Cheguei na casa do meu advogado, cansado, melancólico, pronto para cancelar uma viagem que havíamos programado há meses.
“Você é ridículo”, ele disse, “isso precisa mudar agora”.
Pegou o notebook do outro lado da mesa, levantou a tela e ficou passando os olhos durante uns 3 minutos sem nem me dirigir uma palavra. “E então?”, perguntei cinicamente. Ele me olhou ostensivo, “Espere”, respondeu seco. Após uns 5 minutos falou, “Você tem dinheiro?”. Respondi que sim. “Então é isso. Para onde vamos? Bolívia está R$1.300”. Disse que não tinha vontade de conhecer a Bolívia. “Tá bom. E uma viagem mais urbana, tipo Buenos Aires, Uruguai?”, insistiu. Achei a ideia um pouco melhor. “Não! Esquece isso. Que tal o deserto do Atacama?” - Hmm... já comecei a gostar mesmo da coisa. O Atacama parecia perfeito.
O que eu imaginava era uma mistura de Salvador Dalí com “Camping do Seu Daí”, na Chapada Diamantina: cenários surrealistas e uma galera “hiponga” pronta para festas clandestinas e noites curtidas em ácido. Essa mistura de natureza e orgia seria capaz de me proporcionar uma boa dose de alegria; sem contar que havia escutado sobre as reservas de lítio, uma substância antidepressiva que, no Atacama, flutuava no ar como a especiaria de Frank Herbert.
“Mas e os documentos? Preciso de passaporte, visto, essas coisas?".
“Que nada,” respondeu meu advogado, “Com qualquer papel você viaja para o Chile – RG, CNH, até com carteirinha de vacinação, eu acho. É o Mercosul, baby!”
“Bom, então é isso. Vamos nessa”
Eu estava bem animado – ainda que um pouco apreensivo com o imediatismo da coisa. “Você não vai fazer merda, né?”, perguntou meu advogado antes de ir embora. “Não” – definitivamente não. Respondi para mim mesmo dirigindo-lhe um sorriso falso. E saí pela porta me sentindo um pouco estranho.
Agora era hora de se movimentar. A viagem aconteceria em dois dias. Eu não tinha mala, roupas de frio, dinheiro (havia mentido sobre o fato de ter dinheiro) ou qualquer noção básica do que iria encontrar no Atacama. Só sabia de uma coisa: tinha o desejo quase sexual de andar pelo deserto em um conversível. Então, era preciso alugar um carro – coisa que é um pouco mais complicada do que parece. Quer dizer... tirando toda a burocracia natural que envolve alugar um carro, quando isto é feito internacionalmente exige-se que você tenha um cartão de crédito internacional com 500$ na conta de garantia para qualquer merda que aconteça - e eu não tinha um cartão de crédito internacional, muito menos quinhentos dólares.
Deixei essa tarefa para meu advogado; por sorte ele conseguiria utilizar a conta de um cliente rico que lhe devia alguns favores, mas ainda havia o problema do dinheiro. Então, resolvi penhorar algumas joias que tinha em casa, itens que pretendia vender para minha aposentadoria e consegui 5 mil reais nessa brincadeira. Somados com outros 2 mil na conta daria para viajar com o mínimo de dignidade.
Achei importante também ficar atento para as questões práticas do Atacama – como o clima, o tipo de lugar (se é cidade, campo, vila, etc...) se é seguro, se é fácil de se comunicar, enfim... – tudo que dizia respeito ao dia a dia.
Descobri que o Atacama é o deserto mais seco do mundo e fica numa região denominada “Sombra da Chuva,” entre a Cordilheira dos Andes e a cordilheira da Costa, que são responsáveis pela falta de água lá. A primeira impede a chegada do ar úmido proveniente do Amazonas e a segunda se interpõe entre as correntes que chegam do pacífico. E a verdade é que em alguns lugares do Atacama, desde que as medições começaram, nunca foi registrado qualquer sinal de chuva.
Em média, ele se localiza à 2.400 metros acima do nível do mar. Não é dos locais mais altos mundo, que chegam à 4.000 metros. Mas em comparação com o brasil esse fator pode ser relevante. Só para fazer uma comparação, a cidade mais alta daqui, Campos do Jordão, no estado de São Paulo, está a mais ou menos 1.600 metros acima do nível do mar; e a cidade de São Paulo, à 760 metros.
A amplitude térmica se assemelha à dos desertos do mundo todo. Isso significa que de dia faz um sol considerável e, de noite, faz um frio intenso. No mês de maio, que é considerado o melhor par o turismo, são aproximadamente 20º durante o dia e 1º durante a noite – podendo atingir temperaturas negativas. E, no inverno, em agosto, a amplitude se mantém, mas com temperaturas que variam entre -10º e 10º.
Esse conjunto de informações já me deixou tranquilo. O deserto parecia exatamente como eu havia imaginado. Repassei o roteiro de viagens e o que aconteceria após pousarmos no Chile. Descer em Santiago. Esperar 2 horas. Voltar para o avião. Mais duas horas até Calama. Alugar o carro. Dirigir até o Hostel. Fazer compras. Se ambientar.
Com tudo resolvido no plano abstrato resolvi partir para as ações objetivas, me dirigindo ao shopping center para comprar as roupas de frio e trocar dinheiro. É preciso dizer que, na adolescência, quando tinha uns 17 anos, prometi que nunca mais entraria num shopping center sóbrio, o que me levou a tomar meia garrafa de vinho uma garrafa de cerveja antes de sair. Chegando lá, fui direto à casa de câmbio, onde a mulher me obrigou a fazer um terrível cadastro.
“Muito bem, a cotação do peso chileno está em 0,0062 reais, quanto vai levar?”
“Ahn? Pode repetir. Acho que não entendi”
“Moço, cada real equivale a 0,0062 reais, em pesos chilenos. Vai levar quanto?”
Minha paciência se esgotou naquele instante. Já não bastava ter preenchido aquele formulário estúpido e agora me humilhava achando que contas de decimal são feitas assim, de cabeça.
“Senhora, me responda uma coisa. Os clientes que vem aqui usualmente são engenheiros, economistas ou matemáticos? Olha para a minha cara. Acha que sou o tipo de pessoa que sabe multiplicar frações? Me dê uma luz, pelo menos, uma aproximação. Senão vou achar que estou sendo enganado.”
Ela ficou constrangida.
“Não foi minha intenção, moço. Eu te ajudo, fique tranquilo”. Pegou uma calculadora e concluiu: “1.500 reais são 242 mil pesos.”
Depois deste momento elitista - que me sugou parte da energia remanescente - segui para a loja de roupas esperando um tratamento ainda pior. A ansiedade que a moça da casa de câmbio havia me causado fez com que eu atingisse um estado débil, quase catatônico. Não tinha forças para ficar escolhendo modelos ou pedindo descontos de 10%. Então, parei na primeira loja que vi – a vulgar Loja Renner – e comprei tudo. Casacos, lãs, segunda pele e um gorrinho. Na volta para casa, resolvi que compraria algo espalhafatoso para que as pessoas do aeroporto ficassem em dúvida sobre mim - achando que eu poderia ser uma celebridade. Era mais um desses desejos sexuais que aparecessem de vez em quando. Parei num brechó, na rua Teodoro Sampaio, já me sentindo melhor por ter saído do shopping center. A moça foi muito educada, mas ficava me empurrando um monte de roupas feias. Pedi licença a ela: “Licença, por favor. Acho que vou procurar sozinho”.
E nem precisei procurar muito. Ali, na minha frente, estava o conjunto perfeito, algo que nem os graduados em turismo usariam numa viagem ao Hawaii – uma camisa com estampa de sorvete e uma calça roxa.
Cheguei em casa bem-humorado. Peguei aquele talhão de dinheiro trocado e joguei tudo em cima da cama, como um gangster após vender seu primeiro quilo de cocaína. A nota mais valiosa – de 20.000 pesos chilenos – carregava a imagem de André Bello, uma espécie de libertador dos povos latinos; na de 10.000, a figura de Arturo Prat, um importante líder naval chileno... E, na de 5.000, aparecia a poeta Gabriela Mistral que, por sinal, havia escrito sobre o deserto do Atacama.
“O deserto preserva as memórias. É a pouca umidade, a aridez. É o sal. Como se fosse a fotografia de um tempo distante, há muito passado. Uma fotografia de centenas, milhares ou milhões de anos, dentro da qual é possível se mover...”
Absorto neste delírio estético, escuto o telefone tocar - era meu advogado. Não atendi. Dali uns três minutos recebo uma mensagem:
“EI, IDIOTA. NÃO SEI O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO, MAS É MELHOR ME ATENDER OU PELO MENOS LER ISSO AQUI. A SUA MALA NÃO PODE PASSAR DE 10KG, OK? SENÃO SEREMOS BARRADOS. E ELA TAMBÉM NÃO PODE SER MUITO GRANDE, TEM QUE CABER NO BAGAGEIRO DA AERONAVE. A GENTE NÃO VAI DESPACHAR NADA.”
Esse cara era muito chato. Nem me lembrava de quando havíamos ficado amigos. Mas ele tinha razão às vezes, e se não fosse seu conselho eu poderia ter chegado no aeroporto com uma mala gigantesca, sendo obrigado a pagar 70 dólares pelo peso extra.
A tarefa parecia difícil. Ainda mais quando descobri uma verdade triste. Não sei dobrar roupas. Na primeira tentativa, tentei copiar o método dos militares, com camisas e calças enroladas em formato de tubo, mas logo descobri que casacos e peças mais robustos simplesmente continuavam ocupando um espaço absurdo. Era necessário procurar no YouTube modos eficientes de dobrar a roupa. Sentindo um pouco de culpa de classe, digitei na barra de busca “Como dobrar roupa que nem um militar” – mas não vieram bons resultados. Depois, fui em canais específicos até encontrar um vídeo que explicava como dobrar no... “estilo do pacotinho.”
1º - Você pega sua camisa e estica ela toda numa superfície qualquer, pode ser uma tábua, uma mesa ou até o chão.
2º - Depois, dobre as mangas das camisas para dentro da roupa de modo a formar uma figura retangular.
3º - Pegue a parte de baixo desse retângulo e leve até o meio da camisa. E, depois, faça o mesmo com a parte de cima.
4º - Dobre a camisa na marca que se formou, e pronto.
5º - Agora é só encaixar um dos lados na abertura que se formou na outra ponta e colocar na mala.
Magicamente tudo ia se resolvendo. A youtuber-dobradora-de-roupas era simplesmente genial. Para cada peça (camisa, camiseta, calça, shorts, casaco moletom, casaco corta-vento, cueca, sai, luva, etc, etc etc..) ela tinha um jeito todo especial de dobrar. Era o oposto do milagre da multiplicação. Era o milagre da redução, e eu comecei a ficar bom, de modo que decorei várias dobras diferentes.
Mas o principal era que a mala estava pronta. Espetacularmente pronta. Tirei uma foto e mandei para meu advogado, com a mensagem. “Nos vemos amanhã, filha da puta”. Ele nem respondeu, mas isso era sinal de que estava com inveja desse meu novo dom. Antes de dormir, pois viajaria no dia seguinte, pedi ao meu irmão para me levar ao aeroporto. Ele concordou. Combinamos sair às 20h da quinta feira para um voo que decolaria às 23h30. Tudo feito para evitar imprevistos. Agora, era deitar a cabeça no travesseiro e esperar o momento.
Acordei no dia seguinte e não fiz nada até a hora de viajar. Só fiquei observando aquela mala linda encostada num canto do meu quarto. Perto das 20h00 vesti minha roupa de viagem e montei a nécessaire com escova de dentes, shampoo, sabonete, desodorante e um creme embelezador de origem suspeita. Meu irmão já estava pronto para sair. “Vamos? Ele perguntou?”. Pegamos o carro e ficamos parados cerca de 1h30 na Marginal Tietê até chegar ao aeroporto. Quando desci, meu advogado já esperava, gentil como sempre.
“Você está ridículo”, disse ele “onde comprou essas roupas?”.
“Não interessa,” respondi. Ele estava se referindo à minha camisa, com estampa de sorvete e à calça jeans roxa. “Dá tempo de fumar mais um cigarro?”, perguntei. Ele respondeu que sim, “Será o último das próximas 8h”.
Fiz questão de fumar dois, um em seguida do outro. Depois, entramos com nossas malas e seguimos direto para o raio-X passando antes por uma mulher que checava as passagens por QR-Code.
Na minha hora de passar pelo detector de metais a máquina apitou. Não sabia que precisava tirar as coisas do bolso. Passei de novo e, mais uma vez, ela apitou. “Bip”. “Tem que tirar o cinto também, senhor.” Tirei o cinto e... passei. Na sequência, um outro guarda se aproximou pedindo para checar minha mala. “Ai meu deus...” – pensei. Não tinha nenhuma droga ou arma na bolsa. Mas sempre alguma coisa pode dar errado. Uma ponta de baseado no bolso lateral da mala de mão, um caco de vidro solto, um isqueiro, ou... Ah! Sim... só podia ser isso, um estilete.... Um terrível estilete, enferrujado, esquecido num estojo. Seria suficiente para me prender? Achei que seria o fim de tudo... Algemado, levado para uma cela, assinando um B.O, que situação...
“Tudo certo senhor, pode seguir”
O que havia acontecido ali? Era meu inconsciente agindo favoravelmente comigo pela primeira vez em anos? Fosse o que fosse, estava salvo. Agarrei a mala e encontrei meu advogado, que olhava para o teto. Mostrei para ele meu documento. Uma CNH recém adquirida com uma foto de 2015 em que estou parecendo um assecla do Osama Bin Laden, todo barbudo, com um coletinho de lã - um aspecto debilmente criminal. Um documento que não passaria pelos Estados unidos na primeira década do século XXI.
“Por sorte, hoje tem menos preconceito”, falei.
“Pare de fazer piadas,” ele disse enfurecido – “Ainda não passamos”.
Andamos por um longo corredor, repleto de fitas separatórias e luzes de hospital. À frente, estava a cabine de imigração. “Pronto, agora era passar por ali e nada mais poderia dar errado. Quer dizer... o avião podia cair – mas isso era algo que fugia da minha alçada de controle.” Havia dois homens dentro dela: um deles simpático e o outro com cara fechada, no melhor estilo Good Cop / Bad Cop. Por ter credibilidade e um pouco mais de experiência meu advogado foi na frente e apresentou seu documento. “Ok, pode passar”, disse o Good Cop.
Na minha vez, quem pegou o documento foi o Bad Cop. Não que fosse fazer alguma diferença, mas fiquei absolutamente em pânico. Uma sensação de que tudo poderia sair errado. Ele veria minha cara barbuda, delinquente, e me impediria de viajar. Seria eu mais uma vítima do preconceito, da xenofobia e das maldades inerentes do mundo. Já começava a formular um discurso humanitário citando a fome no mundo e os horrores do capitalismo. Armaria um barraco. As TVs apareceriam, com seus repórteres descerebrados, fariam matérias e VTs, sobre mim. Meus seguidores no Instagram aumentariam em 3.000%. Seria convidado para talk-shows e afins. No fim, receberia das mãos do Papa Francisco o Prêmio Nobel da paz. Investiria os 2 milhões numa boa corretora e viveria o resta da vida com rendimentos.
“Senhor, que documento é esse?” perguntou o Bad Cop.
Subitamente, o delírio se esvaziou e eu fui contemplado com uma sensação de horror e desespero.
“Documento, senhor? Esta é minha CNH.”
“Mas você não pode viajar com isso aí não. Cadê seu R.G.?”
“Não tenho, senhor, fui roubado.” Menti.
“Você não tem mais nada aí, passaporte, talvez?”
Nessa hora, olhei para meu advogado, que havia dito que eu poderia viajar com a CNH. Ele pareceu envergonhado pela primeira vez em muito tempo. Enquanto isso, o Bad Cop continuava.
“O senhor não pode viajar com isso aí. Vai ser barrado quando chegar no Chile...”
“Espera um pouco, senhor” – Interveio meu advogado. “Ele perdeu o documento. Digo... foi roubado. Não existe aquele RG de emergência?”
“Esse não vale”
“E o RG digital?”
“Também não.”
Aquela conversa foi me enchendo o saco. De um lado, me sentia a pessoa mais estúpida do mundo ao pensar que poderia viajar portando um documento de habilitação. Os chilenos nem devem saber o que é o Detran. Mas, por outro, sentia uma raiva absurda que não poderia ser recalcada dessa vez. Fui me transformando numa ameba enfurecida. Perdi todos os sentidos. Não ouvia nada, não via nada e não me movimentava. Era apenas um corpo flanando no universo.
Enquanto isso, meu advogado conseguiu convencer o policial bonzinho a conversar com seu superior. O rapaz foi diligentemente à uma outra cabine e começou a falar com um homem careca que se fosse receber um nome nessa história seria Bad Bad Cop. Pouco tempo antes, esse sujeito gesticulava negativamente com um outro rapaz, que parecia lhe pedir alguma coisa. Não era um bom sinal. Quando Good Cop começou a falar com seu superior, os gestos negativos tomaram outra proporção, misturando-se com um sorriso cínico típico dos policiais. Vendo aquilo, não me aguentei.
“Você é um advogado de merda, sabia? Como pode não saber de algo tão básico quanto os documentos certos para viajar? Confiei em você seu filha-da-puta e agora estou passando esse ridículo com essa roupa ridícula e essa cara de cu.”
Ele não respondeu. Simplesmente virou as costas e se dirigiu para o Free shop. De longe, eu continuei gritando “Seu merda, lixo, arrombado, filha-da-puta, cuzão, corno, safado, imbecil, etc,” até que o policial bonzinho voltou e me disse.
“Senhor falei com meu superior. Ele disse que você vai poder viajar!”.
“Meu deus! Isso é sério?” – perguntei lacrimejante.
“Não. Vai embora daqui e pare de gritar. Antes que eu chame a polícia.”
Mostrei-lhe o dedo e sai correndo antes que fosse preso. No caminho de volta, a mala abriu e todos aqueles pacotinhos de roupas caíram no chão. Recolhi tudo e continuei xingando. Fui para a central da Latam e xinguei todo mundo mais um pouco. Estava revoltado. Xingava mentalmente meu advogado. Minha estupidez. O mundo. Nada podia ser feito além disso: Xingar, xingar e xingar. Xingando, passei o mês seguinte, até que pude colocar tudo no papel. Fiquei mais tranquilo. Preciso remarcar minha viagem, provavelmente para agosto. Não desisti de ir. Quanto ao meu advogado, quando ele voltar conversaremos. Um casinho desses não será suficiente para destruir nossa amizade.
Fim da história.
As fortes chuvas que atingiram o Estado de São Paulo atrasaram o plantio da segunda safra do milho, por isso, estima-se uma redução de 8% no total colhido. Como o cereal é uma das principais matérias-primas para a produção de ração animal, isso pode levar a um aumento de preço das carnes de frango e porco em cerca de 6%.
Isso ocorreu em razão do atraso na colheita da soja, safra anterior ao grão. Por conta do excesso de chuva, o ciclo da oleaginosa foi alongado, pois o produtor foi impedido de fazer o trabalho de campo.
"Agora que a colheita foi feita, as chuvas deixaram de ser um fator relevante na soja, e passaram a ser um fator importantíssimo para o milho", explica o analista agrícola Pedro Schicchi.
Com esse adiamento, essa safra corre o risco de ter sua fase final e primordial de desenvolvimento durante um período mais seco do ano, o que leva a espigas com tamanho e volume menores.
Por isso, a segunda safra está com um calendário mais estreito. “Alguns produtores decidiram por não plantar milho com medo de sair dessa janela, isso resultou em uma diminuição de 3% na área do cereal”, diz Daniel Rosa, assessor técnico da Associação Brasileira dos Produtores de Milho (Abramilho).
Se as chuvas continuarem, a disponibilidade hídrica para o desenvolvimento do cereal aumenta, mas, o problema é que tende a parar de chover, já que entramos nos meses mais secos do ano.
Em 2023, a produção de milho do Estado de São Paulo ficará próximo das 4 milhões de toneladas, uma diminuição de 8%, frente às 4,3 milhões de toneladas do ano anterior.
Produção de soja neste ano
Por outro lado, as chuvas foram um dos fatores que beneficiaram a boa produção de soja no início do ano, pela exata mesma questão que preocupa os produtores de milho.
Ela é plantada em setembro e colhida em fevereiro, por isso, recebeu muitas chuvas durante o estágio final de seu desenvolvimento, as quais favoreceram a lavoura do grão.
Além do atraso na colheita, elas trouxeram apenas dois contras: a maior porcentagem de grãos ardidos (aqueles que entraram em fermentação após receberem muita chuva) e o aumento na incidência de mofo branco e ferrugem asiática, já que elas encontraram condições ideais de proliferação, explica Candice Romero Santos, superintendente de Informações da Agropecuária da Conab.
Esses fatores não causaram impacto significativo, ao contrário do algodão, por exemplo, da qual 600 hectares de terra precisaram ser replantados em razão dos fungos.
Com a boa lavoura de soja, espera-se um cenário positivo para o mercado doméstico e para a exportação, com valores reduzidos e quantidade ampliada. No entanto, a alta no volume de produção pressiona a logística, afetando os preços e a capacidade de transporte.
Os embarques dos cinco principais complexos exportados pelo país (soja, carnes, cereais, produtos florestais e sucroalcooleiro), saídos de São Paulo, em termos de volume, diminuíram 25% em fevereiro de 2023, comparado com o mesmo mês de 2022. Em relação aos últimos cinco anos, a redução é de 12%.
Santos ressalta que esse recuo nas exportações tem relação com outras variáveis que não apenas as chuvas. Para o complexo soja e o complexo sucroalcooleiro, por exemplo, é importante pontuar que houve redução na produção.
Quando colocado na balança, segundo Schicchi, uma safra ruim de milho é mais sentida pelo bolso do consumidor final do que a soja, pois ele é utilizado na fabricação de ração para frango e porcos.
Com isso, o custo de produção dos pecuaristas aumenta, tendo consequência no preço da carne desses animais nos mercados e açougues.
Alta das chuvas e previsão para o restante do ano
Segundo Cleverson Freitas, meteorologista do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), as chuvas ficaram acima da média em grande parte de SP, atingindo até 1194 mm de volume em algumas regiões.
Elas foram causadas principalmente pelos sistemas meteorológicos que já atuam sobre o estado durante esse período, o transporte de umidade vindo da Região Amazônica, sistemas de baixa pressão, e frentes frias que atingiram o estado.
Vale lembrar que todas as regiões do país foram afetadas de alguma forma, já que os volumes de chuva foram maiores que 500 mm em áreas do norte da Região Sul, grande parte das regiões Centro-Oeste e Norte, além do centro-sul da Região Sudeste.
Porém, a previsão para junho - justamente o final do desenvolvimento dessa leva de milho -, indica o oposto desse começo de 2023. O INMET prevê volumes de chuva abaixo da média para os próximos três meses em grande parte da Região Sudeste, principalmente em São Paulo.

“Eu perdi uma consulta médica porque não consegui atravessar os dois metros de altura da água na avenida Deputado Cantídio Sampaio”, conta Quintino José Viana, um ambientalista de 78 anos. Residente do bairro Jardim Damasceno, Brasilândia, ele é presidente do “Movimento Ousadia Popular”, organização que busca preservar a área verde do bairro, e recebe com frequência reclamações de moradores que ficam presos dentro de casa sem conseguir sair quando a chuva causa enchentes na região.
Bairros localizados nos extremos da cidade sofrem situações como a descrita em períodos de chuva intensa pela falta de políticas públicas e planejamento da área que não abrange, por exemplo, obras que permitam o escoamento das águas ou sua contenção por meio da polderização, técnicas usadas para mitigar o estrago das chuvas.
O Jardim Damasceno e os demais bairros do distrito da Brasilândia, na zona norte de São Paulo, historicamente enfrentam alagamentos e deslizamentos devido a sua localização nas margens da Serra da Cantareira. Outra área que enfrenta situações semelhantes durante estações chuvosas é o bairro Jardim Pantanal, várzea do rio Tietê. A região lida com enchentes anuais desde os anos 80.
Os “extremos” são os mais afetados
Jardim Pantanal, bairro no extremo leste com forte presença do rio Tietê, e bairros próximos da Serra da Cantareira como Jardim Damasceno e Jardim Paraná, na Brasilândia, extremo norte de São Paulo, são afetados pela chuva em épocas específicas, como os meses entre outubro e março.
O Jardim Pantanal sempre sofreu com as enchentes. Em 2009, a área ficou alagada por três meses depois que uma tempestade elevou o nível do rio. Por ser uma área plana, Joyce Ferreira, 40, arquiteta e urbanista que fez parte da equipe do Plano de Bairro do Jardim Pantanal, do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB-SP), em parceria com o Instituto Alana, conta que a relação com a água no local é inerente a sua existência por ser construído às margens do Tietê.
“Você pode ter lugares que são muito declives ou aclives, que poderiam ser considerados de risco, mas que são bem urbanizados [por estarem em áreas centrais e que sofrem com a especulação imobiliária] e por isso a área suporta melhor algum evento climático”, descreve.
Em bairros como Perdizes e Pinheiros, que são repletos de morro e área de várzea, respectivamente, o mesmo fenômeno pode ser observado, no entanto, devido aos processos de inclusão urbana e atenção do Estado por não serem locais periféricos, não passam por esses desastres.
O Jardim Damasceno, na Brasilândia, embora não tenha um Plano de Bairro, também foi ocupado por comunidades autoconstruídas em áreas de risco e próximas a córregos, como os do Bananal e Canivete. Porém, diferentemente do Pantanal, com construção plana, Damasceno é um grande morro, que tem também proximidades com a Serra da Cantareira. Nesse sentido, não só enchentes atingem o local, como também o risco de deslizamentos.
A favela da Tribo, ao lado do bairro, é um caso crítico de ocupação, por estar em um terreno irregular e íngreme às margens da Cantareira. A comunidade, além das enchentes, lida com queda de árvores e deslizamentos de barrancos devido ao tempo chuvoso, configurando o local como uma área de risco.
A região não recebe apoio de autoridades no caso de enchentes por não ser regularizada. “A Defesa Civil disse que não podia fazer nada”, conta Quintino. O morador também descreve a exposição da comunidade a mananciais que são escoamento de esgoto, o que representa um crime ambiental.
O abandono urbano tem cor
Não só o recorte econômico, como também o racial, explicam como até a atualidade as periferias enfrentam problemas de infraestrutura causadas pela falta de políticas públicas. Estela Macedo Alves, 45, arquiteta e urbanista pós-doutora pela Universidade de São Paulo (USP), afirma que o conceito de “racismo ambiental" pode ser aplicado nesse âmbito, pois as vítimas desses desastres são majoritariamente negras.
Como 78% da população pobre de baixa renda é negra, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) de 2016, negligenciar as demandas das áreas de moradia dessas pessoas é deixá-las vulneráveis a desastres ambientais. Conforme o Mapa da Desigualdade (2022), o distrito da Brasilândia é formado por 50,6% de pessoas negras. Já o distrito do Jardim Helena, que abriga o bairro do Jardim Pantanal, tem 54,7% de moradores negros. Em comparação, 37% dos habitantes da cidade de São Paulo são negros.
Historicamente, quando as áreas centrais viviam o processo de modernização, as periferias não eram incluídas. Também como parte do processo de higienização, era preciso retirar do caminho pessoas pobres, como os ex-escravizados. A migração nordestina também ajudou a consolidar a desigualdade, já que essa população não tinha acesso ao território urbanizado graças à especulação imobiliária.
São Paulo se ergueu com inspiração nas metrópoles europeias, nas quais os recursos hídricos eram deteriorados e vistos como obstáculos ao crescimento, como explica Estela. Como a capital paulista precisava parecer uma cidade com infraestrutura, era necessário esconder a grande quantidade de cursos d'água por meio da canalização ou retificação.
A cidade, como foi construída em cima de bacias hidrográficas na tentativa de suprimir os rumos das águas, causa diversos problemas para a dinâmica da metrópole até hoje, sobretudo em áreas à margem.
“A construção da cidade era feita por engenheiros, sobretudo os sanitaristas, e uma das questões mais importantes era se livrar de tudo que parecia não civilizado”, afirma.
Para entender como a Prefeitura de São Paulo se posiciona em relação ao acesso pleno a políticas públicas e de urbanização dessa população, o Contraponto Digital entrou em contato com a Coordenadoria de Planejamento Urbano (Planurb) por meio do telefone e e-mail, mas não obteve resposta até o momento da publicação.
Moradores agem autonomamente com a ausência do Estado
Pela falta de execução de políticas públicas nesses locais, a própria população se vê obrigada a organizar estratégias para minimizar os danos das tragédias. Guilherme Simões, secretário de Periferias do Ministério das Cidades, explica que esses agentes coletivos estão construindo uma “economia de sobrevivência”.
De acordo com o líder da pasta, todas essas movimentações de distribuição de alimentos, mutirões de doações, entre outras ações que ocorrem em momentos de crise, são características das comunidades periféricas. Um exemplo dessas representações são as próprias associações de moradores.
Reginaldo dos Santos, 54, presidente da Associação de Moradores e Amigos do Jardim Pantanal (Amojap), conta que, em momentos de enchentes, as famílias desabrigadas são movidas pelos próprios moradores para uma quadra grande do bairro. “Conseguimos trazer alimento, cobertores, insumos e até ajuda médica”, explica. Esses mutirões contemplam cerca de 300 pessoas para almoçar e jantar, além de abrigarem mais de 40 famílias para dormir na quadra.
O coordenador de gestão da Associação dos Moradores do Alto da Vila Brasilândia (AMAVB), Cláudio Kafé, 50, resume o papel de atuação dessas organizações: “Nós não temos como prevenir esses desastres: tudo que podemos fazer é esperar acontecer e depois reconstruir.”
"O Estado sabe quais são os pontos mais vulneráveis, sabe quais as famílias em área de risco, mas, infelizmente, não toma as medidas necessárias”, explica o líder comunitário.
O secretário de Periferias afirma que esse conhecimento dos moradores das regiões deve ser utilizado no momento de elaboração de políticas públicas, sendo necessária a criação de um “Plano Diretor Municipal."
A arquiteta Ferreira explica que a elaboração desse documento é geralmente feita por órgãos do governo ao lado de especialistas. “O objetivo é ser uma diretriz de investimentos públicos para melhorias”, resume.
Em outras palavras, o “Plano Diretor” visa reconhecer os problemas desses territórios e interligar possíveis instrumentos para solucioná-los. A urbanista explica que esse plano "é um reflexo dos conflitos do local; por isso, é importante ter a participação de todos, porque é um processo democrático e o choque entre ideias é inerente.”
Da mesma forma, o “Plano de Bairro” precisa ser elaborado com base nas especificidades daquele lugar. Diferentemente do anterior, esse último documento pode ser elaborado por qualquer instituição, até mesmo aquelas de caráter civil.
Quando o Programa Universidade para Todos (PROUNI) foi lançado no longínquo 2004, a expectativa do governo de Luiz Inácio Lula (PT) era de que ele trouxesse mais equilíbrio na quantidade de alunos de classe alta e de classe baixa nas universidades do Brasil. Para além disso, era também uma tentativa de reparar o escanteamento histórico que a população pobre, principalmente a negra, teve no país. Era entendido que com a educação, os pobres, que na época representavam 33,2% % da população da época, teriam a oportunidade de crescer financeiramente e socialmente no Brasil.
No primeiro processo seletivo de bolsas, a quantidade de vagas ofertadas era baixa, um pouco mais de 95 mil. Perto dos 184 milhões de brasileiros que viviam nessa época, a quantidade de bolsa era uma unha perto da desigualdade que existia. Porém, com o sucesso do programa, o número de ofertadas foi aumentando gradativamente com o passar dos anos.
Em 2006, foram 109 mil bolsas. Em 2010, quando o programa completou 5 anos de implementação, foram 152 mil. Em 2019, ano pré-pandêmico, a quantidade de bolsas saltou para quase 250 mil. Enquanto isso, milhões de estudantes de classe baixa foram se formando e ascendendo socialmente por conta dessa política de estado. Ou seja, a expectativa de 2004 virou realidade.
Um dos exemplos mais notórios dessa mudança de vida que o estudo permitiu foi da atual comentarista da TV Globo, Ana Thais Matos. Filha de empregada doméstica, Ana Thais conta que vivia em uma situação que não era alarmante, mas era de insegurança financeira. "Minha família tem uma origem humilde, bem pobre mesmo. Minha mãe Francisca era empregada doméstica, vendia bandeiras de times no estádio do Pacaembu e cuidava de mim e dos meus cinco irmãos."
Atualmente, ela é uma das principais comentaristas da maior emissora de televisão da América Latina. Em 2022, fez história: foi a primeira mulher a comentar os jogos do Brasil em uma Copa do Mundo Masculina de Futebol. Ao lado de Galvão Bueno e o ex-lateral Junior, ela acompanhou de perto a campanha do Brasil no Qatar. Ana Thais fala que se não fossem os estudos, não conseguiria chegar lá.
"Eu devo tudo a minha força de vontade, claro, mas também a oportunidade que me foi aberta há 16 anos, em 2007. Se eu não tivesse entrada na faculdade, possivelmente não teria isso conquistado tudo isso na minha vida."

Ela lembra que quando passou na universidade, quase caiu da cadeira, pois não estava esperando a aprovação na PUC-SP. "Também tinha feito inscrição no Prouni, porque estudei a minha vida toda em colégio público. Eu estava na praia, em Itanhaém, triste, porque todas as minhas amigas já tinham passado na faculdade. Eu fiquei para trás... Até entrei numa lan house para mandar um e-mail para o meu irmão, perguntando se eu poderia morar com ele em Florianópolis para recomeçar minha vida. Quando abri, tinha uma mensagem da PUC (Pontifícia Universidade Católica) me avisando que eu tinha sido aprovada para uma bolsa através do Prouni para jornalismo. Eu quase caí da cadeira", lembra a comentarista com emoção.
Hoje, surfando na onda do sucesso, a comentarista manda um recado claro para as próximas gerações: "não deixem de estudar. Você que é de classe mais baixa, não pense que é incapaz, têm várias formas de entrar na universidade. Tem o ProUni, tem o FIES, enfim. Se eu consegui, você também pode.", finaliza Ana Thais.
LICENÇA POÉTICA - AO ALTO E AVANTE
Agora saio da terceira pessoa, do distanciamento jornalístico e me incluo nessa história. Sei que não é praxe das redações de jornais o redator colocar o seu ponto de vista em uma matéria informativa. Porém, é um assunto que mexe tanto com o meu coração e meu ímpeto que peço desculpas aos deuses do jornalismo e solicito, unilateralmente, essa licença poética para rasgar as tradições da profissão.
Digo para você, caro leitor, que as próximas gerações de prounistas têm em quem se inspirar. Não necessariamente precisa ser pessoas que estão na mídia, no vídeo, em rede nacional. Pode ser gente do nosso cotidiano. O vizinho, o colega de empresa, o primo de um grande amigo. Felizmente programas de ascensão social colou no Brasil, embora exista críticas daqueles que lutam para manter o sistema opressor de pobres desse país. Há vitória nesse programa que vai completar 20 anos em 2024. Temos 'Michelles', 'Luans', 'Dayres', 'Geyzas' e entre outros prounistas por aí tentando vencer na vida. E eu me incluo nessa.
Assim como a Ana Thais Matos, sou prounista de jornalismo na PUC-SP. Como ela, trabalho na TV Globo. E posso dizer aos quatro ventos que assim como a comentarista e milhões de brasileiros que entraram na faculdade pelo ProUni, tive minha vida transformada pelo estudo e ascendi socialmente. Sai da favela do sapé, na zona oeste de São Paulo, em uma casa que ficava do lado de um ponto de tráfico para estudar em uma das maiores universidades do país. Não quero que pare em mim e assim como a Ana Thais Matos falou na nossa entrevista: "vamos lutar pra ter mais".
Deuses do Jornalismo: fim da licença poética.
Texto: Guilherme Tirelli
Audiovisual: Maria Eduarda Magalhães
Faça chuva ou faça sol, à noite, no meio de tempestades ou ainda que caia neve, eles são figuras constantes nas ruas. No ritmo acelerado da metrópole ou na selvageria do interior, muitas vezes às margens da sociedade, sem qualquer tipo de reconhecimento, encontram-se os entregadores de aplicativo. Quase que imperceptíveis aos olhos do “cidadão”, são notados apenas quando buzinam, esbarram ou passam a centímetros do seu retrovisor. Suscetíveis aos perigos da vida urbana, o trânsito é o que menos aflige o cotidiano desses trabalhadores. Entre os carros e caminhões, atravessam semáforos triscando as latarias dos automóveis para entregar seu pedido no menor tempo possível. E fazem isso por pelo menos dois motivos em especial.
O primeiro deles diz respeito a satisfação do cliente, levando em consideração que ninguém gosta de esperar mais tempo do que o previsto para sua comida chegar – o que pode representar um feedback negativo para a empresa e empregados. O segundo e mais cruel deles é o salário, que na imensa maioria dos casos, é proporcional ao número de entregas realizadas no dia, semana ou mês. Logo, quanto mais rápido chegarem, mais pedidos serão encaminhados à eles e, consequentemente, aumentando o ganha-pão cotidiano.
Por trás dos capacetes, esse triste cenário revela uma realidade um tanto quanto desafiadora: colocar comida na mesa é muito mais difícil para quem tem que trabalhar com ela, literalmente, amarrada em suas costas. Para piorar essa situação, nas pizzarias, bares e restaurantes, os entregadores precisam embalar o pedido que acabou de sair do forno, “quentinho” e temperado. No pensamento, a imagem da sua casa, dos filhos e da esposa abatidos por conta da fome. Para garantir melhores condições para sua família, são esses os percalços aos quais eles se submetem. Trabalhar com a barriga vazia, entregando uma refeição que não é sua. Não existe nada mais cruel do que isso.
De acordo com dados divulgados pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional - Penssan, no 2º Inquérito Nacional sobre a insegurança alimentar no contexto da pandemia da Covid-19 no Brasil, coletados entre novembro de 2021 e abril de 2022, o número de brasileiros que sofrem com algum nível de insegurança alimentar ultrapassou os 125,2 milhões. O levantamento revela que, por falta de opção, inúmeras pessoas se submetem a trabalhos sem carteira assinada, temporários ou como freelancers. A questão central aqui é que nenhum deles oferece condições trabalhistas mínimas. Logo, eles não possuem direitos, muito menos garantias quanto à segurança. Trata-se de uma parcela da população que sai de casa em busca da sobrevivência.

O efeito da pandemia
No primeiro semestre de 2020, o Coronavírus se alastrou como foguete e ninguém àquela altura era capaz de prever os próximos capítulos da pandemia. Muito se ouviu sobre os trabalhadores essenciais e como eles não poderiam, em hipótese nenhuma, parar, já que o restante da população dependia diretamente dos seus serviços. Apontados e glorificados pelo senso comum como heróis, os profissionais das áreas da saúde, segurança e alimentação formavam a linha de frente no combate as consequências desse cenário pandêmico. Nesse contexto, os entregadores de aplicativo tiveram uma presença ininterrupta nas avenidas e ruas, embora fossem escassamente reconhecidos.
Em geral, a invisibilidade é rotina para a maioria desses trabalhadores. Os aplicativos de delivery, inegavelmente, dominaram o mercado de uma forma jamais vista. É compreensível, uma vez que, frequentar os estabelecimentos era inviável, logo a comida precisaria bater na porta dos clientes. Os grandes nomes por trás desse fenômeno são de conhecimento geral. iFood, Rappi e outros apps similares já eram figuras carimbadas no gosto do consumidor. As cores vibrantes e os símbolos engenhosos, infelizmente mascaram aquilo que não vemos. Nas notas fiscais o valor da entrega é creditado, contudo, é impossível aferir o preço da falta de segurança ou das noites mal dormidas. A hora-extra não paga a falta de condições mínimas de trabalho ou as dúvidas que pairam na cabeça desses motoqueiros.
Uma dessas dúvidas é se eles voltarão sãos e salvos para suas casas. O crescente número de motociclistas nas ruas afeta diretamente a quantidade de acidentes registrados. Antes do “boom” dos aplicativos, entre 2015 e 2016, as ocorrências com motos representavam 20% dos atendimentos no Hospital das Clínicas. Atualmente esse índice supera os 80%, de acordo com depoimento de Julia Maria D’Andréa Greve, coordenadora técnica do Laboratório de Estudos do Movimento da instituição. O relatório final da “CPI dos aplicativos”, ainda aponta que 60% a 70% das internações em estado mais grave no Instituto de Ortopedia e Traumatologia do hospital envolvem motocicletas.
São esses desafios que Samuel Jonatas e outros tantos entregadores enfrentam diariamente.
Já segundo uma pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o Brasil tem 1,5 milhão de pessoas que atuam como motoristas e entregadores de aplicativos, taxistas, moto-taxistas ou outras atividades feitas de maneira autônoma no setor de transporte. O mesmo levantamento apresenta que, quando se trata de moto-taxistas, mais de 73% são homens pretos e pardos. Em contrapartida, conforme a Associação Brasileira da Indústria de Alimentos - Abia, os empresários do ramo de entregas de alimentos atingiram R$ 35 bilhões de lucro em 2021.
A dor que ninguém vê
Como dito anteriormente, chegar em casa na madrugada cansado, muitas vezes faminto e ter que levantar cedo novamente no dia seguinte, sem qualquer garantia oferecida pelas empresas corresponde a um cenário desumano. Nem o mínimo no que diz respeito aos vínculos empregatícios é concedido à eles. No caso de Renato, um entregador que ganhou certa notoriedade no ano passado, para economizar o transporte diário, que girava em torno de R$ 25, muitas vezes ele dormia nas ruas do Rio de Janeiro, caso contrário, a missão de sustentar sua família ficaria ainda mais difícil.
O caso de Rafael Vaz de Lima ainda é mais chocante. Retornando de sua última entrega, teve um “apagão” – provavelmente causado por estresse, conforme a palavra dos médicos. O entregador perdeu o movimento das pernas e braços, causado pelo impacto da mochila com o seu corpo.
Histórias como essas são parte do cotidiano desses entregadores, assim como a luta por direitos básicos. Por isso, figuras como Paulo Galo, conhecido como "galo de luta", surgem para denunciar a exploração da mão de obra. Galo ganhou destaque em 2020, ao liderar o movimento "Entregadores Antifascistas" que desde o início da pandemia, têm como objetivo central, melhorar a situação dos trabalhadores do ramo.
Apesar da Lei Federal nº12009 regulamentar a profissão dos motoboys e padronizar o moto-frete e moto-táxi em todo Brasil, a medida tem mais de 10 anos e desde a assinatura do Governo Federal, pouco se avançou na questão. A falta de fiscalização e incentivos para os motociclistas se adequarem à legislação é mais um empecilho que contribui para que a situação permaneça estagnada.
Em detrimento da precariedade trazida pela falta de regulamentação, no mês passado, o presidente Lula criticou duramente as empresas de aplicativos e afirmou que elas "exploram os trabalhadores como jamais foram explorados", em discurso para a Confederação Sindical de Trabalhadores e Trabalhadoras das Américas. Além disso, alertou que é preciso retomar o diálogo do governo com o movimento sindical para formalizar um novo pacto entre os trabalhadores e as empresas. Ainda assim, esse corresponde a um pequeno passo em busca daquilo que já deveria ser direito de todos eles há muito tempo.
O dia que não terminou
Um dia inteiro têm 1.440 minutos, 86.400 segundos e na manhã seguinte daquele sábado, cada um deles fizeram a diferença. Tudo o que eu queria era que aquilo nunca tivesse acontecido. Desde a infância jogara futebol com a energia de uma criança e o coração de um garoto e nem mesmo todo cansaço, nos meus piores dias em campo, me fizeram sentir algo parecido.
Nesse dia em questão me desafiei na função de entregador. Entretanto, não tinha o relógio contra mim, nem um chefe que me demitiria caso cometesse algum deslize. No interior da minha cidade, minha rotina de entregas iniciou-se na parte da tarde, sob a tutela de um amigo que possui uma livraria. Consigo carregar os livros na minha mente e as palavras no meu imaginário. Tatuadas na minha alma, as letras não fizeram a diferença.
Nunca pensei que, nos ombros, um livro poderia pesar tanto. Ainda assim, carrega-los nas costas pedalando pareceu-me uma ideia intrigante – por isso topei logo de cara e se arrependimento matasse, já não estaria mais sob essa Terra. Quando cheguei em casa, só lembro do alívio de me atirar no sofá e “apagar”. Porém, a dor descomunal nas pernas não me deixou pegar no sono. Parecia que acabara de correr uma maratona. Aquele sentimento de cansaço como jamais presenciei antes. De repente, o alívio me levou a uma reflexão: Como seria se eu tivesse que fazer isso todo santo dia?
Nos dias subsequentes a esse, só de lembrar da experiência já sentia um calafrio, que gelava a minha espinha dorsal, numa espécie de paralisia. E então tive a certeza de que é preciso além de sangue-frio, uma coragem do tamanho do mundo para arriscar a própria vida nas ruas. Os entregadores não entregam só comida. Nas minhas horas de “expediente”, sempre tive a certeza de que voltaria pra casa e lá teria um jantar pronto esperando por mim – privilégio esse que a maioria desses trabalhadores não têm. Por trás do “bom-dia”, eles mascaram a realidade que nem todos enxergam: um cenário de muita luta e dedicação de quem exerce seu ofício priorizando o outro.