Brigadas no exterior do Movimento Sem Terras são símbolo de resistência
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Enrico Peres, Fernando Amaral, João Palhares e Liz Ortiz
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18/06/2026

Por Enrico Peres, Fernado Amaral, João Lucas Palhares e Liz Ortiz

 

A história do MST sempre representou muita luta. O movimento, que foi formado em janeiro de 1984 a partir de uma união de trabalhadores rurais que convergiram no primeiro Encontro Nacional, realizado em Cascavel, no Paraná, é o resultado da grande necessidade de - no Brasil. Após o evento de janeiro de 84, foi realizado o primeiro Congresso do MST em janeiro de 1985, e dele as ideias de ocupação como forma de luta, junto dos princípios do movimento relacionados a luta pelas terras, reforma agrária e o socialismo começaram a ser idealizados.  Entre fracassos e sucessos, como o assentamento de 90 mil famílias graças ao Plano Nacional da Reforma Agrária, realizado em pequena escala em relação com a prévia inicial de 1,5 milhão, a realização do segundo Congresso do movimento, em Brasília, com a reafirmação das ocupações em pauta, o MST crescia em sua infraestrutura e dentro do âmbito político nacional. 

Junto a isso, em 1993, foi criado a Via Campesina, um conjunto internacional que aglutinava organizações camponesas, pequenos agricultores, trabalhadores agrícolas e comunidades indígenas. A fundação oficial do grupo se deu em uma conferência internacional realizada em Mons, na Bélgica, com presença do MST, que era aliado desde antes da concepção da Via Campesina. Com esse conjunto operante, se abriram portas dentro do MST para dialogar com movimentos campesinos no mundo inteiro em prol de restaurar a soberania alimentar em países agredidos pelo imperialismo. 

A história do MST sempre representou muita luta. O movimento, que foi formado em janeiro de 1984 a partir de uma união de trabalhadores rurais que convergiram no primeiro Encontro Nacional, realizado em Cascavel, no Paraná, é o resultado da grande necessidade de - no Brasil. Após o evento de janeiro de 84, foi realizado o primeiro Congresso do MST em janeiro de 1985, e dele as ideias de ocupação como forma de luta, junto dos princípios do movimento relacionados a luta pelas terras, reforma agrária e o socialismo começaram a ser idealizados.    Entre fracassos e sucessos, como o assentamento de 90 mil famílias graças ao Plano Nacional da Reforma Agrária, realizado em pequena escala em relação com a prévia inicial de 1,5 milhão, a realização do segundo Congresso do movimento, em Brasília, com a reafirmação das ocupações em pauta, o MST crescia em sua infraestrutura e dentro do âmbito político nacional.   Junto a isso, em 1993, foi criado a Via Campesina, um conjunto internacional que aglutinava organizações camponesas, pequenos agricultores, trabalhadores agrícolas e comunidades indígenas. A fundação oficial do grupo se deu em uma conferência internacional realizada em Mons, na Bélgica, com presença do MST, que era aliado desde antes da concepção da Via Campesina. Com esse conjunto operante, se abriram portas dentro do MST para dialogar com movimentos campesinos no mundo inteiro em prol de restaurar a soberania alimentar em países agredidos pelo imperialismo.    Mulheres Membras da Vía Campesina em Tlaxcala, México, em 1996. Reprodução: Capire  O MST começou a organizar brigadas internacionais, mas foi antes das brigadas e até antes da criação da Via Campesina que o MST possui essas relações e ambições internacionais. Conversamos sobre a história do Internacionalismo do movimento e sobre as brigadas com Judite Santos, membro da Coordenação Nacional e militante do MST. Para ela, o Movimento sem Terras nasceu como uma organização internacionalista, carregando heranças de lutas anteriores no Brasil e na América Latina
Mulheres Membras da Vía Campesina em Tlaxcala, México, em 1996. Reprodução: Capire

O MST começou a organizar brigadas internacionais, mas foi antes das brigadas e até antes da criação da Via Campesina que o MST possui essas relações e ambições internacionais. Conversamos sobre a história do Internacionalismo do movimento e sobre as brigadas com Judite Santos, membro da Coordenação Nacional e militante do MST. Para ela, o Movimento sem Terras nasceu como uma organização internacionalista, carregando heranças de lutas anteriores no Brasil e na América Latina e revoluções que estavam acontecendo junto da crescente do MST. Essa bagagem histórica faz os militantes carregarem esse senso de senso de processo revolucionário, de estarem fazendo por meio das brigadas, segundo Judite, um dever humanitário.  

Os militantes que se voluntariam para as missões internacionais são coordenados e orientados antes das missões, para estarem preparados na hora do contato com uma cultura diferente, realizando um processo de estudo sobre a história e da formação social, política e econômica do país para evitar um grande choque cultural. Isso se dá pelas brigadas não serem apenas missões ocupacionais, são também uma ajuda com objetivo de restaurar a cultura de povos sob ameaças constantes do imperialismo. Ao realizar uma brigada internacional, as pessoas que lá vão entram também em contato com comunidades agredidas que precisam de ajuda.  

Na Zâmbia, o MST faz um processo de alfabetização com crianças e adultos da região, assim como já fizeram em Cuba. Atualmente, existem brigadas na Zâmbia, Venezuela, onde atuam desde 2005 e no Haiti, que, após o terremoto que devastou o país em 2010, sempre é ajudado pelos militantes. Na Venezuela, com os acontecimentos recentes do ataque imperialista que o governo estadunidense realizou, aconteceu a Brigada Pela Solidariedade, que levava a juventude do MST para visitar o território.  Uma outra grande missão foi a Brigada Ghassan Kanafani, realizada na Palestina que ajudava camponeses na colheita de azeitonas, pois lá era uma área que constantemente era atacada pelo exército de Israel. Devido ao aumento do conflito e das invasões israelenses, a brigada não consegue mais ser realizada. 

Além das brigadas, Judite contou também de sua história e sua relação com o movimento. Filha de trabalhadores rurais, ela cresceu com o projeto em sua vida e, em sua formação, foi se tornando uma militante. A família de Judite, que não possuia terras, conheceu e entrou no MST após o massacre de Eldorado dos Carajás, realizado em abril de 1996. Na ocasião, uma manifestação de reinvindicações dos direitos dos trabalhadores, que fizeram uma marcha até a cidade de Belém, no Pará, acabou com a morte de 21 trabalhadores pela polícia do estado do Pará. Esse acontecimento levou a intensificação pela luta de terras. Hoje, a família de Judite é assentada e ainda é ativa no MST.  

Judite Santos durante a Secom, em 2024. Foto: Rafa Neddermeyer/ Secom
Judite Santos durante a Secom, em 2024. Foto: Rafa Neddermeyer/ Secom

A luta do Movimento Sem Terras continua, com diversas articulações internacionais, movimentos, organizações que conseguem se mobilizar para o futuro da luta dos povos, cada vez dialogando mais com diferentes povos. A Via Campesina, hoje, abriga 180 organizações e mais de 80 países, e se articula com o objetivo de lutar pela independência e pela soberania de países agredidos. 

 

 

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Após anos de permanência no território, moradores veem a regularização da terra se aproximar e celebram uma trajetória marcada por trabalho, luta e pertencimento. 

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Maria Dantas, Pedro Menezes e Yan Gutterres
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18/06/2026

Por Maria Dantas, Pedro Menezes e Yan Gutterres

 

Em uma área cercada por condomínios de alto padrão e pela intensa valorização imobiliária da Região Metropolitana de Campinas, centenas de famílias celebram uma trajetória marcada pela resistência, pela produção de alimentos e pela luta por moradia e reforma agrária. O Acampamento Marielle Vive, organizado pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), completa oito anos de existência, se consolidando como uma das principais experiências de organização popular do estado de São Paulo.

Fundado em 2018, o acampamento surgiu a partir da ocupação da fazenda Eldorado Empreendimentos, considerada improdutiva em Valinhos. Desde então, o local passou por disputas judiciais, ameaças de despejo e desafios relacionados à permanência das famílias no território. Apesar das dificuldades, a comunidade conseguiu estruturar uma experiência coletiva que vai além da reivindicação pela terra, incorporando práticas de produção agrícola, educação popular, preservação ambiental e fortalecimento dos laços comunitários. O nome escolhido para o local homenageia a vereadora Marielle Franco, assassinada no Rio de Janeiro poucas semanas antes da ocupação. A escolha refletia o momento político vivido pelo país e também os valores defendidos pelas famílias que chegavam ao terreno: a luta por direitos, justiça social e participação popular.

No dia 18 de julho de 2019, as famílias do MST estavam na Estrada do Jequitibá, na cidade de Valinhos, interior de São Paulo, realizando um ato de denúncia aos poderes públicos locais por conta da falta da garantia do direito à água. Entre elas estava Seu Luís, como era conhecido por todos, um nordestino que, como tantos homens e mulheres, tinha migrado à região sudeste do Brasil em busca de trabalho. Neste dia, Seu Luís foi atropelado pelo vendedor Léo Luiz Ribeiro durante uma manifestação por falta d’água de moradores. A caminhonete acelerou por trás de um ônibus que estava parado, entrou na contramão e passou por cima das pessoas (acampadas e apoiadores) que estavam participando da jornada pela água e fugiu sem prestar nenhum socorro.

Gerson Oliveira, coordenador do acampamento, conta que a fazenda já tinha sido ocupada cerca de dez anos antes do Marielle Vive, mas foram despejados de forma violenta após mobilização e forte repressão da tropa de choque. Decidiram, então, em 2015 retomar o trabalho de base em Campinas, e passaram a estudar a realidade econômica da região e de como a crise se instalava nas periferias, influenciado pela saturação da região metropolitana de São Paulo, onde o município do interior paulista passou a ser o foco da imigração. A cidade, porém, não conseguia mais acolher os trabalhadores na mesma intensidade de antes, o que resultou na formação de bairros periféricos.

Coordenador do Acampamento, Gerson Oliveira, discursando no aniversário do acampamento
Gerson Oliveira discursando no aniversário do acampamento. Foto: Yan Gutterres

A cidade de Campinas foi fundamental para o processo de retomada daquela terra. Gerson relata que foi uma redescoberta de Campinas pelo MST, pois ali era uma região que sempre deu bons frutos para o movimento, contribuindo para a exportação de militantes, sendo crucial para a construção do MST no estado de São Paulo, já que muitos dos trabalhadores vivendo nas áreas periféricas da cidade já haviam participado da luta anteriormente, então o contato e principalmente o convencimento de retomar esse processo de luta aconteceu de maneira muito fácil e muito natural.

Enquanto o primeiro ônibus chegava na frente da fazenda, o último comboio ainda estava chegando na cidade de Valinhos, há cerca de 8,5km dali. Quando as primeiras famílias chegaram à área, na madrugada do dia 14 para o dia 15 de abril de 2018, encontraram um terreno marcado pelo abandono. O que viria depois foi resultado de um processo coletivo construído diariamente por homens, mulheres, jovens e crianças que decidiram apostar na permanência e na organização comunitária. Segundo Gerson, o cenário era de muito frio - menos de 10°C - e o mato estava em uma altura que chegava até a cintura. Diante disso, de imediato os trabalhadores e trabalhadoras se mobilizaram. Ainda nas primeiras horas, começaram a surgir os primeiros esforços para erguer estruturas improvisadas, limpar áreas para barracos e organizar a ocupação do terreno, transformando o cenário de abandono em um ambiente em processo de construção comunitária. 

Apesar disso, o cotidiano do acampamento nunca se resumiu à disputa pela terra. Entre processos e tentativas de despejo nos tribunais, parte da comunidade se dedicava às articulações políticas e jurídicas pela permanência na área. Paralelamente, a produção agrícola foi se consolidando como eixo central da vida no território. Hortas comunitárias passaram a ocupar espaços antes tomados pelo mato, e diferentes culturas começaram a ser cultivadas de acordo com a experiência e o conhecimento trazido pelas próprias famílias. Aos poucos, o território passou a produzir alimentos que abastecem feiras, mercados locais e iniciativas de comercialização direta, aproximando produtores e consumidores.

O acampamento também teve sua importância no aspecto político. Em um momento no qual o Brasil passava por momentos turbulentos, desde o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, em 2016, até a ascensão da extrema direita em 2018, com a eleição do ex-presidente Jair Bolsonaro, o Marielle Vive foi essencial, dando uma espécie de injeção de ânimo para a esquerda na região. Para Gerson, em determinado momento o local passou a ser uma trincheira, reunindo atos e juntando militantes de diversos partidos de esquerda. Ele também conta que era incrível olhar toda aquela mobilização, tanto por conseguir juntar diversas frentes para conversar sobre o processo de luta que estava sendo vivido ali, quanto pelo fato de nunca ter havido antes uma perspectiva de como a luta pela terra pudesse ser uma vanguarda de reunião da classe.

Uma das principais marcas do acampamento é a produção agrícola desenvolvida pelas famílias. Em áreas coletivas e lotes cultivados pelos moradores são produzidos alimentos como hortaliças, frutas, legumes e ervas medicinais, parte deles destinados ao consumo interno e parte comercializados em feiras e circuitos de economia solidária. Sueli Oliveira é uma das quase 800 pessoas que residem no acampamento, trabalhando principalmente na agricultura do local. Além da produção, os moradores organizam mutirões, assembleias e atividades coletivas que contribuem para a manutenção da infraestrutura local e para a tomada de decisões da comunidade. 

Sueli é um exemplo de como a luta pela terra segue viva. Ela relata que o acampamento a reencontrou depois de uma vida marcada pelo trabalho, pela criação dos filhos, pela viuvez e por uma sensação que o movimento soube acolher: a de que ainda havia lugar para ela na história. Sueli passou a infância na área rural, no Paraná, até que a lógica da monocultura e a necessidade de sustentar a família empurraram seus parentes para a cidade. Foi ali que a terra ficou para trás, enquanto o peso do trabalho se acumulava. 

No Marielle Vive, ela diz ter voltado, de algum modo, à primeira infância, e também a uma forma de pertencimento que havia se perdido ao longo do caminho. A vivência da agricultora se entrelaça à trajetória do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), oficializado em 1984, mas gestado na década de 1970 por meio de ocupações de áreas improdutivas. O movimento nasceu do encontro entre a concentração fundiária no Brasil, a modernização desigual do campo e a resistência de famílias que se recusaram a aceitar a exclusão como destino. Desde então, a reforma agrária deixou de ser apenas uma pauta legal e se tornou também uma disputa por permanência, trabalho e dignidade.

Sueli lembra que, no começo, não havia água encanada, o acesso era difícil e a rotina incluía ir até a cidade buscar água para a cozinha coletiva. Ela relata episódios de tensão com a polícia, que por vezes derrubava a água transportada para o acampamento, além de documentos rasgados e da sensação permanente de enfrentamento. Ainda assim, insiste ter sido ali que encontrou sentido para continuar. 

Sueli trabalhando na horta do acampamento
Sueli trabalhando na horta do acampamento. Foto: Maria Dantas

Enquanto trabalha na horta, ela conta que cada função dentro do acampamento é revezada entre os moradores a cada dia, desde a produção agrícola, passando pela manutenção da infraestrutura do acampamento, como moradias, cozinhas coletivas e espaços de convivência, até os trabalhos de educação e alfabetização, com atividades de Educação de Jovens e Adultos (EJA), projetos de alfabetização e formação política e cultural. Ela explica também que esse processo de participação coletiva vem desde a infância. As crianças que vivem no acampamento são incentivadas a acompanhar as atividades da comunidade e a compreender a importância do trabalho coletivo, da cooperação e do cuidado com a terra. 

A permanência no local representa também uma forma de resistência pessoal. Depois de criar os filhos e vê-los seguir a vida na cidade, Sueli diz que não queria se tornar um peso para a família nem passar a velhice isolada e adoecida. No movimento, encontrou outra forma de viver a maturidade: com tarefas, convivência e propósito.

Passada a comemoração pelos oito anos de luta, o Marielle Vive passa agora por uma etapa decisiva. Após anos de disputas judiciais, mobilizações e permanência no território, o governo federal anunciou em 2026 a compra dos terrenos da fazenda Eldorado para o assentamento das famílias que vivem no local. O Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) iniciou as tratativas para transformar a área em um Projeto de Desenvolvimento Sustentável, voltado à produção agroecológica e à preservação ambiental. 

Para os moradores, porém, o assentamento representa mais do que a regularização da posse da terra. Significa o reconhecimento de uma experiência construída coletivamente ao longo de oito anos, em que barracos deram lugar a moradias, áreas abandonadas se transformaram em espaços produtivos e a luta pela terra se converteu também em uma luta por pertencimento. Enquanto o processo segue em andamento, as famílias continuam cultivando alimentos, formando novas gerações e mantendo viva a organização comunitária que permitiu ao Marielle Vive resistir até aqui.
 

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Mais do que uma forma de arte, a música funciona como ferramenta política. No Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) ela se apresenta como um registro de sua história e luta.
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Laila Santos e Julia Cesar Rangel
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18/06/2026

Por Laila Santos e Julia Cesar Rangel

 

A música ocupa um papel central no cotidiano e na organização do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Ela está presente desde as primeiras ocupações de terra até as atividades mais recentes do movimento. Mais do que uma forma de arte, a música funciona como ferramenta política, ajuda a fortalecer a identidade coletiva, serve como espaço de aprendizado e também registra a história da luta pela terra no Brasil. Ao longo de mais de 40 anos, as músicas criadas dentro do movimento surgiram da necessidade de mostrar a realidade dos trabalhadores rurais e fortalecer a união entre eles.

Segundo Dandara, integrante da Coordenação Nacional do Coletivo de Cultura do MST, a música é “a linguagem mais familiar e cotidiana” do movimento. Ela explica que não existe ocupação, marcha, feira, festa ou acampamento sem música. Essa relação existe desde o começo da organização. Embora o MST tenha sido fundado oficialmente em 1984, o primeiro registro musical com composições próprias do movimento surgiu em 1985, com a fita cassete "Dor e Esperança", gravada de forma simples pelos próprios militantes.

A presença da música no MST também está ligada à história do próprio movimento. Antes mesmo da fundação oficial, a música já fazia parte da vida no campo e das lutas populares que vieram antes do MST, como as Ligas Camponesas, a Guerra do Contestado e outros movimentos rurais. Além disso, grupos como as Comunidades Eclesiais de Base e a Comissão Pastoral da Terra ajudaram a fortalecer o uso da música como forma de mobilização e organização coletiva.

Nesse contexto, a música ajuda a construir o significado do que é ser “Sem Terra”. Para o movimento, essa identidade não está ligada apenas à falta de terra, mas à experiência coletiva da luta. Segundo Dandara, “é uma identidade produzida pela luta”. As músicas ajudam a comunicar os debates internos do MST, seus valores políticos e as pautas de cada momento histórico. Ao mesmo tempo, fortalecem os laços entre as pessoas do movimento, reforçando a ideia de coletividade.

As canções também têm diferentes funções políticas e sociais. Muitas denunciam injustiças, falam sobre resistência e incentivam a luta. Outras ajudam a espalhar informações importantes dentro dos assentamentos e acampamentos, principalmente em épocas em que o acesso à comunicação era mais difícil. Durante as mobilizações pela educação no campo, por exemplo, várias músicas defendiam a alfabetização, a reforma agrária e uma educação ligada à realidade dos trabalhadores rurais. Além da comunicação interna, a música também serve para dialogar com a sociedade. O MST usa a cultura para explicar suas pautas, disputar narrativas e mostrar sua visão de país. Dandara afirma que a música do movimento também “incomoda” adversários políticos, justamente porque deixa claros os conflitos de classe ligados à disputa pela terra. Assim, a produção musical se torna também uma forma de enfrentamento político.

Nos assentamentos e acampamentos, a diversidade cultural brasileira aparece nos diferentes estilos musicais presentes no dia a dia. Ritmos como forró, toada amazônica, chamamé, rasqueado e moda de viola convivem com cantos religiosos e músicas ligadas ao trabalho no campo. Essa mistura mostra que, mesmo com diferenças regionais, existe uma unidade cultural construída em torno da luta pela terra e da identidade Sem Terra.

Outra característica importante da produção cultural do MST é a relação entre música e trabalho. Nos últimos anos, iniciativas como o bloco carnavalesco Pisa Ligeiro, criado em Minas Gerais, passaram a usar enxadas como instrumentos musicais. A ideia é transformar um símbolo do trabalho rural em elemento artístico. Segundo Dandara, o uso das enxadas reforça a identidade camponesa e conecta três partes da vida no campo: a produção agrícola, a resistência e a cultura.

Essa experiência inspirou outras iniciativas, como orquestras de enxadas em diferentes estados do Brasil. Além do impacto visual, a prática também desenvolveu técnicas musicais específicas, explorando os sons produzidos pelos diferentes tamanhos e formatos das ferramentas. Para o MST, esse tipo de manifestação mostra que a cultura popular nasce da vida cotidiana e do trabalho coletivo.

A música também tem um papel importante na preservação da memória histórica do movimento e das lutas populares. As canções ajudam a registrar acontecimentos, manter vivas experiências de resistência e conectar diferentes gerações de militantes. O repertório do MST dialoga tanto com momentos históricos brasileiros quanto com experiências internacionais, como a Comuna de Paris e a Revolução Russa. Músicas como “A Internacional” aproximam o movimento de outras lutas sociais ao redor do mundo e reforçam a ideia de internacionalismo presente no MST.

Ao mesmo tempo, a produção musical continua mudando com o tempo. Sem abandonar suas raízes camponesas, as músicas mais recentes passaram a incluir debates sobre racismo, gênero e política, mostrando os desafios atuais enfrentados pelo movimento. Iniciativas como a Oficina Nacional de Música, realizada em Belo Horizonte, reforçam a importância da formação artística dentro do MST, com estudos de composição, canto, instrumentos e expressão corporal. Entre tradição e renovação, a música no MST continua sendo uma forma de resistência, aprendizado e organização coletiva. Mais do que acompanhar a história do movimento, ela ajuda a construir sua identidade, preservar sua memória e fortalecer a luta social no cotidiano dos trabalhadores rurais.

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Quando a luta é pela terra e pela transformação social, a música também se torna instrumento de resistência. Nos acampamentos, assentamentos e mobilizações, ela fortalece a memória coletiva, aproxima gerações e dá voz ao projeto popular construído pelo MST.
por
Laila Santos e Julia Cesar Rangel
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18/06/2026

 

 

Por Laila Santos e Julia Cesar Rangel

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Com atuação em diversos estados, o LGBTs Sem-Terra transforma experiências de invisibilidade em organização política, formação e resistência coletiva.
por
Natália Perez e Wanessa Celina
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18/06/2026

Por Natália Perez e Wanessa Celina

 

Guimarães Rosa, em seu livro Grande Sertão: Veredas, ecoa: “Coração cresce de todo lado. Coração vige feito riacho colominhando por entre serras e varjas, matas e campinas. Coração mistura amores. Tudo cabe”. A terra tem uma relação intrínseca com as pessoas, além da concepção de países ou cidades, ela é fundamental para a construção identitária. Crescer, viver ou morar em uma metrópole ou na zona rural inegavelmente gera características diferentes aos indivíduos - porém o conceito ainda mais relevante a ser entendido aqui é o de habitar, sentir e perceber a terra em que se ocupa.

A identidade sempre esteve ligada ao acesso à terra e ao reconhecimento de quem podia pertencer plenamente à sociedade. Desde o período colonial, o acesso ao território definiu quem podia pertencer plenamente à sociedade e quem seria empurrado para as margens: restringido, concentrando e excluindo populações inteiras. Décadas depois, movimentos sociais organizados passaram a disputar não apenas o espaço físico, mas o direito à dignidade e ao reconhecimento.

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) ultrapassa a luta pela reforma agrária e se consolida como espaço de construção coletiva de cidadania. Nos assentamentos, a terra deixa de ser apenas meio de produção e passa a representar a luta ancestral pelo direito ao pertencimento, comunidade e proteção social para grupos historicamente marginalizados. 

Foi nesse chão que Anindayê, Thaisson e Luana - militantes integrantes do coletivo LGBT+ na organização - e tantos outres aprenderam primeiro a se reconhecer como sem-terra antes mesmo de compreenderem suas próprias dissidências de gênero e sexualidade. Crescer em assentamentos significou entender, desde cedo, o valor do coletivo, da partilha e da resistência. Para além de um movimento de luta popular pela disputa territorial e pela reforma agrária, o MST faz-se referência de formação humana e política.

Para muitas pessoas LGBTQIA+, especialmente no campo, esse processo significou também a possibilidade e espaço seguro para pensar, entender a si mesmo e, por vezes, pela primeira vez de verdadeiramente pertencer. Identidades que nascem primeiro no território antes de ganharem nome no próprio corpo.

“Existe uma diversidade bem grande dentro do movimento. Recentemente houve o primeiro encontro Trans do MST, em que a gente estava lá junto, presenciou junto. Dialogamos sobre os nossos direitos, até de existir que, na verdade, é uma pauta maior que a existência: é a resistência”, explica Thaisson, coordenador do coletivo LGBT+ no Paraná.  

“O Sertão é dentro da gente”

Para quem cresce dentro do MST, antes de qualquer formulação teórica sobre identidade, gênero ou sexualidade, existe a experiência concreta da terra: o cheiro da plantação, o trabalho coletivo, os encontros, as marchas, os barracos erguidos em ocupações e a noção, construída desde cedo, de que existir também é ocupar espaço. Nos assentamentos, a identidade sem-terra não é apenas política – ela é afetiva. Está na maneira como crianças aprendem cedo o significado de comunidade, de partilha e de resistência. Em um país onde a exclusão territorial historicamente definiu quem teria dignidade e cidadania, crescer dentro do movimento sem terra significou aprender que ninguém existe sozinho. 

Ali, a violência histórica se transforma em experiência coletiva de enfrentamento. Embora o MST não possua um levantamento nacional sobre a quantidade de integrantes LGBTQIA+ em seus acampamentos e assentamentos, o Coletivo LGBT Sem Terra está presente com mais de 300 militantes organizados em diferentes estados do país.

“Eu posso dizer que para mim nunca foi estar só. Sempre teve gente. Principalmente mulheres”, descreve Aline Luana, integrante da coordenação do Coletivo. Formalizado em 2015, após o primeiro seminário nacional sobre diversidade sexual do movimento. Em um processo de amadurecimento interno que vinha crescendo, o encontro contou com mais de 30 integrantes. Não se tratava apenas de inserir uma “nova pauta” dentro da reforma agrária, mas de compreender que corpos LGBT+ também fazem parte da construção do campo brasileiro e da luta popular. 

Com presença cada vez mais nítida, somaram-se sem vergonhas ou amarras para serem vistos. “Sou uma mulher preta, mãe, lésbica. Todo dia, eu levanto motivada a entender a minha tarefa e que eu não estou movendo só a mim. Eu estou movendo muita gente”, completa ela. Mas, insistir na própria existência, dentro de estruturas historicamente marcadas por valores tradicionais que nem sempre soube acolher diferenças, não é fácil. Ao sair do caminho imposto a ela, ainda no processo de amadurecimento identitário, Aline viveu um choque, que mudou sua forma de pensar sua existência: “Eram mais ou menos 20 homens brancos sentados à minha volta me fazendo questionamentos sobre por que eu não estava mais namorando um homem e que história era essa de eu ser lésbica”, lembra.

Foi naquele momento, ainda jovem em sua militância, que ela se deu conta da missão à sua frente: “O meu afeto, de quem eu gosto, com quem eu quero me relacionar afetivamente, isso não tem que ser ponto de pauta de reunião de ninguém. A minha construção coletiva de luta está aqui e ela é com homens e com mulheres”. 

Em camadas, o pertencimento aparece e se constroi. Primeiro, há o pertencimento à terra, ao coletivo, à luta social e, então, a possibilidade de pertencer a si mesmo – em um de seus mantras mais marcantes, ela se entendeu em si: “A partir de agora, a sua tarefa histórica é todo dia levantar e dizer que você tem orgulho de ser sapatão.”

Hoje, coordenadores trans, travestis, gays e lésbicas ocupando espaços políticos, conduzindo formações e organizando assim como ela, fazem o máximo para garantir que os próximos cresçam em assentamentos encontrando referências e o apoio que outres não necessariamente tiveram. Expõe, lado a lado, bandeiras coloridas e as bandeiras vermelhas do movimento. E encontram, sobretudo, a possibilidade concreta de imaginar sua permanência.

“Eles combinaram de nos matar, mas nós combinamos de não morrer”

Dentro e fora dos assentamentos, o processo de descoberta da sexualidade e da identidade de gênero acontece atravessado por uma vivência comunitária submersa de amarras e liberdade. “Eu fui uma criança trans, mas não entendia até então o que que era. Até me reconhecer dentro dos espaços não me expressava muito, exatamente porque nem me entendia muito bem”, relembra Thaisson.

Assim como toda característica e vivência que torna alguém, si próprio, cada pessoa trans tem a sua particularidade, trajetória e especificidade de acolhimento. Com isso em mente, em 2025, o Coletivo promoveu o 1º Encontro Nacional Trans do MST. No País em que mais se mata pessoas trans e travestis do mundo, liderando o ranking de assassinatos há 16 anos – segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais – viver torna-se revolucionário. 

O movimento não elimina e nem é imune aos conflitos ou preconceitos, mas o Coletivo faz questão de oferecer algo ainda raro para pessoas dissidentes no território brasileiro: a chance de não enfrentar o mundo completamente sozinhas. “A luta é coletiva, formada por pessoas diversas, porque sozinho a gente não vai fazer nada” – ele reafirma – “A luta só terá sentido se a gente colocar como prioridade que a igualdade vem em primeiro lugar.”

Sobre sua participação no Coletivo, o coordenador explica que, para além do diálogo, o movimento proporciona oportunidades de vida e formação que pessoas trans e travestis marginalizadas pelo país enfrentam ainda mais dificuldades para alcançar. Na vivência dele, por exemplo, fazer parte dessa rede proporcionou viagens, bagagens e até uma formação universitária com um propósito ainda maior. 

Integrante da comunicação, do coletivo LGBT e do coletivo de juventude do MST Alagoas, Anindayê, esteve presente no encontro e explicou a importância de se pensar, falar e, ainda mais, ouvir pessoas trans e travestis, como ela: “Meu movimento de me compreender enquanto uma pessoa travesti foi paralelo à minha inserção no movimento. Nós que somos LGBT temos determinadas coisas colocadas na nossa cabeça. As pessoas sempre estão dizendo quem nós somos, mas sem abrir espaço para que possamos refletir sobre nós mesmos e compreender nosso lugar no mundo." 

E o diálogo tem tido efeito, criando mais espaço e mais alinhados. “A gente está lado a lado com as pessoas, fazendo elas entenderem que não é nenhum bicho de sete cabeças. Eu não deixo de ser uma pessoa que presta por ser LGBT, sou só trans.” Mesmo assim, ela destaca que pertencer aos assentamentos acalentou sua trajetória. “Nunca senti que estar no movimento dificultou esse processo. Pelo contrário, o movimento trouxe uma rede de apoio.”

E, talvez, seja aí que reside uma das maiores potências de como a presença desses militantes modifica o próprio movimento e faz surgir novos questionamentos à realidade e obriga a revisitação e inova as práticas, discursos e formas de convivência que oprimem a todos. “O patriarcado destrói, o capitalismo faz a guerra, o sangue LGBT também é sangue sem terra. Seja o machismo, seja o racismo, seja LGBTfobia – pensar a reforma agrária e pensar a luta pela terra tem que ser junto com tudo isso”, declara ela.

“Há que endurecer, mas sem perder a ternura jamais”

No fim, talvez a relação entre pessoas LGBT+ e o MST seja justamente sobre isso: a busca contínua por um lugar onde a existência não precise ser fragmentada. Um lugar onde a terra, para além da produção ou sobrevivência – é também afeto, memória e possibilidade. Como escreveu Clarice Lispector, “pertencer é viver” e a presença LGBT+ há de perseverar – organizando coletivos, ocupando coordenações e transformando os assentamentos em territórios mais plurais. Se a luta pela terra exigia resistência, diante do latifúndio e da violência histórica no campo, a luta por reconhecimento da própria identidade dentro desses espaços aos poucos tem sido um passo a mais na coragem cotidiana. 

Somando-se cada vez mais, o coletivo LGBT+ integrado ao MST cresce junto às novas gerações que já encontram no movimento um espaço menos solitário do que aquele vivido por quem veio antes. Entre marchas, plantações e assembleias, constrói-se a ideia de que semear também é criar futuro em que o direito de verdadeiramente ser é irrevogável. Como no coração descrito por Rosa, no fim: a luta, a identidade, o afeto e a esperança... tudo cabe.

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Fernando Haddad (PT), Tarcísio de Freitas (Republicanos) e Rodrigo Garcia (PSDB) lidam com histórico de padrinhos políticos e nacionalização das eleições no maior colégio eleitoral do país
por
Julia Rugai e Malu Araújo
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01/10/2022

 

 

No maior colégio eleitoral do país, a disputa pelo Palácio dos Bandeirantes se assemelha, cada vez mais, à corrida pela cadeira presidencial.  Em meio à onda de incertezas dessas eleições, o Estado que ainda têm em sua memória mais recente a força do antipetismo, se esquiva do bolsonarismo presente e parece colocar o legado tucano do Estado de São Paulo em uma posição diferente dos pleitos anteriores. 

Segundo a última pesquisa Datafolha, publicada na quinta-feira (22/9), os três candidatos que se mantêm à frente na corrida mostraram oscilações. Os números mais recentes revelam que o ex-prefeito Fernando Haddad (PT), atual líder nas pesquisas,  marcou 34% contra 36% do último levantamento, Tarcísio de Freitas (Republicanos) subiu de 22% para 23% e o atual governador Rodrigo Garcia (PSDB) manteve a intenção de 19%,  dentro da margem de erro de dois pontos percentuais para mais e para menos.  

 

Foto: Reprodução Instagram @fernandohaddadoficial


 

Reflexo nas campanhas

 

Por mais que tenha mantido uma certa estabilidade nas pesquisas anteriores, Haddad oscilou negativamente, dentro da margem de erro nos resultados mais recentes. Apesar do crescimento de seus adversários, a cúpula do petista enxerga o lado positivo da moeda. Em conversa com o ContraPonto Digital, Nunzio Briguglio, coordenador da campanha de Haddad, afirmou que as últimas oscilações nas pesquisas mostram um acomodamento natural. “Nem piso, muito menos teto, apenas o balanço da onda das pesquisas”.

 A campanha escolheu por não comentar o aumento percentual do adversário tucano que, em um eventual segundo turno contra o candidato petista, utilizaria o legado do partido no Estado para angariar votos.  

Haddad tem se apoiado na figura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), atual candidato ao Palácio do Planalto, desde o início de sua campanha. Movimento que o ajuda a agregar votos do lado mais progressista do estado, mas que também pode ser uma barreira para seu crescimento, principalmente nas cidades do interior que ainda se apoiam nos governos tucanos. 

Há mais de 27 anos governado pelo PSDB, o eleitorado de São Paulo começa a dar indícios de que procura conhecer o atual governador e candidato à reeleição Rodrigo Garcia. Ainda que o movimento seja tímido, agora, o candidato se encontra empatado tecnicamente com o candidato do Republicanos. 

Em nota, a assessoria da campanha diz que se apega nestes números, mas avalia se deslocar levemente do discurso anti polarização utilizado até o momento.  “O Rodrigo nunca foi candidato a cargos majoritários, então é natural que as pessoas queiram saber sua história e é isso que nós estamos fazendo agora na eleição. Mostrando quem é o Rodrigo e que é um projeto de continuidade daquilo que se fez desde 1994 quando Covas ganhou a eleição”, pontuou o presidente do PSDB em São Paulo, Fernando Alfredo. 

 

Foto: Reprodução Instagram @rodrigogarciaoficial

 

Diferente de seus adversários, Rodrigo Garcia recusa a ideia de ser “apadrinhado” por outra figura da política atual, “o meu padrinho é toda a minha história”, declara.  Seu movimento até este momento da corrida é o de se desvencilhar da imagem do ex-governador paulista João Doria, que deixou o cargo com uma rejeição de 36%. Ao que tudo indica, Garcia permanecerá neste caminho, evocando personagens mais antigos do partido como a família Covas.  

O candidato comenta seus mais de 20 anos de vida pública e diz que não está na corrida para defender presidente da República ou a esquerda que, como avalia, quer chegar ao poder. “Estou aqui para defender São Paulo, para defender aquilo que acredito”. 

   Em contrapartida a nacionalização que Haddad e Tarcísio tem projetado em suas campanhas, o candidato Rodrigo Garcia faz o movimento oposto, fugindo de qualquer vinculação ao seu “antipadrinho”, João Dória. “Se o Dória fosse candidato poderia ser pior para o Rodrigo, sem a figura do Doria ele não é cobrado”, explica Marco Antônio Teixeira, doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP e docente de Ciência Política na FGV-SP.

   Ao mesmo tempo que Garcia não se apoia em ninguém, a união com a imagem desgastada de Dória, somado ao seu rol de desavenças políticas com o próprio PSDB “o enfraqueceria mais”, pontua Teixeira.

Já o ex-ministro de Infraestrutura Tarcísio de Freitas (Republicanos), continua próximo da figura do atual Presidente da República e candidato à reeleição Jair Bolsonaro (PL). A proximidade das duas campanhas havia sido questionada, no início da corrida eleitoral, por integrantes da cúpula do presidente diante da falta de posicionamento de Tarcísio em pautas da agenda bolsonarista. A estratégia, porém, era apaziguar o tom, afinal, o Estado de São Paulo demonstra a rejeição de 53% ao governo de Jair Bolsonaro. 

 

Foto: Reprodução Instagram @tarcisiogdf

 

Ainda assim, a campanha  avalia que, desde o início das pesquisas, o apoio do presidente não deixou de ser uma alavanca para o crescimento de Tarcísio. Em nota, a assessoria da campanha informou que enxerga a rejeição do mandatário como algo natural devido ao momento de crise que o país atravessa. “O que vemos é que o governo federal tem conquistas e entregas importantes e Tarcísio vem sendo porta-voz disso”, afirmam. De acordo com a campanha, a presença do Presidente da República na estratégia continuará.

A assessoria da campanha ainda comentou o empate técnico do atual governador Rodrigo Garcia em relação ao ex-ministro, nas pesquisas mais recentes do Datafolha. A campanha interpreta que a pesquisa confirma que Tarcísio segue na frente. “Apesar dos intensos ataques da campanha do Rodrigo Garcia, todas variações estão na margem de erro.” A campanha do candidato do Republicanos se agarra no que nomeia como “voto mais convicto”. 

 Mediante as estratégias políticas usadas nessas eleições, o uso das candidaturas paulistas como palanque eleitoral é um dos efeitos da via de mão dupla ocasionada pela nacionalização das campanhas. Segundo Teixeira, o impacto de Haddad e Tarcísio na campanha de Lula e Bolsonaro é justamente a força de palanques “competitivos” no estado de São Paulo, o que reflete e mensura a disputa nacional dessas eleições.

 

Conservadorismo e antipetismo

 

  Fato é que São Paulo possui um “cinturão do conservadorismo” em sua base eleitoral, demonstrando pontos de polarização ideológica marcados por uma  divisão muito forte entre capital, interior e litoral. Dentro do estado existe: “o eleitor de São Paulo sendo mais progressista, o eleitor do interior mais conservador e do litoral é uma mescla, dependendo da cidade é mais conservador, ou mais progressista”, frisa a cientista política da Universidade Federal de São Carlos, Maria do Socorro Braga.   Essa repartição não é rígida, porém ela possibilita que as candidaturas enxerguem com mais clareza as regiões com maior ou menor possibilidade de voto dentro do estado. 

  O cientista social  Marco Antônio destaca a “esperança” de Rodrigo Garcia no apoio que vem da “periferia para o centro”, ou seja, do “interior para a grande cidade”. Segundo o professor, o candidato está “confiando” na influência que os prefeitos locais possuem no eleitorado dessa região. Embora isso possa ocorrer,  "neste momento a gente não vê uma outra divisão no Estado de São Paulo que não esteja apontando para essa polarização”, conclui Teixeira. 

 

Cientista Social Marco Antônio Teixeira em entrevista com a repórter Malu Araújo- Foto: acervo pessoal. 

 

  Já a  cúpula do candidato petista, enxerga que o partido tem utilizado sua experiência e administrado as principais cidades do Estado, a fim de minimizar a força do antipetismo nas outras cidades. O coordenador da campanha de Fernando Haddad, Nunzio Briguglio, aponta que os eleitores parecem não se sentir representados pelo “oportunismo de outras candidaturas''. De acordo com ele, nunca uma campanha do PT encontrou tamanha receptividade no interior de São Paulo, embora a rejeição de 36% do candidato no Estado.  

 

Possíveis rumos

 

O reflexo dos presidenciáveis nas campanhas dos candidatos ao governo de São Paulo estará ligado diretamente a um olhar geral do que foi cada governo, destacam os cientistas. “Temas por exemplo: onde que o país estava melhor? Agora no governo Bolsonaro ou era no governo Lula? Onde de certa forma se desmatava mais? No governo Lula ou no governo Bolsonaro? Onde se buscava ter maior interação com o setor produtivo? No governo Lula ou no governo Bolsonaro?”, segundo Teixeira essas questões vão chegar no âmbito estadual e impactaram de alguma forma as campanhas dos candidatos.

Um  dos questionamentos que podem ser feitos ao candidato do Republicanos é sobre sua capacidade de governabilidade do estado, visto que “ministro não é chefe do executivo, não é Governador, não é presidente”, enfatiza Marco.

Já a cientista política Maria do Socorro aponta que o cenário que se desenha para outubro pode ser de desvantagem para o petista Haddad no segundo turno, devido à possível união entre os partidos para derrubar o candidato.  “No segundo turno é que vai ser o problema [...] é possível que todo esse pessoal [ PSDB e Bolsonaro] se una para o Haddad não vencer”, afirma Maria.

Dentro das incertezas que restam até o dia 2 de outubro, uma já está no radar da especialista política: se o PSDB perder as eleições do maior colégio eleitoral do Brasil, o qual lhe conferiu enorme credibilidade durante 28 anos, “a tendência é se transformar num nanico assim, em 2026 você vai ter um partido nanico competindo, mas bem pequenininho”, encerra a cientista social Maria do Socorro.

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Sem aliados, o movimento tenta se manter vivo politicamente usando as mesmas estratégias eleitorais do pleito de 2018
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Raphael Dafferner e Lucas Martins
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25/09/2022

O Movimento Brasil Livre lançou novos candidatos tanto à Assembleia Legislativa, quanto à Câmara Federal para as eleições de 2022, em São Paulo. Os candidatos possuem o objetivo de tentar recuperar, no âmbito estadual, a força do movimento, que, de 2020 para cá, tem sido alvo de escândalos.

O MBL vem de uma série de derrotas políticas. Além da cassação do ex-deputado Arthur do Val - também conhecido como Mamãe Falei -  (União Brasil) após o vazamento de áudios sexistas durante a sua viagem à Ucrânia após o início da guerra contra a Rússia, a saída Fernando Holiday (Novo) e o rompimento com o bolsonarismo durante a pandemia da Covid-19 enfraqueceram o movimento.

A professora da PUC-SP, e cientista política especialista em estudos eleitorais, Rosemary Segurado, destaca que o rompimento com o bolsonarismo no meio da pandemia da Covid-19 foi outro duro golpe ao movimento:

“Romperam com o Bolsonaro mas não rompem com os principais princípios defendidos pelo bolsonarismo, então eles ficam sem lugar, pois já tem o bolsonarismo, que é uma parcela consolidada do eleitorado, que não é o caso deles”. 

A crise no MBL

A crise se agravou em maio deste ano, quando o então deputado estadual, Arthur do Val, teve seu mandato cassado.

Em março, o ex-parlamentar usou expressões misóginas para se referir às refugiadas ucranianas, e declarou que “elas eram fáceis porque eram pobres”. Além disso, do Val falou sobre uma viagem que um dos líderes do MBL, Renan Santos, fazia anualmente à Europa Oriental para se relacionar com mulheres loiras. A excursão se caracterizaria como turismo sexual.

Mamãe Falei teve seu mandato cassado com 73 votos a favor e nenhum contra.

A professora afirma ainda a pauta da defesa dos valores morais na sociedade sempre foi uma das bandeiras do MBL, e que, portanto, o vazamento dos áudios sexistas de Arthur do Val é um importante fator que ajuda a explicar a sua queda de influência recente, por conotar uma certa hipocrisia.

“O peixe acabou morrendo pela boca. Em 2019, eles organizaram um protesto em uma exposição queer em Porto Alegre e com um discurso muito conservador e preconceituoso, mas aconteceu o que aconteceu com o Arthur do Val. Caíram-se as mascaram e acabaram se enfraquecendo”, afirmou.

Ademais, segundo a professora, a falta de apoio a Arthur do Val durante seu processo de cassação por parte de outros partidos, simboliza um isolamento do MBL ocasionado por uma divisão das direitas após divergências com o atual governo.

A efeito de comparação, o também Deputado Estadual Fernando Cury (União Brasil) teve apoio na Casa após assediar a parlamentar Isa Penna (PC do B). Ele foi punido com a perda do cargo por apenas 119 dias.

O MBL ganhou notoriedade ao se destacar durante grandes mobilizações da direita, como as manifestações antipetistas e a ascensão bolsonarista. Portanto, após o impeachment da ex-presidente Dilma e todos estes golpes, o movimento começou a enfraquecer.

Além de Arthur do Val, outro duro golpe que abalou o movimento foi a saída de Fernando Holiday para ingressar no Partido Novo. 

Holiday anunciou sua saída do MBL em janeiro do ano passado. Em seguida, ele se filiou ao Partido Novo - antes era ligado ao Patriota. Segundo declaração do vereador na época, um dos motivos de sua saída foram algumas divergências quanto à importância das causas LGBTs e da luta contra o aborto para o movimento.

Apostas que se mostraram erradas do movimento também acabaram acarretando em perda de notoriedade. No âmbito federal, o MBL apostou em duas candidaturas à presidência que não se firmaram. Primeiro o comediante Danilo Gentili, apoiador das ideias neoliberais, e, posteriormente, o ex-juiz e atual candidato ao Senado, Sergio Moro.

Atualmente, o movimento tenta sobreviver na política com novos nomes, mas mantendo o mesmo discurso, e as formas de propagar as ideias.

“Por outro lado, em termos mais eleitorais, a estratégia segue a mesma. Muita ênfase nas pautas culturais, no choque com a esquerda, um pouco do sensacionalismo. O que se vê é que essa estratégia, que funcionou para eles antes, ainda segue sendo praticada”, afirma Caio Marcondes especialista em comportamento eleitoral e direita brasileira, e doutorando em Ciência Política pela USP.

Marcondes, no entanto, ressalta que, mesmo após as falas machistas de Arthur do Val, o movimento ainda tem uma base fiel que o apoia:

“É importante notar que o Arthur do Val não é candidato porque teve o mandato cassado. Mas se ele se lançasse ao legislativo, a chance de ele se eleger era muito alta. Apesar do escândalo que abalou a imagem dele, ele ainda tinha uma imagem muito positiva com uma margem grande de eleitores. Mesmo caso do Gabriel Monteiro do Rio, que consegue mobilizar uma base muito grande de seguidores”.

Apostas para a Alesp

Uma das candidaturas do MBL nas eleições à Assembleia Legislativa de São Paulo é Amanda Vettorazzo. Segundo Caio Marcondes, a candidata à Assembleia Legislativa de São Paulo tem grandes chances de se eleger.

“Já vi vídeos da Amanda Vettorazzo tentando polemizar com bolsonaristas, se colocando uma alternativa à direita. O potencial está aí”, afirma Marcondes.

Em contrapartida, Rosemary Segurado não crê o MBL terá tanto sucesso na competição com o Bolsonarismo:

“Eles lançaram três candidatos à Alesp, e eles estão planejando uma campanha com o olho no retrovisor em 2018. Se eles conseguirem eleger um, já está ótimo”.

Segurado afirma ainda que o eleitorado, diferentemente das eleições de 2018, está mais focado em candidatos com experiência na política e presentes no campo progressista, o que pode ser mais um empecilho ao movimento.

A especialista completa ainda afirmando que o MBL perdeu muito espaço após o rompimento com o bolsonarismo, o que tirou muito do seu poder de mobilização.

“As últimas manifestações convocadas pelo MBL foram desprezíveis do ponto de vista numérico, de repercussão. Eles estão voltando pro lugar que eles estariam se não fosse a Lava Jato, o impeachment da Dilma e a onda bolsonarista. Então eles começam a perder um pouco desse espaço”, ressaltou.

Candidatos do movimento, na ambição de conquistar uma das 94 cadeiras da Alesp, costumam defender, além das pautas de costumes, o controle do orçamento, uma diminuição do Estado e uma menor intervenção do governo na economia.

“Tenho o Estado tatuado no meu braço. E eu defendo muito que o orçamento fique aqui em São Paulo, e não vá todo para Brasília. Essa é minha principal luta”, afirmou Amanda Vettorazzo em entrevista ao ContraPonto Digital. 

Além disso, a candidata tentou se descolar da imagem de Arthur do Val, apesar de minimizar a fala do colega:

“Eu acredito que [o caso do Arthur] não vá me prejudicar. Isso já passou, ele já pediu desculpa e pagou caro, até demais, pelo que fez. Já pagou pelo áudio que, claro, não é bacana. Eu até repudiei na época, mas não repudio o trabalho que ele faz e que eu tentarei seguir na Alesp, que é a luta contra privilégios”.

Outra aposta do MBL para este ano é Guto Zacarias (União Brasil).  Como um homem negro conservador que se opõe às cotas, o candiato busca emular a dinâmica de Fernando Holiday (Novo), mostrando-se um forte opositor da esquerda.

“O cara tá com a camiseta do Lula, bora discutir? Fica com camiseta de bandido aí mano”, questiona o candidato para a Assembleia Legislativa de São Paulo em um de seus vídeos para sua página no TikTok. 

O ContraPonto Digital tentou contato com Guto Zacarias, que não respondeu aos pedidos de entrevista.

Apostas para a Câmara de Deputados

Para a Câmara de deputados, o MBL lançou Cristiano Beraldo (União Brasil), ex-secretário do turismo da cidade do Rio de Janeiro, posto que deixou para assumir a coordenação da campanha de Arthur do Val ao Governo de São Paulo. Porém, após o escândalo dos áudios e a retirada da candidatura de do Val, Beraldo decidiu concorrer à deputado. 

Em sua campanha, Kim busca se mostrar como alternativa à direita. O forte uso das redes sociais e de termos utilizados pela juventude é uma grande aposta do candidato para tentar conquistar o público jovem. 

O ContraPonto Digital entrou em contato com Cristiano Beraldo, que decidiu não responder aos questionamentos feitos. Kim Kataguiri também não quis dar entrevista. 

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Aplicativo de viagens explora mão-de-obra e repassa ainda menos ao trabalhador
por
Isabela Mendes
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22/09/2022

São Paulo, 20/09/2022 - Os motoristas do aplicativo de viagens Uber têm sofrido com o aumento da precarização do trabalho pela plataforma nos últimos meses. Com a elevação da tarifa sobre o valor das corridas e a redução dos direitos, os trabalhadores se veem desamparados pelo do aplicativo.

A falha da Uber em oferecer condições de trabalho dignas a seus associados não é novidade. Em março deste ano, por exemplo, a empresa constava na lista de aplicativos que não provêm boas condições laborativas, ao lado de outras plataformas conhecidas por ofertarem trabalho semelhante, num movimento chamado de “uberização do trabalho”. São elas: iFood, 99, Get Ninjas, Rappi e Uber Eats, ramo da companhia voltado para o delivery de comida. O estudo foi elaborado pelo Oxford Internet Institute em parceria com WZB Berlin Social Science Centre, e foi denominado “Fairwork Brasil 2021”.

No mesmo mês, a plataforma anunciou um reajuste de 6,5% na taxa a ser retida nas corridas e, com o aumento constante no preço dos combustíveis, para muitos motoristas, o trabalho – que já era precário – passou a não compensar mais.

Perguntado sobre as condições para trabalhar oferecidas pela empresa, Marcello Del Vecchio, estudante de geografia na Universidade de São Paulo (USP), metalúrgico e motorista da Uber aos finais de semana, dispara: “Então, ‘mano’, não é o justo, ‘tá ligado’? Pelo menos não era o justo antes da pandemia. Também teve toda essa alta do combustível, e aí muitas pessoas foram deixando de fazer, e eles foram ‘obrigados’ a aumentar a tarifa. E também não tem nenhuma garantia de acidente, roubo… O Uber nada mais é do que um aplicativo de recepção de chamadas”. “A empresa pega um ‘tecão’ de mais de 25% pra ela e você que se vire”, afirma.

No entanto, devido à atual conjuntura econômica do país, marcado por 11,3 milhões de desempregados e um aumento histórico no número de trabalhadores na informalidade, isto é, aderindo à chamada “pejotização” ou à onda forçada dos MEIs (microempreendedores individuais), Marcello confessa ainda ser necessário se submeter às corridas exaustivas e mal-remuneradas para complementar a renda mensal. 

“A Uber nesse momento é o que me salva, ‘tá ligado’? É uma graninha que entra, já dependi muito da Uber para pagar as minhas coisas, pagar meu carrinho...”, explica.

De acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil possui 38,7 milhões de trabalhadores sem carteira, alcançando uma taxa de informalidade de 40,1%. 

Em dezembro do ano passado, a Câmara dos Deputados aprovou o projeto de lei (PL)  1665/2020 que garantia seguro contra acidentes e afastamento por infecção pela covid-19 a entregadores de aplicativos como iFood, Loggi, Rappi e Uber Eats, ou seja, plataformas de entregas. O aplicativo de viagens, porém, não foi incluído no projeto. Apesar do aparente avanço, a proposta não configurava vínculo empregatício entre o autônomo e a plataforma, e foi pensada para durar apenas até o fim da pandemia no país, decretado em maio deste ano pelo Ministério da Saúde. 
 

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Escolha de nomes para a composição de candidaturas considera representatividade e articulação política, e deve ser decisiva na conquista por apoio do eleitorado neste ano
por
Daniel Seiti Kushioyada, Gabriela Costa e Maria Luiza Marinho
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19/09/2022

Cinco vice-governadores assumiram o governo de São Paulo nos últimos seis mandatos. Quatro deles herdaram a posição porque os titulares deixaram o posto para disputar as eleições presidenciais. Apesar da forte presença das figuras dos vices no estado, para o pleito deste ano, dois dos três principais nomes foram definidos somente nas duas semanas finais do prazo de registro de candidaturas, encerrado em 15 de agosto.

Fernando Haddad (PT) designou Lúcia França (PSB) no dia 5 de agosto. Rodrigo Garcia (PSDB) confirmou Geninho Zuliani (União) no dia anterior — nome que quase sofreu impugnação após ser contestado pela Procuradoria Regional Eleitoral em São Paulo (PRE-SP) por contas rejeitadas e por ter sido condenado por improbidade quando era prefeito de Olímpia. O único dos três principais candidatos que já tinha um vice definido previamente era Tarcísio de Freitas (Republicanos), com Felício Ramuth (PSD), em uma chapa estabelecida desde o início de julho. O deputado federal Vinicius Poit (NOVO) teve a sua candidatura confirmada para o governo do estado de São Paulo no final de julho, tendo como vice Doris Alves (NOVO). Elvis Cezar (PDT) confirmou no dia 4 de agosto que a sua vice seria Gleides Sodré (PDT).

Diante da importância da escolha de nomes para a formação das chapas, a diversidade na identificação da figura dos vices foi interesse de alguns candidatos. "Temos o exemplo da Marina Silva (Rede). O Haddad foi atrás dela, porque seria uma boa vice e ocuparia esse espaço de diversidade por ser preta, mulher e com pautas. Mas ela recusou por suas divergências com PT e também porque preferiu ser candidata à deputada federal", comenta o cientista político e professor da PUC-SP, Eduardo Viveiros. Essa mesma pressão para o fechamento da chapa era colocada sobre o candidato Rodrigo Garcia, antes de definir Geninho para a posição.

 

O trampolim de governadores

São Paulo é a unidade federativa mais populosa e rica do Brasil. Dessa forma, a disputa pelo cargo de governador deste estado é considerada a segunda mais importante do país, atrás somente da corrida presidencial.

“Você tem um estado que é protagonista no país em uma área que é muito fundamental para o eleitor decidir o voto: a economia”, aponta o cientista político, Henrique Curi. O pesquisador da Unicamp explica que é um processo quase natural os governadores de São Paulo se verem num “protagonismo de abrangência natural para tentar um cargo no maior âmbito.”

O início dessa sequência de substituição de cargos começou em março de 2001, quando Mário Covas precisou se afastar do governo do estado por motivos de saúde. Na ocasião, o vice-governador Geraldo Alckmin assumiu – pela primeira vez – o governo de São Paulo. Alckmin foi reeleito em 2002 e governou até março de 2006, quando deixou o cargo para concorrer à eleição presidencial daquele ano. Seu vice, Cláudio Lembo, assumiu o posto.

Eleito em 2006, José Serra governou São Paulo até abril de 2010, quando o tucano abandonou o cargo para disputar a presidência da República contra Dilma Rousseff — que, em outubro, resultou na vitória da rival petista. Nesse cenário, o estado paulista passou a ser governado por Alberto Goldman.

Alckmin venceu a eleição estadual em 2010 e, pela terceira vez, assumiu o governo de São Paulo – seguido por uma reeleição, em 2014, que consolidou o seu quarto mandato. Em 2018, quando já não podia concorrer à reeleição, decide disputar o cargo à presidência da República – processo que resultou na eleição de Jair Bolsonaro. O vice de Alckmin, Márcio França, completou o mandato até dezembro do mesmo ano.

O caso mais recente aconteceu com João Dória que assumiu o posto de governador de São Paulo em janeiro de 2019. Sua gestão, entretanto, ficou incompleta quando o tucano decidiu abandonar o governo ainda no primeiro mandato para concorrer à presidência da República em abril de 2022 — em uma tentativa frustrada de se lançar com um nome da “terceira via”. Assim, São Paulo passou a ser governado pelo vice, Rodrigo Garcia.

doria e garcia
João Dória ao lado de Rodrigo Garcia em 2019 - Foto: Divulgação

 

A figura do vice

Historicamente, no Brasil, o vice nasceu em um período em que a comunicação era menos acessível do que nos dias atuais. Hoje, em um contexto de era tecnológica e digital, em que governantes conseguem atuar à distância, o papel desempenhado por esses cargos políticos também se transformou, ganhando outras finalidades.

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Ao lado de Tarcísio (esq.), Ramuth (dir.) discursa em evento do PSD - Foto: Reprodução

“O vice faz um aceno ao eleitorado”, pontua Curi. Assim, “chapas puras”, formadas apenas por um partido, limitam a quantidade de votos a um tipo de público somente. A preferência, portanto, é por nomes pertencentes a siglas diferentes na hora de fechar as chapas, em uma tentativa de conquistar mais apoio entre a população ao mostrar que determinada candidatura está mais aberta para além de um partido só.

De acordo com o especialista, o vice será mais importante em candidatos que estão bem definidos no espectro ideológico de polarização. Logo, partidos que não se definem nem à direita ou nem à esquerda não têm tanta necessidade de ter uma figura distinta.

Quando a formação de chapa deixa de ser fundamental para acenar a um eleitorado específico, um vice pode auxiliar na articulação política. “É importante ter um vice que seja habilidoso com outros políticos, que seja uma figura importante na relação que vai se estabelecer com o legislativo, por exemplo”, aponta Curi.

O candidato a vice-governador de São Paulo, Felício Ramuth se enxerga cumprindo essa função. “O Tarcísio [candidato a governador da chapa] ainda não tem experiência política e eu vou poder ajudá-lo, ao longo do mandato, com a minha experiência”, afirma o ex-prefeito de São José dos Campos ao Contraponto Digital.

Ramuth acredita que existem dois tipos de vice, dependendo da abertura do governo. “Existem muitos vices que acabaram tendo um papel de coadjuvante. Do ponto de vista público, pouca gente sabe quem são os vices, mas internamente ele pode ajudar, dependendo do espaço que vão abrir para sua atuação”, complementa.

Nessa mesma linha de pensamento, Lúcia França, vice de Fernando Haddad, declara ao Contraponto Digital: “Nós dois, um não se elege sem o outro. Na nossa legislação, precisamos dessa união para sermos eleitos, então é claro que os dois têm importância. E eu não pretendo fazer um papel figurativo.”

 

Vices e inclusão na política

Há também uma demanda do eleitorado por um número maior de membros da comunidade LGBTQIA+ e, principalmente, de mulheres e negros. Apesar da maior parte da população brasileira ser composta, atualmente, por negros (56%) e mulheres (51%), segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), estes grupos seguem sendo pouco representados no meio político.

Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) apontam que, para as eleições gerais deste ano, 49% dos candidatos são autodeclarados pretos ou pardos. As mulheres representam 33% do total das candidaturas. Na disputa pelo governo do estado de São Paulo, os cinco primeiros colocados nas pesquisas eleitorais são homens brancos.

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Da esq. para dir. Poit, Elvis, Garcia, Haddad e Tarcício em debate promovido pelo 'pool' TV Cultura, Folha S. Paulo e UOL 

A questão da representatividade aparece como fator decisivo na formação de chapas: candidatos buscam vices para contrapor essa identidade. “Nós já tivemos 164 governadores e vice-governadores no estado de São Paulo eleitos ou nomeados. Nunca tivemos uma mulher. Nunca”, destaca Lúcia França.

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Lúcia França (esq.) ao lado de Fernando Haddad (dir.) - Foto: Reprodução/Instagram

Portanto, a figura do vice atua também como um fator de legitimidade para a candidatura, cumprindo o papel de representatividade de grupos pouco representados na política. “Essa é uma preocupação atual do eleitorado. Então, hoje, como você faz só uma reunião de cabeças brancas? Como você faz uma chapa só com homens brancos sexagenários héteros? Nos últimos anos, se tornou uma preocupação que essas pautas identitárias sejam colocadas em questão, que exista uma representatividade maior desses grupos”, afirma Curi.

Apesar da importância e da necessidade de construção de candidaturas que sejam plurais, formadas por candidatos representativos, Eduardo Viveiros alerta que esse processo deve ser feito em defesa de pautas relacionadas à diversidade e não somente para criar uma falsa imagem para o eleitor.

“É um fenômeno sociológico, político e cultural da existência de uma preocupação e de uma militância em defesa desses assuntos. Nessa eleição, houve uma atenção na escolha de candidatos para o fechamento de chapa justamente por entenderem que os eleitores estão mais atentos a essa questão”, conclui Viveiros.

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Sem aliados, o movimento tenta se manter vivo politicamente usando as mesmas estratégias eleitorais do pleito de 2018
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Lucas Martins e Raphael Dafferner
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05/09/2022

Para as eleições de 2022, em São Paulo, o Movimento Brasil Livre lançou novos candidatos, tanto à Assembleia Legislativa, quanto à Câmara Federal. A “nova safra de liberais” possui a missão de tentar recuperar, no âmbito estadual, a força do movimento, que, de 2020 para cá, tem se tornado cada vez mais fraco.

 

O movimento sofreu uma grande derrota no Poder Legislativo, que foi a cassação do ex-deputado estadual Arthur do Val - também conhecido como Mamãe Falei - (União Brasil) após o vazamento de áudios sexistas durante a sua viagem, supostamente humanitária, à Ucrânia após o início da guerra contra a Rússia.

O ex-parlamentar usou expressões misóginas para se referir à refugiadas ucranianas, e declarou que “elas eram fáceis porque eram pobres”. Além disso, do Val falou sobre uma viagem que um dos líderes do MBL, Renan Santos, fazia anualmente à Europa Oriental para se relacionar com mulheres loiras. A excursão se caracterizaria como turismo sexual.

Mamãe Falei teve seu mandato cassado com 73 votos a favor e nenhum contra.

 

A crise no MBL

 

A professora da PUC-SP, e cientista política especialista em estudos eleitorais, Rosemary Segurado, destaca que a pauta da defesa dos valores morais na sociedade sempre foi uma das bandeiras do MBL, e que, portanto, o vazamento dos áudios sexistas de Arthur do Val é um importante fator que ajuda a explicar a sua queda de influência recente, por conotar uma certa hipocrisia.

"O peixe acabou morrendo pela boca. Em 2019, eles organizaram um protesto em uma exposição queer em Porto Alegre e com um discurso muito conservador e preconceituoso, mas aconteceu o que aconteceu com o Arthur do Val. Caíram-se as mascaram e acabaram se enfraquecendo”, afirmou.

Ademais, segundo a professora, a falta de apoio a Arthur do Val durante seu processo de cassação por parte de outros partidos, simboliza um isolamento do MBL ocasionado por uma divisão das direitas após divergências com o atual governo. 

A efeito de comparação, o também Deputado Estadual Fernando Cury (União Brasil) teve apoio na Casa após assediar a parlamentar Isa Penna (PC do B). Ele foi punido com a perda do cargo por apenas 119 dias.

Romperam com o Bolsonaro mas não rompem com os principais princípios defendidos pelo bolsonarismo, então eles ficam sem lugar, pois já tem o bolsonarismo, que é uma parcela consolidada do eleitorado, que não é o caso deles”, completou. O

O MBL ganhou notoriedade ao se destacar durante grandes mobilizações da direita, como as manifestações antipetistas e a ascensão bolsonarista. Portanto, após o impeachment da ex-presidente Dilma e o rompimento com o Governo Bolsonaro depois do começo da pandemia, o movimento começou a se enfraquecer.

Após o divórcio com o bolsonarismo e as gafes de Arthur do Val, o movimento tenta sobreviver na política com novos nomes, mas mantendo o mesmo discurso, e as formas de propagar as ideias.

"Por outro lado, em termos mais eleitorais, eu acho que a estratégia segue a mesma. Muita ênfase nas pautas culturais, no choque com a esquerda, um pouco do sensacionalismo. O que se vê é que essa estratégia, que funcionou para eles antes, ainda segue sendo praticada”, afirma Caio Marcondes especialista em comportamento eleitoral e direita brasileira, e doutorando em Ciência Política pela USP.

Marcondes, no entanto, ressalta que, mesmo após as falas machistas de Arthur do Val, o movimento ainda tem uma base fiel que o apoia:

"Acho que é importante notar que o Arthur do Val não é candidato porque teve o mandato cassado. Mas se ele se lançasse ao legislativo, a chance de ele se eleger era muito alta. Apesar do escândalo que abalou a imagem dele, ele ainda tinha uma imagem muito positiva com uma margem grande de eleitores. Mesmo caso do Gabriel Monteiro do Rio, que consegue mobilizar uma base muito grande de seguidores”.


 

Quais são as apostas do MBL?

 

"O cara tá com a camiseta do Lula, bora discutir? Fica com camiseta de bandido aí mano”, questiona Guto Zacarias (União Brasil), candidato para a Assembleia Legislativa de São Paulo e membro do Movimento Brasil Livre (MBL) em um de seus vídeos para sua página no TikTok. 

Zacarias é um dos nomes cotados pelo partido para assumir uma das vagas na Assembleia Legislativa. Marcondes explica que a retórica do candidato lembra a de Fernando Holiday (Novo), quando fazia parte do movimento.

"O Guto Zacarias tenta emular um pouco da dinâmica que o Fernando Holiday impunha, ou seja, um candidato negro que se opõe às cotas”, explica.

Holiday anunciou sua saída do MBL em janeiro do ano passado. Em seguida, ele se filiou ao Partido Novo - antes era ligado ao Patriota. Segundo declaração do vereador na época, um dos motivos de sua saída foram algumas divergências quanto à importância das causas LGBTs e da luta contra o aborto para o movimento.

Além de Guto Zacarias, outra aposta do MBL nas eleições à Assembleia Legislativa de São Paulo é Amanda Vettorazzo. Segundo Caio Marcondes, a candidata à Assembleia Legislativa de São Paulo tem grandes chances de se eleger.

"Já vi vídeos da Amanda Vettorazzo tentando polemizar com bolsonaristas, se colocando uma alternativa à direita. O potencial está aí”, afirma Marcondes.

Em contrapartida, Rosemary Segurado não crê o MBL terá tanto sucesso na competição com o Bolsonarismo:

Eles lançaram três candidatos à Alesp, e eles estão planejando uma campanha com o olho no retrovisor em 2018. Se eles conseguirem eleger um, já está ótimo”.

Segurado afirma ainda que o eleitorado, diferentemente das eleições de 2018, está mais focado em candidatos com experiência na política e presentes no campo progressista, o que pode ser mais um empecilho ao movimento.

A especialista completa ainda afirmando que o MBL perdeu muito espaço após o rompimento com o bolsonarismo, o que tirou muito do seu poder de mobilização.

"As últimas manifestações convocadas pelo MBL foram desprezíveis do ponto de vista numérico, de repercussão. Eles estão voltando pro lugar que eles estariam se não fosse a lavajato, o impeachment da Dilma e a onda bolsonarista. Então eles começam a perder um pouco desse espaço”, ressaltou.

Em entrevista ao ContraPonto Digital, Vettorazzo falou sobre a sua candidatura e sua ambição à uma das 94 cadeiras da Alesp.

"Eu defendo muito o Estado de São Paulo. Nasci e cresci aqui. Tenho o Estado tatuado no meu braço. E eu defendo muito que o orçamento fique aqui em São Paulo, e não vá todo para Brasília. Essa é minha principal luta”

Além disso, a candidata tentou se descolar da imagem de Arthur do Val, apesar de minimizar a fala do colega:

Eu acredito que [o caso do Arthur] não vá me prejudicar. Isso já passou, ele já pediu desculpa e pagou caro, até demais, pelo que fez. Já pagou pelo áudio que, claro, não é bacana. Eu até repudiei na época, mas não repudio o trabalho que ele faz e que eu tentarei seguir na Alesp, que é a luta contra privilégios”.

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