Por Gabriela Blanco e Manuela Schenk
Quando se fala no Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o debate público costuma girar em torno da luta pela terra. Mas, longe dos holofotes das disputas agrárias, existe uma outra frente de atuação que há décadas transforma vidas em assentamentos e acampamentos espalhados pelo Brasil: a educação. Mais do que garantir acesso à escola, o MST construiu ao longo de sua história um amplo projeto educacional que vai da alfabetização infantil à pós-graduação. A proposta combina ensino formal, formação política, valorização da cultura do campo e parcerias com universidades públicas. Hoje, segundo dados do próprio movimento, mais de 200 mil crianças, jovens e adultos têm acesso à educação em cerca de duas mil escolas públicas localizadas em assentamentos e acampamentos da reforma agrária. Além disso, mais de 100 cursos superiores já foram realizados em parceria com universidades públicas, beneficiando milhares de estudantes.
A importância desse investimento aparece de forma concreta na trajetória de famílias que encontraram na educação uma oportunidade de romper ciclos históricos de exclusão. É o caso de Albertiza da Costa Fernandez e Wilmer “Paco” Fernandez. Hoje assentados depois de anos vivendo em bairros periféricos de São Paulo, o casal decidiu ingressar no movimento em busca de um futuro diferente para os filhos.
“Vivemos por muitos anos nas periferias de São Paulo. Além de ser perigoso, não tinha muita perspectiva de estudo para meus filhos. A única saída era ir para lá [assentamento]”, relata Paco ao recordar sua chegada ao assentamento. A mudança não significava apenas conquistar um pedaço de terra, mas garantir condições para que os filhos pudessem crescer em um ambiente mais seguro e com acesso à educação.
A aposta deu resultado. Hoje, a família comemora conquistas que pareciam distantes décadas atrás. “A Bianca estudou na PUC, se formou em Sociologia. A Wanessa na UFSCar”, conta Albertiza. Outro filho cursa Administração e o caçula também ingressou no ensino superior. Histórias como essa ajudam a explicar por que a educação é considerada estratégica dentro do movimento.
Segundo dados do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera), criado em 1998, já ofereceu 545 cursos em todos os níveis de ensino e atendeu 192.764 estudantes em todo o País. Atualmente, milhares de jovens e adultos seguem matriculados em cursos que vão da alfabetização à pós-graduação. O programa nasceu justamente para enfrentar um dos principais problemas históricos do campo brasileiro: a exclusão educacional das populações rurais.
Entre os beneficiados por essas políticas está Wanessa Fernandez, filha de assentados e educadora da Ciranda Infantil do MST. Sua trajetória representa uma geração que cresceu dentro dos assentamentos e alcançou a universidade por meio das políticas educacionais voltadas ao campo. Formada em Pedagogia da Terra pela UFSCar e agora fazendo especialização pelo Pronera ela afirma que o acesso ao ensino superior não pode ser visto apenas como uma conquista individual, mas como um processo coletivo construído ao longo de anos de luta.
A educadora também destaca o papel da chamada Ciranda Infantil, espaço pedagógico voltado às crianças dos assentamentos e acampamentos. Segundo ela, o objetivo é garantir que os pequenos tenham acesso à educação desde cedo, valorizando suas experiências, identidades e vínculos comunitários. Ela acredita que a sociedade pode se transformar de uma outra forma. “A gente só confia naquilo que aprendeu e confia naquilo que pode mudar.”
O Pronera, responsável por parte dessa transformação, tornou-se uma das mais importantes políticas públicas voltadas para a educação rural no Brasil. Os cursos são desenvolvidos por universidades públicas em parceria com movimentos sociais, Prefeituras, governos estaduais e o Incra. O modelo busca adaptar os processos de aprendizagem às especificidades da vida no campo, permitindo que estudantes conciliem estudo, trabalho e permanência em suas comunidades.
Leonardo Severo, coordenador do setor de distribuição de bolsas do MST, conta um pouco sobre a importância do investimento na educação para o movimento: “é uma vida de mão dupla. Então, a gente divulga, ela tem autonomia para decidir que curso vai fazer. Geralmente, por elas estarem inseridas em suas tarefas, e a gente sempre vai mediando um pouco com o que a pessoa gosta de fazer para ela poder se desenvolver até melhor”. Programas como o Pronera não só ajudam a mudar a vida de milhares de beneficiados por meio da educação, mas também mantém a luta pela reforma agrária viva.
Outro símbolo desse projeto educacional é a Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), localizada em Guararema, interior de São Paulo. Fundada em 2005, a instituição tornou-se referência internacional em formação política e educação popular. Ao longo de duas décadas, recebeu milhares de estudantes, militantes, pesquisadores e lideranças sociais do Brasil e de diversos países. A escola oferece cursos de formação, especializações, seminários e programas voltados para trabalhadores do campo e da cidade.
Mais do que um espaço físico, a ENFF representa a ideia de que a luta pela terra também passa pela democratização do conhecimento. Em 2025, a instituição completou 20 anos e segue formando educadores e lideranças populares. Somente o Curso Nacional de Pedagogia do Movimento já formou aproximadamente mil participantes em diferentes estados brasileiros.
Para Paco, a educação oferecida pelo movimento foi decisiva para o desenvolvimento dos filhos e para a própria permanência da família no assentamento. “Eles tinham escola, tinham a cirandinha para crianças. Vinham da escola e iam para a ciranda. Sempre estavam ocupados e brincando”, relembra. “O mais interessante é que o MST cuida desse estilo de educação.”
A fala revela uma dimensão frequentemente ignorada no debate público: a educação não é apenas um instrumento de formação profissional, mas também de proteção social. Em comunidades marcadas pela pobreza, pela violência e pela ausência histórica do Estado, a escola representa um espaço de acolhimento, segurança e perspectivas de futuro.
Wanessa reforça essa ideia ao defender uma educação baseada em solidariedade e valores humanos. “Trazer novas perspectivas que não são as que são colocadas sempre. Com outros valores. Valores humanos, a solidariedade, a empatia”, afirma.
Os números ajudam a dimensionar o alcance desse projeto. Segundo dados do MST, mais de 50 mil adultos foram alfabetizados ao longo das últimas décadas, cerca de 10 mil educadores atuam em escolas localizadas em áreas de reforma agrária e aproximadamente dois mil estudantes frequentam atualmente cursos técnicos e superiores ligados às iniciativas educacionais do movimento. E muitos dos educadores que hoje trabalham para o movimento são pessoas como a Wanessa, que tiveram suas vidas mudadas para melhor com ajuda do MST e hoje trabalham para que outras pessoas tenham a mesma oportunidade.
Em um País onde o acesso à educação ainda é profundamente desigual entre campo e cidade, essas experiências mostram que a escola pode ser muito mais do que uma sala de aula. Pode ser um instrumento de permanência no território, de mobilidade social e, sobretudo, de construção de novos horizontes.
Para famílias como a de Paco e Albertiza, os resultados já estão diante dos olhos: filhos universitários, profissionais formados e uma realidade muito diferente daquela encontrada nas periferias onde viveram durante anos. Histórias que ajudam a explicar por que, para milhares de trabalhadores rurais brasileiros, a luta pela terra e a luta por uma educação transformadora caminham lado a lado.
Por Inaiá Misnerovicz, Helena Haddad, Julia Sena e Kaleo Ferreira
A proposta de construção da Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF) nasceu em 1996, quando o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) completava um pouco mais de uma década de existência e já se consolidava como um dos maiores movimentos sociais da América Latina. Naquele momento, a Direção Nacional do MST viu a necessidade de criar um espaço permanente de formação política para a militância e para a classe trabalhadora.
Segundo Geraldo Gasparin, membro da Coordenação Político-Pedagógica da ENFF, a proposta surgiu durante uma reunião da Coordenação Nacional do MST, no Espírito Santo, quando amadureceu a compreensão de que o Movimento precisava de uma escola própria para formar seus quadros e fortalecer os processos organizativos em todo País.
Nos três anos seguintes, o MST organizou uma ampla campanha para arrecadar recursos para a construção. Grande parte do financiamento veio da venda do livro Terra, uma obra coletiva que reuniu fotografias de Sebastião Salgado, textos de José Saramago e trilha sonora de Chico Buarque. Os três artistas doaram integralmente seus direitos autorais ao projeto. A campanha também contou com o apoio de sindicatos, organizações populares, comitês internacionais e entidades solidárias de diversos países.
A construção teve início no ano 2000, em Guararema, a cerca de 80 quilômetros da capital paulista, e logo se transformou em uma experiência pedagógica em si mesma. Cerca de 1.200 trabalhadores Sem Terra participaram das brigadas de construção ao longo de cinco anos. Organizados em grupos de 50 a 60 pessoas, eles permaneceram por cerca de dois meses na Escola, dedicando seu trabalho à construção dos prédios.
Tijolo por tijolo, a Escola foi sendo erguida pelas mãos daqueles que também seriam seus sujeitos políticos. Os tijolos foram produzidos na própria escola com a técnica de solo-cimento, uma alternativa mais econômica e sustentável que reduz significativamente o uso de ferro, aço e cimento em comparação aos métodos convencionais.
Mas a construção não se limitava às paredes. À noite, quem ainda não havia concluído os estudos participava de atividades de escolarização. Aqueles que já possuíam maior formação seguiam em processos de estudo e formação política. Enquanto a escola ganhava forma física, também se construíam conhecimentos, vínculos e consciência coletiva.
A escolha do nome não foi por acaso. Florestan Fernandes foi um dos mais importantes intelectuais brasileiros, e ao longo de sua vida jamais se separou das causas populares. Filho de mãe imigrante que trabalhava como empregada doméstica, Florestan começou a trabalhar aos seis anos como engraxador e passou por diversos ofícios antes de ocupar o espaço acadêmico. Ao longo da vida, escreveu mais de cinquenta obras, e sempre defendeu que o conhecimento deve ser um instrumento de emancipação para a classe trabalhadora. O MST não teve dúvidas de que esse seria o nome da Escola, por tudo que o sociólogo representava na luta de classes, e também pelo apoio que ele sempre deu à luta pela Reforma Agrária e ao próprio Movimento.
No dia da inauguração, Heloisa Fernandes, filha de Florestan, afirmou que com essa homenagem, seu pai retornava às suas três casas: a casa do conhecimento, a casa de seus ancestrais camponeses, e a casa de seu projeto de sociedade: o socialismo.
Os demais espaços da ENFF também carregam nomes que constroem uma memória coletiva de luta: Frida Kahlo, Patativa do Assaré, Rosa Luxemburgo, Antônio Cândido, Marielle Franco, Paulo Freire, Josué de Castro, Pagu, Doutor Sócrates Brasileiro. Cada homenagem expressa os valores e referências que ajudam a orientar o projeto político-pedagógico da Escola.
Após cinco anos de trabalho coletivo, a Escola Nacional Florestan Fernandes foi inaugurada em 23 de janeiro de 2005, com festa, mística e presença de militantes de todo o Brasil e do mundo. Desde então, foi consolidado um modelo de formação que articula estudo, trabalho, convivência e organização coletiva.
Na ENFF não existe separação entre “quem pensa e quem faz”. Todos os estudantes participam das tarefas necessárias para a vida cotidiana da Escola, desde a manutenção dos espaços até as atividades de cozinha e limpeza. O trabalho coletivo é compreendido como fundamental no processo educativo.
Para Sandra Procópio, militante do MST no Mato Grosso do Sul, a Escola expressa concretamente os valores da sociedade que o Movimento busca construir. Ao chegar à ENFF é possível perceber a revolução presente na arte, nas relações humanas, na agroecologia, na educação e na forma de organizar a vida coletiva. Para ela, a formação política está profundamente ligada à beleza, à cultura, à imaginação, à música, à dança e à capacidade de sonhar com um futuro diferente.
Os cursos variam de uma semana a três meses, e abrangem áreas como Filosofia Política, Teoria do Conhecimento, Sociologia Rural, Economia Política da Agricultura, História Social do Brasil, Conjuntura Internacional, Administração e Gestão Social, Educação do Campo, Estudos Latino-americanos. Além disso, oferece cursos superiores e de especialização, em convênio com mais de 35 universidades, mestrado e doutorado em Desenvolvimento Territorial na América Latina e Caribe, por meio de convênio com a UNESP e Cátedra UNESCO de Educação do Campo. Os professores, em sua grande maioria, atuam de forma voluntária, fortalecendo uma ampla rede de solidariedade acadêmica.
Desde o início, a ENFF foi pensada como um espaço sem fronteiras. Embora esteja localizada no interior de São Paulo, sua atuação se estende ao mundo todo. Seu modelo pedagógico parte da convicção de que quem estuda ali não estuda só para si mesmo. Estuda para voltar ao seu território e colocar em prática o que aprendeu.
Essa dimensão internacionalista pode ser vista nas turmas que reúnem participantes de diversos países. Leonardo Araújo, militante do MST do Espírito Santo e estudante do curso de Formação de Formadores Latino-Americanos, destaca a riqueza da convivência entre educandos de diferentes realidades. Em uma turma composta por representantes de 16 países da América Latina e da Europa, ele relata que o intercâmbio de experiências e os debates ajudam a compreender melhor os desafios enfrentados pelos povos do continente e a fortalecer a consciência política dos participantes.
Com professores vindos de diferentes regiões do mundo, especialmente da América Latina e do Caribe, a escola se tornou um importante ponto de encontro para militantes da Via Campesina, sindicalistas, educadores e ativistas populares. Em algumas formações, as aulas são ministradas em diferentes idiomas, refletindo o alcance internacional de uma escola nascida da luta pela terra no Brasil.
Para Igor Cordeiro, militante do MST no Ceará e participante do curso de Formação de Formadores Latino-Americanos, a importância dessas formações está na possibilidade de aprofundar o estudo da teoria social, da economia política e dos processos históricos que moldam a realidade dos povos. O conhecimento adquirido fortalece a capacidade de organização das comunidades, da juventude, dos trabalhadores urbanos e camponeses, contribuindo para os processos de transformação social.
Em dezembro de 2009, um grupo de professores, militantes e colaboradores fundou a Associação de Amigos da Escola Nacional Florestan Fernandes (AAENFF), para garantir uma campanha permanente de apoio e financiamento à escola. A iniciativa reforçou o caráter coletivo da escola, que segue sendo sustentada por uma ampla rede de solidariedade nacional e internacional.
Mais de duas décadas após sua inauguração, a ENFF continua sendo uma obra em construção. Não apenas porque seus espaços físicos seguem recebendo melhorias, mas porque cada turma, cada educador e cada militante que passa por seus corredores ajuda a renovar seu significado. Como define Sandra Procópio, trata-se de uma escola da classe trabalhadora, construída para formar sujeitos capazes de sonhar, criar, organizar e transformar a realidade.
Por Dhara Yuki
Kallen aprendeu a ler a terra antes mesmo de estudar sobre ela. Neta e filha de agricultores no norte de Minas Gerais, cresceu em um ambiente onde plantar, colher e observar os ciclos da natureza não eram conceitos, eram rotina. Quando chegou o momento de escolher uma profissão, não havia exatamente dúvida, mas continuidade. O curso de Agronomia apareceu como caminho natural, quase como extensão de uma história que já vinha sendo escrita há gerações. Formada em agronomia, ela não passou por outros trabalhos. Saiu da universidade direto para o campo onde, de alguma forma, sempre esteve. Desde 2016, atua na construção da agroecologia, já com 10 anos nessa caminhada, marcando o tempo não apenas em anos, mas em processos.
Hoje, vive em São Paulo, mas seu trabalho mantém os pés firmes em territórios espalhados pelo País. No Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), ela ocupa múltiplas frentes: integra o setor de produção, coordena uma escola de agroecologia e também participa da articulação de um dos principais projetos ambientais do movimento. A rotina não cabe em uma função só, e talvez nem faça sentido tentar organizá-la dessa forma. A escola onde atua, localizada no interior paulista, funciona como espaço híbrido, produção agrícola, formação política e articulação coletiva acontecem ao mesmo tempo. Em um território de 21 hectares, o trabalho se divide entre plantar, ensinar e organizar. Não há uma separação rígida entre teoria e prática, ambas se misturam no cotidiano.
Em paralelo, Kallen integra a coordenação do Plano Nacional Plantar Árvores, Produzir Alimentos Saudáveis, uma iniciativa que nasceu em 2020 como resposta direta à crise ambiental. Mais do que um projeto técnico, ela descreve o plano como fruto de experiência vivida através da própria vivência do povo sem terra. Desde então, o movimento já plantou cerca de 45 milhões de árvores em 24 Estados. A meta é chegar a 100 milhões em uma década. O número impressiona, mas, para ela, o foco está menos na escala e mais na lógica que sustenta o trabalho, recuperar territórios, fortalecer sistemas agroflorestais e construir uma agricultura que não esteja em conflito com o meio ambiente, pois em meio a um período de emergência climática, é necessário fazer uma agricultura que esteja aliada à natureza.
Esse princípio atravessa todas as frentes em que atua. A agroecologia, no contexto do MST, não é apenas um método de produção, mas uma estrutura que conecta diferentes dimensões: alimentação, educação, cultura e até tecnologia, onde o desenvolvimento de ferramentas de inteligência artificial voltadas à reforma agrária se torna uma tentativa de integrar inovação técnica com práticas tradicionais. Kallen não se descreve como exceção. Pelo contrário, insiste em se colocar dentro de um coletivo maior, como a classe trabalhadora do Brasil. Ainda assim, sua trajetória carrega uma coerência difícil de ignorar, da infância no campo à coordenação de iniciativas nacionais, há uma linha contínua guiada pela relação com a terra. No fim, mais do que cargos ou projetos, o que define sua história é essa permanência. Um vínculo que não foi interrompido pela formação acadêmica, nem deslocado pela mudança de Estado, foi apenas transformado e ampliado.
No centro da cidade de São Paulo, o Armazém do Campo, espaço ligado ao MST que reúne comercialização de produtos da reforma agrária, atividades culturais e debates políticos, também tem histórias para serem contadas.
Rafael Portacio cresceu em um assentamento da reforma agrária antes mesmo de compreender o significado político daquele território. Nascido em Marabá, no Pará, passou a infância no assentamento Vila 1º de Março, assentamento onde a vida cotidiana era atravessada pela experiência da terra, embora o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra não estivesse tão presente em sua rotina quanto viria a estar anos depois. Aos 21 anos, Rafael vive em São Paulo e trabalha no Armazém do Campo. Sua trajetória no movimento, no entanto, começou longe da capital paulista.
Foi no Rio Grande do Sul que ele teve contato mais profundo com a organização do MST. Ao ingressar no curso técnico em Administração e Gestão de Cooperativas, passou a compreender o funcionamento do movimento para além da experiência vivida no assentamento. A formação ocorreu em uma escola de ensino integral ligada ao MST, onde estudantes de diferentes regiões do país permaneciam durante meses em regime de alternância entre estudo e comunidade. Durante três anos, a rotina foi marcada por períodos de imersão na escola e retornos às bases. As aulas dividiam espaço com uma intensa organização coletiva. Núcleos de base, coordenações estudantis e espaços de debate faziam parte do cotidiano, criando uma estrutura em que decisões eram discutidas coletivamente antes de chegar às instâncias de coordenação.
Foi nesse ambiente que Rafael participou de mobilizações, marchas e atividades de militância. Participou de campanhas de solidariedade internacional e esteve presente em ocupações e manifestações organizadas pelo movimento. Mais do que uma formação técnica, o período representou sua principal aproximação com a dimensão política do MST. Apesar de ter se formado na área de gestão, não foi nela que encontrou seu espaço profissional. O vínculo com o movimento acabou pesando mais do que a identificação com o curso. Ao concluir a formação, buscou novos caminhos e encontrou no Armazém do Campo uma oportunidade de estágio.
O que começou como estágio rapidamente se transformou em trabalho permanente. Rafael passou pelo atendimento ao público, atuando no café e na lanchonete do espaço, até encontrar uma nova função. Com o crescimento das demandas internas, a equipe foi reorganizada e ele migrou para a área de comunicação e produção de eventos. Hoje, sua rotina consiste em coordenar atividades que acontecem simultaneamente dentro do Armazém do Campo. Debates, lançamentos de livros, apresentações culturais e encontros políticos dividem espaço no mesmo ambiente, exigindo articulação constante para que diferentes programações convivam sem conflitos.
Mesmo reconhecendo que sua trajetória dentro do MST ainda é recente, Rafael identifica na formação e no trabalho atual uma continuidade de sua própria história. A relação com o movimento começou na infância, ganhou novos significados durante os anos de estudo e hoje se manifesta no cotidiano profissional. Entre o assentamento onde cresceu, a escola onde se formou e o espaço onde trabalha atualmente, existe um percurso marcado menos por rupturas do que por permanências. Um caminho construído a partir da convivência com diferentes experiências do movimento e que, aos poucos, segue encontrando novas formas de participação, e neste caminho, fez amizades com pessoas que possuem uma trajetória tão movimentada quanto a sua.
Issanã não lembra de um momento em que o MST não fizesse parte da sua vida. Aos 17 anos, a militante catarinense costuma dizer que é “sem terrinha desde que se conhece por gente”. A expressão não funciona apenas como uma forma de identificação, mas como um resumo de uma trajetória construída dentro de assentamentos, encontros do movimento e experiências coletivas que atravessam sua história familiar. Filha de militantes e neta de assentados da reforma agrária, ela cresceu em um ambiente onde a presença do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra fazia parte do cotidiano. Os avós viveram a experiência dos assentamentos, os pais também, e a participação nas atividades do movimento acabou se tornando algo natural desde a infância.
Recentemente, Issanã deixou Santa Catarina para morar em São Paulo. A mudança veio acompanhada de uma nova etapa. Depois de concluir o Curso Técnico em Administração de Cooperativas, iniciou um estágio no Instituto Cultivar, organização responsável por desenvolver e administrar projetos ligados ao MST. O trabalho acontece nos bastidores de iniciativas que se espalham por diferentes regiões do país. Sua função está ligada à prestação de contas dos projetos financiados por instituições parceiras. Recursos destinados a atividades do movimento passam por processos de controle, organização e acompanhamento antes de serem convertidos em ações concretas nos territórios.
Embora esteja na área administrativa, o trabalho a mantém conectada a diferentes iniciativas do MST. Projetos ambientais, atividades produtivas e grandes eventos nacionais fazem parte do cotidiano da equipe. Entre planilhas, relatórios e documentos financeiros, ela acompanha como recursos são transformados em ações voltadas para a agricultura, educação, cultura e organização popular. A experiência recente em São Paulo contrasta com a formação construída ao longo dos últimos anos. Foi durante o período de estudos que sua relação com o movimento se intensificou. Antes disso, participava de encontros ao lado da mãe, frequentava cirandas infantis e acompanhava atividades organizadas em seu Estado. A partir da entrada na escola, porém, a militância passou a fazer parte da rotina.
Os dias eram marcados por tarefas coletivas, estudos e atividades organizativas. A agroecologia ocupava um lugar central na formação. Além das disciplinas, os estudantes realizavam semanas agrícolas, ações de plantio de árvores e visitas a cooperativas ligadas ao MST. A convivência com experiências produtivas permitia compreender não apenas os aspectos técnicos da agricultura, mas também a organização econômica dos assentamentos.
A escola em que estudou está localizada em uma região de produção de arroz orgânico, uma das referências do movimento no país. O contato frequente com as cooperativas fazia parte do processo de aprendizagem. Os estudantes acompanhavam diferentes etapas da produção, desde o cultivo até a organização coletiva necessária para manter os sistemas produtivos funcionando. Para ela, a solidariedade é uma das características que melhor representam o movimento. Mais do que uma organização voltada para a reforma agrária, o MST aparece como uma rede de apoio capaz de mobilizar pessoas diante de diferentes situações de vulnerabilidade.
Por Rayssa Paulino
Isadora Ferreira é natural de São Paulo e tinha apenas dezessete anos quando deixou amigos, família para trás, buscando moldar o novo futuro em solo estadunidense. Se tornou uma a mais no meio dos cerca de 230 mil brasileiros, segundo dados do instituto Pew Research Center de 2022, que vivem ilegalmente nos Estados Unidos. Sua motivação era o noivo, que é um cidadão americano e a única pessoa que conhecia no hemisfério norte.
A forma que usou para entrar no país é talvez a mais conhecida entre as não convencionais - ou ilegais. O cai-cai, termo comum para este tipo de travessia, é liderado pelo “coiote”, uma pessoa que guia um grupo cheio de sonhos e esperança pela fronteira debaixo de chuva, sol, vento, cansaço e inúmeras intempéries - climáticas ou humanas- por dias a fio até chegarem à fronteira e se entregarem à imigração americana. Ali estão de fato a própria sorte, podem ser aceitos ou deportados.
Quinze de janeiro de 2023 foi o dia D. Isadora acordou muito antes do sol nascer, às quatro horas da manhã, para enfrentar a experiência que poderia mudar sua vida para sempre. Se arrumou, pegou sua mochila e saiu rumo ao aeroporto internacional de Guarulhos acompanhada de Vanessa e José Rocha, casal de mineiros que se juntaram à garota pelo coiote. O peito tomado de ansiedade.
O check-in já estava feito e a próxima parada seria uma escala na Colômbia. Já em outro país, o tempo de espera não foi tanto, apenas três horas. Próxima parada, Guatemala. Ali a situação ficou um pouco mais apreensiva, a informação que chegava era de que a imigração estava mais chata, muito em cima e deportando passageiros. Já estava ali e não poderia arriscar, por isso esperou dentro do aeroporto até o horário do voo. Próxima parada, El Salvador. Neste momento o medo tomou conta, teria que sair do aeroporto e enfrentar a imigração. O que você veio fazer neste país? Quantos dias vai passar e quanto dinheiro tem com você? Vai ficar hospedada onde? Tem um endereço? Foram algumas das perguntas feitas pelos agentes na entrevista. Por sorte, Isadora tinha algumas informações e as que não tinha, conseguiu verificar rapidamente pelo celular. Os nervos, que já estavam nas alturas, duplicaram de intensidade quando somente ela e Vanessa atravessaram para o outro lado.
Atrás das grandes portas automáticas, outro coiote esperava para guiá-las até a próxima etapa. "Dale, dale, dale", apressava o homem. Elas foram levadas para um carro e conduzidas para um motel, onde iriam descansar e passar a noite. As cinco da manhã começaria tudo de novo.
No dia seguinte foram novamente colocadas dentro de um carro, mas dessa vez a companhia seria maior, passaram em outro motel para pegar mais imigrantes. O trajeto durou quarenta minutos e desembarcaram próximo a um rio, o primeiro desafio a ser enfrentado. O dia estava ensolarado, a mata em volta era esverdeada e o caminho do chão era rasteiro, quase que moldado pelos tantos pés que já o percorreram. A água não era funda, ficava quase a um palmo abaixo do joelho de Isa, mas a correnteza era bem forte. De braços dados, formaram uma corrente humana para se apoiar, muitos homens, mulheres e uma ou duas crianças pequenas.
Nesse momento, a paciência e perseverança foram grandes virtudes a serem testadas. A cada mini trajeto, mais duas a três horas de espera para serem levados até outro ponto. Até parados pela polícia local foram, mas nada que alguns dólares não resolvessem. Logo tiveram mais uma noite de descanso.
No dia seguinte se repetiu a rotina de acordar cedo e se mover. Sem andar tanto, foram colocados numa espécie de Pau de Arara e rodaram por quatro horas, os corpos pressionando uns aos outros debaixo de um sol de rachar, o suor escorrendo pelas testas e, num cantinho, uma pequena lágrima escorreu dos olhos exaustos de Vanessa. O carinho de Isa na mão da mulher foi leve - e o máximo que conseguiria fazer sem se mexer muito - mas o suficiente para demonstrar apoio naquele momento. Passaram de desconhecidas ao único rosto familiar que tinham. Já estavam chegando perto do México.
A nova hospedagem nada glamourosa era uma fazendinha que ficaram por dois dias. De todos os lugares que passou achava que esse era o pior, mas mal sabia o que ainda estava por vir. Não tinha chuveiro, o banho era de balde e a comida não tinha condições de comer. Mas o próximo lugar com certeza foi o mais difícil, a parte de dentro é extremamente abafada, estava lotado, a sustentação do teto era feita com vigas de madeira e todo o espaço era tomado por redes de pano. Nunca achei que ficaria tão triste vendo uma rede, disse Isadora em um riso leve.
A estadia em Cancún foi quase um devaneio comparado aos outros dias que tinha vivido até ali. O hotel era confortável, tinha piscina e pela primeira vez sentiu que estava comendo comida de verdade, parecia até que os pássaros estavam cantando para ela. Ok, era um lanche do Burger King, mas com certeza foi a melhor coisa que havia provado. Antes do balde de água fria que seria a realidade próxima, parecia estar em um mundo utópico.
O último deslocamento das meninas foi para Tijuana, ali estariam somente a um passo do tão esperado American Dream, pelo menos era o que elas achavam. A última noite na cidade trazia um misto de emoções, cansaço, apreensão, saudade de casa e da família, mas uma esperança e a sensação de que tudo daria certo. A caminhada do último transporte acompanhadas por um coiote até o muro da fronteira foi feito por pernas bambas, mas surpreendentemente firmes, com ânsia de estar do outro lado.
Chegaram no deserto por volta das quatro horas da tarde do dia vinte e quatro de setembro. Nove dias de deslocamento. Foram abordadas por um policial, até que bem educado considerando a situação, perguntou de onde eles eram e instruiu através do google tradutor que esperassem por ali. Levou água e lanches rápidos para que pudessem se recompor. Por volta das dez horas da noite, uma van apareceu para levar quem estivesse no deserto para a imigração e assim terem os seus destinos traçados. O procedimento dali para frente foi de criminosos mesmo, colheram as digitais, conferiram documentos e tiraram fotos com fundo listrado. Por ser uma menor de idade, mesmo que emancipada, Isadora foi separada de todos que tinham chegado com ela até ali e levada para uma cela de jovens.
O sentimento era completo desespero. Viu diversos outros adolescentes que estavam ali há bastante tempo, conversou com uma guatemalense que havia chegado há sete dias. Mais uma vez, questionamentos de autoridades. O que veio fazer aqui? Por qual motivo saiu do seu país? Com quem você vai morar aqui? Tem um endereço e telefone? Para a última, a resposta era sim! Seu contato fixo no país era o padrasto do noivo. Isa conseguiu falar com ele rapidamente e mais uma vez aquele fio de esperança enlaçou seu coração, achava que por terem deixado ter um contato, mesmo que mínimo e muito rápido, seria liberada mais facilmente.
Ao final Isa se sentiu muito agradecida, apesar de todo o perrengue que passou até chegar em solo americano. Sempre soube que a travessia seria difícil, tanto pelas condições ambientais, quanto pelas condições emocionais em deixar tudo para trás. Sabia que poderia ter sido muito pior, no processo muitos são presos, deportados, se ferem gravemente ou até mesmo perdem a vida. Resta a dúvida sobre se o pagamento pelo American Dream é o suficiente para compensar as marcas que ficam para sempre na alma.
Por Ingrid Lacerda
Em meio a correria diária na favela do Peri Alto, aos 51 anos, recém-viúva e mãe de três filhos, Cristiana Silva Ferreira enfrenta uma realidade compartilhada por muitas: a solidão que se impõe sem aviso, silenciosa e persistente. Sua história, porém, começa muito antes da viuvez. Cresceu sem referências maternas, criada em um ambiente predominantemente masculino onde aprendeu a guardar seus sentimentos. Logo, no fundo, sempre esteve sozinha de certa forma. A solidão não chegou com a morte do marido e o luto recente não a parou, pelo contrário, exigiu que se reconstruísse, passando a organizar sentimentos que já lhe eram conhecidos.
Assim como Cristiana, Neilde Santos Rosa, 63 anos, vive realidade semelhante há décadas. Mãe solteira há mais de 40 anos, saiu de Aracaju, no Sergipe, no caminho silencioso que leva milhares para o Sudeste em busca de realizar seus sonhos modestos com uma determinação inabalável, mas encontrou uma metrópole que oferecia condições duras de vida e pouca dignidade. Trabalhando como diarista, suas mãos carregam as marcas do ofício, que, dia após dia, limparam o mundo para que seus dois filhos pudessem viver confortavelmente. A maternidade solo nunca foi uma escolha, mas sim um caminho aceito com aquela dignidade silenciosa de quem compreende que o amor, muitas vezes, se veste de sacrifício. Aos poucos, seu corpo foi se transformando em instrumento de trabalho, sua saúde tornando-se moeda de troca por um futuro que, talvez, nem chegasse a usufruir completamente.
Um medo persistente a acompanhava o temor constante de que sua filha pudesse um dia conhecer a mesma solidão e as mesmas dificuldades que marcaram sua própria trajetória. Esse receio se materializava em gestos cotidianos na insistência com que priorizava a educação da filha, nos conselhos repetidos sobre independência financeira, nas advertências cautelosas sobre relacionamentos amorosos. Mais do que simples preocupação materna, tratava-se do legado inevitável de quem conhecia intimamente o preço amargo de uma autonomia conquistada.
Cristiana conta que, no final das contas, a solidão virou sua parceira. Não como algo desejado, mas como algo com o qual aprendeu a lidar. Admite que se reinventou, criou novos vínculos consigo mesma e aprendeu a não se culpar por não estar sempre realizada, mas, este processo de reinvenção não foi linear; envolveu recaídas, noites de choro silencioso e, aos poucos, aceitação de que felicidade poderia ter contornos diferentes daqueles que imaginara.
Para a diarista, a solidão também se tornou mestra dura, porém sábia: aprendeu a ouvir silêncio da casa, além de se ouvir - na ausência de vozes alheias, descobriu ressonâncias internas que desconhecia. Aprendeu a distinguir entre solidão que oprime e solitude que liberta, ainda que esta distinção seja tênue e móvel. A vivência da diarista aponta para processo que muitas mulheres relatam, que consiste na transformação da solidão em universo interior. Entretanto, este processo está longe de ser leve, pois, envolve desconstruções dolorosas, como quebra da crença de que ser suficiente para todos é caminho para ser amada.
A reclusão, antes ameaçadora, vira escuta. Assim, consolida-se como um dos únicos momentos em que essas mulheres deixam de cuidar dos outros para, enfim, perguntarem-se sobre si mesmas. Consequentemente, nesse caso, deixa de ser apenas ausência e torna-se também resistência. É a recusa silenciosa de definhar completamente na solidão que a estrutura social impôs.
Ademais, as duas trajetórias demonstram como a solidão da mãe solo é qualitativamente diferente de outras formas de solidão, sentindo um vazio peculiar: era a sobrecarga de ser a única a tomar todas as decisões, a única depositária de todas as preocupações. Faltava alguém para quem ela pudesse voltar-se e partilhar as pequenas vitórias e os aborrecimentos cotidianos. Com o tempo, este sentimento mudou completamente. Dos anos de agitação com crianças, passou para uma casa vazia; se antes eram preenchidas por demandas incessantes, agora é preenchida por memórias e esperas, trazendo sempre presentes em pensamento, justamente e trazendo próprios desafios, como reconstruir identidade que não seja apenas materna, como redescobrir desejos próprios após décadas de adiamento.
Frequentemente, a solidão feminina é reflexo de sociedade que espera demais e oferece de menos. Falta rede e escuta. Falta reconhecer que por trás da mulher forte existe mulher que quer poder parar e respirar. Bem como, imagem da mulher que dá conta de tudo é conveniente, principalmente para sistema que ainda delega a elas maioria das tarefas de cuidado, sem oferecer estrutura. Solidão, nesse cenário, não é ausência de pessoas, mas ausência de escuta e partilha real.
Enfim, nenhuma mulher deveria ter que desmoronar em silêncio para provar que está viva, já que talvez o que mais falte não seja força, mas liberdade para não precisar ser forte tempo todo. Inúmeras narrativas convidam a imaginar sociedade onde cuidado não seja privilégio de poucos nem fardo de alguns, mas responsabilidade de todos; até lá, seguiremos ouvindo essas vozes.
Sob o disfarce da resiliência feminina, a sociedade ainda normaliza uma estrutura de abandono emocional, invisibilidade afetiva e sobrecarga funcional. Majoritariamente, a solidão feminina é o produto final de um sistema que cobra, mas não sustenta, exigindo que mulheres sejam mães presentes, profissionais competentes, parceiras compreensivas, filhas atentas, cidadãs produtivas - tudo ao mesmo tempo. Por isso, quando essa regra falha, o que sobra não é acolhimento, e sim julgamento.