assentamentos.
Como consequência, a segregação residencial deixa de ser apenas uma questão de moradia e passa a influenciar diretamente o acesso a direitos básicos. Moradores das periferias mais distantes enfrentam maiores tempos de deslocamento para chegar ao trabalho, à escola ou aos serviços de saúde. Enquanto regiões centrais concentram empregos, equipamentos públicos e oportunidades, parte significativa da população é empurrada para áreas onde a infraestrutura urbana ainda é insuficiente ou precária.
O mercado imobiliário exerce papel central nesse processo. A valorização constante dos terrenos em áreas bem localizadas dificulta o acesso da população de menor renda à moradia formal. Ao mesmo tempo, milhares de imóveis vazios ou subutilizados permanecem concentrados em regiões dotadas de infraestrutura completa, evidenciando um descompasso entre a oferta de habitação e as necessidades reais da população. O resultado é a expansão contínua das ocupações irregulares e dos assentamentos precários nas bordas da metrópole.
Além da dimensão econômica, a segregação também possui impactos sociais profundos. Estudos apontam que o local de moradia influencia as oportunidades de ascensão social, o acesso à educação de qualidade e até mesmo a expectativa de vida. Crianças e jovens que crescem em áreas marcadas pela ausência de serviços públicos enfrentam obstáculos adicionais para romper os ciclos de pobreza. Dessa forma, o território passa a reproduzir desigualdades que se perpetuam entre gerações.
Nos últimos anos, políticas habitacionais, programas de urbanização de favelas e iniciativas voltadas à produção de moradias populares buscaram amenizar esse cenário. No entanto, especialistas alertam que a solução exige mais do que a construção de novas unidades habitacionais. É necessário integrar moradia, transporte, emprego e planejamento urbano em uma estratégia capaz de reduzir as distâncias físicas e sociais que caracterizam a Região Metropolitana de São Paulo.
A realidade da maior metrópole brasileira demonstra que o crescimento urbano, quando não acompanhado por políticas de inclusão territorial, tende a aprofundar desigualdades históricas. Em uma região que concentra riqueza, inovação e oportunidades, o desafio permanece o mesmo: garantir que o direito à cidade seja efetivamente acessível a todos os seus habitantes, independentemente do CEP onde vivem.
Nesse contexto de déficit habitacional e crescente exclusão territorial, os movimentos de moradia passaram a desempenhar um papel cada vez mais relevante na disputa pelo espaço urbano. Em São Paulo, ocupações organizadas surgem como resposta à dificuldade de acesso à habitação formal e à existência de imóveis e terrenos considerados ociosos.
Um dos exemplos mais conhecidos é a Ocupação Luísa Mahin, organizada pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST). Localizada na zona sul da capital, no distrito do Grajaú, a ocupação recebeu esse nome em homenagem à figura histórica associada à resistência negra no Brasil. Assim como outras iniciativas do movimento, o local abriga famílias que alegam não possuir condições de arcar com os altos custos de aluguel ou financiamento imobiliário. Além de moradia, a ocupação promove atividades comunitárias, culturais e de formação política para seus moradores.
Cris do MTST explicou um dos fatores consequentes da conurbação na Região Metropolitana de São Paulo. Segundo a coordenadora da ocupação Luísa Mahin: "[..] a maior dificuldade que enfrentamos é conseguir a própria casa. O prefeito que a gente tem que não ajuda em nada, as pessoas mais carentes, tem certos programas que falam que é programa social, programa para baixar renda, mas tenta um baixa renda salariado, sozinho, pedir um financiamento na caixa econômica, não consegue, pede até o rim da gente."
A coordenadora relembrou sobre os maiores desafios enfrentados pela ocupação, desde a chegada em 2023. "[..] Participo de um movimento que possibilita a gente lutar pela nossa moradia, fácil não é, porém, de uma forma correta, de uma forma que realmente vale a pena lutar pelo que a gente quer e a gente chegar a conseguir entrar num bom programa social, num programa que realmente está voltado para o pessoal de baixa renda."
"Tivemos, de início, cinco reintegrações seguidas, mas o movimento conta com um setor jurídico muito bom, que batalhou muito, porque aqui é uma área para casa, para moradia, o terreno estava totalmente abandonado, então, depois que ocupamos, aí o dono vem, quer falar que vai construir, enfim, mas a equipe de advogados conseguiram, a gente barrou cinco reintegração, lutamos muito, lutamos muito ainda, para chegar ao objetivo, e com muita luta, correndo atrás, indo para as ruas, hoje a gente teve a nossa conquista."
A Luísa Mahin integra uma longa trajetória de ocupações urbanas na capital paulista. Ao longo das últimas décadas, movimentos sociais organizaram ações semelhantes em diferentes regiões da cidade, especialmente em áreas marcadas por terrenos abandonados ou sem utilização social definida. Entre os exemplos mais conhecidos estão ocupações realizadas no centro da cidade, onde antigos edifícios comerciais e residenciais foram transformados em moradia para centenas de famílias.
Esses espaços se tornaram símbolos do debate sobre a função social da propriedade, princípio previsto na Constituição Federal. Para os movimentos de moradia, a ocupação representa uma forma de pressionar o poder público a ampliar as políticas habitacionais e dar destino a imóveis vazios. Já proprietários e setores do mercado imobiliário frequentemente apontam conflitos relacionados ao direito à propriedade e à segurança jurídica.
As ocupações também evidenciam uma contradição presente na metrópole paulistana: enquanto milhares de famílias enfrentam dificuldades para encontrar moradia digna, uma quantidade significativa de imóveis permanece desocupada ou subutilizada. O contraste é mais visível nas regiões centrais, onde edifícios vazios coexistem com uma crescente demanda habitacional.
Para especialistas em urbanismo, o fenômeno das ocupações revela não apenas a insuficiência das políticas habitacionais, mas também a necessidade de repensar o modelo de desenvolvimento urbano adotado pela metrópole. Mais do que um conflito fundiário, a questão habitacional em São Paulo expõe os limites de uma cidade que continua produzindo riqueza, mas que ainda encontra dificuldades para garantir o acesso demcrático ao espaço urbano.
Por Eduarda Amaral e Emily de Matos
Todo domingo, a partir do meio-dia e meia, um cheiro de comida toma conta do térreo de um prédio na Avenida Nove de Julho, no centro de São Paulo. A fila que se forma é mista: moradores da ocupação, vizinhos do bairro, artistas, pesquisadores, militantes, pessoas em situação de rua. Todos comem juntos. É assim todo fim de semana, há anos, com entrada livre e almoço até às 16h30min, como o próprio movimento anuncia: comida para alimentar a luta.
Desde 2017 funciona o projeto de cozinha coletiva da Ocupação 9 de Julho, cujo objetivo é suprir as necessidades do MSTC em relação à alimentação durante suas atividades e promover, através dos almoços abertos, uma maior visibilidade à luta por moradia. O que começou como uma necessidade interna tornou-se, ao longo dos anos, uma das iniciativas de soberania alimentar mais conhecidas da cidade, e um instrumento político deliberado nas mãos do Movimento Sem Teto do Centro.
A cozinha não funciona sozinha. Uma vez por mês um chefe com experiência é chamado para conduzir o almoço, em uma ação voluntária e aberta ao público. Nesses momentos, visitantes e moradores experienciam o espaço coletivo da Ocupação. Os domingos de evento incluem programação com shows, oficinas e ações de formação. Quem cozinha também é remunerado. As cozinheiras e cozinheiros responsáveis pela elaboração das refeições são moradoras e moradores de baixa renda das ocupações do MSTC, que recebem ajuda de custo pelo trabalho. A iniciativa, portanto, não é apenas um equipamento comunitário, é também fonte de renda para quem mora ali. Os almoços e a programação cultural fortalecem a organização de moradores e moradoras, além de proporcionar renda por meio do trabalho na própria cozinha.
Por fora, uma rede de parcerias sustenta a operação: o projeto trabalha em parceria não apenas com outros movimentos de moradia e organizações sociais, mas também com a classe artística, tornando-se um importante centro cultural e ponto de encontro ativo para ativistas, intelectuais, artistas e lideranças políticas. A horta comunitária instalada no local também integra esse circuito: os moradores cuidam do plantio e todo o resultado da colheita vai para eles.
Em domingos festivos, porém, a cozinha ganha um contorno diferente do habitual. O almoço é também festa de aniversário: o vereador e ativista histórico Eduardo Suplicy completa 85 anos, e a Ocupação comemora junto com o público. MPB toca em clima de festa, quase como um show, mas sem perder o acolhimento que é marca da casa. Da cozinha sai baião de dois, fumegante nas panelas grandes, enquanto um bar montado para a ocasião produz caipirinhas, sucos de cupuaçu e mate para quem circula pelo pátio.
Espalhadas pelo espaço, barraquinhas apresentam projetos que decidiram contribuir ali dentro: o Projeto Gaia e o Simplesmente Sou dividem espaço com o resto da programação, cada um com sua proposta própria de cuidado e renda para quem mora ou já morou na ocupação. Naquela tarde (21), a celebração ganha ainda mais força com o anúncio de duas novas conquistas do espaço: o lançamento de um desfile de moda autoral, confeccionado pelas mãos das próprias moradoras, e a aula inaugural de um cursinho popular gratuito, promovido pelo Instituto Carmen Silva em parceria com o MEC.
A programação cultural se estende com a presença da Velha Guarda da Vai-Vai, convidada para ditar o ritmo após os parabéns. Para quem visita o local pela primeira vez, a liderança Carmen Silva faz questão de lembrar que a Nove de Julho é uma ocupação icônica, cuja história resiste desde 1997. Segundo Carmen, o movimento não agrega somente a moradia como segmento, mas integra cultura, educação e, acima de tudo, o bem-estar coletivo.
Em uma dessas barracas está Andrea Escobar, massoterapeuta, oferecendo atendimentos a quem se aproxima. Andrea conhece a engrenagem da luta por moradia por experiência própria. Em outubro de 2010, ela ingressou em um coletivo habitacional "no escuro" e sem nenhuma noção do que enfrentaria ao participar de uma ocupação. O início foi difícil, período em que enfrentou o desafio da adaptação guiada pela coragem. Andrea viu o cenário se transformar através da organização interna, dos mutirões de limpeza e da rotina na cozinha comunitária. Foi lá que conheceu seu companheiro, com quem, três anos e meio depois, deixou o local. O afastamento trouxe o arrependimento por ter interrompido a caminhada, mas hoje ela resgata esse fio direto com o passado. Enquanto participa ativamente das reuniões do Grupo de Base para conquistar a moradia definitiva, Andrea volta a ocupar os espaços da resistência em outra condição: oferecendo cuidado através de suas mãos, que funcionam como instrumento para aliviar as dores e amparar os percursos de quem continua na luta e atravessa histórias semelhantes à sua.
Nem todas as pessoas que circulam pela ocupação carregam uma longa trajetória no movimento. Alguns chegaram há pouco tempo e encontraram ali um lugar para recomeçar. É o caso de Aline, que vive na Ocupação 9 de Julho há seis meses. Depois de passar dez anos em Marília, desembarcou em São Paulo e ficou na casa de uma pessoa que fazia parte do MSTC. O contato a aproximou da luta por moradia e a levou a integrar o movimento desde os primeiros dias na cidade. Com um sorriso largo atrás da mesa de doces de leite, ela apresenta a nova parceria entre a cooperativa Terra Viva, o MSTC, e o Projeto Gaia, vendendo os potes artesanais que fazem sua estreia no evento. Para ela, a experiência de construir renda e comunidade na ocupação é ao mesmo tempo maravilhosa e desafiadora, reflexo de uma luta diária que se renova a cada encontro, atividade e domingo compartilhado no pátio.
O prédio tem quinze andares e um passado que ninguém ali esconde: foi a sede do INSS, depois ficou vinte anos fechado, as janelas cegas, o reboco caindo pedaço por pedaço sobre a calçada da Avenida Nove de Julho. Em 1997, um grupo decidiu que aquele vazio tinha um custo maior do que qualquer risco de ocupar, e entrou. Dali nasceria, alguns anos depois, o Movimento Sem Teto do Centro. Onde antes só havia papelada de autarquia e poeira, agora moram cerca de 120 famílias, e o prédio aprendeu a ter outros órgãos além dos apartamentos: uma escola, uma horta que sobe em vasos e canteiros pelos andares, uma galeria de arte, um brechó, e no terceiro andar, a cozinha, que é talvez o órgão mais vital de todos, porque é dali que sai o sangue que circula pelo resto do corpo. É a partir desse território que a comunidade se baseia para garantir que todas as crianças frequentem a escola e que os moradores acessem os postos de saúde, as rodas de samba e a cultura.
Carmen Silva, que ajudou a fundar tudo isso, tem uma frase que repete como quem repete uma oração: a moradia é a porta de entrada para os outros direitos. Não é retórica. É quase uma fórmula química: do teto vem a escola, da escola vem o trabalho, do trabalho vem a mesa posta, e da mesa posta volta, de novo, a força para resistir a mais uma ameaça de despejo. A casa, ali, não é ponto final, é começo de frase. Para ela, a permanência no centro da cidade é a própria consolidação da cidadania, uma certeza de que a ocupação cumpre sua função social ao dar dignidade para quem antes era invisível. E é exatamente por isso que a cozinha nunca foi só sobre comer. É sobre provar, todo domingo, que a resistência tem cheiro, tem tempero, tem fila.
Por Cecília Leite e Julia Naspolini
O Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) surgiu em 1997, consolidando-se ao longo de quase três décadas como um dos maiores movimentos sociais urbanos da América Latina, com presença em 14 estados brasileiros. Sua base fundamenta-se na denúncia de que, embora a Constituição Federal brasileira garanta a moradia como um direito social e uma obrigação do Estado, o modelo de desenvolvimento das cidades é pautado pela lógica capitalista e pela especulação imobiliária. Esse sistema empurra milhões de pessoas para periferias precarizadas e negligenciadas, enquanto mantém imóveis vazios apenas para valorização financeira, gerando um déficit habitacional que afeta cerca de 5,8 milhões de pessoas que hoje vivem em condições de insegurança, sob ameaça de despejo ou em habitações precárias.
Para o MTST, a conquista da casa própria é o passo inicial, mas insuficiente para romper com a invisibilidade social de quem vive à margem. Por isso, o movimento expandiu sua atuação sob o lema "Teto, Trabalho e Pão", defendendo uma reforma urbana integral que garanta acesso a saneamento, transporte, educação e saúde. Essa visão ampla de cidadania inclui o combate à fome através das Cozinhas Solidárias e o reconhecimento do valor da economia popular e dos trabalhadores informais. É nesse processo de "ocupar a vida" e fortalecer politicamente as periferias que a cultura emerge como um pilar essencial de resistência, criando o terreno fértil para iniciativas coletivas de expressão e formação, como é o caso da Trupe de Teatro Sem-Teto.
Idealizado em meio à pandemia, o grupo consolidou-se a partir de uma frente de cultura do MTST que buscava o compartilhamento de poesia e arte como uma necessidade humana de expressão durante o isolamento. A Trupe concentra indivíduos que, ao longo da vida, enfrentaram vulnerabilidades ligadas às suas identidades e que encontraram na arte uma forma potente de se encontrar e se expressar. Pautada por um processo de construção artística profundamente coletivo, seu elenco é majoritariamente formado por pessoas sem-teto (sem moradia estável, segura e/ou adequada), que praticam teatro amador e compartilham uma identidade comum de luta, mas mantendo suas individualidades pulsantes. Esse processo criativo aberto permite que as diversas idades, sexualidades e religiosidades presentes no grupo sejam exploradas na construção das cenas, transformando as vivências pessoais dos militantes em ferramentas de criação. No fim, essa diversidade enriquece o coletivo, trazendo uma multiplicidade de perspectivas e personagens que dão voz e visibilidade às complexas realidades das periferias.
Cecília Azevedo, jovem ativista com formação em Teatro entrou para o movimento mesmo sem ser sem-teto, apenas para lutar pela causa, e foi uma das responsáveis pela formação da frente de cultura que originou a Trupe de Teatro Sem-Teto. Ela conta que a primeira apresentação da Trupe ocorreu em 2023, durante as comemorações do aniversário de 25 anos do MTST, e foi marcada por um cenário de superação. Sem qualquer recurso financeiro, o grupo precisou criar a peça de forma fragmentada: como não havia verba para o transporte dos integrantes, os ensaios aconteciam em diferentes regiões, como as zonas Norte, Leste, Sul (Grajaú e Capão Redondo) e o ABC, onde as cenas eram construídas separadamente para serem "costuradas" apenas no final. Esse processo contou com o apoio fundamental de grupos profissionais, como o Estudo de Cena, que auxiliou nos ensaios, e o Engenho Teatral, que cedeu espaço para as atividades.
A montagem foi um verdadeiro desafio logístico e artístico, com apenas um ensaio geral antes da estreia em um auditório histórico que quase não oferecia estrutura de luz ou técnica. Lutando contra o tempo e as rotinas corridas dos militantes, a Trupe utilizou materiais do próprio cotidiano das ocupações, como bambu e lona, para erguer o cenário, que trazia como símbolo central um barraquinho. Diante de um público de mais de 200 pessoas, a apresentação foi descrita como "mágica", pois, apesar de todas as adversidades, a execução foi impecável. O sucesso na estreia foi o que garantiu à Trupe o respeito e o apoio oficial do movimento, permitindo que, a partir dali, o grupo se consolidasse e conseguisse reservar a agenda dos seus integrantes para projetos futuros mais ambiciosos.
A consolidação definitiva da Trupe veio com a busca por recursos que permitissem um trabalho mais estruturado. O grupo inscreveu-se no Programa VAI, da Prefeitura de São Paulo, um edital de fomento a iniciativas culturais que possibilitou a realização de um desejo antigo: criar uma montagem com suporte financeiro adequado. Após a aprovação em 2024, o projeto começou a ser implementado no final daquele ano, mas ganhou força total ao longo de 2025, com ensaios semanais e uma dedicação integral à construção de cada detalhe do espetáculo, desde a preparação dos atores e a escrita do roteiro até a elaboração da cenografia e do figurino. O resultado desse esforço coletivo foi a peça "Capitães Sem-Teto: se essa rua fosse nossa", apresentada no final de 2025.
A escolha da obra base, o clássico "Capitães da Areia" de Jorge Amado, partiu da identificação direta do movimento com os temas de marginalidade e invisibilidade social. No entanto, o grupo promoveu adaptações profundas para que os integrantes do MTST fossem representados no palco: o cenário deixou o trapiche baiano para ganhar a identidade de um escadão de "quebrada". Além disso, para refletir a verdadeira base do movimento, o elenco majoritariamente masculino do livro original foi transformado em um grupo diverso que incluía muitas mulheres e pessoas de diferentes idades, além de integrar expressões de identidades LGBTQ+ e a convivência harmoniosa entre diferentes fés, como o Candomblé e o Cristianismo.
Um ponto crucial na adaptação do roteiro, realizada pela militante e roteirista conhecida como Poeta (Marilene Souza), foi a mudança do conflito central: para evitar os estigmas que frequentemente marginalizam os sem-teto, a peça substituiu a prática de roubos por discussões sobre as relações de trabalho contemporâneas. Na trama, os personagens enfrentam a exploração de um patrão inescrupuloso e as duras condições de "bicos" e subempregos, refletindo a realidade de quem, mesmo trabalhando exaustivamente, ainda luta contra a precariedade habitacional. Mesmo com o recurso público, a produção manteve o espírito de cooperação e sustentabilidade, priorizando a ajuda de custo para transporte e alimentação dos integrantes e utilizando materiais recicláveis, como caixotes de feira e papelão, para criar uma cenografia potente que marcou o amadurecimento artístico da Trupe.
A escolha da obra "Capitães da Areia" para a montagem de 2025 também foi estratégica por sua natureza coral, que permite explorar "muitas vidas ao mesmo tempo" através de diversas sub-tramas, fugindo da lógica de um protagonista único. Para a Trupe, era fundamental que o roteiro distribuísse o protagonismo, pois o objetivo central do grupo é dar visibilidade e oportunidade a todos os seus integrantes, reconhecendo o talento de pessoas que historicamente tiveram seus espaços de expressão negados. Esse processo de construção coletiva permitiu que os atores inserissem suas próprias identidades e vivências nas personagens, transformando o palco em um espelho da diversidade encontrada no próprio MTST.
Um dos eixos centrais dessa narrativa é a trajetória de Bala, interpretada por Rosa Ribeiro, que na adaptação tem um passado ligado ao Movimento Sem Terra (MST), trazendo para a cena a herança da luta política de seus pais. Sua jornada de transformação atinge o ápice após sofrer o luto pela morte de Dora e o trauma de um despejo na "quebrada". Diferente da Dora original, a versão da Trupe, vivida por Lilian Lins, é uma figura transgressora e "descolada" que trabalha em uma associação exploradora e incentiva os Capitães a se revoltarem contra as injustas relações de trabalho, sendo assassinada como "queima de arquivo" por sua insubmissão. A morte de Dora e o posterior acolhimento pelas Cozinhas Solidárias são o que impulsionam Bala a organizar o grupo para uma ocupação urbana, unindo o desespero à esperança da luta por direitos.
O roteiro também se aprofunda em questões de fé e estrutura familiar periférica através de personagens como a Pirula e o garoto Cleitinho. Pirula, interpretada por Luiza Neta, representa a figura da avó que assume o papel de mãe após a perda de um filho para a violência policial, uma realidade simbólica e triste que reflete a vida real da própria atriz. Essa densidade emocional permitiu a criação de cenas marcantes, como o momento de sincretismo religioso em que Pirula une sua prece católica ao canto de Candomblé da personagem Baiana (Maria Angélica), simbolizando a união de diferentes fés em um contexto de resistência. Além disso, a individualidade dos integrantes foi respeitada e celebrada, como no caso do ator Fran, que trouxe sua marca registrada, um leque com a bandeira LGBTQ+, e sua própria identidade sexual para a composição de seu personagem, provando que a diversidade da Trupe é o que realmente enriquece a obra coletiva.
O desfecho de "Capitães Sem-Teto: se essa rua fosse nossa" marca o ponto exato onde a ficção se dissolve na urgência da luta real, transformando o palco em um espaço de convocação política. O clímax é motivado por um cenário de desolação: após sofrerem um despejo violento na quebrada e enfrentarem o luto pela morte de Dora, os Capitães encontram-se desamparados. É nesse momento que o movimento social se manifesta através do acolhimento das Cozinhas Solidárias, um momento simbolizado na peça pela distribuição de um caldinho quente para os atores e para a própria plateia, unindo todos em um gesto de solidariedade comum.
A transformação da protagonista Bala é o fio condutor desse levante final. Ao ser relembrada sobre o passado de seus pais no MST, Bala compreende que a luta faz parte de sua identidade e que o movimento apareceu para ela em seu momento de maior desamparo. Com esse despertar, ela deixa de ser apenas uma líder de grupo para se tornar uma articuladora política, convocando os outros personagens e o público para lutar por seus direitos. A simbologia atinge sua plenitude quando o teatro rompe as barreiras físicas do auditório: os portões são abertos e a Trupe, acompanhada pela plateia, ocupa a rua de forma literal. Essa transição da cena para o espaço público concretiza o lema do movimento e transforma a arte em um ato de resistência viva.
Por Anna Cândida Xavier, Juliana Bertini e Maria Eduarda Cepeda
O Instituto Chão vende alimentos orgânicos pelo preço de custo, sem margem de lucro e sem intermediário. Na Vila Madalena, zona oeste de São Paulo, isso significa preços até três vezes mais baratos que o comércio convencional da esquina. A associação de trabalhadores sem fins lucrativos nasceu da iniciativa de sete amigos em maio de 2015. Thiago Guardia e Fabio Mendes trabalhavam em uma clínica de saúde mental e queriam transformá-la em uma associação sem fins lucrativos – porém, a diretoria da clínica recusou a proposta. Assim, antes mesmo de decidirem trabalhar com a venda de alimentos orgânicos, os amigos decidiram estabelecer um negócio sem hierarquia e orientados pelos princípios da economia solidária.
A preocupação política está na raiz da iniciativa, segundo o site “o Chão se movimenta para o aprofundamento da consciência crítica, da democracia e da igualdade de direitos, a fim de construir coletivamente uma sociedade justa e solidária”. A concepção de um mercado de produtos orgânicos sem margem de lucro nasce de uma preocupação com a remuneração dos pequenos produtores.
Os grandes varejistas e supermercados tradicionais pagam pouco aos produtores e impõe a padronização de formato e cor dos vegetais. Nesse contexto, o Instituto Chão se dispõe a ser um ponto de distribuição de alimentos onde os produtores não sejam esmagados pelo poder de barganha de grandes compradores.
Hoje o Instituto conta com mais de 550 produtores parceiros espalhados por todo o Brasil. Natália Cheung, que trabalha no Instituto há dois anos, conta que “a escolha dos fornecedores se baseia nos valores do projeto: priorizamos a agricultura familiar, agricultura de comunidades quilombolas e ribeirinhas e assentamentos da reforma agrária, temos parceria com o MST”. O preço repassado ao produtor cobre nota fiscal, frete e perdas. Nada é descontado para gerar margem. “O preço do custo do produto é o valor que você encontra nas prateleiras”, conclui.
Toda a feira de hortifrutis é composta de produtos orgânicos certificados e a rede de produtores parceiros do Instituto é disponibilizada aos clientes, que assim podem conhecer a origem dos alimentos que consomem. Na mercearia, o Chão também comercializa grãos, laticínios, carnes, pães, bebidas e até mesmo produtos de higiene e limpeza – todos com o certificado de orgânicos. Ainda no início do projeto, quando não estavam economicamente estabelecidos, o Chão recusou colocar produtos da Pullman nas prateleiras, preferindo pequenos empreendimentos que respeitam o meio ambiente e que produzem sem exploração da força de trabalho.
Um artigo publicado no Brazilian Journal of Development em 2020 analisou o impacto da parceria com agricultores familiares e concluiu que o modelo promove sustentabilidade produtiva, diversificação agrícola e maior autonomia econômica do produtor rural. A compra de arroz do MST, destacada na pesquisa, sustenta uma cadeia inteira - da terra à prateleira, sem que o lucro do varejo seja capturado no meio do caminho. O mercado de orgânicos no Brasil cresceu mais de quatro vezes entre 2003 e 2017, segundo pesquisa de cientistas da UFRGS e da UTFPR. A produção nacional avança mais de 20% ao ano, ritmo inferior à demanda. O número de agricultores com certificação orgânica triplicou na última década, denunciando que o problema não é a oferta, mas sim, o preço.
O acesso ao orgânico ainda é restrito. No varejo convencional, a diferença de custo em relação ao alimento comum pode chegar a 100% ou mais e é esse o principal fator que mantém o produto fora da cesta de boa parte da população. O modelo do Instituto Chão opera exatamente nesse ponto: ao eliminar o lucro do varejo, derruba a barreira de preço sem transferir o custo para o produtor. Uma pesquisa do Instituto Ipê comparou os preços de mercados convencionais e orgânicos da região da Vila Madalena. O estudo mostra que o Chão mantém preços semelhantes aos mercados convencionais e produtos orgânicos muito mais baratos. “Queremos mostrar que o alimento orgânico não é para ser caro, não é só para quem tem dinheiro. Na verdade, é uma questão de saúde pública e ambiental”, afirma Natália Cheung.
“A gente tem vontade que o acesso aos alimentos orgânicos cresça, que existam outros projetos e iniciativas como a nossa pela cidade e pelo país todo. “O propósito de transparecer os preços é mostrar para as pessoas que a gente pode vender comida orgânica de qualidade sendo justo com os produtores” afirma Natália.
O resultado aparece na prateleira: um brócolis inteiro sai por cerca de R$4,00, a banana custa menos de R$3,00 o quilo. São produtos agroecológicos, comprados diretamente de agricultores familiares, chegando ao consumidor sem a margem que o varejo convencional capturaria no caminho. Natália resume: “aqui nós não mercantilizamos o alimento”. Desde o início, o Chão se mantém com o apoio dos consumidores: quem compra decide se quer ou não contribuir com os custos do espaço. Atualmente, o percentual necessário para fechar as contas tem variado entre 25% e 28% do total arrecadado, as contribuições sustentam o Instituto há mais de uma década.
Natália Cheung conta que todo mês o Chão faz um balanço das contas do projeto e as disponibiliza para os consumidores. “Fazemos uma previsão das nossas vendas, os nossos custos e de quanto que a gente precisa para pagar as nossas contas. Alguns meses são mais movimentados que outros e ao longo do ano conseguimos manter a estabilidade, mas sugerimos que os clientes ajudem com 30% do valor da compra para mantermos uma margem de segurança de funcionamento”. Mesmo com o apoio do público, o Instituto Chão ainda depende do adiantamento de crédito do banco para fechar as contas.
O balanço mais recente disponibilizado pelo Instituto é de março de 2026. Os custos operacionais e despesas somam pouco mais de R$ 1 milhão , considerando a remuneração de 35 pessoas, aluguel, impostos, água, luz, telefone, Internet e infraestrutura. A maior fatia - quase R$ 500 mil – é destinada ao salário dos funcionários, o que evidencia um modelo que prioriza o trabalho digno e a remuneração justa em vez da maximização de lucros. “Como o Chão não visa o lucro, sempre que juntamos dinheiro investimos em melhorias da loja. Também temos um sítio em Bragança Paulista onde produzimos alguns alimentos em sistema agroflorestal para vender aqui”, complementa Natália.
Uma das missões da associação é o cuidado, a aproximação das pessoas e a busca de relações mais justas e transparentes para construir uma sociedade solidária. Nesse sentido, o Chão leva como prioridade propor outras relações de trabalho dentro do estabelecimento. Natália Cheung trabalha no Instituto Chão há dois anos comenta “essa é uma experiência muito diferente de outros lugares em que já trabalhei, a gente não está acostumado a trabalhar em um ambiente em que nossas opiniões são escutadas e as decisões são compartilhadas. É um desafio muito positivo compartilhar as responsabilidades do trabalho”. Segundo Natália, “na autogestão a gente reveza as tarefas, não tem um chefe ou gerente e todos recebem a mesma remuneração, ninguém precisa fazer ‘bico’ por fora para pagar as contas”.
Neste sentido, a partir desses espaços de trabalho, o Chão convida as pessoas a experimentar novas formas de relação. “Tem muitas pessoas que vêm aqui desde o comecinho do projeto, elas conhecem as pessoas que trabalham aqui e a gente estabelece uma relação.
O modelo adotado pelo Instituto Chão está inserido nos princípios da Economia Popular e Solidária, uma forma de organização do trabalho baseada na cooperação, na autogestão e na divisão coletiva dos resultados. Diferentemente da lógica empresarial tradicional, em que as decisões e os lucros costumam ficar concentrados nas mãos dos proprietários, os empreendimentos solidários funcionam de maneira participativa, com transparência na gestão e compartilhamento das responsabilidades entre seus integrantes.
Segundo o secretário nacional de Economia Popular e Solidária do Ministério do Trabalho e Emprego, Fernando Zamban, a Economia Solidária não deve ser entendida apenas como uma alternativa para trabalhadores desempregados, mas como um modelo econômico estruturado, capaz de promover inclusão social, desenvolvimento territorial e sustentabilidade ambiental. Atualmente, o setor possui respaldo legal por meio da Lei nº 15.068/2024, conhecida como Lei Paul Singer, regulamentada pelo Decreto nº 12.784/2025, que instituiu a Política Nacional de Economia Solidária.
Dados do Cadastro Nacional de Empreendimentos Econômicos Solidários (Cadsol) indicam que os empreendimentos cadastrados movimentam cerca de R$ 54 milhões por mês em todo o país. O artesanato representa 30% dessas iniciativas, seguido pela agricultura familiar, com 26%, e pela coleta e tratamento de materiais recicláveis, com 10%. Para Zamban, esses números demonstram que a Economia Solidária deixou de ocupar um espaço marginal e passou a representar uma parcela significativa da atividade econômica brasileira.
O secretário destaca ainda que o fortalecimento desse modelo é especialmente importante diante do cenário de informalidade no país. Segundo dados do IBGE citados pelo Ministério do Trabalho e Emprego, cerca de 38,5 milhões de brasileiros trabalham de forma informal, o equivalente a 37,5% da população ocupada. Nesse contexto, a organização coletiva oferecida pelos empreendimentos solidários pode ampliar a segurança econômica e fortalecer a geração de renda para trabalhadores que não encontram espaço ou proteção suficientes no mercado formal.
Além disso, a Economia Solidária está presente em setores estratégicos para o desenvolvimento sustentável. A agricultura familiar organizada em cooperativas e associações abastece escolas, hospitais e equipamentos públicos por meio do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), enquanto cooperativas de catadores são responsáveis por aproximadamente 90% da coleta de materiais recicláveis realizada no país. Para o Ministério do Trabalho e Emprego, o modelo também tem papel importante na inclusão produtiva de grupos historicamente excluídos do mercado formal, como mulheres, pessoas negras e comunidades tradicionais.
Uma das missões da associação é o cuidado, a aproximação das pessoas e a busca de relações mais justas e transparentes para construir uma sociedade solidária. Nesse sentido, o Chão leva como prioridade propor outras relações de trabalho dentro do estabelecimento. Natália comenta que é uma experiência muito diferente de outros lugares em que já trabalhou, pois trabalha em um ambiente em que as opiniões são escutadas e as decisões são compartilhadas.
Fernanda, cliente de longa data do Instituto Chão, afirma que a convivência no Chão é diferente de outros estabelecimentos, “sou do bairro e já encontrei muitos amigos por aqui. Aqui é a minha turma, inclusive politicamente”. A escolha pelo estabelecimento também está conectada à sua saúde, “o Brasil é um dos países que mais liberou agrotóxico no mundo – é uma loucura, um absurdo e nós precisamos nos cuidar”. Renato mora no Itaim Bibi e faz o trajeto até a Vila Madalena toda semana “o Chão é o único lugar que eu conheço em São Paulo que tem frutas e legumes orgânicos com variedade”. Ele não é o único que mora longe, Natália conta que alguns clientes moram fora de São Paulo e esporadicamente aparecem para fazer grandes compras. Muitos conhecem o Instituto no final de semana, ao passear pelo bairro.
Segundo o site do Instituto Chão, “a comida, além de ser a cadeia essencial, pode ser usada para fazer uma discussão cotidiana sobre modelo econômico e modo de estar no mundo. Em busca de alimento, as pessoas frequentam semanalmente esse espaço e, a cada dia, inserimos mais uma camada de questionamentos. O grande debate é a mudança das relações entre as pessoas. O objetivo é colocar luz em processos que estão escondidos nas relações convencionais de consumo. O ato de comprar significa incentivar ou não determinada rede de relações, determinado fluxo econômico”.
Por Helena Barra e Joana Grigorio
No bairro de José Bonifácio, na zona leste de São Paulo, ergueu-se um exemplo de transformação e acolhimento da arte urbana feita pelas mãos da própria comunidade: a Okupação Cultural Coragem. O que antes era um espaço comercial abandonado, tomado por entulhos, ratos e animais peçonhentos, tornou-se, ao longo de quase uma década, um dos principais polos culturais da região, reunindo arte, música, esporte, educação e resistência sob o mesmo teto. A história da Coragem não é apenas a de um espaço físico recuperado, mas a de um movimento que nasceu da articulação entre coletivos locais com atuação na valorização da cultura periférica — entre eles, o histórico movimento Reggae na Rua. Desse processo nasceu o nome C.O.R.A.G.E.M., sigla para Coletivo de Ocupação, Revitalização, Arte, Graffiti, Educação e Música.
Criado em 27 de fevereiro de 2016, o grupo foi formado por artistas de diversos coletivos do conjunto habitacional COHAB II José Bonifácio que decidiram ocupar um espaço ocioso abandonado havia mais de 15 anos, dentro de um Centro Comercial do bairro. O local, que originalmente funcionava como um mercado, encontrava-se em estado de total degradação: pilhas de entulho, infestação de ratos e a presença de animais peçonhentos faziam parte do cotidiano daquele endereço esquecido pelo poder público.
A ocupação foi fruto de meses de articulação entre artistas e moradores que já vinham, havia anos, fomentando atividades culturais no bairro. Após a tomada do espaço, seguiram-se meses de reformas — realizadas voluntariamente pelos próprios integrantes dos coletivos — sob o olhar atento e a aprovação da comunidade local, que acompanhou de perto cada etapa da revitalização.
Um dos aspectos marcantes da ocupação é sua identidade visual. As paredes do antigo mercado, antes cinzentas e cobertas de mofo, foram transformadas em telas vivas por artistas da própria periferia. Grafites, murais e intervenções artísticas tomaram conta de cada canto do espaço, fazendo do C.O.R.A.G.E.M. não apenas um local de eventos, mas também uma galeria de arte. Ao priorizar artistas locais para a composição visual do espaço, a gestão do espaço reafirma seu compromisso com a valorização da produção artística periférica, oferecendo visibilidade a talentos que, historicamente, têm pouco acesso aos circuitos tradicionais de arte da cidade.
Um detalhe simboliza, de forma quase poética, essa transformação: os próprios entulhos de madeira retirados do espaço durante o processo de limpeza e reforma não foram descartados. Em vez disso, foram aproveitados pelos artistas como matéria-prima para a criação de obras que permanecem expostas no local até hoje. Aquilo que antes era resíduo de um mercado abandonado tornou-se arte. Assim como nas demais obras que ocupam as paredes do espaço, o foco dessas peças continua sendo dar visibilidade a artistas da periferia, reforçando o compromisso com a produção artística local.
Gestão Coletiva, Plural e Majoritariamente Feminina
A gestão da Okupação Cultural Coragem é realizada por um grupo de dez pessoas, sendo a maioria mulheres. Os dados refletem uma escolha consciente de protagonismo feminino em um espaço historicamente situado em um setor onde as vozes femininas nem sempre tiveram o devido espaço de fala e decisão. Em 2020, a gestão ganhou um novo integrante: Mauro Gentil Mineiro, ator e palhaço, que passou a somar-se ao grupo gestor justamente no ano em que o espaço enfrentaria um dos maiores desafios de sua história — a pandemia de Covid-19. Sua entrada reforçou a vocação artística e comunitária da administração do C.O.R.A.G.E.M., trazendo também a linguagem da palharia e das artes cênicas para o repertório de atividades do local. Segundo o próprio Mauro, o espaço se sustenta, em grande parte, a partir de verbas e da colaboração de outros coletivos, que somam recursos, mão de obra e materiais para garantir a continuidade da programação.
Diferentemente de muitos espaços culturais que concentram sua programação em datas pontuais, a Okupação Cultural Coragem mantém atividades diárias, funcionando como um verdadeiro centro de convivência para o bairro. Ao todo, cerca de 15 coletivos diferentes atuam dentro do espaço, organizando rodas, oficinas, treinos, ensaios e encontros de segunda a domingo. Essa programação contínua abrange uma diversidade enorme de linguagens: música, dança, capoeira, teatro, grafite, skate, lutas, e outras expressões corporais e artísticas que dialogam diretamente com a cultura urbana e periférica. É essa constância que consolidou o local como referência no território.
O público que circula pelo local é igualmente diverso. Além dos frequentadores habituais dos coletivos, o C.O.R.A.G.E.M. mantém parcerias com escolas de educação infantil, ensino fundamental e médio, grupos universitários de diferentes cursos, e também com grupos de adolescentes em cumprimento de medidas socioeducativas, como a liberdade assistida. Esse alcance demonstra o papel social do espaço, que extrapola a função puramente artística e se firma como ferramenta de inclusão e ressocialização.
Além disso, a cada três meses, a ocupação promove exposições de arte, reunindo artistas consagrados da região metropolitana da capital paulista. O foco dessas galerias é claro e consistente desde a origem do projeto: dar visibilidade à produção artística das periferias, um circuito que segue sub-representado nos espaços tradicionais de exposição da cidade. O espaço já recebeu cerca de dezoito exposições de arte urbana e uma mostra iconográfica dedicada a contar a história do distrito de José Bonifácio, um registro visual da memória local.
Durante sua trajetória, a ocupação enfrentou dificuldades e diversos episódios que testaram sua capacidade de resistência e reinvenção. Com a chegada da pandemia, em 2020, o C.O.R.A.G.E.M. precisou se reinventar rapidamente. As atividades culturais presenciais foram suspensas, mas o espaço não parou, a gestão e os coletivos parceiros passaram a produzir máscaras de proteção e a organizar a distribuição de cestas básicas para famílias do entorno em situação de vulnerabilidade. Esse período marcou uma virada importante na história do local, reforçando seu papel não apenas como espaço cultural, mas como rede de apoio social em momentos de crise.
Episódios de conflito com policiais também fizeram parte de sua história. Essas situações evidenciam as tensões frequentemente vividas por ocupações culturais e espaços autogeridos em territórios periféricos, muitas vezes marcados por relações desgastadas entre comunidade e forças de segurança. Outro momento delicado foi um incêndio ateado por moradores em situação de rua que, em determinado período, ocupavam áreas próximas ao espaço. O momento expôs a complexidade de se manter um equipamento cultural comunitário em meio a múltiplas vulnerabilidades sociais que atravessam o território — uma realidade que a gestão optou por enfrentar com diálogo, e não com exclusão. Apesar de todos esses obstáculos, o espaço seguiu funcionando, reformando o que era preciso e seguindo em frente. A permanência se mostrou necessária quando, depois de anos de luta pelo reconhecimento do imóvel ocupado, a equipe conquistou, junto à Prefeitura, o aval para uso do espaço por mais quatro anos, com validade até 2030.
Já em 2024, o C.O.R.A.G.E.M. recebeu mais um importante reconhecimento: o Prêmio Periferia Viva, uma premiação que celebra iniciativas culturais e sociais nascidas e mantidas pelas próprias comunidades periféricas. O prêmio coroou anos de trabalho ininterrupto e reforçou o status do coletivo como uma das referências mais sólidas de cultura comunitária.
A Okupação Cultural Coragem é, antes de tudo, a prova viva de que territórios esquecidos pelo poder público podem ser ressignificados pela força da comunidade. De um mercado abandonado, tomado por entulho e ratos, nasceu um espaço plural, vivo e necessário. O espaço segue cumprindo aquilo que seu próprio nome promete: resistir, ocupar e, sobretudo, ter coragem para continuar existindo como espaço de arte, encontro e pertencimento na periferia de São Paulo.