Isadora Ferreira é natural de São Paulo e tinha apenas dezessete anos quando deixou amigos, família para trás, buscando moldar o novo futuro em solo estadunidense. Se tornou uma a mais no meio dos cerca de 230 mil brasileiros, segundo dados do instituto Pew Research Center de 2022, que vivem ilegalmente nos Estados Unidos. Sua motivação era o noivo, que é um cidadão americano e a única pessoa que conhecia no hemisfério norte.
A forma que usou para entrar no país é talvez a mais conhecida entre as não convencionais - ou ilegais. O cai-cai, termo comum para este tipo de travessia, é liderado pelo “coiote”, uma pessoa que guia um grupo cheio de sonhos e esperança pela fronteira debaixo de chuva, sol, vento, cansaço e inúmeras intempéries - climáticas ou humanas- por dias a fio até chegarem à fronteira e se entregarem à imigração americana. Ali estão de fato a própria sorte, podem ser aceitos ou deportados.
Quinze de janeiro de 2023 foi o dia D. Isadora acordou muito antes do sol nascer, às quatro horas da manhã, para enfrentar a experiência que poderia mudar sua vida para sempre. Se arrumou, pegou sua mochila e saiu rumo ao aeroporto internacional de Guarulhos acompanhada de Vanessa e José Rocha, casal de mineiros que se juntaram à garota pelo coiote. O peito tomado de ansiedade.
O check-in já estava feito e a próxima parada seria uma escala na Colômbia. Já em outro país, o tempo de espera não foi tanto, apenas três horas. Próxima parada, Guatemala. Ali a situação ficou um pouco mais apreensiva, a informação que chegava era de que a imigração estava mais chata, muito em cima e deportando passageiros. Já estava ali e não poderia arriscar, por isso esperou dentro do aeroporto até o horário do voo. Próxima parada, El Salvador. Neste momento o medo tomou conta, teria que sair do aeroporto e enfrentar a imigração. O que você veio fazer neste país? Quantos dias vai passar e quanto dinheiro tem com você? Vai ficar hospedada onde? Tem um endereço? Foram algumas das perguntas feitas pelos agentes na entrevista. Por sorte, Isadora tinha algumas informações e as que não tinha, conseguiu verificar rapidamente pelo celular. Os nervos, que já estavam nas alturas, duplicaram de intensidade quando somente ela e Vanessa atravessaram para o outro lado.
Atrás das grandes portas automáticas, outro coiote esperava para guiá-las até a próxima etapa. "Dale, dale, dale", apressava o homem. Elas foram levadas para um carro e conduzidas para um motel, onde iriam descansar e passar a noite. As cinco da manhã começaria tudo de novo.
No dia seguinte foram novamente colocadas dentro de um carro, mas dessa vez a companhia seria maior, passaram em outro motel para pegar mais imigrantes. O trajeto durou quarenta minutos e desembarcaram próximo a um rio, o primeiro desafio a ser enfrentado. O dia estava ensolarado, a mata em volta era esverdeada e o caminho do chão era rasteiro, quase que moldado pelos tantos pés que já o percorreram. A água não era funda, ficava quase a um palmo abaixo do joelho de Isa, mas a correnteza era bem forte. De braços dados, formaram uma corrente humana para se apoiar, muitos homens, mulheres e uma ou duas crianças pequenas.
Nesse momento, a paciência e perseverança foram grandes virtudes a serem testadas. A cada mini trajeto, mais duas a três horas de espera para serem levados até outro ponto. Até parados pela polícia local foram, mas nada que alguns dólares não resolvessem. Logo tiveram mais uma noite de descanso.
No dia seguinte se repetiu a rotina de acordar cedo e se mover. Sem andar tanto, foram colocados numa espécie de Pau de Arara e rodaram por quatro horas, os corpos pressionando uns aos outros debaixo de um sol de rachar, o suor escorrendo pelas testas e, num cantinho, uma pequena lágrima escorreu dos olhos exaustos de Vanessa. O carinho de Isa na mão da mulher foi leve - e o máximo que conseguiria fazer sem se mexer muito - mas o suficiente para demonstrar apoio naquele momento. Passaram de desconhecidas ao único rosto familiar que tinham. Já estavam chegando perto do México.
A nova hospedagem nada glamourosa era uma fazendinha que ficaram por dois dias. De todos os lugares que passou achava que esse era o pior, mas mal sabia o que ainda estava por vir. Não tinha chuveiro, o banho era de balde e a comida não tinha condições de comer. Mas o próximo lugar com certeza foi o mais difícil, a parte de dentro é extremamente abafada, estava lotado, a sustentação do teto era feita com vigas de madeira e todo o espaço era tomado por redes de pano. Nunca achei que ficaria tão triste vendo uma rede, disse Isadora em um riso leve.
A estadia em Cancún foi quase um devaneio comparado aos outros dias que tinha vivido até ali. O hotel era confortável, tinha piscina e pela primeira vez sentiu que estava comendo comida de verdade, parecia até que os pássaros estavam cantando para ela. Ok, era um lanche do Burger King, mas com certeza foi a melhor coisa que havia provado. Antes do balde de água fria que seria a realidade próxima, parecia estar em um mundo utópico.
O último deslocamento das meninas foi para Tijuana, ali estariam somente a um passo do tão esperado American Dream, pelo menos era o que elas achavam. A última noite na cidade trazia um misto de emoções, cansaço, apreensão, saudade de casa e da família, mas uma esperança e a sensação de que tudo daria certo. A caminhada do último transporte acompanhadas por um coiote até o muro da fronteira foi feito por pernas bambas, mas surpreendentemente firmes, com ânsia de estar do outro lado.
Chegaram no deserto por volta das quatro horas da tarde do dia vinte e quatro de setembro. Nove dias de deslocamento. Foram abordadas por um policial, até que bem educado considerando a situação, perguntou de onde eles eram e instruiu através do google tradutor que esperassem por ali. Levou água e lanches rápidos para que pudessem se recompor. Por volta das dez horas da noite, uma van apareceu para levar quem estivesse no deserto para a imigração e assim terem os seus destinos traçados. O procedimento dali para frente foi de criminosos mesmo, colheram as digitais, conferiram documentos e tiraram fotos com fundo listrado. Por ser uma menor de idade, mesmo que emancipada, Isadora foi separada de todos que tinham chegado com ela até ali e levada para uma cela de jovens.
O sentimento era completo desespero. Viu diversos outros adolescentes que estavam ali há bastante tempo, conversou com uma guatemalense que havia chegado há sete dias. Mais uma vez, questionamentos de autoridades. O que veio fazer aqui? Por qual motivo saiu do seu país? Com quem você vai morar aqui? Tem um endereço e telefone? Para a última, a resposta era sim! Seu contato fixo no país era o padrasto do noivo. Isa conseguiu falar com ele rapidamente e mais uma vez aquele fio de esperança enlaçou seu coração, achava que por terem deixado ter um contato, mesmo que mínimo e muito rápido, seria liberada mais facilmente.
Ao final Isa se sentiu muito agradecida, apesar de todo o perrengue que passou até chegar em solo americano. Sempre soube que a travessia seria difícil, tanto pelas condições ambientais, quanto pelas condições emocionais em deixar tudo para trás. Sabia que poderia ter sido muito pior, no processo muitos são presos, deportados, se ferem gravemente ou até mesmo perdem a vida. Resta a dúvida sobre se o pagamento pelo American Dream é o suficiente para compensar as marcas que ficam para sempre na alma.
Em meio a correria diária na favela do Peri Alto, aos 51 anos, recém-viúva e mãe de três filhos, Cristiana Silva Ferreira enfrenta uma realidade compartilhada por muitas: a solidão que se impõe sem aviso, silenciosa e persistente. Sua história, porém, começa muito antes da viuvez. Cresceu sem referências maternas, criada em um ambiente predominantemente masculino onde aprendeu a guardar seus sentimentos. Logo, no fundo, sempre esteve sozinha de certa forma. A solidão não chegou com a morte do marido e o luto recente não a parou, pelo contrário, exigiu que se reconstruísse, passando a organizar sentimentos que já lhe eram conhecidos.
Assim como Cristiana, Neilde Santos Rosa, 63 anos, vive realidade semelhante há décadas. Mãe solteira há mais de 40 anos, saiu de Aracaju, no Sergipe, no caminho silencioso que leva milhares para o Sudeste em busca de realizar seus sonhos modestos com uma determinação inabalável, mas encontrou uma metrópole que oferecia condições duras de vida e pouca dignidade. Trabalhando como diarista, suas mãos carregam as marcas do ofício, que, dia após dia, limparam o mundo para que seus dois filhos pudessem viver confortavelmente. A maternidade solo nunca foi uma escolha, mas sim um caminho aceito com aquela dignidade silenciosa de quem compreende que o amor, muitas vezes, se veste de sacrifício. Aos poucos, seu corpo foi se transformando em instrumento de trabalho, sua saúde tornando-se moeda de troca por um futuro que, talvez, nem chegasse a usufruir completamente.
Um medo persistente a acompanhava o temor constante de que sua filha pudesse um dia conhecer a mesma solidão e as mesmas dificuldades que marcaram sua própria trajetória. Esse receio se materializava em gestos cotidianos na insistência com que priorizava a educação da filha, nos conselhos repetidos sobre independência financeira, nas advertências cautelosas sobre relacionamentos amorosos. Mais do que simples preocupação materna, tratava-se do legado inevitável de quem conhecia intimamente o preço amargo de uma autonomia conquistada.
Cristiana conta que, no final das contas, a solidão virou sua parceira. Não como algo desejado, mas como algo com o qual aprendeu a lidar. Admite que se reinventou, criou novos vínculos consigo mesma e aprendeu a não se culpar por não estar sempre realizada, mas, este processo de reinvenção não foi linear; envolveu recaídas, noites de choro silencioso e, aos poucos, aceitação de que felicidade poderia ter contornos diferentes daqueles que imaginara.
Para a diarista, a solidão também se tornou mestra dura, porém sábia: aprendeu a ouvir silêncio da casa, além de se ouvir - na ausência de vozes alheias, descobriu ressonâncias internas que desconhecia. Aprendeu a distinguir entre solidão que oprime e solitude que liberta, ainda que esta distinção seja tênue e móvel. A vivência da diarista aponta para processo que muitas mulheres relatam, que consiste na transformação da solidão em universo interior. Entretanto, este processo está longe de ser leve, pois, envolve desconstruções dolorosas, como quebra da crença de que ser suficiente para todos é caminho para ser amada.
A reclusão, antes ameaçadora, vira escuta. Assim, consolida-se como um dos únicos momentos em que essas mulheres deixam de cuidar dos outros para, enfim, perguntarem-se sobre si mesmas. Consequentemente, nesse caso, deixa de ser apenas ausência e torna-se também resistência. É a recusa silenciosa de definhar completamente na solidão que a estrutura social impôs.
Ademais, as duas trajetórias demonstram como a solidão da mãe solo é qualitativamente diferente de outras formas de solidão, sentindo um vazio peculiar: era a sobrecarga de ser a única a tomar todas as decisões, a única depositária de todas as preocupações. Faltava alguém para quem ela pudesse voltar-se e partilhar as pequenas vitórias e os aborrecimentos cotidianos. Com o tempo, este sentimento mudou completamente. Dos anos de agitação com crianças, passou para uma casa vazia; se antes eram preenchidas por demandas incessantes, agora é preenchida por memórias e esperas, trazendo sempre presentes em pensamento, justamente e trazendo próprios desafios, como reconstruir identidade que não seja apenas materna, como redescobrir desejos próprios após décadas de adiamento.
Frequentemente, a solidão feminina é reflexo de sociedade que espera demais e oferece de menos. Falta rede e escuta. Falta reconhecer que por trás da mulher forte existe mulher que quer poder parar e respirar. Bem como, imagem da mulher que dá conta de tudo é conveniente, principalmente para sistema que ainda delega a elas maioria das tarefas de cuidado, sem oferecer estrutura. Solidão, nesse cenário, não é ausência de pessoas, mas ausência de escuta e partilha real.
Enfim,nenhuma mulher deveria ter que desmoronar em silêncio para provar que está viva, já que talvez o que mais falte não seja força, mas liberdade para não precisar ser forte tempo todo. Inúmeras narrativas convidam a imaginar sociedade onde cuidado não seja privilégio de poucos nem fardo de alguns, mas responsabilidade de todos; até lá, seguiremos ouvindo essas vozes.
Sob o disfarce da resiliência feminina, a sociedade ainda normaliza uma estrutura de abandono emocional, invisibilidade afetiva e sobrecarga funcional. Majoritariamente, a solidão feminina é o produto final de um sistema que cobra, mas não sustenta, exigindo que mulheres sejam mães presentes, profissionais competentes, parceiras compreensivas, filhas atentas, cidadãs produtivas - tudo ao mesmo tempo. Por isso, quando essa regra falha, o que sobra não é acolhimento, e sim julgamento.
A madrugada ainda envolvia São Paulo quando as primeiras luzes se acendiam no Brás. Das furgonetas e caminhões baús desciam caixas e mais caixas, formando pilhas que seriam distribuídas pelas centenas de bancas do maior centro de comércio popular da cidade. Homens de rostos marcados pelo cansaço e pelas horas não convencionais descarregavam mercadorias com a agilidade de quem repetia aquela coreografia há décadas. Entre eles, Renan movimentava-se com familiaridade, seus gestos precisos revelando uma vida inteira dedicada àquele ofício.
Ele havia aprendido o trabalho ainda menino, observando o pai, Josué, negociar com fornecedores e clientes. Aos oito anos, começara carregando caixas leves após as aulas, orgulhoso por poder ajudar. Aos poucos, foi sendo introduzido nos segredos do comércio - como distinguir a qualidade dos tecidos, como reconhecer um bom fornecedor, como lidar com os diferentes tipos de clientes. Aos quinze, já dominava as nuances do negócio familiar, e aos dezoito tornara-se essencial para o sustento da casa. Sua educação formal acontecera entre um cliente e outro, seus deveres de escola muitas vezes feitos no balcão da banca, entre intervalos de atendimento.
Agora, na flor da juventude, o jovem conhecia como poucos os meandros do comércio de falsificações. Seus olhos percebiam instantaneamente a diferença entre uma réplica bem-feita e outra de qualidade inferior. Seus dedos reconheciam o toque do bom algodão, a costura bem executada, o detalhe que fazia a diferença. Mas acima do conhecimento técnico, ele compreendia a psicologia por trás de cada compra - entendia que não vendia apenas produtos, mas acessos a sonhos, mesmo que temporários e imperfeitos.
Enquanto arrumava pilhas de camisetas de times europeus, Renan observava os primeiros compradores chegarem. Uma mãe examinava atentamente cada peça, calculando mentalmente quanto duraria nas brincadeiras do filho. Um casal jovem discutia baixo sobre qual modelo de tênis escolher, pesando o custo-benefício de cada opção. Um homem maduro mexia nas gavetas de meias, buscando aquelas que melhor resistiriam ao trabalho braçal. O jovem vendedor sabia que todos eles, assim como ele e seu pai Josué, navegavam constantemente entre o desejável e o possível.
Seu pai, Josué, chegara mais cedo ainda, como sempre fazia. Homem de poucas palavras e muitos gestos práticos, ensinara ao filho não apenas o ofício, mas a filosofia por trás dele. "Não estamos enganando ninguém", dizia, "estamos oferecendo o que as pessoas podem pagar". Josué começou com uma simples banca de calçados há trinta anos, e através de trabalho duro conseguiu estabelecer o pequeno império familiar - três bancas lado a lado, cada uma com sua especialidade.
Ao longo do dia, o movimento no Brás transformava-se em um espelho da sociedade brasileira. Havia os compradores regulares, que vinham toda semana em busca de novidades; os trabalhadores procurando roupas resistentes a preços acessíveis; os jovens das periferias em busca dos símbolos de status que viam nas novelas e nas redes sociais; e até profissionais de classe média que, mesmo podendo comprar originais, preferiam a relação custo-benefício das réplicas.
Renan notava como cada grupo tinha seu próprio comportamento. Os mais velhos, cautelosos, examinavam cada costura, cada detalhe. Os mais jovens, por outro lado, preocupavam-se mais com a estética do que com a durabilidade. As mães de família calculavam mentalmente quantas peças poderiam comprar com o orçamento disponível. E ele, no centro daquela dança de desejos e realidades, adaptava seu discurso para cada situação.
Às vezes, nos raros momentos de calma, o jovem observava o movimento do Brás e pensava na complexidade daquela economia paralela. Não se tratava apenas de vender produtos falsificados, mas de fazer parte de uma cadeia que envolvia milhares de pessoas, desde os costureiros das oficinas muitas vezes clandestinas até os consumidores finais, passando por transportadores, fornecedores e vendedores como ele. Uma rede complexa que, embora operando na ilegalidade, sustentava famílias e realizava sonhos modestos.
Seu pai Josué interrompia esses devaneios com um gesto prático - uma caixa para ser aberta, um cliente para ser atendido, um fornecedor para ser recebido. A realidade sempre falava mais alto, e ela ditava que, enquanto houvesse mercadoria para vender e clientes para comprar, o trabalho não podia parar.
Ao entardecer, quando as luzes do mercado começavam a se acender anunciando o fim do dia, pai e filho iniciavam o ritual de fechamento. Enquanto arrumavam as sobras e faziam o balanço do dia, Josué compartilhava histórias dos tempos em que o Brás era menor, mais simples. Falava das dificuldades, das crises superadas, dos clientes que se tornaram amigos. Renan ouvia atentamente, compreendendo que herdava não apenas um negócio, mas uma história de resistência.
No caminho de volta para casa, no ônibus lotado de trabalhadores igualmente cansados, o jovem permitia-se sonhar. Imaginava uma loja legalizada, produtos originais, etiquetas verdadeiras. Visualizava-se mostrando a um filho hipotético um negócio honesto, regularizado, longe da sombra da ilegalidade. Mas depois olhava para o pai ao seu lado, o rosto marcado por anos de trabalho duro, e entendia que a realidade era mais complexa que seus sonhos.
A verdade era que, num lugar de contrastes como o Brasil, o mercado das falsificações representava tanto um problema quanto uma solução. Era sintoma de uma economia que não conseguia incluir todos formalmente, mas também demonstração de uma resiliência popular que encontrava seus próprios caminhos para a sobrevivência. E Renan, assim como o pai Josué e milhares de outros trabalhadores do Brás, era apenas um elo nessa cadeia complexa - um jovem que herdara não apenas um ofício, mas um lugar específico no intricado quebra-cabeça da economia brasileira.
Na manhã seguinte, antes do sol nascer, ele estaria novamente no Brás, abrindo a banca com o pai, arrumando as mercadorias que, embora carregassem logos falsos, sustentavam sonhos verdadeiros. E naquele ciclo infinito de trabalho e sobrevivência, ele seguia escrevendo, junto com Josué, mais um capítulo de uma história que era, acima de tudo, sobre a capacidade humana de se adaptar e perseverar, mesmo nas circunstâncias mais desafiadoras.
Três. Dois. Um. A contagem regressiva que tirou de Carlos seu bem mais valioso. Na cama do hospital, no dia 26 de julho deste ano, o homem ouviu as últimas batidas do coração de sua esposa. O que havia lhe sobrado era somente o silêncio, que naquele momento, se tornara um barulho ensurdecedor. Ana, aos 62 anos, morreu por uma parada cardiorrespiratória após ficar internada durante três dias. Em seus últimos momentos, ela viu Carlos, um homem grande, chucro, daqueles forjados ao longo de 67 anos na antipatia, se despedaçar. Parecia que ao passo em que as lágrimas caiam, uma parte da alma de Carlos ia embora junto. Junto com o vento e junto de Ana.
Nem a indignação sobrou ao homem, já que a morte da mulher veio de repente. Chegou sem avisar e foi embora sem nem dar explicações. Carlos até perguntava a Deus sobre o porquê daquilo, mas ele talvez nem estivesse preparado para a resposta que estaria por vir. Com a maior perda de sua vida, o homem, pai de dois filhos, precisou se apegar cada vez mais à família e aos amigos do casal. Amigos esses que foram essenciais durante a trajetória de amor de Carlos e Ana. Todos em volta dos dois presenciaram o nascimento do amor no condomínio Torres do Sul, na Zona Sul de São Paulo. Por ali, se formou um grupo que seria como uma rede de apoio para os que moravam no local.
Quando Ana morreu, Edu e Aline, filhos do casal, já eram crescidos e não estavam mais debaixo das asas de Carlos. Os dois sentiram a morte da mãe, mas sabiam que precisavam ser os alicerces do pai. Porém, não contavam que três meses após a morte de Ana, Carlos teria descoberto um novo amor. Mas nem tão novo assim. Vizinhos do mesmo prédio e amigos de longa data, o ex-casal Márcia e Antônio, prestaram apoio a Carlos no momento difícil. Mesmo já separados há dois anos, eles se uniram para consolar o amigo. Antônio e Carlos eram como fiéis escudeiros. Márcia e Ana eram as primeiras-damas. E os casais construíram uma amizade de mais de 20 anos. Mas, o clima de harmonia chegaria ao fim após a morte de Ana.
Um mês após o velório da esposa, Carlos e Márcia decidiram se encontrar para conversar, o que não era muito costumeiro por parte do homem, já que ele nunca foi muito bom com as palavras. Motivo esse, que por diversas vezes, fez a mulher de seu melhor amigo sentir certa repulsa. No encontro, Carlos estava leve, como alguém que nem parecia carregar mais de 100kg em um corpo de dois metros. Márcia, já com 65 anos, estava a mesma. Vaidosa, produzida, arrumada e até mesmo com aquele ar de quem "se acha". Mas quem se achou mesmo nessa noite foi Carlos.
Ele, que não era muito de se expressar, mostrou uma outra face para a companhia em um jantar a dois. Os dois conversaram e riram a noite toda e nem parecia que as desavenças do passado estavam presentes. Nem mesmo parecia que Ana havia partido. O primeiro encontro foi talvez um passo que nenhum dos dois estava certo de ter dado, mas depois que o clima ficou no ar, o que restou foi seguir caminhando. Igual ao primeiro, vieram outros. Restaurantes chiques, risadas, comida, conversa boa e, principalmente, sigilo.Ali estava a sensação de conhecer alguém novo após tanto tempo casados. O sentimento de, já no caminho final da vida, encontrar um novo amor. Esse, de certa forma, proibido.
As coisas não seriam fáceis depois de Carlos e Márcia decidirem anunciar que estavam juntos. Depois de três meses em que Carlos conhecia uma Márcia que nunca viu e vice-versa, eles foram contar para as respectivas famílias. E não, a história não convenceu muita gente. Os filhos de Carlos, Edu e Aline, repudiaram a ideia completamente. Ainda machucados com a partida da mãe, não concebiam a ideia de que o pai havia arranjado uma outra mulher, ainda mais ela sendo a melhor amiga de Ana. Porém, disseram que se era da vontade de Carlos, que assim fosse feito. Os filhos de Márcia também não se sentiram confortáveis com a notícia. Murilo e Jéssica, que ouviram a mãe falar mal de Carlos durante toda a vida, não entendiam como as coisas haviam mudado em tão pouco tempo. Mas, a pior reação foi a de Antônio, que viu seu melhor amigo anunciar um romance com a mulher com quem dividiu a vida, as contas, as felicidades e as tristezas do casamento. Hoje, Antônio não frequenta mais as festas de família se Márcia e Carlos estiverem presentes. Ele mesmo diz que sente nojo do casal e que não sabe como os dois tiveram a coragem de desonrar não só o próprio matrimônio, mas também a morte de Ana.
Carlos e Márcia se juntaram para dar respostas à solidão que sentiam no peito ao chegarem no fim de suas caminhadas e estarem sem ninguém. Talvez, essa tenha sido a forma de driblar um fim solitário. Um viúvo e uma recém-divorciada. O útil ao agradável. Talvez, o amor tenha também driblado as convenções e regras do que é "certo e errado". Se até mesmo Seu Jorge passou por um momento difícil como esse, quem dirá os meros mortais. Talvez, seja natural que Antônio sinta desgosto pelos "dribles" que tomou das pessoas em que mais confiava. E por fim, a sensação de Ana sempre ficará no talvez, já que ela foi a única que não pôde ver com seus próprios olhos o rumo que sua morte daria para a vida de todos os outros. Uma coisa é fato, alguns agradecem por ela não ter presenciado isso.
1998. Por volta de seis da tarde, o céu de São Mateus, na Zona Leste de São Paulo, se tingia de um amarelo cansado, cor de fim de turno e de fogão aceso. Na viela principal da Comunidade Divinéia, Jesse caminhava com o corpo leve de quem carregava apenas um desejo: completar o álbum da Copa. Faltava pouco, um dia, para a semifinal entre Brasil e Holanda. O bairro inteiro parecia batucar o nome de Ronaldo Fenômeno pelas janelas, escadas e campinhos improvisados. Jesse tinha 15. O mais novo dos cinco irmãos. Era franzino, riso fácil e tinha olhar de quem ainda acreditava na vida. Além da amarelinha, amava o time de verde, o Palmeiras, que tem a cor da esperança.
Próximo ao “Bar do Seu Paulo” e da “Mercearia do Wilson”, os meninos se juntavam onde o asfalto quebrado servia de mesa para figurinhas repetidas. A cada troca, um campeonato inteiro nas mãos. A voz alta, o vai-e-vem das pernas finas, o futuro ainda intacto. Até que o silêncio se impôs pela força de um motor. A viatura dobrava a esquina com pressa de quem não veio perguntar nome, nem idade, nem história. No primeiro instante, a gritaria. Depois, o instinto. Correr. Em poucos segundos, o que era brincadeira virou fuga.
A confusão riscou as vielas como um estopim. Dentro da “quebrada” cada criança buscou um caminho diferente. Jesse entrou no primeiro beco, onde um muro sem saída guardava restos de obras, roupas no varal e o cheiro do feijão que subia de uma janela. A respiração curta, o suor frio, o álbum preso no bolso da bermuda. Ao virar, deu de frente com o policial. Branco, farda alinhada e mira treinada. A voz dura ordenou a revista. Jesse ergueu as mãos devagar, tentando pescar o objeto do bolso, como quem oferece a prova de sua inocência. Era só papel. Um álbum. Nada além disso.
O tiro veio antes da explicação. O estampido rasgou o silêncio como um gol contra no último minuto. O projétil atravessou o corpo pequeno e encontrou o coração. Aquele que batia forte pelo jogo do dia seguinte e pelo sonho simples de crescer. Segundo o policial, ele acreditava que o garoto estava armado. E por isso agiu. A frase que, desde então, se repete como reza torta nos corredores de delegacias e manchetes de jornal. “Parecia armado.” Aparentar perigo virou sentença para tantos meninos que carregam a cor da noite estampada na pele.
Jesse M. da Silva Foto: Arquivo pessoal/Carmem Cruz da Silva.
Na casa dos irmãos, a notícia chegou como quebra-cabeça impossível de montar. O álbum - com pingos de sangue - ficou sobre a mesa, aberto. A figurinha do Ronaldo, seu jogador favorito, ainda faltava. Agora, como sua vida. A mãe Carmem, evangélica praticante, sem chão, tentava contar os filhos com as mãos para garantir que ainda tivesse todos, mas, a partir dali, faltava um. Thais, a irmã, guardou silêncio. Desde aquele dia, não fala sobre futebol. O pai insistia no nome de Jesse como quem repete um mantra que tenta trazer de volta o que já não respira.
O enterro foi breve. A vizinhança segurava o choro como podia, alguns com raiva, outros com medo. Todos com um nó na garganta ao perceber que, naquela noite, algo mudaria para sempre na Divinéia. Aos poucos, os irmãos mais velhos, Jayro e Tony, que antes sonhavam com motos, empregos, até viagens, passaram a sonhar menos. A revolta, lenta e silenciosa, entrou pelas portas abertas, como vento ruim que escolhe ficar. Por vingança, por dor, por falta de escolha, os meninos buscaram refúgio no mundo do crime. A morte de Jesse não foi o fim. Foi o começo de uma outra estatística.
E, enquanto o Brasil entrava em campo no dia seguinte, com discussões sobre escalação, defesa, ataque, a casa de Jesse se enchia de lembranças. Não houve camisa amarela, nem torcida. Só o eco de uma pergunta sem resposta que a família repete até hoje: como se mata um menino que só queria completar um álbum?
No beco onde o tiro ecoou, o muro ainda está lá. O tempo insiste em passar, mas a marca daquele dia segue presa no chão. Entre os adesivos colados, as figurinhas trocadas e as memórias guardadas, permanece uma certeza amarga: para muitas famílias negras das periferias brasileiras, a vida vale menos que um álbum de Copa.
A tarde estava chuvosa, a água batia na cobertura do Palácio 9 de Julho, mas não fazia mais barulho do que os manifestantes que estavam na porta da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. Dentro do Plenário Juscelino Kubistchek, os deputados e deputadas estaduais chegavam um. Os progressistas sentavam à esquerda do presidente da Casa, Carlão Pignatari, e os conservadores, à direita, enquanto a base governista se espalhava pelas fileiras do fundo e se acomodava nas cadeiras verdes acolchoadas.
Nas galerias, diversas categorias de servidores públicos, que carregavam faixas e bandeiras, aguardavam inquietos o início da votação da reforma da previdência estadual quando o deputado Frederico D'Ávila, em processo de afastamento por ataques à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, apontou as mãos em formato de arma para eles. A atitude do parlamentar foi como um fósforo em um barril de pólvora, que gerou uma explosão na ala dos manifestantes.
Mais tarde, um dos eventos mais marcante da história da Alesp aconteceu. Durante o seu discurso, o ex-deputado Arthur do Val, que renunciou e amargou uma cassação de mandato em votação no plenário após ter áudios sexistas vazados, chamou os sindicalistas presentes de "vagabundos" diversas vezes, enfurecendo Teonílio Barba, que partiu para cima de "Mamãe Falei". Esse foi o momento em que tudo se inverteu e a base governista criou uma falsa narrativa. Os manifestantes, que estavam sendo agredidos pelo projeto que era votado, se tornaram os agressores . Por volta da primeira hora da madrugada, o gesto de Frederico D'Ávila fez mais sentido do que nunca. A reforma da previdência estadual havia sido aprovada. Um tiro na perna dos servidores, que saíram aleijados, mas sem saber que era apenas um começo de uma série de ataques promovidos pela gestão de João Doria.
Em 2021, o Executivo lançou mais uma proposta covarde ao Legislativo paulista. O Projeto de Lei complementar proposto buscava promover uma reforma administrativa ao acabar com diversos direitos dos funcionários públicos. O PLC foi a plenário em uma terça-feira de muito sol, quente como o clima que se instaurava nas galerias. Novamente os sindicatos mobilizaram diversos manifestantes para lutar contra mais um ataque. Durante as falas que apoiavam a proposta, a líder do Partido dos Trabalhadores na Alesp Professora Bebel fazia círculos com as mãos, um comando para que todos virassem de costas e ignorassem as atrocidades que eram faladas.
Entre os discursos na tribuna, a oposição contava os parlamentares presentes no local. Constatado um baixo número de governistas, era pedida verificação de quórum. Os deputados do campo progressista, juntamente com os conservadores da extrema direita, corriam para as portas do plenário e se escondiam do olhar atento de Carlão Pignatari, que queria levar mais um troféu para Doria e receber um tapa em seu topete.
A técnica de obstrução não funcionou. Os capangas do Executivo, como eram chamados os deputados da base do então governador com suas emendas parlamentares liberadas, mantiveram o quórum necessário. Ao final da sessão extraordinária, um silêncio reinou. Luto pelo funcionalismo público, que já estava mancando, e naquele momento foi ao chão. A sequência de cruzados que levou os servidores à lona não foi ocasional. O plano de Doria estava escrito, desde o começo, e ficou explícito em sua última reunião com parlamentares da Alesp, realizada mensalmente durante seu mandato, para que as estratégias da base fossem definidas.
O Secretário da Casa Civil, Cauê Macris, presente no encontro virtual, questionou em tom amigável o líder do governo na Assembleia Legislativa o porque de eles não estar nos gabinetes articulando com outros parlamentares para que a cartada final de Doria fosse aprovada em plenário. Cercado em grandes árvores em uma praça de Marília, Vinicius Camarinha riu, e disse que já estava tudo certo para que o tucano presidenciável deixasse seu cargo em paz.
O último ato de Doria seria tentar ganhar de volta o funcionalismo público com projetos de revalorização salarial. Porém, os servidores mostraram que não tinham memória curta. Através de seus óculos sustentados por uma fina aração, José Gozze assistiu à votação das duas reformas e à diversas outras lutas. Cercado por bandeiras de sindicatos que já participou ou presidiu, e quadros com líderes progressistas, ele condena todos os passos de Doria, da prefeitura ao governo. Ansioso, ele mostra suas conversas com diversos movimentos, destacando as articulações feitas para derrubar os recentes ataques feitos pelo Executivo. Além disso, em seu caderno com adesivos de diversos partidos de esquerda colados, ele lê os dados inflacionários dos últimos dez anos, condenado a esmola oferecida por Doria em forma reajuste salarial.
Em uma luta sem voz, Lucas Hideki mostrou sua força e contou sobre um problema pouco discutido no Brasil, praticamente uma batalha sem a atenção necessária. O racismo e xenofobia contra amarelos deixa marcas silenciosas em mim, no Lucas, em todos, mesmo que não admitam.
Os descendentes de países do Leste Asiático que estão no Brasil vêm sofrendo preconceito. Os sucessores de pessoas vindas da China, Coreia do Sul, Coreia do Norte, Japão, Mongólia, Taiwan, Hong Kong e Macau, são amarelas, caso tenham em seu fenótipo características de seus antepassados. “Abre o olho, japonês”. “Volta pro seu país”. “Xingling”. “Japinha”. “Para passar no vestibular tem que matar um japonês”. “Asiático é tudo igual”. “Vírus chinês”. Frases diariamente ditas para amarelos e que tem teor de menosprezar ou ‘tirar’ com a cara.
Antes de tudo, antes de você, leitor, achar que é apenas frescura, abra o olho (como vocês mesmos dizem) mostrarei números e fatos que te farão entender rmelhor o problema, a médio e/ou longo prazos, às situações que suas frases de “brincadeira” podem levar.
“Me sentia mal, bem mal. O pior de tudo é que eu mesmo, por crescer com esse apelido, por muito tempo achei normal e não tive capacidade de sozinho entender o quanto isso me fazia mal”, diz Lucas Hideki Maesaka, estudante. Muitas das vezes sua personalidade e sua história são rotuladas apenas pela sua descendência. Como se você fosse única e exclusivamente aquilo. Sofrer ataques verbais é comum, principalmente querendo desmerecer pela sua descendência. Lucas sentiu isso ainda jovem e seu avô o aconselhou com ‘sabedoria’, como o mesmo diz: “Tenho uma memória muito forte de quando eu estava no 1º ano do Ensino Fundamental e um colega tentou me ofender me chamando de japonês, eu reportei o fato ao meu avô, que com grande sabedoria ele me respondeu com uma pergunta "Mas isso não é verdade?", desde aquele dia até o presente momento eu não me sinto ofendido mesmo quando alguém tem a intenção de me ofender. Eu tenho meu avô, que aprendeu isso sozinho”.
Segundo o Censo de 2010, dois milhões de brasileiros se declaram amarelos. Pessoas amarelas se encontram principalmente em São Paulo, cerca de 70% do total. Porém tem populações significativas no Paraná, Mato Grosso do Sul, Amazonas, Pará e Pernambuco.
A família de Lucas, provavelmente já sofreu racismo e/ou xenofobia, mas Hideki pode explicar melhor o porquê desse talvez: “A resposta para isso é: muito provavelmente. Não coloco certeza em minha resposta uma vez que meu avô, o Senhor Domingos, representa a minha família inteira, e ele sabe que se algum dia ele sofreu preconceito e ficou mal, de modo algum poderia se mostrar abalado para mim”.
Segundo o Grupo de Defesa da América Asiática e das ilhas do Pacífico (Stop AAPI Hate), em onze meses, de março de 2020 até fevereiro de 2021, houve 3.800 agressões, sendo verbais e físicas, contra asiáticos e seus descendentes. Esse número expressivo, uma média de 10 casos por dia, aumentou em 150%.
Em março de 2021, três casas de massagens foram atacadas por Robert Long, homem branco de 21 anos. O homem matou oito pessoas, sendo seis delas mulheres asiáticas. Outro crime de ódio xenofóbico e racista é o caso de Danny Yu Chang, que foi espancado na rua e ficou parcialmente cego, o homem disse: “Eu nem vi a pessoa. Não me roubaram, então acho que foi um crime de ódio”.
Outra ação extremamente preconceituosa foi quando um homem jogou uma bomba dentro do Consulado Chinês, em Botafogo, no Rio de Janeiro. Ninguém se machucou, mas caso alguém estivesse próximo, poderia ter morrido. Isso ocorreu em setembro de 2021. A causa do atentado terrorista não foi descoberto pela polícia, mas basta ligar pontos que o motivo é óbvio.
Uma coisa que penso desde quando comecei a me entender como homem amarelo é sobre a falta de união do povo para tentar acabar com esses problemas. Compreendo totalmente a cultura ser algo de resistência e não se abalar. Porém vejo uma necessidade de se juntar para acabar com algo maior. Lucas Hideki concorda sobre a falta de união e fala com mais propriedade sobre os descendentes de japoneses: “Claro! Como em todas as minorias, a união é a principal força no combate às desigualdades. Porém existe uma característica específica nos nipo-brasileiros, essa comunidade incrível, talvez por medo, talvez por preconceito, talvez desconfiança, tende a se isolar, e isolando-se perdem a chance de conquistar um espaço maior na sociedade”.
Talvez meu povo se mexa quando for um dos nossos familiares que seja encontrado morto por conta da brutalidade contra nós, amarelos.
No Brasil, a luta de pessoas amarelas para que o racismo e xenofobia acabe é invisibilizado pelo seu próprio povo, que não enxerga esses fatos como preocupantes, ou que se auto-sabotam para enturmar com outras pessoas. É uma batalha que os leste-asiáticos e seus descendentes se abstêm.
Estereotipar um povo por conta de seus traços raciais é presente na vida de muitos descendentes do leste-asiático. A junção de grupos étnicos diferentes e tratar como se fosse da mesma classe incomoda. Nenhum sucessor de europeu gostaria de ser chamado de espanhol sendo que sua origem é portuguesa. Ou que zombassem da comida que sua “Nonna” faz uma comida estranha e que a cultura dela é nojenta.
O acolhimento de pessoas LGBT+ em religiões de matriz africana em contrapartida com o preconceito instaurado dentro de religiões mais “tradicionais”, como o catolicismo
Ultimamente, talvez pela severa queda de fiéis que a Igreja Católica enfrenta já faz alguns anos, várias instituições religiosas tradicionais estão adotando uma postura mais tolerante a respeito de de pessoas que fazem parte da comunidade LGBT+. O próprio líder mundial da Igreja Católica Apostólica Romana, o Papa Francisco, já fez vários discursos que demonstram uma abordagem mais mansa a respeito dessa questão, principalmente em comparação aos papas que o antecederam
Mas muita dessa "aceitação" é na verdade uma tentativa mal feita de parecer que a Igreja está se "modernizando" e se adaptando às demandas do público por mais acolhimento à diversidade, superando crenças e práticas preconceituosas que não fazem mais sentido em uma sociedade que preza por direitos humanos e igualdade. É um eterno "ficar em cima do muro", oferecendo o mínimo para não parecer intolerante, mas não demais para não desagradar a parte mais conservadora. "Hoje, o que ele faz, ao mesmo tempo que ele apoia e se distancia, è para também não perder o apoio político", diz Fernanda, que é mãe de santo e mulher trans. "A história da Igreja Católica, se você for analisar, ela foi meramente política. Tanto é que os primeiros papas da Igreja eram pessoas da sociedade que tinham uma vida financeira elevada e conduziam os filhos a serem papas para manter o poder, o poder de persuasão, o poder de perseguição, o poder pelas terras", completa ela.
"A bíblia hoje é um livro não de orientação, mas de persuasão. A lei deles, não a que cristo pregou".
O penúltimo Papa já entrava nessa questão da não discriminação contra homossexuais, que foi acentuada pelo Papa Francisco ao dizer que essas pessoas também são "filhos de Deus" e que merecem respeito como qualquer outra pessoa. Isso, além de ser o mínimo, deixa a entender que as pessoas LGBT+ não são "como qualquer outra pessoa", ademais ao fato que a Igreja firmemente acredita que a união entre casais homoafetivos jamais deve ser equiparada ao casamento. "Casamento só existe entre homem e mulher", afirmou o atual papa em uma entrevista em 2017. Sobre essas "idas e vindas" do Papa, Fernanda disse que "Ele é um fofo, uma gracinha de pessoa, mas ainda não entrou um papa que pudesse dizer 'é assim que eu quero e é assim que vai acontecer', porque a política nunca vai deixar, nem a política interna, nem a política externa".
Além disso, no início deste ano, em resposta as dúvidas de algumas paróquias sobre a questão de abençoar uniões entre pessoas homossexuais, com o aval do Papa o Vaticano anunciou que homossexuais devem ser tratados com dignidade e respeito, novamente o mínimo, mas que relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo é "intrinsecamente desordenado" e que "Deus não abençoa o pecado: ele abençoa o homem pecador, para que ele reconheça que faz parte de seu plano de amor e se permita ser mudado por ele". Essa declaração tem várias problemáticas óbvias, o preconceito e a homofobia são claros, mas a ideia de que o homossexual é um pecador que pode ser "convertido" é extremamente preocupante, principalmente tendo em vista os ainda inúmeros casos de pessoas LGBT+ que foram forçadas a passarem por "conversões", ou "cura gay" como é popularmente conhecida, e possuem diversos traumas e problemas psicológicos devido a isso.
Em contrapartida, a Umbanda é uma das poucas religiões que não discriminam o casamento homoafetivo. Em janeiro deste ano, dois homens se casaram em uma cerimônia umbandista em Cuiabá. A união ganhou destaque por ser um dos primeiros registros públicos no religioso da cidade, mas as religiões de matriz africana, como o Candomblé e a Umbanda, já realizavam uniões entre pessoas do mesmo sexo muito antes.
"Para os orixás não existe sexo, somos todos iguais".
Ialorixá Laudelina em entrevista para Sofia Paiva
Ambas doutrinas permitem que pessoas LGBTQ+ ocupem cargos na hierarquia sem que sua identidade ou orientação seja algo prejudicial em sua posição. Em entrevista, a Ialorixá Laudelina do Centro Espírita de Filantropia Espiritual e Material de Uberlândia, Minas Gerais, afirma que as religiões de origem africana são as que mais acolhem as minorias. "Paras os Orixás não existe sexo, somos todos iguais" disse ela.
Não é possível afirmar que não há nenhum tipo de preconceito dentro dessas religiões, pois preconceito existe em todo lugar. Apesar da doutrina e do terreiro ser um lugar de acolhimento, isso não impede as pessoas de reproduzir nesses espaços a intolerâncias que a sociedade carrega. Por isso que, mesmo incluídos em sua religião e hierarquia, as pessoas LGBTQ+ precisam lutar um pouco mais que pessoas cisgêneros e heteronormativas para assegurar suas posições e serem reconhecidas.
Porém, é logicamente muito mais fácil existir como LGBTQ+ dentro de uma religião de matriz africana do que na Igreja Católica, por exemplo. "A Umbanda, o nosso Omolocô, as nações africanas, o Queto, a Angola, e outras, recebem com muito carinho a maioria dentro do culto", disse Laudelina. Fernanda, amiga da Ialorixá Laudelina e mãe de santo no mesmo Centro, afirmou algo semelhante: "É uma religião de portas abertas, tanto a Umbanda quanto as nações, todas elas nos recebem com carinho".
Fernanda também concorda que é mais fácil existir como pessoa LGBTQ+ dentro de religiões de matriz africana: "As religiões dita como tradicionais pregam mais o ódio, o preconceito e a intolerância do que o amor ao próximo, e nós pregamos o amor ao próximo, e o mais importante. Amar o próximo, estender a mão, fazer o bem sem olhar a quem, sem nada em troca, e as religiões tradicionais acabaram com isso. A bíblia hoje é um livro não de orientação, mas de persuasão, eles usam a bíblia para persuadir os outros. A lei deles, não a que cristo pregou, porque cristo foi um ser humano de amor, de caridade, e não vejo isso em outras religiões", diz ela.
Ela foi introduzida ainda nova à religião, para tratar uma frieira no pé, e nunca mais saiu. Agora já esta a quase 30 anos dentro da Umbanda. "Graças aos meus orixás, minha mãe Oxum, eu sou bem acolhida. Todos me respeitam, todos, acredito, me amam, porque é a demonstração que eu tenho no dia a dia. Para mim isso é importante, não que me faça falta, não faz, mas assim, preenche um vazio, uma lacuna que a vida aos poucos vai deixando, pelas coisas que você passa ao longo da vida, as perdas. Os amigos que nos construímos dentro da religião ajudam a te fazer seguir. Ás vezes eu nem lembro também da sexualidade dentro da religião, porque é tudo tão natural", diz Fernanda.
Professor de antropologia e pesquisador comenta sobre a chegada do preconceito no Brasil e índio conta como isso afeta os índios LGBTQIA+ na hora de afirmar
Em meio a tantas discussões no ambiente dos povos originários, tem uma que os jovens vem levantando que é sobre o direito LGBTQIA+. Durante a história dos indígenas, houve momentos marcantes como a morte do índio Tupinambá,Tibira morto em 1631 amarrado em um canhão, sendo considerado o primeiro caso de homofobia registrado no Brasil.
A execução teria ocorrido publicamente aos pés do Forte de São Luís do Maranhão. Embora não tendo autorização do papa ou da Inquisição, contou com a presença de autoridades europeias presentes no Brasil e com líderes de diversas tribos indígenas.
No registro feito pelo pelo frade capuchinho Yves D’Évreux em seu diário “Viagem ao Norte do Brasil feita nos anos de 1613 e 1614“, o religioso explica que o índio “parecia mais homem” no exterior, mas era “hermafrodita” e tinha “voz de mulher”. Para os colonizadores brasileiros, isso justificava sua morte, servindo de exemplo.
“A história da colonização pode ser entendida como uma história de intervenções sobre os corpos indígenas a partir de um discurso religioso, civilizatório, científico etc”, afirma o professor Estevão Fernandes, graduado em Ciências Sociais, mestrado em Antropologia e doutorado em Ciências Sociais (Estudos Comparados sobre as Américas) pela Universidade de Brasília (UnB). Segundo o professor, a colonização dos portugueses trouxe junto os preconceitos que os povos originários não tinham.
A sociedade estuda e enxerga as temáticas que envolvem os povos indígenas sob a ótica colonial, incluindo a comunidade LGBTQIA+. No entanto, essa é uma comparação desigual,
visto que não há paridade entre padrões coloniais e a cultura dos povos originários brasileiros.
“A história da colonização pode ser entendida como uma história de intervenções sobre os corpos indígenas a partir de
um discurso religioso, civilizatório, científico”, afirma o professor Estevão Fernandes, graduado e doutor em Ciências
Sociais, com mestrado em Antropologia pela Universidade de Brasília (UnB).
Professor Estevão Fernades
O educador e ativista indígena LGBTQIA+ Niotxarú Pataxó, conta que nunca teve uma liderança que se assumisse LGBT, sempre via outros não indígenas guardando para si. “Então quando você pensa em preconceito discriminação dentro das comunidades indígenas nada mais é do que um reflexo do que a sociedade envolvente nos impõe” explica.
Sobre o preconceito enfrentado que é levado para as comunidades, Niotxarú já sofreu com uma pressão da comunidade onde vive para se retirar ao se assumir. Graças a uma conversa com o cacique dele, ele pode permanecer e ensinar sobre. "Então se há 6 anos atrás quase 7 anos atrás não podia praticamente falar hoje a gente fala” comenta.
Niotxaru Pataxó é bissexual e pataxó, povo indígena que vive do norte de Minas Gerais ao sul da Bahia. Sofre um duplo preconceito. Apesar de sua forte presença na luta LGBTQIA +, diz que sua etnia grita mais alto quando se fala em pautas identitárias. Atualmente é estudante universitário e coordenador de educação escolar nas escolas estaduais de sua região.
Niotxaru se descobriu bissexual em 2014, depois de passar por uma experiência enquanto cursava faculdade. Na época era uma jovem liderança na sua comunidade, e falar sobre sua sexualidade não era visto com bons olhos. Niotxaru conta que a presença de pessoas LGBT's em sua aldeia não era uma novidade, mas elas não falavam sobre o assunto. A primeira coisa que lhe veio à mente era como que a notícia seria encarada pelo seu entorno. “Como que minha família vai receber isso? Como que minhas lideranças vão receber isso? E se eu deixar de ser liderança? O que eu gosto é estar no meio da comunidade”, comenta.
Os indígenas de algumas comunidades antes da colonização prezavam pelo trabalho e caráter que cada pessoa oferecia para o seu povo, independente de sexualidade e idade. “Se você for um bom pai de família, um bom caçador, tá tudo bem, o cara não se importa se você é gay, preto, velho, etc. Os indígenas em média são assim”, comenta Estevão.
Para um indigena se assumir LGBTQIA+ dentro de um ambiente colonizado com morais impostas por não-indígenas é um desafio. No entanto, se assumir em um ambiente externo da sua comunidade, onde já existem estereótipos e preconceitos, como racismo e xenofobia, é um desafio ainda maior a ser enfrentado. “Hoje há uma radicalização desses preconceitos devido a um crescimento da igreja evangélica entre esses povos. Há entidades cristãs que estão ensinando a esses povos como isso é errado”, complementa o pesquisador.
A influência exercida pela comunidade LGBTQIA+ cresceu nos últimos anos ao pautar políticas públicas e projetos de lei, como a decisão de 2011 do STF que permitiu o casamento homoafetivo ou o reconhecimento do direito de adoção por casais de qualquer natureza.
Diversos estudos foram realizados e muitos direitos conquistados, no entanto, isso não significa que a população está isenta da LGBTfobia, que acontece diariamente. A comunidade LGBTQIA + sofre violência física de forma recorrente. De acordo com o relatório do Observatório de Mortes Violentas de LGBTI+, em 2020, 237 pessoas LGBTQIA + morreram de forma violenta no Brasil. O relatório mostra ainda que nos anos entre 2000 até 2020, 5047 vidas de pertencentes a esse grupo foram interrompidas.
Hoje não se fala apenas sobre um único movimento LGBTQIA +, já que a interseccionalidade foi inserida no debate. A partir desse novo olhar sobre a temática, outros movimentos são levados em consideração, como o movimento negro, indigena e transsexual.
Havia cerca de cinco milhões de nativos espalhados no território brasileiro antes da chegada europeia. Hoje, este número chega a menos de 500 mil, segundo a Funai (Fundação Nacional do Índio). A disseminação de doenças, o processo escravagista e a retirada de terras para a monocultura foram fatores-chave para o encolhimento dessas populações. Hoje, a maioria dos indígenas encontra-se nas regiões Norte e Nordeste.
Niotxaru Pataxó é bissexual e pataxó, povo indígena que vive do norte de Minas Gerais ao sul da Bahia. Sofre um duplo preconceito. Apesar de sua forte presença na luta LGBTQIA +, diz que sua etnia grita mais alto quando se fala em pautas identitárias. Atualmente é estudante universitário e coordenador de educação escolar nas escolas estaduais de sua região.
O poliamor, o relacionamento aberto e as relações livres podem ser vistos como um avanço no que diz respeito à liberdade sexual das mulheres, mas diferentes culturas podem dizer o contrário
Permitido para que homens tenham mais de uma esposa, o casamento poligâmico já sugere um dos papéis impostos às mulheres: gerar filhos. Além disso, a fidelidade que as esposas devem aos seus maridos também impõe preconceitos relacionados ao divórcio quando solicitado pela mulher. Ainda que modelos de relacionamento próximos, até certo ponto, das ideias da poligamia representem ganhos à população, no sentido de que aos poucos ela se desprende de concepções machistas e/ou cristãs, existem determinados comportamentos que ainda são tidos como naturais ou são abominados.
É comum, por exemplo, que, no íntimo, a relação de um homem, que vive um relacionamento heterossexual fechado, com outra pessoa – a traição - seja perdoada pela parceira sob a justificativa de que “homens são assim”. Por outro lado, mulheres heterossexuais e pessoas pertencentes à comunidade LGBTQIA+, ao proporem maior independência em suas relações amorosas e/ou sexuais, são, por vezes, encaixadas em um comportamento depravado e proibido.
Por outro lado, no 71º episódio do Imagina Juntas, podcast formado por Carol Rocha, Jeska Grecco e Gus Lanzetta, a convidada Mayumi Sato relata sua experiência vivendo um relacionamento aberto e como a usa na construção de um aplicativo para encontros casuais. A prática é vista como um avanço para mulheres, protagonistas, por vezes, de competitividade feminina relacionada a homens. Há também os casos em que a traição em relacionamentos monogâmicos torna mulheres vítimas de feminicídio: dados da Rede de Observatório de Segurança mostram que cinco mulheres morreram por dia em 2020 vítimas de feminicídio.
O sexólogo espanhol Manuel Lucas Matheu afirma que a monogamia não é natural para os seres humanos. Ele a relaciona aos países ocidentais e às pessoas mais pobres, enquanto vincula a poligamia e a poliandria às demais sociedades e às pessoas ricas. Em um estudo, Matheu constatou que as sociedades mais pacíficas e que valorizam a mulher são aquelas em que a monogamia não é imposta. O sexólogo diz ainda que o sexo tem se tornado uma espécie de ginástica, atividade na qual o foco está em genitálias, bem como a pornografia fomenta, e que o verdadeiro “ponto G” dos nossos corpos é a pele, citando Frank Sinatra ao afirmar que sexualidade é se fundir.
Dentre os diferentes tipos de relacionamentos amorosos e/ou sexuais estão a não monogamia consensual, o poliamor, a relação livre, o relacionamento aberto, a poligamia e a poliandria. No Brasil, em entrevista à Revista Galileu, casais homo e heterossexuais em formatos diversos de relacionamento falam sobre como descontruíram o que pode ser chamado de monogamia compulsória. Andréa Dias, por exemplo, casou-se na igreja com seu marido há mais de 15 anos à época, e, em 2017, mantinha um relacionamento com um namorado também. Ela, o namorado e o marido conviviam juntos na mesma casa.
Da esquerda para direita: Dimitrius e Heloísa (eu mesma) formam casal monogâmico - Heloísa Lisboa
Na cultura indígena, a poliandria e a poligamia se tornaram objeto de discussão no mundo jurídico, já que, no país, apenas o casamento monogâmico é reconhecido na Lei. Segundo o promotor de Justiça de Roraima André Paulo dos Santos Pereira, "o parâmetro constitucional do artigo 231 reconhece ao indígena o direito à diferença sem a arbitrária obrigação dele abrir mão de suas raízes, costumes e crenças", Com isso, outro tema de amplo debate surge: a influência do cristianismo sobre a cultura monogâmica que predomina no Ocidente.
Ainda assim, a pluridade de culturas no planeta mostra que, em países como a Nigéria e a Índia, mulheres são reduzidas a papéis submissos em relação a homens e de maternidade. Em entrevista à BBC, Muvumbi Ndzalama conta que, como uma mulher pansexual, luta pelo direito de se casar com mais de uma pessoa, semelhante ao que é permitido aos homens, com a poligamia.
Desse modo, nota-se que os diferentes tipos de relacionamentos amorosos e/ou sexuais assumem aspectos mais positivos ou mais negativos para mulheres dependendo da cultura na qual estão inseridas.
As relações sexuais na natureza não se restringem ao modelo monogâmico. Porém, a interferência cultural e religiosa, por exemplo, devem ser consideradas para entender como os seres humanos se relacionam sexual e amorosamente uns com os outros. Nesse sentido, a tese "Monogamia: interpretações winnicottianas" pode oferecer uma explicação no campo da psicologia sobre a necessidade humana de resgatar o sentimento de dependência constituído entre mãe e filho por meio de relacionamentos monogâmicos.
Por outro lado, pensando historicamente, a monogamia tem potencial para ser tida como compulsória, já que, no Brasil, tornou-se parte do contrato social da população a partir da colonização portuguesa e do cristianismo. Ou seja, a monogamia não é fruto apenas de questões psicológicas, mas também de imposições: ao ver o indígena como o "outro", jesuítas tentaram combater a cultura brasílica repudiando a nudez, o nomadismo e o poliamor, conforme o artigo " Infância, catequese e aculturação no Brasil do século 16".
8M - Heloísa Lisboa
Como complemento, "Luxúria e selvageria na invenção do Brasil: enquadramentos coloniais sobre as sexualidades indígenas" ajuda a compreender como a sexualidade indígena era vista por cronistas e missionários no Brasil. O léxico utilizado fomenta um olhar preconceituoso sobre a cultura indígena com a qual os colonizadores deram de cara ao chegar ao país.
No entanto, o poliamor pode ter o aval de religiões. A poligamia é bem-vinda em países de religião muçulmana, por exemplo, bem como em países do continente africano. Na Europa, por sua vez, a ideia de poliamor foi afastada com a influência católica na política desde a Idade Média.
Desse modo, uma problemática a respeito dos desejos humanos e crenças, impostas ou não, se estabelece.
Ao passo em que o questionamento sobre a monogamia liberta, de certa forma, mulheres de um histórico de submissão e abuso em relacionamentos e casamentos, o poliamor também é capaz de constituir amarras sobre a vida de mulheres, principalmente daquelas que vivem sob culturas nas quais a poligamia é aceita. A contradição ou a compatibilidade da monogamia com o feminismo é a temática do artigo " Quando o amor é o problema: feminismo e poliamor em debate".
Fique comigo, livro de Ayòbámi Adébáyò
Em um grupo de leitura no sul do Brasil, gênero, poligamia e maternidade compulsória são os assuntos debatidos por leitores do livro "Fique Comigo" e no estudo "Discutindo gênero, poligamia e maternidade compulsória através da obra literária Fique Comigo em um clube de leitura: impressões interculturais". A personagem principal da obra, Yejide, vive um casamento monogâmico na Nigéria até sofrer pressão da sogra para lhe dar um neto. O que se segue na narrativa destrói, ou termina de destruir, o relacionamento vivido por ela e Akin, seu marido. Por isso, o livro também levanta a questão sobre o quanto a poligamia pode ser uma imposição e representar a predefinição de papéis para as mulheres, da mesma maneira que ocorre em relação à monogamia na cultura europeia e no que forma o chamado Ocidente.
Para além do debate cultural, feminista e emocional, é necessário discutir como os relacionamentos são comportados pela Lei. O artigo " Contornos jurídicos, filosóficos e sociais da monogamia" traça um paralelo entre a construção das leis no Brasil e a moral cristã que permeia os relacionamentos entre cidadãos, criticando a falta de amparo jurídico no que diz respeito à simultaneidade de relações. Já a tese "O mito da monogamia à luz do Direito Civil-Constitucional: a necessidade de uma proteção normativa às relações de poliamor" acompanha a mesma ideia, acrescentando ainda a questão sobre os direitos, teoricamente garantidos pela Constituição Federal, como a igualdade e a liberdade nas relações familiares. É permitido assim que fatores jurídicos e culturais sejam colocados lado a lado para analisar o poder de um sobre o outro, tendo a mulher no centro desta problemática.
GLOSSÁRIO
FONTE: REVISTA GALILEU
NÃO MONOGAMIA CONSENSUAL
Termo genérico para todos os tipos de relações em que os envolvidos sabem que não há exclusividade sexual e/ou afetiva e concordam.
POLIAMOR
É o tipo de relacionamento em que, em comum acordo, é possível se envolver sexualmente e afetivamente, de forma estável, com diversas pessoas ao mesmo tempo.
RELAÇÕES LIVRES
Chamadas de RLi (lê-se “érreli”), são aquelas em que a autonomia individual vem em primeiro lugar, em negação ao modelo de casal. Não se admite que a vida amorosa ou sexual fique sob o controle de ninguém. Tampouco existe hierarquia entre os diferentes parceiros.
POLIGAMIA
Ocorre quando alguém é casado com mais de uma pessoa e exige de todas elas exclusividade afetiva e sexual. Na lei, não é permitida no Brasil. O termo “poliginia” é usado para o caso de homens que têm múltiplas mulheres, enquanto a “poliandria” se aplica a mulheres com vários maridos.
RELACIONAMENTO ABERTO
Existe quando os parceiros concordam em buscar relacionamentos sexuais independentes, mas sem envolvimento afetivo, fora da relação principal.