Brigadas no exterior do Movimento Sem Terras são símbolo de resistência
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Enrico Peres, Fernando Amaral, João Palhares e Liz Ortiz
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18/06/2026

Por Enrico Peres, Fernado Amaral, João Lucas Palhares e Liz Ortiz

 

A história do MST sempre representou muita luta. O movimento, que foi formado em janeiro de 1984 a partir de uma união de trabalhadores rurais que convergiram no primeiro Encontro Nacional, realizado em Cascavel, no Paraná, é o resultado da grande necessidade de - no Brasil. Após o evento de janeiro de 84, foi realizado o primeiro Congresso do MST em janeiro de 1985, e dele as ideias de ocupação como forma de luta, junto dos princípios do movimento relacionados a luta pelas terras, reforma agrária e o socialismo começaram a ser idealizados.  Entre fracassos e sucessos, como o assentamento de 90 mil famílias graças ao Plano Nacional da Reforma Agrária, realizado em pequena escala em relação com a prévia inicial de 1,5 milhão, a realização do segundo Congresso do movimento, em Brasília, com a reafirmação das ocupações em pauta, o MST crescia em sua infraestrutura e dentro do âmbito político nacional. 

Junto a isso, em 1993, foi criado a Via Campesina, um conjunto internacional que aglutinava organizações camponesas, pequenos agricultores, trabalhadores agrícolas e comunidades indígenas. A fundação oficial do grupo se deu em uma conferência internacional realizada em Mons, na Bélgica, com presença do MST, que era aliado desde antes da concepção da Via Campesina. Com esse conjunto operante, se abriram portas dentro do MST para dialogar com movimentos campesinos no mundo inteiro em prol de restaurar a soberania alimentar em países agredidos pelo imperialismo. 

A história do MST sempre representou muita luta. O movimento, que foi formado em janeiro de 1984 a partir de uma união de trabalhadores rurais que convergiram no primeiro Encontro Nacional, realizado em Cascavel, no Paraná, é o resultado da grande necessidade de - no Brasil. Após o evento de janeiro de 84, foi realizado o primeiro Congresso do MST em janeiro de 1985, e dele as ideias de ocupação como forma de luta, junto dos princípios do movimento relacionados a luta pelas terras, reforma agrária e o socialismo começaram a ser idealizados.    Entre fracassos e sucessos, como o assentamento de 90 mil famílias graças ao Plano Nacional da Reforma Agrária, realizado em pequena escala em relação com a prévia inicial de 1,5 milhão, a realização do segundo Congresso do movimento, em Brasília, com a reafirmação das ocupações em pauta, o MST crescia em sua infraestrutura e dentro do âmbito político nacional.   Junto a isso, em 1993, foi criado a Via Campesina, um conjunto internacional que aglutinava organizações camponesas, pequenos agricultores, trabalhadores agrícolas e comunidades indígenas. A fundação oficial do grupo se deu em uma conferência internacional realizada em Mons, na Bélgica, com presença do MST, que era aliado desde antes da concepção da Via Campesina. Com esse conjunto operante, se abriram portas dentro do MST para dialogar com movimentos campesinos no mundo inteiro em prol de restaurar a soberania alimentar em países agredidos pelo imperialismo.    Mulheres Membras da Vía Campesina em Tlaxcala, México, em 1996. Reprodução: Capire  O MST começou a organizar brigadas internacionais, mas foi antes das brigadas e até antes da criação da Via Campesina que o MST possui essas relações e ambições internacionais. Conversamos sobre a história do Internacionalismo do movimento e sobre as brigadas com Judite Santos, membro da Coordenação Nacional e militante do MST. Para ela, o Movimento sem Terras nasceu como uma organização internacionalista, carregando heranças de lutas anteriores no Brasil e na América Latina
Mulheres Membras da Vía Campesina em Tlaxcala, México, em 1996. Reprodução: Capire

O MST começou a organizar brigadas internacionais, mas foi antes das brigadas e até antes da criação da Via Campesina que o MST possui essas relações e ambições internacionais. Conversamos sobre a história do Internacionalismo do movimento e sobre as brigadas com Judite Santos, membro da Coordenação Nacional e militante do MST. Para ela, o Movimento sem Terras nasceu como uma organização internacionalista, carregando heranças de lutas anteriores no Brasil e na América Latina e revoluções que estavam acontecendo junto da crescente do MST. Essa bagagem histórica faz os militantes carregarem esse senso de senso de processo revolucionário, de estarem fazendo por meio das brigadas, segundo Judite, um dever humanitário.  

Os militantes que se voluntariam para as missões internacionais são coordenados e orientados antes das missões, para estarem preparados na hora do contato com uma cultura diferente, realizando um processo de estudo sobre a história e da formação social, política e econômica do país para evitar um grande choque cultural. Isso se dá pelas brigadas não serem apenas missões ocupacionais, são também uma ajuda com objetivo de restaurar a cultura de povos sob ameaças constantes do imperialismo. Ao realizar uma brigada internacional, as pessoas que lá vão entram também em contato com comunidades agredidas que precisam de ajuda.  

Na Zâmbia, o MST faz um processo de alfabetização com crianças e adultos da região, assim como já fizeram em Cuba. Atualmente, existem brigadas na Zâmbia, Venezuela, onde atuam desde 2005 e no Haiti, que, após o terremoto que devastou o país em 2010, sempre é ajudado pelos militantes. Na Venezuela, com os acontecimentos recentes do ataque imperialista que o governo estadunidense realizou, aconteceu a Brigada Pela Solidariedade, que levava a juventude do MST para visitar o território.  Uma outra grande missão foi a Brigada Ghassan Kanafani, realizada na Palestina que ajudava camponeses na colheita de azeitonas, pois lá era uma área que constantemente era atacada pelo exército de Israel. Devido ao aumento do conflito e das invasões israelenses, a brigada não consegue mais ser realizada. 

Além das brigadas, Judite contou também de sua história e sua relação com o movimento. Filha de trabalhadores rurais, ela cresceu com o projeto em sua vida e, em sua formação, foi se tornando uma militante. A família de Judite, que não possuia terras, conheceu e entrou no MST após o massacre de Eldorado dos Carajás, realizado em abril de 1996. Na ocasião, uma manifestação de reinvindicações dos direitos dos trabalhadores, que fizeram uma marcha até a cidade de Belém, no Pará, acabou com a morte de 21 trabalhadores pela polícia do estado do Pará. Esse acontecimento levou a intensificação pela luta de terras. Hoje, a família de Judite é assentada e ainda é ativa no MST.  

Judite Santos durante a Secom, em 2024. Foto: Rafa Neddermeyer/ Secom
Judite Santos durante a Secom, em 2024. Foto: Rafa Neddermeyer/ Secom

A luta do Movimento Sem Terras continua, com diversas articulações internacionais, movimentos, organizações que conseguem se mobilizar para o futuro da luta dos povos, cada vez dialogando mais com diferentes povos. A Via Campesina, hoje, abriga 180 organizações e mais de 80 países, e se articula com o objetivo de lutar pela independência e pela soberania de países agredidos. 

 

 

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Após anos de permanência no território, moradores veem a regularização da terra se aproximar e celebram uma trajetória marcada por trabalho, luta e pertencimento. 

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Maria Dantas, Pedro Menezes e Yan Gutterres
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18/06/2026

Por Maria Dantas, Pedro Menezes e Yan Gutterres

 

Em uma área cercada por condomínios de alto padrão e pela intensa valorização imobiliária da Região Metropolitana de Campinas, centenas de famílias celebram uma trajetória marcada pela resistência, pela produção de alimentos e pela luta por moradia e reforma agrária. O Acampamento Marielle Vive, organizado pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), completa oito anos de existência, se consolidando como uma das principais experiências de organização popular do estado de São Paulo.

Fundado em 2018, o acampamento surgiu a partir da ocupação da fazenda Eldorado Empreendimentos, considerada improdutiva em Valinhos. Desde então, o local passou por disputas judiciais, ameaças de despejo e desafios relacionados à permanência das famílias no território. Apesar das dificuldades, a comunidade conseguiu estruturar uma experiência coletiva que vai além da reivindicação pela terra, incorporando práticas de produção agrícola, educação popular, preservação ambiental e fortalecimento dos laços comunitários. O nome escolhido para o local homenageia a vereadora Marielle Franco, assassinada no Rio de Janeiro poucas semanas antes da ocupação. A escolha refletia o momento político vivido pelo país e também os valores defendidos pelas famílias que chegavam ao terreno: a luta por direitos, justiça social e participação popular.

No dia 18 de julho de 2019, as famílias do MST estavam na Estrada do Jequitibá, na cidade de Valinhos, interior de São Paulo, realizando um ato de denúncia aos poderes públicos locais por conta da falta da garantia do direito à água. Entre elas estava Seu Luís, como era conhecido por todos, um nordestino que, como tantos homens e mulheres, tinha migrado à região sudeste do Brasil em busca de trabalho. Neste dia, Seu Luís foi atropelado pelo vendedor Léo Luiz Ribeiro durante uma manifestação por falta d’água de moradores. A caminhonete acelerou por trás de um ônibus que estava parado, entrou na contramão e passou por cima das pessoas (acampadas e apoiadores) que estavam participando da jornada pela água e fugiu sem prestar nenhum socorro.

Gerson Oliveira, coordenador do acampamento, conta que a fazenda já tinha sido ocupada cerca de dez anos antes do Marielle Vive, mas foram despejados de forma violenta após mobilização e forte repressão da tropa de choque. Decidiram, então, em 2015 retomar o trabalho de base em Campinas, e passaram a estudar a realidade econômica da região e de como a crise se instalava nas periferias, influenciado pela saturação da região metropolitana de São Paulo, onde o município do interior paulista passou a ser o foco da imigração. A cidade, porém, não conseguia mais acolher os trabalhadores na mesma intensidade de antes, o que resultou na formação de bairros periféricos.

Coordenador do Acampamento, Gerson Oliveira, discursando no aniversário do acampamento
Gerson Oliveira discursando no aniversário do acampamento. Foto: Yan Gutterres

A cidade de Campinas foi fundamental para o processo de retomada daquela terra. Gerson relata que foi uma redescoberta de Campinas pelo MST, pois ali era uma região que sempre deu bons frutos para o movimento, contribuindo para a exportação de militantes, sendo crucial para a construção do MST no estado de São Paulo, já que muitos dos trabalhadores vivendo nas áreas periféricas da cidade já haviam participado da luta anteriormente, então o contato e principalmente o convencimento de retomar esse processo de luta aconteceu de maneira muito fácil e muito natural.

Enquanto o primeiro ônibus chegava na frente da fazenda, o último comboio ainda estava chegando na cidade de Valinhos, há cerca de 8,5km dali. Quando as primeiras famílias chegaram à área, na madrugada do dia 14 para o dia 15 de abril de 2018, encontraram um terreno marcado pelo abandono. O que viria depois foi resultado de um processo coletivo construído diariamente por homens, mulheres, jovens e crianças que decidiram apostar na permanência e na organização comunitária. Segundo Gerson, o cenário era de muito frio - menos de 10°C - e o mato estava em uma altura que chegava até a cintura. Diante disso, de imediato os trabalhadores e trabalhadoras se mobilizaram. Ainda nas primeiras horas, começaram a surgir os primeiros esforços para erguer estruturas improvisadas, limpar áreas para barracos e organizar a ocupação do terreno, transformando o cenário de abandono em um ambiente em processo de construção comunitária. 

Apesar disso, o cotidiano do acampamento nunca se resumiu à disputa pela terra. Entre processos e tentativas de despejo nos tribunais, parte da comunidade se dedicava às articulações políticas e jurídicas pela permanência na área. Paralelamente, a produção agrícola foi se consolidando como eixo central da vida no território. Hortas comunitárias passaram a ocupar espaços antes tomados pelo mato, e diferentes culturas começaram a ser cultivadas de acordo com a experiência e o conhecimento trazido pelas próprias famílias. Aos poucos, o território passou a produzir alimentos que abastecem feiras, mercados locais e iniciativas de comercialização direta, aproximando produtores e consumidores.

O acampamento também teve sua importância no aspecto político. Em um momento no qual o Brasil passava por momentos turbulentos, desde o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, em 2016, até a ascensão da extrema direita em 2018, com a eleição do ex-presidente Jair Bolsonaro, o Marielle Vive foi essencial, dando uma espécie de injeção de ânimo para a esquerda na região. Para Gerson, em determinado momento o local passou a ser uma trincheira, reunindo atos e juntando militantes de diversos partidos de esquerda. Ele também conta que era incrível olhar toda aquela mobilização, tanto por conseguir juntar diversas frentes para conversar sobre o processo de luta que estava sendo vivido ali, quanto pelo fato de nunca ter havido antes uma perspectiva de como a luta pela terra pudesse ser uma vanguarda de reunião da classe.

Uma das principais marcas do acampamento é a produção agrícola desenvolvida pelas famílias. Em áreas coletivas e lotes cultivados pelos moradores são produzidos alimentos como hortaliças, frutas, legumes e ervas medicinais, parte deles destinados ao consumo interno e parte comercializados em feiras e circuitos de economia solidária. Sueli Oliveira é uma das quase 800 pessoas que residem no acampamento, trabalhando principalmente na agricultura do local. Além da produção, os moradores organizam mutirões, assembleias e atividades coletivas que contribuem para a manutenção da infraestrutura local e para a tomada de decisões da comunidade. 

Sueli é um exemplo de como a luta pela terra segue viva. Ela relata que o acampamento a reencontrou depois de uma vida marcada pelo trabalho, pela criação dos filhos, pela viuvez e por uma sensação que o movimento soube acolher: a de que ainda havia lugar para ela na história. Sueli passou a infância na área rural, no Paraná, até que a lógica da monocultura e a necessidade de sustentar a família empurraram seus parentes para a cidade. Foi ali que a terra ficou para trás, enquanto o peso do trabalho se acumulava. 

No Marielle Vive, ela diz ter voltado, de algum modo, à primeira infância, e também a uma forma de pertencimento que havia se perdido ao longo do caminho. A vivência da agricultora se entrelaça à trajetória do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), oficializado em 1984, mas gestado na década de 1970 por meio de ocupações de áreas improdutivas. O movimento nasceu do encontro entre a concentração fundiária no Brasil, a modernização desigual do campo e a resistência de famílias que se recusaram a aceitar a exclusão como destino. Desde então, a reforma agrária deixou de ser apenas uma pauta legal e se tornou também uma disputa por permanência, trabalho e dignidade.

Sueli lembra que, no começo, não havia água encanada, o acesso era difícil e a rotina incluía ir até a cidade buscar água para a cozinha coletiva. Ela relata episódios de tensão com a polícia, que por vezes derrubava a água transportada para o acampamento, além de documentos rasgados e da sensação permanente de enfrentamento. Ainda assim, insiste ter sido ali que encontrou sentido para continuar. 

Sueli trabalhando na horta do acampamento
Sueli trabalhando na horta do acampamento. Foto: Maria Dantas

Enquanto trabalha na horta, ela conta que cada função dentro do acampamento é revezada entre os moradores a cada dia, desde a produção agrícola, passando pela manutenção da infraestrutura do acampamento, como moradias, cozinhas coletivas e espaços de convivência, até os trabalhos de educação e alfabetização, com atividades de Educação de Jovens e Adultos (EJA), projetos de alfabetização e formação política e cultural. Ela explica também que esse processo de participação coletiva vem desde a infância. As crianças que vivem no acampamento são incentivadas a acompanhar as atividades da comunidade e a compreender a importância do trabalho coletivo, da cooperação e do cuidado com a terra. 

A permanência no local representa também uma forma de resistência pessoal. Depois de criar os filhos e vê-los seguir a vida na cidade, Sueli diz que não queria se tornar um peso para a família nem passar a velhice isolada e adoecida. No movimento, encontrou outra forma de viver a maturidade: com tarefas, convivência e propósito.

Passada a comemoração pelos oito anos de luta, o Marielle Vive passa agora por uma etapa decisiva. Após anos de disputas judiciais, mobilizações e permanência no território, o governo federal anunciou em 2026 a compra dos terrenos da fazenda Eldorado para o assentamento das famílias que vivem no local. O Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) iniciou as tratativas para transformar a área em um Projeto de Desenvolvimento Sustentável, voltado à produção agroecológica e à preservação ambiental. 

Para os moradores, porém, o assentamento representa mais do que a regularização da posse da terra. Significa o reconhecimento de uma experiência construída coletivamente ao longo de oito anos, em que barracos deram lugar a moradias, áreas abandonadas se transformaram em espaços produtivos e a luta pela terra se converteu também em uma luta por pertencimento. Enquanto o processo segue em andamento, as famílias continuam cultivando alimentos, formando novas gerações e mantendo viva a organização comunitária que permitiu ao Marielle Vive resistir até aqui.
 

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Mais do que uma forma de arte, a música funciona como ferramenta política. No Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) ela se apresenta como um registro de sua história e luta.
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Laila Santos e Julia Cesar Rangel
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18/06/2026

Por Laila Santos e Julia Cesar Rangel

 

A música ocupa um papel central no cotidiano e na organização do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Ela está presente desde as primeiras ocupações de terra até as atividades mais recentes do movimento. Mais do que uma forma de arte, a música funciona como ferramenta política, ajuda a fortalecer a identidade coletiva, serve como espaço de aprendizado e também registra a história da luta pela terra no Brasil. Ao longo de mais de 40 anos, as músicas criadas dentro do movimento surgiram da necessidade de mostrar a realidade dos trabalhadores rurais e fortalecer a união entre eles.

Segundo Dandara, integrante da Coordenação Nacional do Coletivo de Cultura do MST, a música é “a linguagem mais familiar e cotidiana” do movimento. Ela explica que não existe ocupação, marcha, feira, festa ou acampamento sem música. Essa relação existe desde o começo da organização. Embora o MST tenha sido fundado oficialmente em 1984, o primeiro registro musical com composições próprias do movimento surgiu em 1985, com a fita cassete "Dor e Esperança", gravada de forma simples pelos próprios militantes.

A presença da música no MST também está ligada à história do próprio movimento. Antes mesmo da fundação oficial, a música já fazia parte da vida no campo e das lutas populares que vieram antes do MST, como as Ligas Camponesas, a Guerra do Contestado e outros movimentos rurais. Além disso, grupos como as Comunidades Eclesiais de Base e a Comissão Pastoral da Terra ajudaram a fortalecer o uso da música como forma de mobilização e organização coletiva.

Nesse contexto, a música ajuda a construir o significado do que é ser “Sem Terra”. Para o movimento, essa identidade não está ligada apenas à falta de terra, mas à experiência coletiva da luta. Segundo Dandara, “é uma identidade produzida pela luta”. As músicas ajudam a comunicar os debates internos do MST, seus valores políticos e as pautas de cada momento histórico. Ao mesmo tempo, fortalecem os laços entre as pessoas do movimento, reforçando a ideia de coletividade.

As canções também têm diferentes funções políticas e sociais. Muitas denunciam injustiças, falam sobre resistência e incentivam a luta. Outras ajudam a espalhar informações importantes dentro dos assentamentos e acampamentos, principalmente em épocas em que o acesso à comunicação era mais difícil. Durante as mobilizações pela educação no campo, por exemplo, várias músicas defendiam a alfabetização, a reforma agrária e uma educação ligada à realidade dos trabalhadores rurais. Além da comunicação interna, a música também serve para dialogar com a sociedade. O MST usa a cultura para explicar suas pautas, disputar narrativas e mostrar sua visão de país. Dandara afirma que a música do movimento também “incomoda” adversários políticos, justamente porque deixa claros os conflitos de classe ligados à disputa pela terra. Assim, a produção musical se torna também uma forma de enfrentamento político.

Nos assentamentos e acampamentos, a diversidade cultural brasileira aparece nos diferentes estilos musicais presentes no dia a dia. Ritmos como forró, toada amazônica, chamamé, rasqueado e moda de viola convivem com cantos religiosos e músicas ligadas ao trabalho no campo. Essa mistura mostra que, mesmo com diferenças regionais, existe uma unidade cultural construída em torno da luta pela terra e da identidade Sem Terra.

Outra característica importante da produção cultural do MST é a relação entre música e trabalho. Nos últimos anos, iniciativas como o bloco carnavalesco Pisa Ligeiro, criado em Minas Gerais, passaram a usar enxadas como instrumentos musicais. A ideia é transformar um símbolo do trabalho rural em elemento artístico. Segundo Dandara, o uso das enxadas reforça a identidade camponesa e conecta três partes da vida no campo: a produção agrícola, a resistência e a cultura.

Essa experiência inspirou outras iniciativas, como orquestras de enxadas em diferentes estados do Brasil. Além do impacto visual, a prática também desenvolveu técnicas musicais específicas, explorando os sons produzidos pelos diferentes tamanhos e formatos das ferramentas. Para o MST, esse tipo de manifestação mostra que a cultura popular nasce da vida cotidiana e do trabalho coletivo.

A música também tem um papel importante na preservação da memória histórica do movimento e das lutas populares. As canções ajudam a registrar acontecimentos, manter vivas experiências de resistência e conectar diferentes gerações de militantes. O repertório do MST dialoga tanto com momentos históricos brasileiros quanto com experiências internacionais, como a Comuna de Paris e a Revolução Russa. Músicas como “A Internacional” aproximam o movimento de outras lutas sociais ao redor do mundo e reforçam a ideia de internacionalismo presente no MST.

Ao mesmo tempo, a produção musical continua mudando com o tempo. Sem abandonar suas raízes camponesas, as músicas mais recentes passaram a incluir debates sobre racismo, gênero e política, mostrando os desafios atuais enfrentados pelo movimento. Iniciativas como a Oficina Nacional de Música, realizada em Belo Horizonte, reforçam a importância da formação artística dentro do MST, com estudos de composição, canto, instrumentos e expressão corporal. Entre tradição e renovação, a música no MST continua sendo uma forma de resistência, aprendizado e organização coletiva. Mais do que acompanhar a história do movimento, ela ajuda a construir sua identidade, preservar sua memória e fortalecer a luta social no cotidiano dos trabalhadores rurais.

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Quando a luta é pela terra e pela transformação social, a música também se torna instrumento de resistência. Nos acampamentos, assentamentos e mobilizações, ela fortalece a memória coletiva, aproxima gerações e dá voz ao projeto popular construído pelo MST.
por
Laila Santos e Julia Cesar Rangel
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18/06/2026

 

 

Por Laila Santos e Julia Cesar Rangel

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Com atuação em diversos estados, o LGBTs Sem-Terra transforma experiências de invisibilidade em organização política, formação e resistência coletiva.
por
Natália Perez e Wanessa Celina
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18/06/2026

Por Natália Perez e Wanessa Celina

 

Guimarães Rosa, em seu livro Grande Sertão: Veredas, ecoa: “Coração cresce de todo lado. Coração vige feito riacho colominhando por entre serras e varjas, matas e campinas. Coração mistura amores. Tudo cabe”. A terra tem uma relação intrínseca com as pessoas, além da concepção de países ou cidades, ela é fundamental para a construção identitária. Crescer, viver ou morar em uma metrópole ou na zona rural inegavelmente gera características diferentes aos indivíduos - porém o conceito ainda mais relevante a ser entendido aqui é o de habitar, sentir e perceber a terra em que se ocupa.

A identidade sempre esteve ligada ao acesso à terra e ao reconhecimento de quem podia pertencer plenamente à sociedade. Desde o período colonial, o acesso ao território definiu quem podia pertencer plenamente à sociedade e quem seria empurrado para as margens: restringido, concentrando e excluindo populações inteiras. Décadas depois, movimentos sociais organizados passaram a disputar não apenas o espaço físico, mas o direito à dignidade e ao reconhecimento.

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) ultrapassa a luta pela reforma agrária e se consolida como espaço de construção coletiva de cidadania. Nos assentamentos, a terra deixa de ser apenas meio de produção e passa a representar a luta ancestral pelo direito ao pertencimento, comunidade e proteção social para grupos historicamente marginalizados. 

Foi nesse chão que Anindayê, Thaisson e Luana - militantes integrantes do coletivo LGBT+ na organização - e tantos outres aprenderam primeiro a se reconhecer como sem-terra antes mesmo de compreenderem suas próprias dissidências de gênero e sexualidade. Crescer em assentamentos significou entender, desde cedo, o valor do coletivo, da partilha e da resistência. Para além de um movimento de luta popular pela disputa territorial e pela reforma agrária, o MST faz-se referência de formação humana e política.

Para muitas pessoas LGBTQIA+, especialmente no campo, esse processo significou também a possibilidade e espaço seguro para pensar, entender a si mesmo e, por vezes, pela primeira vez de verdadeiramente pertencer. Identidades que nascem primeiro no território antes de ganharem nome no próprio corpo.

“Existe uma diversidade bem grande dentro do movimento. Recentemente houve o primeiro encontro Trans do MST, em que a gente estava lá junto, presenciou junto. Dialogamos sobre os nossos direitos, até de existir que, na verdade, é uma pauta maior que a existência: é a resistência”, explica Thaisson, coordenador do coletivo LGBT+ no Paraná.  

“O Sertão é dentro da gente”

Para quem cresce dentro do MST, antes de qualquer formulação teórica sobre identidade, gênero ou sexualidade, existe a experiência concreta da terra: o cheiro da plantação, o trabalho coletivo, os encontros, as marchas, os barracos erguidos em ocupações e a noção, construída desde cedo, de que existir também é ocupar espaço. Nos assentamentos, a identidade sem-terra não é apenas política – ela é afetiva. Está na maneira como crianças aprendem cedo o significado de comunidade, de partilha e de resistência. Em um país onde a exclusão territorial historicamente definiu quem teria dignidade e cidadania, crescer dentro do movimento sem terra significou aprender que ninguém existe sozinho. 

Ali, a violência histórica se transforma em experiência coletiva de enfrentamento. Embora o MST não possua um levantamento nacional sobre a quantidade de integrantes LGBTQIA+ em seus acampamentos e assentamentos, o Coletivo LGBT Sem Terra está presente com mais de 300 militantes organizados em diferentes estados do país.

“Eu posso dizer que para mim nunca foi estar só. Sempre teve gente. Principalmente mulheres”, descreve Aline Luana, integrante da coordenação do Coletivo. Formalizado em 2015, após o primeiro seminário nacional sobre diversidade sexual do movimento. Em um processo de amadurecimento interno que vinha crescendo, o encontro contou com mais de 30 integrantes. Não se tratava apenas de inserir uma “nova pauta” dentro da reforma agrária, mas de compreender que corpos LGBT+ também fazem parte da construção do campo brasileiro e da luta popular. 

Com presença cada vez mais nítida, somaram-se sem vergonhas ou amarras para serem vistos. “Sou uma mulher preta, mãe, lésbica. Todo dia, eu levanto motivada a entender a minha tarefa e que eu não estou movendo só a mim. Eu estou movendo muita gente”, completa ela. Mas, insistir na própria existência, dentro de estruturas historicamente marcadas por valores tradicionais que nem sempre soube acolher diferenças, não é fácil. Ao sair do caminho imposto a ela, ainda no processo de amadurecimento identitário, Aline viveu um choque, que mudou sua forma de pensar sua existência: “Eram mais ou menos 20 homens brancos sentados à minha volta me fazendo questionamentos sobre por que eu não estava mais namorando um homem e que história era essa de eu ser lésbica”, lembra.

Foi naquele momento, ainda jovem em sua militância, que ela se deu conta da missão à sua frente: “O meu afeto, de quem eu gosto, com quem eu quero me relacionar afetivamente, isso não tem que ser ponto de pauta de reunião de ninguém. A minha construção coletiva de luta está aqui e ela é com homens e com mulheres”. 

Em camadas, o pertencimento aparece e se constroi. Primeiro, há o pertencimento à terra, ao coletivo, à luta social e, então, a possibilidade de pertencer a si mesmo – em um de seus mantras mais marcantes, ela se entendeu em si: “A partir de agora, a sua tarefa histórica é todo dia levantar e dizer que você tem orgulho de ser sapatão.”

Hoje, coordenadores trans, travestis, gays e lésbicas ocupando espaços políticos, conduzindo formações e organizando assim como ela, fazem o máximo para garantir que os próximos cresçam em assentamentos encontrando referências e o apoio que outres não necessariamente tiveram. Expõe, lado a lado, bandeiras coloridas e as bandeiras vermelhas do movimento. E encontram, sobretudo, a possibilidade concreta de imaginar sua permanência.

“Eles combinaram de nos matar, mas nós combinamos de não morrer”

Dentro e fora dos assentamentos, o processo de descoberta da sexualidade e da identidade de gênero acontece atravessado por uma vivência comunitária submersa de amarras e liberdade. “Eu fui uma criança trans, mas não entendia até então o que que era. Até me reconhecer dentro dos espaços não me expressava muito, exatamente porque nem me entendia muito bem”, relembra Thaisson.

Assim como toda característica e vivência que torna alguém, si próprio, cada pessoa trans tem a sua particularidade, trajetória e especificidade de acolhimento. Com isso em mente, em 2025, o Coletivo promoveu o 1º Encontro Nacional Trans do MST. No País em que mais se mata pessoas trans e travestis do mundo, liderando o ranking de assassinatos há 16 anos – segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais – viver torna-se revolucionário. 

O movimento não elimina e nem é imune aos conflitos ou preconceitos, mas o Coletivo faz questão de oferecer algo ainda raro para pessoas dissidentes no território brasileiro: a chance de não enfrentar o mundo completamente sozinhas. “A luta é coletiva, formada por pessoas diversas, porque sozinho a gente não vai fazer nada” – ele reafirma – “A luta só terá sentido se a gente colocar como prioridade que a igualdade vem em primeiro lugar.”

Sobre sua participação no Coletivo, o coordenador explica que, para além do diálogo, o movimento proporciona oportunidades de vida e formação que pessoas trans e travestis marginalizadas pelo país enfrentam ainda mais dificuldades para alcançar. Na vivência dele, por exemplo, fazer parte dessa rede proporcionou viagens, bagagens e até uma formação universitária com um propósito ainda maior. 

Integrante da comunicação, do coletivo LGBT e do coletivo de juventude do MST Alagoas, Anindayê, esteve presente no encontro e explicou a importância de se pensar, falar e, ainda mais, ouvir pessoas trans e travestis, como ela: “Meu movimento de me compreender enquanto uma pessoa travesti foi paralelo à minha inserção no movimento. Nós que somos LGBT temos determinadas coisas colocadas na nossa cabeça. As pessoas sempre estão dizendo quem nós somos, mas sem abrir espaço para que possamos refletir sobre nós mesmos e compreender nosso lugar no mundo." 

E o diálogo tem tido efeito, criando mais espaço e mais alinhados. “A gente está lado a lado com as pessoas, fazendo elas entenderem que não é nenhum bicho de sete cabeças. Eu não deixo de ser uma pessoa que presta por ser LGBT, sou só trans.” Mesmo assim, ela destaca que pertencer aos assentamentos acalentou sua trajetória. “Nunca senti que estar no movimento dificultou esse processo. Pelo contrário, o movimento trouxe uma rede de apoio.”

E, talvez, seja aí que reside uma das maiores potências de como a presença desses militantes modifica o próprio movimento e faz surgir novos questionamentos à realidade e obriga a revisitação e inova as práticas, discursos e formas de convivência que oprimem a todos. “O patriarcado destrói, o capitalismo faz a guerra, o sangue LGBT também é sangue sem terra. Seja o machismo, seja o racismo, seja LGBTfobia – pensar a reforma agrária e pensar a luta pela terra tem que ser junto com tudo isso”, declara ela.

“Há que endurecer, mas sem perder a ternura jamais”

No fim, talvez a relação entre pessoas LGBT+ e o MST seja justamente sobre isso: a busca contínua por um lugar onde a existência não precise ser fragmentada. Um lugar onde a terra, para além da produção ou sobrevivência – é também afeto, memória e possibilidade. Como escreveu Clarice Lispector, “pertencer é viver” e a presença LGBT+ há de perseverar – organizando coletivos, ocupando coordenações e transformando os assentamentos em territórios mais plurais. Se a luta pela terra exigia resistência, diante do latifúndio e da violência histórica no campo, a luta por reconhecimento da própria identidade dentro desses espaços aos poucos tem sido um passo a mais na coragem cotidiana. 

Somando-se cada vez mais, o coletivo LGBT+ integrado ao MST cresce junto às novas gerações que já encontram no movimento um espaço menos solitário do que aquele vivido por quem veio antes. Entre marchas, plantações e assembleias, constrói-se a ideia de que semear também é criar futuro em que o direito de verdadeiramente ser é irrevogável. Como no coração descrito por Rosa, no fim: a luta, a identidade, o afeto e a esperança... tudo cabe.

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Dando continuidade a um ritual antigo na história política do país, novamente em ano de eleições, aspirantes a cargos do Estado vêm à São Paulo à procura de votos.
por
Dayres Vitoria e André Nunes
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27/10/2022

O que Eduardo Cunha, Marina Silva, Sônia Guajajara e Rosângela Moro têm em comum? Todos os quatro candidatos, além de terem em comum a disputa à Câmara dos Deputados, também são “candidatos forasteiros”, denominação dada a quem concorre a cargos fora de seus estados de origem. Todos construíram suas carreiras políticas em seus locais de nascimento e, agora, tentam se eleger pelo maior colégio eleitoral do país, São Paulo.

Com mais de 34 milhões de eleitores, a terra paulista se torna um dos principais alvos para estes candidatos. Na esperança de darem maior visibilidade a suas campanhas, eles estão mudando seus domicílios eleitorais para o estado para concorrerem pela metrópole.


Candidato a deputado federal pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), Eduardo Cunha, natural do Rio de Janeiro e condenado a 15 anos de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro pela Operação Lava Jato, anunciou no início deste ano, pelas redes sociais, que novamente irá concorrer a uma vaga na Câmara dos Deputados. O carioca se lança em campanha mesmo estando atualmente inelegível segundo decisão tomada pelo STF (Supremo Tribunal Federal).

Marina Silva, ex-senadora pelo Acre entre 1995 e 2011 e ex-ministra do Meio Ambiente entre 2003 e 2008, hoje também concorre ao cargo de deputada federal. Rosângela Moro, advogada e esposa do ex-juiz Sérgio Moro, não fica para trás. A paranaense também faz sua estreia na política e pleiteia por um cargo nas eleições de outubro. Já a maranhense Sônia Guajajara, uma das principais lideranças indígenas do país, concorre pelo PSOL às eleições deste ano.

O desejo por São Paulo

De acordo com Akira Pinto Medeiros, mestre em ciência política pela Universidade de São Paulo, São Paulo é tão atrativo para forasteiros justamente por ser o maior colégio eleitoral da federação. O estado proporciona uma oportunidade e tanto para que partidos, especialmente os que são poucos conhecidos, se sobressaiam em relação aos demais. Segundo Medeiros: “tais candidaturas podem dar sobrevida a um partido que possui fraco desempenho eleitoral fazendo assim com que ocupem cada vez mais espaços”.

Contudo, esta não seria a única razão particular para que tais candidatos desejem tanto disputarem a cargos eleitorais diretamente por São Paulo. A região contém uma faixa considerável de votos ideológicos, tendo assim, um peso político importante para os oponentes que almejam o triunfo nas urnas.

Voto ideológico

Votos ideológicos são uma espécie de atalhos mentais utilizados para organizar, em uma perspectiva espacial, preferências políticas. Dentre tantas escolhas complexas que o eleitor possui, o voto ideológico é capaz de reduzir estas opções numa âmbito direita, esquerda ou até mesmo centro, e assim contribuir para com que o votante consiga situar-se neste espaço optando pelo lado com o que mais se identifica.

Para a docente Mayra Goulart, do departamento de ciência política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), entre essas dimensões políticas, o voto ideológico de esquerda estaria conectado com a ideia de inclusão social e igualdade, ele manifesta a utilização das capacidades estatais para reduzir as desigualdades. Já um voto ideológico de direita tem uma orientação mais liberal, crítica o papel do Estado na intervenção da economia, logo defende o livre mercado.

Ainda de acordo com Goulart, o voto ideológico de direita ganha uma segunda camada ainda mais forte, a esfera do conservadorismo que defende as hierarquias tradicionais contra uma ideia de igualdade e de construção de uma nova sociedade, que é o que defende a esquerda. Para a professora: “a direita bate muito na chave do medo do novo, usa o conservadorismo como reação, em defesa do tradicional, uma ordem patriarcal que se vê ameaçada pela proposta de se construir uma nova ordem social”. Bases que defendem a preservação dos valores da família, da continuidade de hierarquias e que alegam priorizar e proteger movimentos religiosos, conseguem ganhar pontos significativos com aqueles que preservam este conservadorismo.

Tanto o voto ideológico de esquerda quanto o voto ideológico de direita são construídos sobre o pilar da identificação. O eleitor, ao se contemplar na figura do candidato que resguarda valores que o próprio votante e sua família defenderam avida inteira, consegue enxergar em seu “semelhante” a continuidade de seus ideais. Logo, a escolha não se torna tão difícil, ao seu ver, quando há na disputa outros candidatos que defendem pautas que se opõem a suas linhas de pensamento.

Os eleitorados das candidatas Sônia Guajajara e Marina Silva são um forte exemplo de voto ideológico. Ambas defendem a pauta do meio-ambiente e conseguem adquirir, naturalmente, votos da bancada ambientalista devido a afinidade pela causa. Assim, a definição do voto pode ser dada quase como certa ao passo que boa parte de seus eleitores se baseiam nesta linha de raciocínio.

No entanto, para o cientista político e professor de Ciências Sociais da Pontifícia Católica de São Paulo (PUC-SP), Francisco Fonseca, o voto brasileiro é muito mais pragmático do que ideológico. Segundo o docente, “80% dos brasileiros têm salários baixos, ou seja, o voto no Brasil é muito mais vinculado ao custo de vida, de oportunidades de trabalho e de ascensão social”. Para Fonseca o voto ideológico, a princípio, é positivo exatamente porque há a identificação do eleitor com o candidato, tornando assim o tipo de voto interessante ao analisar as motivações dos
eleitores em relação às escolhas por certos aspirantes a cargos políticos.

Conquistando eleitorado

Sobre os discursos para ganharem o eleitorado alheio, geralmente forasteiros não apresentam grandes novidades. Repetindo promessas que rotineiramente candidatos próprios de São Paulo já fazem - como melhorar a educação e a saúde no estado - suas propostas normalmente não se diferenciam dos demais concorrentes, porém, acabam fazendo o imaginário do eleitorado por serem de fora e ainda possuírem uma certa credibilidade já que são “caras novas”.

Estes candidatos podem simplesmente forjarem vínculos com a população de quem deseja os votos ao fingir existir um sentimento de pertencimento ao território. Se utilizam de pontos semelhantes que têm com seus eleitores para se aproximarem e assim os conquistarem.

Questionados se si consideram forasteiros, dos quatro candidatos mencionados apenas Sônia Guajajara respondeu: “Não me considero forasteira em nenhum lugar de meu país porque o Brasil é Terra Indígena, São Paulo é Terra indígena e hoje eu moro em São Paulo”. A candidata afirma que criou uma relação com São Paulo, que tanto a acolheu, desde que foi candidata a Vice-Presidenta na chapa de Guilherme Boulos em 2018. Das demais assessorias, até ao devido momento, não houve retorno.

E a lei? Diz o quê?

Um levantamento feito pelo O GLOBO, com base no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mostra que há disputando nas atuais eleições 72 forasteiros, somente pela chefia dos Executivos estaduais. Embora sejam muitos, não existe nada, segundo a legislação brasileira, que os impeça de competirem fora de seus estados.

De acordo com a lei, não há irregularidades cometidas caso candidatos optem por concorrerem a cargos políticos fora de seus locais de nascimento. Segundo o professor titular de Direito Constitucional da PUC-SP, Luiz Alberto Davi: “respeitadas as regras de domicílio eleitoral, a lei não pode proibir a candidatura destes candidatos”. Logo, caso exista uma norma proibitiva, ela seria inconstitucional visto que a Constituição não traz restrições outra a não ser os requisitos da lei.

A única exigência feita pelo TSE é que o candidato possua domicílio eleitoral onde deseja concorrer e que também tenha meios para comprovar vínculos com o estado, sejam eles de elo político, social, afetivo ou de negócios. Assim, não tendo nada que os impeça desde que cumpridos os requisitos da lei, o desafio é convencer um novo eleitorado de que, mesmo sendo frutos de um contexto diferente, são capazes de lidar com os problemas do estado “estrangeiro” que os espera pela frente.

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Estúdios de Rádio e tv, usados pelos alunos de comunicação ficam separados das demais salas de aula e sofrem com a falta de reparos.
por
Laura Martins e Pedro Guimarães
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11/10/2022

Alunos que ingressam em 2022 nos cursos de comunicação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), têm grande parte das aulas concentradas no “Prédio Novo” da unidade de Perdizes, e podem demorar a descobrir o edifício que abriga os estúdios de rádio e televisão.

Com mais de duas décadas, o “Prédio Novo” é chamado assim porque fica ao lado do “prédio velho” da Universidade. Este sim, tem 102 anos. Mais acima, de frente para a (sempre impecável) capela universidade, é que fica o laboratório. Ao lado do estacionamento, uma passagem estreita ladeada de gradis leva o aluno até três caminhos: dois levam a lugar nenhum —prédios ”desligados” da universidade — e o último, e mais evidente (por ser o único iluminado), dá acesso ao prédio que abriga os laboratórios de vídeo e rádio jornalismo.

Um estúdio de televisão, outro de rádio; uma sala de reuniões e outra de equipamentos. Todos no térreo de uma construção retilínea inacabada de três andares.

Alunos mais ousados descobrem, eventualmente, o fundo de um dos laboratórios (nosso segredo, leitor) onde há uma estante com uma surpreendente coleção de discos de vinil. Ali, funciona uma espécie de museu precário. Discos, trabalhos de antigos alunos, câmeras analógicas e equipamentos de rádio e tv obsoletos ocupam as estantes dos estúdios sem muita distinção.

Dos equipamentos disponíveis aos alunos para as tarefas das disciplinas, alguns poderiam agregar à coleção do museu. As câmeras de vídeo são bastante antigas ainda, mas têm certa qualidade. Os microfones, ainda mais antigos, é que merecem substituição mais urgente.

Caso o estudante não tenha uma boa máquina em casa, cinco computadores estão à disposição. Apesar de terem instalados softwares de edição, não escapam do padrão dos demais equipamentos —- que combinam com o viés católico da universidade. São antigos e avessos a grandes mudanças (como abrir muitas páginas de uma vez). Às vezes é preciso orar para que eles não travem.

Apesar de integrar a universidade católica, o prédio destoa muito da área reservada à oração e, assim como a pontifícia, já teve dias melhores. Ernesto Luís Foschi, 61 anos, é técnico nos laboratórios de rádio da PUC-SP há 35 anos e conta que, inicialmente, aquele espaço abrigava os cursos de comunicação. Sediava oito salas de aula, centro acadêmico, copiadora, a associação dos funcionários e até alguns laboratórios de psicologia.

Ernesto menciona que o prédio foi construído por volta de 1997, mas "em 2002, 2003 (mais ou menos), surgiu o projeto para construção de três prédios de cinco andares, com salas de aulas, laboratórios e até quadras nas coberturas… isso nunca aconteceu [...]. Em 2010, os últimos andares foram desativados por causa da construção [que nunca ocorreu]. Os nossos laboratórios seriam os últimos a sair. A princípio, seríamos realocados para o quinto andar, mas aí perceberam que ficaria muito caro e então nos disseram que iríamos para a ala nova do prédio velho. A ala nova do prédio velho já tem quase 100 anos… não rolou”.

Desde então, o terreno que abrigava os prédios de comunicação serve de estacionamento e é administrado por uma empresa particular. Todas as salas de aula foram transferidas para os prédios novo e velho da pontifícia, restando apenas os laboratórios de rádio e vídeo, além de três andares abandonados.

2° andar do prédio desativado da PUC-SP. REPRODUÇÃO: Laura Lima set/2022. O abandono dos andares acima, também é visível no térreo. Trechos de forro faltando abrem o caminho para as salas de aula que ainda funcionam, uma delas possui paredes com infiltrações, piso descascado e tomadas abertas com fios soltos. Na percepção do técnico, “eles achavam que era fácil mudar, mas quando perceberam a caixa de marimbondo que estavam tacando pedra, falaram que não dava porque era muita grana”.

O prédio possui problemas estruturais, como a falta de uma rota de fuga em caso de incêndio. O acesso a um dos laboratórios, só se dá ao atravessar a sala de aula e, frequentemente, interrompe as aulas. E problemas de administração, os laboratórios ficam abertos até às 9:45, mas segundo Ernesto, "após o retorno da pandemia, a PUC diminuiu o número de seguranças. Nós temos seguranças até as oito da noite. Depois disso, Deus protege”.

Apesar do corte no quadro de funcionários, a mensalidade do curso aumentou recentemente e o aluno que se matricular em 2022 vai pagar uma mensalidade de R$ 2.820,00. Ao ser questionada, a assessoria da universidade católica afirmou que “ser bonita e bem equipada nunca foi a vocação da PUC-SP. Há quem diga que a PUC tem muita alma e pouco corpo, rs”.

A última reforma dos laboratórios foi feita em julho deste ano, onde houve a troca do piso dos corredores. Ernesto revelou que “tinha um buraco no chão já há vários anos”. Até o momento, não se tem projetos para a construção de novos laboratórios. A universidade também não se manifestou com relação à compra de novos equipamentos ou a reforma deste abençoado espaço.

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Nas eleições deste ano, 77 dos 94 parlamentares da ALESP estão buscando a reeleição. Especialistas e políticos explicam os chamados “parlamentares perenes”
por
Rodrigo Mendonça e Mario Gandini
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12/10/2022

Mais da metade dos deputados que ocupam um cargo na Assembleia Legislativa de São Paulo já conta com mais de cinco mandatos, ou seja, estão há, pelo menos, 20 anos na política. Nas eleições deste ano, 77 dos 94 deputados que compõem a Alesp estão em busca da reeleição. O que faz com que determinados parlamentares consigam se manter por tanto tempo em seus cargos? 

Muitos são contra a reeleição por que dizem que não é benéfico para a política. Muna Zeyn, secretária parlamentar e candidata a vereadora em 2016 explica: “Com todos esses anos na política posso lhe dizer que para alguns parlamentares a reeleição é tratada com muita ética, muita transparência e participação popular”.

Muna disse também que na campanha que está trabalhando e em todas as eleições que participou como assessora ela sempre tratou a reeleição não como um fim, mas como um momento de discussão, de organização social e de definição das ordens de prioridade; "Há candidatos que entendem que a candidatura é um momento para ter um diagnóstico claro da realidade que está se vivendo, o que fazer e o que fazer. Agora há parlamentares que usam de cabos eleitorais para a sua campanha, mas hoje a fiscalização pelo TRE é bem maior, portanto não dá para fazer a campanha de qualquer jeito." termina Muna.

Adriano Diogo, ex-parlamentar, eleito quatro vezes vereador de São Paulo (1989 – 2003), deputado estadual entre 2003 a 2015 e ex membro da Comissão de Direitos Humanos da ALESP, onde presidiu a Comissão da Verdade do Estado de São Paulo Rubens Paiva expôs sua visão sobre a reeleição no cenário da política brasileira atual.

“Essa coisa de dizer que reeleição é imoral é uma bobagem. O grande problema é político” completou o sociólogo dizendo que acredita que a reeleição é mais uma chance que o povo está dando ao parlamentar para representá-lo. O ex parlamentar reitera que quando reeleito, um parlamentar tem que se sentir na obrigação de representar melhor o povo, pois está recebendo mais uma chance para continuar na política.

A reeleição é benéfica para a política brasileira?

A permanência por longos anos ocupando uma cadeira no parlamento não é nada novo para os brasileiros.             Em época de eleição é muito comum durante o horário eleitoral, encontrarmos caras repetidas da polícia nacional isso porque temos muitos parlamentares que tentam reeleição, ou que tentam dar continuidade a vida como político, mas exercendo outras funções.

A reeleição pode ser benéfica, visto que os parlamentares terão mais uma chance de dar continuidade no seus mandatos. A ideia de que os parlamentares possam continuar em seus cargos se forem eleitos não é uma exclusividade brasileira. Países como Alemanha, França, Peru, Argentina também possuem reeleição, tudo depende de como ela será tratada pelos parlamentares.

A reeleição no âmbito legislativo já foi criticada por muitos, pois dizem que essa restrição à renovação é um atraso e um prejuízo para o país e contribui para que muitos parlamentares usem o mandato de cabide de emprego e campanha, ou até mesmo para usufruir do privilégio parlamentar frente à justiça brasileira. Deixando de lado o real propósito da sua eleição, cumprir com os papéis de um parlamentar, seja ele vereador, deputado estadual ou federal.

O que leva um parlamentar a querer se reeleger?

Para  Arthur Murta, professor de Relações Internacionais na PUC-SP e doutor em Filosofia pela USP, essa “vida parlamentar” é como muitos políticos decidem viver. “Muitos vão querer uma manutenção do projeto político, outros vão querer ter sempre um foro privilegiado. Sabemos que tem políticos que estão sempre em um cargo eletivo exatamente para ter um foro privilegiado e não cair em uma justiça comum” disse o professor.

Arthur reitera que não podemos generalizar, mas que temos políticos que decidiram fazer da sua vida um mandato, mesmo que seja em diferentes cargos. “Você pega, por exemplo, pessoas como Eduardo Suplicy aqui em São Paulo, mesmo que ele tenha variado muito de cargo né, deputado, vereador… ele esteve na vida pública em cargo eletivo, de alguma maneira” completou o professor.

Como começou a reeleição no Brasil?

Antes exclusiva no Poder Legislativo, a reeleição foi aprovada para o Executivo em 1997, por uma Emenda Constitucional assinada pelo presidente em exercício Fernando Henrique Cardoso, que acabou se beneficiando da própria ação e continuou no Planalto até o ano de 2002.

Segundo a constituição federal do Brasil vigente, parlamentares de quaisquer cargos, seja vereador, deputado estadual/distrital, deputado federal ou senador podem ser eleitos e reeleitos sem restrições. Basicamente, eles ocupam o cargo enquanto se candidatarem e conseguirem ser eleitos, se desejarem. Cargos como presidente da república, governadores de Estado e do Distrito Federal e Prefeitos só podem se reeleger somente uma vez consecutivamente.

No Estado de São Paulo, a cada quatro anos, 94 candidatos são eleitos como deputados estaduais e assim, ocuparão uma cadeira no Palácio Nove de julho (Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo).  Destes 94 deputados e deputadas, a bancada com o maior número de integrantes é do PL (Partido Liberal) com 19 parlamentares. O PSDB é dono do segundo lugar com 14 parlamentares, seguido pelo (PT) que conta com 10 deputados.

São justamente esses parlamentares, chamados “perenes”, por estarem sempre na política e ocupando um cargo, que acabam causando uma impressão de que estão usando o fato de serem parlamentares para terem certos benefícios.

Qual o atual cenário da reeleição?

Para eleição de deputados estaduais é adotado o sistema de voto proporcional, onde a proporção de cadeiras parlamentares ocupadas por cada partido é diretamente determinada pela proporção de votos obtidos.

Portanto, um candidato depende do número de votos que o seu partido vai ter no âmbito estadual, assim segundo a sua posição no partido entre os que pretendem se eleger o candidato saberá se foi de fato eleito ou não.

Nos partidos temos os líderes de voto e os outros candidatos ,que muitas vezes não atingem um número expressivo como os primeiros do seu partido, mas acabam se elegendo, pois foram eleitos via legenda do partido.

Isso acaba reforçando o conceito dos parlamentares perenes, pois temos parlamentares que estão se elegendo com votos realizados na legenda, que acabam se beneficiando, pois, estão em um partido que existem pessoas que puxam mais votos para ela mesma e acabam aumentando o número de votos no partido.

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Após anos sem representatividade, os povos indígenas já conseguem observar algumas mudanças dentro da política, mas ainda não se tornou o suficiente
por
Rafael Monteiro Teixeira e Renan Mello
|
05/10/2022

 

São Paulo é um dos Estados com mais candidatos indígenas, contando com 7
candidaturas, ficando atrás de Roraima (29) e do Amazonas (18), estados onde a
presença indígena é muito maior que a de São Paulo, porém a representatividade
segue baixa. 

De acordo com o IBGE, no ano de 2015, São Paulo é o 3º Estado com o maior
número de indígenas, com 41.794 índios, ficando atrás do Amazonas (113.391) e do

Mato Grosso do Sul (73.295). Partindo do número total da população, estima-se que para existir uma representatividade válida dentro do contexto político, seria
necessários 11 candidatos eleitos dentre aqueles que ocupam alguma cadeira no
poder administrativo do Estado.

Mesmo tendo uma grande concentração de indígenas no Estado, eles ainda acabam
sendo por muitas vezes invisíveis diante dos poderes públicos e da sociedade, o que
geralmente os deixam em situações de vulnerabilidade social, pois são colocados em
pequenas regiões que se mostram insuficientes para expandir e até mesmo manter
sua cultura.

Com isso, muitos povos indígenas, que moram em São Paulo, acabam sofrendo com
insegurança alimentar, mesmo aqueles que já possuem suas terras já regularizadas.

Esses problemas são históricos, pois até a constituição de 1988 eles não eram nem
considerados cidadãos plenos, sendo tutelados apenas pelos seus estados. E mesmo
após a constituição de 88 que garantiu alguns direitos para os povos indígenas, eles
ainda continuam sistematicamente tendo seus direitos violados, inclusive por
propostas parlamentares.

Isso acontece por conta da falta de pessoas dentro da política que têm contato com a
realidade dos povos indígenas.

Indígenas e sua participação na política de São Paulo

 “Não podemos deixar os povos indígenas nas mãos de pessoas que nunca pisaram
em um território indígena, que nunca soube o que uma mulher indígena passa” diz a
co-candidata do PSB, Vanusa do conselho Kaimbé, do movimento nacional dos povos
indígenas, sobre a representatividade dos povos nativos na política de São Paulo.

co-candidata
Vanusa Kaimbé (Arquivo pessoal)

A co-candidata ainda complementa que a política brasileira de um modo geral é um
lugar hostil e machista, onde a maior parte das pessoas que a compõem são homens
brancos que nunca viveram o que muitos brasileiros vivem.

Para ter uma maior representatividade na política de São Paulo, não é necessário
apenas um candidato, deputado ou senador indígena, mas é necessário ouvir tais
comunidades para saber quais são suas prioridades e também ouvir os coletivos
desses povos em São Paulo antes de tomar decisões que os afetem.

O maior problema é a falta de incentivo e de apoio para candidatos desse tipo, pois
muitos deles acabam desistindo no meio do caminho por conta desses fatores. A
política em si não tem abertura para as classes populares, então acaba sendo difícil de
fazer campanhas políticas onde poucas pessoas irão apoiar. 

Mesmo assim, algumas pessoas, vendo como os povos indígenas são tratados pelos
atuais gestores do país, arrumam forças para continuar tentando ingressar na vida
política e mudar esse cenário.

“Decidi entrar na política quando eu vi o que o governo atual anda fazendo com os
indígenas, os aniquilando completamente com políticas sem punição para as pessoas
que invadem suas terras” diz Vanusa, sobre sua decisão de entrar na vida política.

Outro despertar para ela, foi quando estava sendo discutido a PL da morte - onde
transferia a responsabilidade de terras indígenas para o legislativo, onde agora seria
permitido tirar os índios das terras que já os pertenciam a décadas – e ela notou
apenas uma única indígena, além da própria votação acabar com 70% de votos a
favor desse projeto de lei.

Uma de suas propostas é trabalhar em favor da vida indígena, focando no bem estar e
respeito a sua cultura, Vanusa finaliza a sua proposta com seu lema de campanha
“Juntos pela vida”.

PSOL e sua representatividade indígena

Chirley Pankará, candidata do PSOL, também conta sobre sua dificuldade de
ingressar na política, dizendo que estar nesses espaços é como romper bolhas muito
difíceis de serem rompidas, pois a política no estado já é assim há muito tempo, sendo
difícil de ser mudada.

Chirley
Chirley Pankará (Arquivo pessoal e Divulgação)

Caso Pankará seja eleita, ela seria a primeira mulher indígena a ocupar um lugar na
assembleia legislativa do Estado de São Paulo como deputada estadual, tendo em
vista que Vanusa é uma co-candidata. “Seria uma representatividade enorme pois eu
fui escolhida pelos povos indígenas, tanto os que vivem nas aldeias como os que
vivem dentro do contexto urbano, para os representar”.

O PSOL é um dos partidos políticos onde mais possui representantes indígenas em
todo o Brasil, com 15 candidatos, utilizando de sua base de apoio para fortalecer
essas candidaturas. É um começo para essa representatividade, mas ainda é muito
pouco para de fato ajudar esses povos.

Para isso, eles precisam ser mais envolvidos e ouvidos quando é necessário que
políticos tomem decisões que os afetem, tratando-os com respeito e utilizando do
diálogo para tal. “Geralmente são partidos de esquerda que se preocupam com os
povos indígenas” complementa a candidata do PSOL.

“Pretendo fazer o que os povos indígenas demandarem, a minha candidatura a todo
momento foi construída com eles. Então eu irei levar as questões ambientais, de
saúde, de educação, de soberania alimentar e a cultura desses povos no Estado de
São Paulo”, diz Chirley sobre as principais pautas que ela aborda em sua campanha.

Ela ainda complementa que essas não são suas propostas finais que ela pretende
abordar quando for eleita, mas sim uma base, e caso surjam outras necessidades, dos
povos indígenas, que sejam mais urgentes trazer como pauta para a assembleia
legislativa de São Paulo. 

Como os indígenas podem garantir seu direito político

“Entendo que a maior falha dos políticos atuais em relação a esses povos é não
cumprir ou assegurar seus direitos que já estão prescritos na constituição, propondo
por muitas vezes, coisas que vão contra.” Diz Roberta Hesse, antropóloga, que faz
trabalhos junto a índios do povo Xingu.

Principalmente nos últimos anos houve uma escalada na flexibilização de leis que
incentivaram o garimpo ilegal, invasão de terras indígenas, violências físicas e
psicológicas contra eles, além do desmantelamento da FUNAI, órgão responsável por
questões indígenas.

“Penso que os políticos deveriam ler o capítulo indígena da constituição e atuar com
base nela, pois as leis sobre como as terras indígenas precisam ser demarcadas,
como devem ser escolas indígenas, assim como a saúde deve ser providenciada para
eles já estão lá, só precisam ser postas em práticas”, finaliza a antropóloga.

Para a antropóloga e cientista política Cristiane Martins a elaboração e implementação
de políticas públicas que assegurem que garantam aos indígenas o direito à terra, a
proteção de seus territórios, acesso aos serviços básicos e fazerem os recursos
públicos chegarem a esses povos.

“Primeiramente, é fundamental aceitarmos que as políticas públicas voltadas para os
grupos indígenas devem ser protagonizadas por eles, desde a sua elaboração até a
implementação. Para esta, é fundamental viabilizarmos as candidaturas nas esferas
municipais, estaduais e federais ``, completa Martins.

Ela ainda complementa que as maiores dificuldades desses povos para entrar nesse
meio político estão justamente atreladas às dificuldades sociais, ambientais, de saúde,
econômicas e de acesso aos direitos fundamentais de base.

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São Paulo encara um dos piores quadros de insegurança alimentar desde 1990. Situação piorou desde o início da pandemia entrelaçada a desigualdade social
por
Ana Caroline Andrade e Leonardo Nunez
|
05/10/2022

Feito por Ana Caroline Andrade e Leonardo Nunez

 

 

 
 


(Imagem: ONG Banco de Alimentos)

 

 

Faz três anos que não fazemos três refeições diárias. Nunca passei por uma situação como essa. Ver seus filhos dizerem que estão com fome e você não ter o que dar é de corroer a alma ". Viviane Andrade, moradora do extremo sul da capital paulista. Mãe solo, expressa a trágica realidade paulistana. Perdeu o emprego no início da pandemia e se viu com seis bocas para alimentar. 

 

Falar sobre fome é falar sobre uma das maiores, se não a maior, crise humanitária do mundo. Analisaremos a situação da fome no estado de São Paulo, questão que voltou a crescer após números mostrarem alta na quantidade de cidadãos que se encontram em situação vulnerável.

 

De acordo com o Penssan, Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional, apontam que, hoje, no Brasil o número de pessoas em situação de vulnerabilidade alimentar cresceu em níveis exponenciais - são cerca de 127,2 milhões de pessoas em insegurança alimentar.

 

No estado de São Paulo, o número é de 6 a 7 milhões de pessoas passando fome (insegurança alimentar grave) e outros 14 a 15 milhões sofrem por não ter comida de qualidade suficiente (insegurança moderada), famoso pelos grandes centros urbanos e por ser o polo brasileiro de economia, encontramos uma situação que percorre caminhos contrários à idealização de um estado dominado por grandes riquezas.  

 

O auxílio de 600 reais ofertado pelo governo, além de limitado – já que não atinge a quantidade de pessoas que sofrem de insegurança alimentar, não supre o valor preciso para uma alimentação de qualidade no atual cenário econômico, como relata Mauro Peron, doutor em estudos humanitários e professor de Comunicação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo:

 

“Programas sociais são pequenos alentos, diante das colossais problemáticas para a grande maioria da população”, declara.

 

O manejo inadequado dos recursos naturais, promove um alto índice de desperdícios de haveres, que se administrados de maneira correta, ajudaria no saciar da fome de milhares de brasileiros, como conta Luciana Chinaglia Quintão, fundadora e presidente da ONG Banco de Alimentos:

 

“Colheita Urbana, recolhe alimentos no que são sobras de comercialização pela perda de seu valor. Dessa forma, reduz o desperdício e entrega os alimentos para entidades sociais, minimizando os efeitos da fome e possibilitando a complementação alimentar de qualidade”

 

 

PROPOSTAS DOS CANDIDATOS AO GOVERNO CONTRA A FOME

 

Os cincos candidatos com propostas objetivas contra a fome à frente na corrida eleitoral para governar São Paulo, Fernando Haddad (PT); Tarcísio de Freitas (Republicanos); Rodrigo Garcia (PSDB); Elvis Cezar (PDT) e Gabriel Colombo (PCB) enfrentarão uma situação desumana e apresentaram suas propostas para o combate à fome.

 

Fernando Haddad (PT), primeiro candidato nas pesquisas eleitorais, tem como proposta a criação de um fundo emergencial, com distribuição de alimentos, leites e vouchers para a compra de alimentos. Já o candidato Tarcísio de Freitas (Republicanos), em contraposição, promete a ampliação de projetos de segurança alimentar.

 

Rodrigo Garcia (PSDB) constata a criação de um cartão Bom Prato, no valor de 300 reais, por mês, que funcionará como um vale alimentação. Semelhante a Rodrigo Garcia, Gabriel Colombo (PCB) promete triplicar o número de unidades físicas do Bom Prato em 3 anos.

 

Diferente do discurso até aqui apresentado, o candidato do PDT, Elvis Cezar apresenta um discurso voltado à eliminação da fome, fazendo o estado se reestruturar através da reindustrialização da economia paulista.

 

A especialista Juliscristie Machado, professora e orientado de Mestrado da Unicamp, explica que para combater a fome são necessárias políticas em diversos níveis “começa pelo acesso ao meio produtivo para que os alimentos sejam produzidos, que é o acesso a terra, é o nível básico para combater a fome.

 

“A erradicação da fome requer atacar as condições que geram a desigualdade: se todas as formas de repressão econômica devem ser eliminadas, no atual contexto é o Capitalismo que deve ser o alvo”, declara Mauro Peron.

 

Para melhor compreensão, ouvimos dois candidatos, um de direta: Vagner Fernandes candidato pelo partido Republicanos e Chirley Pankará, candidata de esquerda pelo PSOL.

 

Vagner Fernandes, candidato a deputado estadual pelo partido Republicanos, apresentou caminhos para enfrentar a fome: “Para combater, podemos utilizar de diversos programas, mas o que resolve mesmo é um estado produtivo que gere renda onde o povo tenha condições de subsidiar a sua própria despesa, entre elas a alimentação”.

 

Já para a candidata do PSOL ao cargo de deputada estadual, Chirley Pankará, o caminho a ser percorrido na luta contra a insegurança alimentar é o plantio “produzir o seu alimento, um alimento saudável, e que possa servir de alimentação base para essas pessoas. E aqueles que não tem acesso aos territórios, seria entrar com políticas públicas de alimentação”.

 

 

 IMPORTÂNCIA DA ASSISTÊNCIA SOCIAL

 

Analisando as propostas apresentadas pelos candidatos, notamos que nenhum concorrente cita a importância da assistência social prestada por diversas ONGs no intuito de auxiliar no combate à fome.

 

No período pandêmico, o assistencialismo de ONGs e doações de cidadãos auxiliaram para que o número - que já relevante, não fosse ainda mais expressivo. Luciana Chinaglia Quintão, ilustra a importância e fala sobre o papel fundamental no suprimento cumprido durante o período pandêmico, além do auxílio no mapeamento e organização da sociedade para que a ajuda chegasse realmente a quem precisa.

 

“No ano de 2021, a ONG distribuiu 3 milhões de quilos de alimentos por meio da Colheita Urbana, beneficiando mais de 680 mil pessoas. Além da Colheita Urbana nossa equipe se desdobra para fazer com que a comida chegue ao prato de quem tem fome”, esclarece Luciana Chinaglia Quintão.

 

Vagner Fernandes, expressa a importância do assistencialismo prestado pelas ONGs: “elas têm um papel de fundamental importância para sociedade, sempre atuando suprindo  a ausência do poder público em várias áreas e setores. Na pandemia, além de ajudar na assistência as famílias”. 

 

 

(Imagem: ONG Banco de Alimentos)

 

 

Para Mauro Peron, o assistencialismo ameniza a problemática de forma  momentânea, sendo necessário enfrentar a raiz do problema “Ainda que a postura assistencialista possa, por um lado, aliviar os momentos de maior dramaticidade da fome, por outro ela reflete um não enfrentamento da desigualdade provocada e ampliada historicamente, geograficamente”.

 

Com isso, para a erradicação da fome e enchança esperada no intuito de retornar ao período atrelado a números toleráveis para que a sociedade paulistana volte a viver saciada, são necessárias políticas públicas concretas voltadas à insegurança alimentar. Em ano eleitoral, é necessário analisar as propostas dos pré-candidatos a cargos tanto do executivo, legislativo, governos, e comando do país. 

 

Viviane Andrade anseia pelo futuro do Brasil e espera poder retornar ao mercado e usufruir do seu direito prescrito por lei. “Eu só quero poder ir ao mercado e comprar tudo que meus filhos e eu necessitamos, não só alimentação, não é fácil, mas creio no futuro do Brasil.”

 

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