NÃO MONOGAMIA CONSENSUAL
Termo genérico para todos os tipos de relações em que os envolvidos sabem que não há exclusividade sexual e/ou afetiva e concordam.
Em meio a tantas discussões no ambiente dos povos originários, tem uma que os jovens vem levantando que é sobre o direito LGBTQIA+. Durante a história dos indígenas, houve momentos marcantes como a morte do índio Tupinambá,Tibira morto em 1631 amarrado em um canhão, sendo considerado o primeiro caso de homofobia registrado no Brasil.
A execução teria ocorrido publicamente aos pés do Forte de São Luís do Maranhão. Embora não tendo autorização do papa ou da Inquisição, contou com a presença de autoridades europeias presentes no Brasil e com líderes de diversas tribos indígenas.
No registro feito pelo pelo frade capuchinho Yves D’Évreux em seu diário “Viagem ao Norte do Brasil feita nos anos de 1613 e 1614“, o religioso explica que o índio “parecia mais homem” no exterior, mas era “hermafrodita” e tinha “voz de mulher”. Para os colonizadores brasileiros, isso justificava sua morte, servindo de exemplo.
“A história da colonização pode ser entendida como uma história de intervenções sobre os corpos indígenas a partir de um discurso religioso, civilizatório, científico etc”, afirma o professor Estevão Fernandes, graduado em Ciências Sociais, mestrado em Antropologia e doutorado em Ciências Sociais (Estudos Comparados sobre as Américas) pela Universidade de Brasília (UnB). Segundo o professor, a colonização dos portugueses trouxe junto os preconceitos que os povos originários não tinham.
A sociedade estuda e enxerga as temáticas que envolvem os povos indígenas sob a ótica colonial, incluindo a comunidade LGBTQIA+. No entanto, essa é uma comparação desigual,
visto que não há paridade entre padrões coloniais e a cultura dos povos originários brasileiros.
“A história da colonização pode ser entendida como uma história de intervenções sobre os corpos indígenas a partir de
um discurso religioso, civilizatório, científico”, afirma o professor Estevão Fernandes, graduado e doutor em Ciências
Sociais, com mestrado em Antropologia pela Universidade de Brasília (UnB).
O educador e ativista indígena LGBTQIA+ Niotxarú Pataxó, conta que nunca teve uma liderança que se assumisse LGBT, sempre via outros não indígenas guardando para si. “Então quando você pensa em preconceito discriminação dentro das comunidades indígenas nada mais é do que um reflexo do que a sociedade envolvente nos impõe” explica.
Sobre o preconceito enfrentado que é levado para as comunidades, Niotxarú já sofreu com uma pressão da comunidade onde vive para se retirar ao se assumir. Graças a uma conversa com o cacique dele, ele pode permanecer e ensinar sobre. "Então se há 6 anos atrás quase 7 anos atrás não podia praticamente falar hoje a gente fala” comenta.
Niotxaru Pataxó é bissexual e pataxó, povo indígena que vive do norte de Minas Gerais ao sul da Bahia. Sofre um duplo preconceito. Apesar de sua forte presença na luta LGBTQIA +, diz que sua etnia grita mais alto quando se fala em pautas identitárias. Atualmente é estudante universitário e coordenador de educação escolar nas escolas estaduais de sua região.
Niotxaru se descobriu bissexual em 2014, depois de passar por uma experiência enquanto cursava faculdade. Na época era uma jovem liderança na sua comunidade, e falar sobre sua sexualidade não era visto com bons olhos. Niotxaru conta que a presença de pessoas LGBT's em sua aldeia não era uma novidade, mas elas não falavam sobre o assunto. A primeira coisa que lhe veio à mente era como que a notícia seria encarada pelo seu entorno. “Como que minha família vai receber isso? Como que minhas lideranças vão receber isso? E se eu deixar de ser liderança? O que eu gosto é estar no meio da comunidade”, comenta.
Os indígenas de algumas comunidades antes da colonização prezavam pelo trabalho e caráter que cada pessoa oferecia para o seu povo, independente de sexualidade e idade. “Se você for um bom pai de família, um bom caçador, tá tudo bem, o cara não se importa se você é gay, preto, velho, etc. Os indígenas em média são assim”, comenta Estevão.
Para um indigena se assumir LGBTQIA+ dentro de um ambiente colonizado com morais impostas por não-indígenas é um desafio. No entanto, se assumir em um ambiente externo da sua comunidade, onde já existem estereótipos e preconceitos, como racismo e xenofobia, é um desafio ainda maior a ser enfrentado. “Hoje há uma radicalização desses preconceitos devido a um crescimento da igreja evangélica entre esses povos. Há entidades cristãs que estão ensinando a esses povos como isso é errado”, complementa o pesquisador.
A influência exercida pela comunidade LGBTQIA+ cresceu nos últimos anos ao pautar políticas públicas e projetos de lei, como a decisão de 2011 do STF que permitiu o casamento homoafetivo ou o reconhecimento do direito de adoção por casais de qualquer natureza.
Diversos estudos foram realizados e muitos direitos conquistados, no entanto, isso não significa que a população está isenta da LGBTfobia, que acontece diariamente. A comunidade LGBTQIA + sofre violência física de forma recorrente. De acordo com o relatório do Observatório de Mortes Violentas de LGBTI+, em 2020, 237 pessoas LGBTQIA + morreram de forma violenta no Brasil. O relatório mostra ainda que nos anos entre 2000 até 2020, 5047 vidas de pertencentes a esse grupo foram interrompidas.
Hoje não se fala apenas sobre um único movimento LGBTQIA +, já que a interseccionalidade foi inserida no debate. A partir desse novo olhar sobre a temática, outros movimentos são levados em consideração, como o movimento negro, indigena e transsexual.
Havia cerca de cinco milhões de nativos espalhados no território brasileiro antes da chegada europeia. Hoje, este número chega a menos de 500 mil, segundo a Funai (Fundação Nacional do Índio). A disseminação de doenças, o processo escravagista e a retirada de terras para a monocultura foram fatores-chave para o encolhimento dessas populações. Hoje, a maioria dos indígenas encontra-se nas regiões Norte e Nordeste.
Niotxaru Pataxó é bissexual e pataxó, povo indígena que vive do norte de Minas Gerais ao sul da Bahia. Sofre um duplo preconceito. Apesar de sua forte presença na luta LGBTQIA +, diz que sua etnia grita mais alto quando se fala em pautas identitárias. Atualmente é estudante universitário e coordenador de educação escolar nas escolas estaduais de sua região.
Permitido para que homens tenham mais de uma esposa, o casamento poligâmico já sugere um dos papéis impostos às mulheres: gerar filhos. Além disso, a fidelidade que as esposas devem aos seus maridos também impõe preconceitos relacionados ao divórcio quando solicitado pela mulher. Ainda que modelos de relacionamento próximos, até certo ponto, das ideias da poligamia representem ganhos à população, no sentido de que aos poucos ela se desprende de concepções machistas e/ou cristãs, existem determinados comportamentos que ainda são tidos como naturais ou são abominados.
É comum, por exemplo, que, no íntimo, a relação de um homem, que vive um relacionamento heterossexual fechado, com outra pessoa – a traição - seja perdoada pela parceira sob a justificativa de que “homens são assim”. Por outro lado, mulheres heterossexuais e pessoas pertencentes à comunidade LGBTQIA+, ao proporem maior independência em suas relações amorosas e/ou sexuais, são, por vezes, encaixadas em um comportamento depravado e proibido.
Por outro lado, no 71º episódio do Imagina Juntas, podcast formado por Carol Rocha, Jeska Grecco e Gus Lanzetta, a convidada Mayumi Sato relata sua experiência vivendo um relacionamento aberto e como a usa na construção de um aplicativo para encontros casuais. A prática é vista como um avanço para mulheres, protagonistas, por vezes, de competitividade feminina relacionada a homens. Há também os casos em que a traição em relacionamentos monogâmicos torna mulheres vítimas de feminicídio: dados da Rede de Observatório de Segurança mostram que cinco mulheres morreram por dia em 2020 vítimas de feminicídio.
O sexólogo espanhol Manuel Lucas Matheu afirma que a monogamia não é natural para os seres humanos. Ele a relaciona aos países ocidentais e às pessoas mais pobres, enquanto vincula a poligamia e a poliandria às demais sociedades e às pessoas ricas. Em um estudo, Matheu constatou que as sociedades mais pacíficas e que valorizam a mulher são aquelas em que a monogamia não é imposta. O sexólogo diz ainda que o sexo tem se tornado uma espécie de ginástica, atividade na qual o foco está em genitálias, bem como a pornografia fomenta, e que o verdadeiro “ponto G” dos nossos corpos é a pele, citando Frank Sinatra ao afirmar que sexualidade é se fundir.
Dentre os diferentes tipos de relacionamentos amorosos e/ou sexuais estão a não monogamia consensual, o poliamor, a relação livre, o relacionamento aberto, a poligamia e a poliandria. No Brasil, em entrevista à Revista Galileu, casais homo e heterossexuais em formatos diversos de relacionamento falam sobre como descontruíram o que pode ser chamado de monogamia compulsória. Andréa Dias, por exemplo, casou-se na igreja com seu marido há mais de 15 anos à época, e, em 2017, mantinha um relacionamento com um namorado também. Ela, o namorado e o marido conviviam juntos na mesma casa.
Na cultura indígena, a poliandria e a poligamia se tornaram objeto de discussão no mundo jurídico, já que, no país, apenas o casamento monogâmico é reconhecido na Lei. Segundo o promotor de Justiça de Roraima André Paulo dos Santos Pereira, "o parâmetro constitucional do artigo 231 reconhece ao indígena o direito à diferença sem a arbitrária obrigação dele abrir mão de suas raízes, costumes e crenças", Com isso, outro tema de amplo debate surge: a influência do cristianismo sobre a cultura monogâmica que predomina no Ocidente.
Ainda assim, a pluridade de culturas no planeta mostra que, em países como a Nigéria e a Índia, mulheres são reduzidas a papéis submissos em relação a homens e de maternidade. Em entrevista à BBC, Muvumbi Ndzalama conta que, como uma mulher pansexual, luta pelo direito de se casar com mais de uma pessoa, semelhante ao que é permitido aos homens, com a poligamia.
Desse modo, nota-se que os diferentes tipos de relacionamentos amorosos e/ou sexuais assumem aspectos mais positivos ou mais negativos para mulheres dependendo da cultura na qual estão inseridas.
As relações sexuais na natureza não se restringem ao modelo monogâmico. Porém, a interferência cultural e religiosa, por exemplo, devem ser consideradas para entender como os seres humanos se relacionam sexual e amorosamente uns com os outros. Nesse sentido, a tese "Monogamia: interpretações winnicottianas" pode oferecer uma explicação no campo da psicologia sobre a necessidade humana de resgatar o sentimento de dependência constituído entre mãe e filho por meio de relacionamentos monogâmicos.
Por outro lado, pensando historicamente, a monogamia tem potencial para ser tida como compulsória, já que, no Brasil, tornou-se parte do contrato social da população a partir da colonização portuguesa e do cristianismo. Ou seja, a monogamia não é fruto apenas de questões psicológicas, mas também de imposições: ao ver o indígena como o "outro", jesuítas tentaram combater a cultura brasílica repudiando a nudez, o nomadismo e o poliamor, conforme o artigo " Infância, catequese e aculturação no Brasil do século 16".
Como complemento, "Luxúria e selvageria na invenção do Brasil: enquadramentos coloniais sobre as sexualidades indígenas" ajuda a compreender como a sexualidade indígena era vista por cronistas e missionários no Brasil. O léxico utilizado fomenta um olhar preconceituoso sobre a cultura indígena com a qual os colonizadores deram de cara ao chegar ao país.
No entanto, o poliamor pode ter o aval de religiões. A poligamia é bem-vinda em países de religião muçulmana, por exemplo, bem como em países do continente africano. Na Europa, por sua vez, a ideia de poliamor foi afastada com a influência católica na política desde a Idade Média.
Desse modo, uma problemática a respeito dos desejos humanos e crenças, impostas ou não, se estabelece.
Ao passo em que o questionamento sobre a monogamia liberta, de certa forma, mulheres de um histórico de submissão e abuso em relacionamentos e casamentos, o poliamor também é capaz de constituir amarras sobre a vida de mulheres, principalmente daquelas que vivem sob culturas nas quais a poligamia é aceita. A contradição ou a compatibilidade da monogamia com o feminismo é a temática do artigo " Quando o amor é o problema: feminismo e poliamor em debate".
Em um grupo de leitura no sul do Brasil, gênero, poligamia e maternidade compulsória são os assuntos debatidos por leitores do livro "Fique Comigo" e no estudo "Discutindo gênero, poligamia e maternidade compulsória através da obra literária Fique Comigo em um clube de leitura: impressões interculturais". A personagem principal da obra, Yejide, vive um casamento monogâmico na Nigéria até sofrer pressão da sogra para lhe dar um neto. O que se segue na narrativa destrói, ou termina de destruir, o relacionamento vivido por ela e Akin, seu marido. Por isso, o livro também levanta a questão sobre o quanto a poligamia pode ser uma imposição e representar a predefinição de papéis para as mulheres, da mesma maneira que ocorre em relação à monogamia na cultura europeia e no que forma o chamado Ocidente.
Para além do debate cultural, feminista e emocional, é necessário discutir como os relacionamentos são comportados pela Lei. O artigo " Contornos jurídicos, filosóficos e sociais da monogamia" traça um paralelo entre a construção das leis no Brasil e a moral cristã que permeia os relacionamentos entre cidadãos, criticando a falta de amparo jurídico no que diz respeito à simultaneidade de relações. Já a tese "O mito da monogamia à luz do Direito Civil-Constitucional: a necessidade de uma proteção normativa às relações de poliamor" acompanha a mesma ideia, acrescentando ainda a questão sobre os direitos, teoricamente garantidos pela Constituição Federal, como a igualdade e a liberdade nas relações familiares. É permitido assim que fatores jurídicos e culturais sejam colocados lado a lado para analisar o poder de um sobre o outro, tendo a mulher no centro desta problemática.
Termo genérico para todos os tipos de relações em que os envolvidos sabem que não há exclusividade sexual e/ou afetiva e concordam.
É o tipo de relacionamento em que, em comum acordo, é possível se envolver sexualmente e afetivamente, de forma estável, com diversas pessoas ao mesmo tempo.
Chamadas de RLi (lê-se “érreli”), são aquelas em que a autonomia individual vem em primeiro lugar, em negação ao modelo de casal. Não se admite que a vida amorosa ou sexual fique sob o controle de ninguém. Tampouco existe hierarquia entre os diferentes parceiros.
Ocorre quando alguém é casado com mais de uma pessoa e exige de todas elas exclusividade afetiva e sexual. Na lei, não é permitida no Brasil. O termo “poliginia” é usado para o caso de homens que têm múltiplas mulheres, enquanto a “poliandria” se aplica a mulheres com vários maridos.
Existe quando os parceiros concordam em buscar relacionamentos sexuais independentes, mas sem envolvimento afetivo, fora da relação principal.
Veja em outro formato: https://fracionadx.com/ensaios-e-outros/onde-cabe-o-universo-feminino-no-amor-uma-serie-fotografica-sobre-mulheres-e-nao-monogamia/
Em agosto, após os Estados Unidos anunciarem a retirada das tropas do Afeganistão, depois de duas décadas de disputas desde os atentados de 11 de setembro, o grupo extremista Talibã retomou o controle do território em Cabul, capital do país.
Em 2001, ano do atentado ocorrido nos EUA, o Talibã tinha o poder sobre o Afeganistão, além de ter ligações com grupos terroristas, como a Al-Qaeda, cujo chefe, Osama Bin Laden, foi responsabilizado pelos ataques do dia 11 de setembro. Haviam suspeitas de que extremistas afegãos estavam ajudando Bin Laden e se recusavam a entregá-lo para o governo americano. Por isso, os EUA atacaram o país um mês depois.
O Ocidente entrou na guerra para apoiar os americanos, os extremistas perderam espaço mas continuaram lutando. Os EUA conseguiram matar Bin Laden, então já consideraram que obtiveram sucesso. Desde que as tropas americanas começaram a se retirar do Afeganistão neste ano, o Talibã avançou e retomou o poder nas principais localidades afegãs.
O grupo extremista sempre teve como objetivo impor uma lei islâmica com interpretações próprias, e se mantém financeiramente com base em operações ilícitas, principalmente tráfico de drogas.
A retirada das tropas americanas sempre teve um prazo, após a morte de Bin Laden. Porém, as datas dependiam do cumprimento de acordos pelo Talibã. Um deles é não permitir que organizações terroristas como Al-Qaeda ou qualquer outra tenham atividade em áreas controladas pelo grupo, o qual também não podia enfrentar tropas estrangeiras. Entretanto, lançaram ações contra o exército afegão.
Victoria Perino, mestranda em Relações Internacionais no Programa de Pós Graduação em RI San Tiago Dantas reforçou que o tema já era uma pauta de debate ao longo de vários governos estadunidenses. “O assunto foi encabeçado na administração de Donald Trump, que mediou um acordo com os talibãs para que a retirada das tropas norte-americanas da região fosse possível, e ganhou outra dimensão com Joe Biden, que deu continuidade ao projeto”.
Além disso, o objetivo dos EUA era fortalecer o governo e o exército do Afeganistão para que pudessem se defender sozinhos do extremismo, por isso investiram muito na segurança local.
No dia 15 de agosto, o ex-presidente Ashraf Ghani deixou o país após ofensiva do Talibã, que entrou no palácio presidencial na capital, Cabul, e fez negociações com o governo sobre quem controlaria o território. Entre os membros presentes, estava Sirajuddin Haqqani, chefe da rede Haqqani, organização terrorista alinhada com o Talibã e com a Al-Qaeda. Essa facção é considerada uma ameaça e foi responsável por vários ataques ao Afeganistão. Outros representantes do governo, que é apoiado pelos EUA, também tentaram deixar o local.
Todos os funcionários da embaixada dos Estados Unidos embarcaram para fora do país, e chefes de Estado de todo o mundo se mobilizaram para retirar seus cidadãos do local. Há um receio generalizado de que o Talibã, novamente no poder, volte a governar como em 1996, impondo um regime que limita muito a liberdade, que foi ampliada no governo civil. Naquela época, era comum ver execuções públicas, apedrejamentos, amputações, chicotadas. Qualquer tipo de roupa ocidental era censurada e as mulheres além de precisar de autorização dos homens para sair, tinham que se cobrir totalmente usando a burca, e não podiam trabalhar nem estudar.
Mais um fator que deve ser observado é a ameaça da reconstituição e do surgimento de outros grupos terroristas, com a volta do talibã ao controle da região.
Isso explica o desespero da população, que chegou a invadir a pista do aeroporto de Cabul, na tentativa de deixar o país. Muitos subiram em aviões e tentaram entrar em aeronaves que estavam decolando no momento, e a confusão deixou mortos e feridos. Uma pessoa chegou a cair, como pode ser visto em vídeos que circulam nas redes sociais. A situação, de grande repercussão. Além disso, também foram disparados tiros no local devido ao caos.
Cobertura da mídia
A internacionalista entrevistada chamou a atenção para a cobertura dos acontecimentos pela mídia. “Na semana em que o talibã tomou o poder, o Afeganistão dominava as manchetes dos principais jornais, e agora parece que de repente não está mais acontecendo nada. Isso revela um pouco sobre como o debate de política internacional é baseado em tendências”.
Perino também frisou o questionamento: ”Por que esse tema sumiu? Porque as grandes potências e instituições internacionais não tomam atitudes eficientes para garantir os direitos humanos dessa população?”. Ainda, a mestranda ressaltou a importância de dar voz às resistências e mobilizações locais, ouvir o que essas pessoas querem e precisam, como forma de colaborar com as vítimas.
Mulheres
Uma das principais preocupações com a volta do regime, são as mulheres, parcela da população que é mais vulnerável. Nos primeiros pronunciamentos após retornar ao poder, o grupo afirmou que as mulheres não seriam proibidas de estudar, porém na realidade, elas estão encontrando muitos empecilhos. O governo determinou que as mulheres podem frequentar instituições de ensino, mas separadas dos homens.
Muitos professores fugiram do país, levando escolas a fecharem e o reitor da universidade de Cabul anunciou que mulheres não poderão cursar o ensino superior.
Quanto ao mercado de trabalho, segundo o grupo dirigente formado exclusivamente por homens, as mulheres estão temporariamente proibidas por segurança, de exercer qualquer função. Como eles tem colaboradores em todos os lugares, a população feminina tem permanecido mais tempo em casa desde que os extremistas assumiram o poder, por medo da repressão, e assim muitas abandonaram seus empregos. Elas temem que o regime seja igual ao que foi no período entre 1996 e 2001, no qual as mulheres eram obrigadas a cobrir os rostos e as punições para qualquer descumprimento de regra eram severas.
Em setembro, o Talibã reprimiu um protesto realizado por mulheres que lutavam pelo reestabelecimento seus direitos, principalmente de trabalhar e participar do governo, o que lhes foi tirado desde que o grupo assumiu o controle do país. Segundo relatos delas, foram alvejadas com gás lacrimogêneo e spray de pimenta pelos extremistas, os quais declararam que a manifestação saiu do controle, de acordo com notícias do portal afegão Tolo News.
O que é o Talibã?
O Talibã é um grupo extremista sunita, formado em 1994, por ex-guerrilheiros que participaram de confronto com a União Soviética, conhecidos como mujahedin. São seguidores da lei islâmica sharia, baseada no livro religioso Alcorão, que institui regras de acordo com falas do profeta Maomé, sendo uma diretriz para os muçulmanos. Um dos princípios da legislação, são as punições que muitas vezes são bastante severas. A forma como é aplicada e a rigidez, variam de local para local.
Porém, os extremistas impõem a sharia da maneira que a interpretam, e enquanto estiveram no poder, foi a forma mais rígida e violenta já vista no mundo.
Movimentações recentes
Na última terça-feira, 2, o grupo extremista proibiu o uso de moedas estrangeiras dentro do país, devido à situação econômica e aos interesses nacionais, segundo o porta-voz da organização em comunicado. O Talibã vai distribuir trigo para combater a fome, em troca de trabalho.
Victoria comentou sobre possibilidades futuras de articulações com os extremistas. “O braço do Estado Islâmico no Afeganistão já começou a fazer vários atentados desde agosto. Eventualmente, o Talibã seria um aliado na luta de países contra esse grupo, por conta de disputas políticas”. Pode-se compreender que o cenário é incerto, tudo vai depender do desenrolar dos fatos.
Futuro do país
Apesar do esforço estadunidense para reforçar a segurança do país, o secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, admitiu que o Talibã assumiu o controle do país mais rápido do que o previsto. A estimativa era de que isso ocorresse apenas em novembro, caso acontecesse.
Victoria destacou alguns pontos acerca da permanência das tropas no Afeganistão, assunto amplamente debatido no momento da retirada. “As tropas deviam ter ficado? Há uma percepção dos EUA como um elemento garantidor da ordem. A ideia de que a presença das tropas estadunidenses vão garantir que o grupo não avance, garantindo a estabilidade, e também assegurar o acesso à educação, desenvolvimento, mercado de trabalho. Mas, mesmo em meio à presença dos EUA, o Talibã já estava e continuava crescendo, a violência era grande, muitas pessoas morreram e se mudaram de país. Isso apareceu muito pouco na mídia internacional”, argumentou.
Ela também refletiu: “O principal motivo da ocupação do país pelos EUA na época do 11 de setembro, foi a busca por respostas sobre o atentado e a guerra ao terror. Entretanto, quando Bin Laden foi encontrado, ele estava no Paquistão. O que justificaria então a manutenção dessa intervenção de 20 anos? “.
As tropas afegãs sempre tiveram problemas com recrutamento, sem contar a corrupção intensa presente na segurança nacional. Os soldados geralmente são enviados para lugares onde eles não têm família nem conhecidos, além da falta de manutenção dos equipamentos, e em contrapartida, o Talibã tem um grande acesso a armas, fazendo com que fiquem mais fortes e assim, a resistência contra eles acaba sendo menor.
Os Estados Unidos e a Organização das Nações Unidas (ONU), impuseram sanções ao regime, e outros países já demonstraram que não vão reconhecer diplomaticamente o grupo. Já a China, deu indícios de que pode reconhecer a legitimidade do Talibã.
A internacionalista comentou sobre perspectivas futuras para a nação e os afegãos. “O grupo extremista tem se esforçado para tentar refazer sua imagem, com a ideia de que agora eles são mais moderados e tolerantes, mas já existem casos e denúncias que contradizem isso. O panorama é de uma vida muito dura para a população, de continuidade da repressão e violação aos direitos humanos, violências, vulnerabilidade, fome, ou seja, uma catástrofe humanitária em curso, que nunca deixou de existir, apenas ficou silenciada”.
Imagem: Joanna e Marc Bolland, CEO da Marks & Spencer, na East London Street coberta por roupas descartadas para realçar o problema de roupas indo para o aterro.
O mercado da moda movimenta por ano cerca de 2,3 trilhões de dólares no mundo. São cerca de 100 milhões de toneladas de fibras processadas em escala global. Nesse setor, o Brasil é responsável pela 5ª posição mundial, e somente por aqui são geradas cerca de 100 mil toneladas de lixo todo ano, segundo a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit). Mas, a indústria têxtil, bastante rentável, está vendo seu antigo modelo Fast Fashion - produção em escala, rápida e que segue a lógica do descarte - perder espaço substancialmente à Slow Fashion - conceito de moda que pauta a ecologia no processo industrial, preservando as pessoas e natureza. Tendência ainda mais urgente com o início da pandemia.
Depois de décadas de um modelo de produção que prioriza o lucro, condições precárias de trabalho em várias partes do mundo e o descarte exacerbado de lixo, novas tendências, estratégias e meios de produção surgiram. Isso está ligado à pauta ambiental, que vem ganhando maior visibilidade devido às crises enfrentadas pelo mundo atualmente. A inovação pensada na redução dos impactos ambientais se faz necessária, assim como a consciência social, de quem produz e de quem consome. A relação entre moda e sustentabilidade está conquistando cada vez mais espaço nos últimos anos. A Internet, as mídias digitais e grande parte da geração Z são responsáveis pelo movimento que exige cada vez mais um olhar crítico para a procedência e uso cotidiano da moda.
A Abit realizou um painel online com o tema Como a Indústria da Moda Está Cuidando do Seu Lixo, no dia 1º de abril do ano passado. Para responder à pergunta “O que fazer com o que nós geramos?” Fernando Valente Pimentel, presidente da Associação, apontou que a melhor forma de não poluir é fazer isso desde o início, ter uma concepção do produto. Como observado por Pimentel, o começo dos processos deve ser modificado para uma possível solução da questão ambiental no mundo da moda.
Nesse sentido, a estudante de moda Marina Guimarães, 21 anos, que é aluna da Fundação Armando Álvares Penteado, FAAP, comentou que não existe uma disciplina específica na graduação sobre o assunto, mas os professores buscam incluir isso nos temas que abordam. “Os professores fazem a gente pensar nessa questão e a influência dela em todos os aspectos que estudamos. Em todas as matérias, a relação com o meio ambiente é evidenciada, além da realização de palestras sobre sustentabilidade”, relatou.
Marina afirmou que o maior problema hoje em dia é o uso da água. “Um jeans para ser feito, precisa ser lavado muitas vezes. Na hora de tingir os tecidos, também se gasta muita água”. Outro ponto destacado foi a volatilidade da moda e a geração de lixo. “Hoje você quer ter uma determinada blusa que está em alta, e semana que vem quer comprar algo que é uma tendência nova. A compra excessiva e o descarte incorreto das roupas contribuem para a poluição. As próprias marcas deveriam informar aos clientes o jeito certo de se desfazer da peça.”
Cerca de 80 bilhões de peças de roupas são adquiridas a cada ano, de acordo com o estudo “A injustiça ambiental global da moda rápida”. Nesse sentido, a estudante ainda evidenciou o papel relevante dos consumidores no processo de mudança para que o mundo da moda se torne um meio mais sustentável. “É preciso prestar atenção à vida útil das vestimentas. Comprar aquilo que realmente vai ser usado por um bom tempo”.
Ela também falou sobre tendências inovadoras para evitar a geração de lixo ou o descarte inadequado, e apresentou a técnica chamada de Upcycling. “É possível juntar duas roupas, costurar e transformar em algo diferente. Não precisa nem ir longe. Por exemplo, posso pegar uma camiseta, cortar, e terei um top. A proposta muda totalmente e você fica com uma peça nova.” Dois exemplos da transformação do mercado são a Zara e a Forever 21, impactadas principalmente pelo modo insustentável de produção têxtil e sua decadência. Das duas empresas, a Zara resolveu se reinventar para uma abordagem mais sustentável aos olhos do público, assim como a Riachuelo, que deixa em suas propagandas e etiquetas informações de que aquela roupa foi feita em um processo mais eco amigável. Apesar disso, essas empresas ainda são acusadas de trabalho escravo/infantil para a produção de suas roupas. Já a Forever 21 resolveu continuar com sua abordagem Fast Fashion sem mudar nada sobre o propósito da empresa, o que resultou em perda de lucros e consequentemente na declaração de falência do conglomerado.
Para Natalya Picheictt, fundadora da marca Slow Fashion FAMME, a primeira coisa que vem a sua mente ao pensar em sustentabilidade é progresso. “Assim como assuntos como veganismo levantam bandeiras ambientalistas, muitas vezes você pode olhar pra dentro do teu guarda-roupa mesmo e ver que a moda também é uma forma de você ajudar o meio ambiente sem fazer muito”, ressaltou. Reutilizar roupas ou pensar em doá-las ou mesmo comprar alguma peça pensando na sua longa duração já é um grande passo. Para a empreendedora, o mais difícil ao iniciar um modelo de negócios sustentável é saber a procedência dos materiais utilizados em sua marca. Além da pesquisa para encontrar os fornecedores certos, é um desafio também rastrear toda a cadeia.
Com o avanço dessa nova tendência, novos movimentos surgem para atingir o maior número de adeptos. Um deles é o Fashion Revolution, ONG criada em 2013 que, com atuação em mais de 100 países, opera para uma moda limpa, segura e responsável. Como uma rede de designers, acadêmicos, escritores, comerciantes, marcas e qualquer pessoa “amante da moda”, realiza anualmente a Fashion Revolution Week, evento para o debate dos temas acerca da moda. Em 2021, a Semana que se encerrou no dia 25 teve como tema central os Direitos Humanos, Natureza e Revolução Sistêmica. Onde seu principal objetivo, em 7 dias de evento, é a mobilização de pessoas para além de suas realidades. Para Ana Carolina Olyveira, representante da Fashion Revolution no Brasil, a sustentabilidade ainda é uma bolha. Por que não pensar ao invés de um sistema linear, num sistema circular, onde os produtos sejam reutilizados? O conserto é uma das formas de se pensar ecologicamente. Segundo Ana Carolina, o evento também faz perguntas às próprias marcas. O fator pandemia fez com que as pessoas parassem para pensar sobre sua relação com o que vestem. “Pessoas começaram a olhar o que têm no guarda-roupas”. Por outro lado, também fez pessoas comprarem mais através da Internet.
A sustentabilidade não significa produtos mais acessíveis financeiramente. Pelo contrário. Roupas e acessórios provenientes do Slow Fashion ainda são inacessíveis para parcela de baixa renda da população. Mas cada vez mais a tendência é de transformação de hábitos. Segundo a empreendedora e representante do Movimento, parte dessa mudança vem do consumidor. É preciso também questionar e cobrar as marcas para serem mais flexíveis.
Ao mesmo tempo, frente a essa nova tendência comportamental, os preços atrativos do modelo Fast Fashion ainda sustentam a suposta necessidade de consumo desenfreado. Apesar desses delírios por peças de vestuário não ser algo recente, a consolidação dos e-commerces e a publicidade das marcas nas redes sociais, especialmente no Instagram, colaboraram para um aumento no frenesi pela prática. No entanto, para que essa rede de consumo se sustente e alguns possam se deleitar com uma nova vestimenta, muitas das empresas assumem um sistema de exploração e abuso de seus funcionários, mesmo dentre aquelas que se promovem com a sustentabilidade.
O mercado da moda possui uma notória relação com a escravidão contemporânea. Em 2018, a fundação Walk Free, através de uma pesquisa efetuada pelo The Global Slavery Index, apontou a moda como o segundo setor com maior exploração de trabalho análogo a escravidão. No mesmo ano, o Índice de Escravidão Moderna divulgou dados mostrando que dos 354 bilhões de dólares em itens importados para países do G20, - produzidos através de mão de obra escrava – um terço são peças de vestuário.
Não são poucas as marcas que já estiveram ou ainda estão relacionadas a práticas de exploração da força de trabalho, ocorrendo principalmente em países subdesenvolvidos. Durante a década de 1990, a Nike foi incriminada por utilizar mão de obra infantil em suas fábricas na Ásia. Nos últimos dez anos, a Renner, Marisa e Pernambucanas estiveram envolvidas com a exploração de costureiros bolivianos trabalhando de forma análoga à escravidão. Sem contar a Zara, que já foi flagrada mais de três vezes submetendo trabalhadores estrangeiros a situações degradantes e de abuso.
A ONG Repórter Brasil forneceu dados apontando que no território nacional mais de 35 marcas do setor estiveram relacionadas ao trabalho escravo e, desde 2010, foram resgatados mais de 400 costureiros e costureiras em condições análogas à escravidão. O relatório da Walk Free também indicou a existência de mais de 40 milhões de pessoas colocadas nessas condições de trabalho dentro do setor da moda - considerando um cenário mundial – sendo que 70% desses trabalhadores são mulheres.
Esses índices expressivos se devem a cadeia de produção da moda, especialmente àquela conhecida como fast fashion, que almeja maior produtividade em suas fabricas pagando menos pelos serviços e obtendo maior lucro com as vendas no varejo. Essa tática de produção é a mais seguida pelo mercado, o que já proporciona a venda de aproximadamente 80 bilhões de peças de roupas por ano ao redor do mundo. Para a manutenção desse sistema, muitas marcas de moda passaram a migrar suas fabricas para países com legislação mais favoráveis – como Índia, China, Coreia, Bangladesh entre tantos outros.
Tal medida já proporcionou, por exemplo, que Bangladesh se tornasse o segundo maior exportador de vestuários do mundo, movimentando US$ 28 bilhões na economia do país, conforme informações da Organização Mundial do Comércio (OMC). Contudo, a invasão da indústria da moda nesses países não traz apenas benefícios econômicos. Em 2013 ocorreu a tragédia do edifício Rana Plaza, localizado na periferia da capital de Bangladesh, na qual uma construção de oito andares desabou deixando 1.133 pessoas mortas; nela 2 mil funcionários que recebiam aproximadamente R$360 para trabalhar - durante 10 horas em seis dias na semana - para fabricas de cinco confecções estadunidenses.
A tragédia do Rana Plaza foi o estopim para o surgimento da Fashion Revolution. Ana Carolina Olyveira explica melhor acerca das reflexões promovidas pela campanha: “A #quemfezminhasroupas é uma das principais do Fashion Revolution. Quando a gente pergunta "quem fez minhas roupas?" a gente quer saber o nome da pessoa que faz a sua roupa. Às vezes respondem "ah, foi tal confecção", mas quais foram as condições de trabalho nessa confecção? Como essas pessoas trabalham? Do que as minhas roupas são feitas? Quem cortou minhas roupas? Quem bordou minhas roupas? Então é um questionamento muito mais a fundo que se estende.”
Sobre o mercado nacional, ela ainda diz: “entre 2016 e 2018, a cada cinco trabalhadores resgatados nessa situação análoga à escravidão, quatro eram negros. Então, é além, você vai percebendo que a questão vai ficando mais profunda, porque aí vira uma questão estrutural”.
O Brasil é o quarto maior produtor de roupas mundial, faturando de US$ 55,4 bilhões em 2014, proporcionando 1,6 milhão de empregos e tendo 85% da produção consumida dentro do país, segundo dados da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit). E assim como em Bangladesh, existem inúmeras histórias de flagras e tragédias envolvendo exploração de mão de obra escrava – principalmente estrangeira oriunda da Bolívia – nas fábricas das confecções.
Em 1995, o Brasil foi uma das nações pioneiras em reconhecer oficialmente as práticas de trabalho forçado em sua extensão. Institucionalmente o país possui certo programa de combate a essa forma de exploração, com uma legislação regulamentando práticas de trabalho, um Código Penal prevendo pena de 2 a 8 anos para o cidadão que explorar seus funcionários e com a “Lista Suja” – um recurso para registrar e divulgar empregadores irregulares.
Já em 2005 houve uma CPI do trabalho escravo na Câmara Municipal de São Paulo, proporcionando que Auditores-Fiscais do Trabalho pudessem usar o poder público no combate ao trabalho escravo na indústria paulista de moda. Em 2009, também houve articulações políticas para a proteção do trabalhador imigrante, o que resultou na homologação do Pacto Contra a Precarização e Pelo Emprego e Trabalho Decentes em São Paulo – Cadeia Produtiva das Confecções.
Além das medidas em âmbito político, ONG’s e instituições colaboram na conscientização da população acerca do tema. O aplicativo Moda Livre, desenvolvido pela ONG Repórter Brasil, reúne informações de diversas marcas sobre seus envolvimentos na exploração de mão de obra escrava e avalia as ações adotadas pelos varejistas do país; o que permite ao consumidor se conscientizar sobre a produção da peça que será consumida.
Diversos projetos também surgem diariamente, tornando-se fortes aliados na divulgação e na conscientização acerca dos problemas no mundo da moda. Uma iniciativa que surgiu nas redes sociais é o Devagarzin, instagram criado por Srah Rabello como trabalho de conclusão do curso de publicidade, em 2017. No qual tem o propósito de informar os consumidores sobre as marcas, a partir de análises de campanha. Dando assim, a oportunidade para os consumidores de pensar e refletir se o que consomem é o mesmo em que acreditam. Para ela, as principais mudanças hoje se dão através da Internet e de propostas como a dela: “a Internet e as mídias sociais trouxeram poder pro consumidor, [...] que começa a entender o papel dele de exigir das marcas o que ele quer. Então agora o poder vai mais para a mão de um consumidor que tem melhor acesso à informação e que entende mais as consequências da sustentabilidade. Com isso, o movimento sustentável, o movimento slow fashion, vêm crescendo muito”.
Outro projeto que se consolidou através das redes sociais é o Não É Moda, instagram criado no início de 2020 junto com o podcast Esse Não É Um Podcast Fashion, por Gabriel Coutinho e Rafaella Parma diante da insatisfação de não encontrar tantas pessoas expondo tais problemas de maneira popular. Para eles, a melhor maneira de mudar esse cenário é através da cobrança das marcas e também do aprendizado. “é uma questão de transparência, de cobrar, de perguntar “quem são os seus trabalhadores?”. Você está remunerando para que eles tenham uma vida digna? Que eles tenham um mínimo de condições de sobreviver? Você está dando condições para esse(a) trabalhador(a) também poder consumir uma outra moda, ou ele(a) está só fazendo porque precisa do mínimo pra poder dar comida pros filhos?”.
A tendência mundial de mudança comportamental no mundo da moda veio para ficar. O próprio movimento Slow Fashion e a urgência quanto ao cuidado ambiental se tornaram ainda mais evidentes, levando muitas pessoas a se questionarem sobre o modo pelo qual se relacionam com suas próprias roupas e acessórios. Esse movimento, influenciado principalmente pelas gerações Z e Millenials, é um novo respiro no modo insustentável de produção têxtil, nas questões trabalhistas e no pensamento cíclico de consciência, desde o início do processo até seu final. A reutilização dos artigos de vestimenta é uma âncora também para a fiscalização e exigência de mais e mais consumidores conscientes para que as marcas erradiquem a escravidão contemporânea.
A violência física contra as mulheres é a mais conhecida, mas não é a única. Existem pelo menos 5 tipos previstos na lei Maria da Penha, sancionada em 2006 e que visa prevenir e proteger o público feminino dessas hostilidades.
Além das atitudes que interfiram na integridade corporal, a agressão acontece na forma psicológica, sexual, patrimonial e moral. Relacionamentos abusivos, assédios, estupros, privação ou destruição de bens, recursos pessoais e outros relacionados a dinheiro, e calúnias, são alguns exemplos na prática. Não ocorrem isolados uns dos outros e são considerados violação dos direitos humanos.
Atualmente, o movimento feminista tem ganhado mais força, e os outros modos de opressão têm sido disseminados. A informação é uma parte importante na luta em favor da causa.
Um exemplo disso pode ser visto no caso Marielle Franco. A vereadora, mulher e negra, foi assassinada no dia 14 de março de 2018, vítima de violência política. A fatalidade gerou repercussões e manifestações em larga escala.
A investigação permanece inconclusiva e estão em aberto, 3 anos após o ocorrido, as principais dúvidas, como quem foram os mandantes da execução e o motivo. Outro questionamento que pode ser feito é: porquê os conhecimentos sobre a causa, que afeta uma grande parcela das cidadãs do mundo inteiro todos os dias, dependem de tragédias para serem propagados com maior intensidade?
Esse é um ponto que ainda precisa evoluir, apesar das conquistas que a luta feminina vem alcançando. Outro fato que explicita essa necessidade de mais avanço são os dados de um relatório divulgado pela Organização Mundial da Saúde. A pesquisa constatou que um terço das mulheres do mundo, o que representa cerca de 736 milhões de pessoas, já sofreram com a violência de gênero.
Ainda, a OMS destacou que os agressores geralmente são os parceiros ou indivíduos próximos. Thedros Ghebreyesus, diretor da entidade, revelou que do número exposto, 641 milhões dos crimes foram de responsabilidade do companheiro.
As conclusões mostraram que o sofrimento tem começado cada vez mais cedo e das adolescentes de 15 a 24 anos, 25% já esteve envolvida em algum episódio. O líder também comentou que esses casos estão presentes em todas as culturas e países. Isso é visto na prática, a partir de depoimentos de meninas dessa faixa etária.
A estudante de Moda Marina Guimarães, de 20 anos, citou circunstâncias vivenciadas em festas universitárias, e na visão dela “é um ambiente que concentra algumas dessas situações com frequência, principalmente o assédio, já que quase todas as vezes presencia garotos insistindo ou até mesmo forçando meninas a beijá-los, por exemplo”.
Já a estudante de Psicologia, Ingrid Guillen, também de 20 anos, relatou o medo de andar sozinha na rua, especialmente para ir até a academia. “Eram 4 quadras para chegar na SmartFit, e eu recebi 5 cantadas, ou seja, mais de uma por quarteirão. Foi um dos dias que fiquei com mais medo de voltar para casa depois do treino, e eu sempre ficava muito nervosa, já que roupa de academia é apertada e marca mais o corpo. Eu nunca podia ir de shorts, porque já faziam tudo isso comigo de calça, imagina se eu estivesse de shorts. “
Segundo Thedros, os desdobramentos da pandemia de Covid-19 agravaram o cenário. Ele disse que os governos devem possibilitar maior acesso e investir mais em oportunidades para essa parte da população, e assim reforçar o combate à violência.
Além dos casos citados, milhares de outros acontecem a todo momento. 12 denúncias foram feitas a cada hora no Brasil em 2020, de acordo com o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, o que mostra a grande incidência da opressão contra as mulheres, dentro e fora das casas e do núcleo familiar delas.
Moça protesta em favor do combate à violência contra as mulheres.
Essas informações e os relatos só evidenciam a insuficiência de recursos para realmente combater todos os modos de violência contra o público feminino. Ficam explícitas a necessidade e a urgência em melhorar o apoio, os meios, auxílios e instrumentos para ajudar as vítimas e para evitar que o número de atingidas aumente cada vez mais.
A intervenção do governo e de líderes mundiais é essencial, principalmente quanto ao investimento em educação em todos os países, e em políticas públicas de defesa e proteção das mulheres. A comunidade e a imprensa também têm um papel importante nesse processo.
Exemplos de atitudes que seriam colaborativas são a criação de programas que desconstruam o machismo enraizado na sociedade, o apoio a entidades dedicadas à causa, a divulgação de informações para que todos entendam a gravidade do assunto, reforçar a relevância da união para lutar contra isso, incentivos para que os agressores sejam denunciados, e todos os esforços possíveis que contribuam e possam salvar vidas femininas.