Por Natália Perez e Wanessa Celina
Guimarães Rosa, em seu livro Grande Sertão: Veredas, ecoa: “Coração cresce de todo lado. Coração vige feito riacho colominhando por entre serras e varjas, matas e campinas. Coração mistura amores. Tudo cabe”. A terra tem uma relação intrínseca com as pessoas, além da concepção de países ou cidades, ela é fundamental para a construção identitária. Crescer, viver ou morar em uma metrópole ou na zona rural inegavelmente gera características diferentes aos indivíduos - porém o conceito ainda mais relevante a ser entendido aqui é o de habitar, sentir e perceber a terra em que se ocupa.
A identidade sempre esteve ligada ao acesso à terra e ao reconhecimento de quem podia pertencer plenamente à sociedade. Desde o período colonial, o acesso ao território definiu quem podia pertencer plenamente à sociedade e quem seria empurrado para as margens: restringido, concentrando e excluindo populações inteiras. Décadas depois, movimentos sociais organizados passaram a disputar não apenas o espaço físico, mas o direito à dignidade e ao reconhecimento.
O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) ultrapassa a luta pela reforma agrária e se consolida como espaço de construção coletiva de cidadania. Nos assentamentos, a terra deixa de ser apenas meio de produção e passa a representar a luta ancestral pelo direito ao pertencimento, comunidade e proteção social para grupos historicamente marginalizados.
Foi nesse chão que Anindayê, Thaisson e Luana - militantes integrantes do coletivo LGBT+ na organização - e tantos outres aprenderam primeiro a se reconhecer como sem-terra antes mesmo de compreenderem suas próprias dissidências de gênero e sexualidade. Crescer em assentamentos significou entender, desde cedo, o valor do coletivo, da partilha e da resistência. Para além de um movimento de luta popular pela disputa territorial e pela reforma agrária, o MST faz-se referência de formação humana e política.
Para muitas pessoas LGBTQIA+, especialmente no campo, esse processo significou também a possibilidade e espaço seguro para pensar, entender a si mesmo e, por vezes, pela primeira vez de verdadeiramente pertencer. Identidades que nascem primeiro no território antes de ganharem nome no próprio corpo.
“Existe uma diversidade bem grande dentro do movimento. Recentemente houve o primeiro encontro Trans do MST, em que a gente estava lá junto, presenciou junto. Dialogamos sobre os nossos direitos, até de existir que, na verdade, é uma pauta maior que a existência: é a resistência”, explica Thaisson, coordenador do coletivo LGBT+ no Paraná.
“O Sertão é dentro da gente”
Para quem cresce dentro do MST, antes de qualquer formulação teórica sobre identidade, gênero ou sexualidade, existe a experiência concreta da terra: o cheiro da plantação, o trabalho coletivo, os encontros, as marchas, os barracos erguidos em ocupações e a noção, construída desde cedo, de que existir também é ocupar espaço. Nos assentamentos, a identidade sem-terra não é apenas política – ela é afetiva. Está na maneira como crianças aprendem cedo o significado de comunidade, de partilha e de resistência. Em um país onde a exclusão territorial historicamente definiu quem teria dignidade e cidadania, crescer dentro do movimento sem terra significou aprender que ninguém existe sozinho.
Ali, a violência histórica se transforma em experiência coletiva de enfrentamento. Embora o MST não possua um levantamento nacional sobre a quantidade de integrantes LGBTQIA+ em seus acampamentos e assentamentos, o Coletivo LGBT Sem Terra está presente com mais de 300 militantes organizados em diferentes estados do país.
“Eu posso dizer que para mim nunca foi estar só. Sempre teve gente. Principalmente mulheres”, descreve Aline Luana, integrante da coordenação do Coletivo. Formalizado em 2015, após o primeiro seminário nacional sobre diversidade sexual do movimento. Em um processo de amadurecimento interno que vinha crescendo, o encontro contou com mais de 30 integrantes. Não se tratava apenas de inserir uma “nova pauta” dentro da reforma agrária, mas de compreender que corpos LGBT+ também fazem parte da construção do campo brasileiro e da luta popular.
Com presença cada vez mais nítida, somaram-se sem vergonhas ou amarras para serem vistos. “Sou uma mulher preta, mãe, lésbica. Todo dia, eu levanto motivada a entender a minha tarefa e que eu não estou movendo só a mim. Eu estou movendo muita gente”, completa ela. Mas, insistir na própria existência, dentro de estruturas historicamente marcadas por valores tradicionais que nem sempre soube acolher diferenças, não é fácil. Ao sair do caminho imposto a ela, ainda no processo de amadurecimento identitário, Aline viveu um choque, que mudou sua forma de pensar sua existência: “Eram mais ou menos 20 homens brancos sentados à minha volta me fazendo questionamentos sobre por que eu não estava mais namorando um homem e que história era essa de eu ser lésbica”, lembra.
Foi naquele momento, ainda jovem em sua militância, que ela se deu conta da missão à sua frente: “O meu afeto, de quem eu gosto, com quem eu quero me relacionar afetivamente, isso não tem que ser ponto de pauta de reunião de ninguém. A minha construção coletiva de luta está aqui e ela é com homens e com mulheres”.
Em camadas, o pertencimento aparece e se constroi. Primeiro, há o pertencimento à terra, ao coletivo, à luta social e, então, a possibilidade de pertencer a si mesmo – em um de seus mantras mais marcantes, ela se entendeu em si: “A partir de agora, a sua tarefa histórica é todo dia levantar e dizer que você tem orgulho de ser sapatão.”
Hoje, coordenadores trans, travestis, gays e lésbicas ocupando espaços políticos, conduzindo formações e organizando assim como ela, fazem o máximo para garantir que os próximos cresçam em assentamentos encontrando referências e o apoio que outres não necessariamente tiveram. Expõe, lado a lado, bandeiras coloridas e as bandeiras vermelhas do movimento. E encontram, sobretudo, a possibilidade concreta de imaginar sua permanência.
“Eles combinaram de nos matar, mas nós combinamos de não morrer”
Dentro e fora dos assentamentos, o processo de descoberta da sexualidade e da identidade de gênero acontece atravessado por uma vivência comunitária submersa de amarras e liberdade. “Eu fui uma criança trans, mas não entendia até então o que que era. Até me reconhecer dentro dos espaços não me expressava muito, exatamente porque nem me entendia muito bem”, relembra Thaisson.
Assim como toda característica e vivência que torna alguém, si próprio, cada pessoa trans tem a sua particularidade, trajetória e especificidade de acolhimento. Com isso em mente, em 2025, o Coletivo promoveu o 1º Encontro Nacional Trans do MST. No País em que mais se mata pessoas trans e travestis do mundo, liderando o ranking de assassinatos há 16 anos – segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais – viver torna-se revolucionário.
O movimento não elimina e nem é imune aos conflitos ou preconceitos, mas o Coletivo faz questão de oferecer algo ainda raro para pessoas dissidentes no território brasileiro: a chance de não enfrentar o mundo completamente sozinhas. “A luta é coletiva, formada por pessoas diversas, porque sozinho a gente não vai fazer nada” – ele reafirma – “A luta só terá sentido se a gente colocar como prioridade que a igualdade vem em primeiro lugar.”
Sobre sua participação no Coletivo, o coordenador explica que, para além do diálogo, o movimento proporciona oportunidades de vida e formação que pessoas trans e travestis marginalizadas pelo país enfrentam ainda mais dificuldades para alcançar. Na vivência dele, por exemplo, fazer parte dessa rede proporcionou viagens, bagagens e até uma formação universitária com um propósito ainda maior.
Integrante da comunicação, do coletivo LGBT e do coletivo de juventude do MST Alagoas, Anindayê, esteve presente no encontro e explicou a importância de se pensar, falar e, ainda mais, ouvir pessoas trans e travestis, como ela: “Meu movimento de me compreender enquanto uma pessoa travesti foi paralelo à minha inserção no movimento. Nós que somos LGBT temos determinadas coisas colocadas na nossa cabeça. As pessoas sempre estão dizendo quem nós somos, mas sem abrir espaço para que possamos refletir sobre nós mesmos e compreender nosso lugar no mundo."
E o diálogo tem tido efeito, criando mais espaço e mais alinhados. “A gente está lado a lado com as pessoas, fazendo elas entenderem que não é nenhum bicho de sete cabeças. Eu não deixo de ser uma pessoa que presta por ser LGBT, sou só trans.” Mesmo assim, ela destaca que pertencer aos assentamentos acalentou sua trajetória. “Nunca senti que estar no movimento dificultou esse processo. Pelo contrário, o movimento trouxe uma rede de apoio.”
E, talvez, seja aí que reside uma das maiores potências de como a presença desses militantes modifica o próprio movimento e faz surgir novos questionamentos à realidade e obriga a revisitação e inova as práticas, discursos e formas de convivência que oprimem a todos. “O patriarcado destrói, o capitalismo faz a guerra, o sangue LGBT também é sangue sem terra. Seja o machismo, seja o racismo, seja LGBTfobia – pensar a reforma agrária e pensar a luta pela terra tem que ser junto com tudo isso”, declara ela.
“Há que endurecer, mas sem perder a ternura jamais”
No fim, talvez a relação entre pessoas LGBT+ e o MST seja justamente sobre isso: a busca contínua por um lugar onde a existência não precise ser fragmentada. Um lugar onde a terra, para além da produção ou sobrevivência – é também afeto, memória e possibilidade. Como escreveu Clarice Lispector, “pertencer é viver” e a presença LGBT+ há de perseverar – organizando coletivos, ocupando coordenações e transformando os assentamentos em territórios mais plurais. Se a luta pela terra exigia resistência, diante do latifúndio e da violência histórica no campo, a luta por reconhecimento da própria identidade dentro desses espaços aos poucos tem sido um passo a mais na coragem cotidiana.
Somando-se cada vez mais, o coletivo LGBT+ integrado ao MST cresce junto às novas gerações que já encontram no movimento um espaço menos solitário do que aquele vivido por quem veio antes. Entre marchas, plantações e assembleias, constrói-se a ideia de que semear também é criar futuro em que o direito de verdadeiramente ser é irrevogável. Como no coração descrito por Rosa, no fim: a luta, a identidade, o afeto e a esperança... tudo cabe.