Por Laila Santos e Julia Cesar Rangel
A música ocupa um papel central no cotidiano e na organização do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Ela está presente desde as primeiras ocupações de terra até as atividades mais recentes do movimento. Mais do que uma forma de arte, a música funciona como ferramenta política, ajuda a fortalecer a identidade coletiva, serve como espaço de aprendizado e também registra a história da luta pela terra no Brasil. Ao longo de mais de 40 anos, as músicas criadas dentro do movimento surgiram da necessidade de mostrar a realidade dos trabalhadores rurais e fortalecer a união entre eles.
Segundo Dandara, integrante da Coordenação Nacional do Coletivo de Cultura do MST, a música é “a linguagem mais familiar e cotidiana” do movimento. Ela explica que não existe ocupação, marcha, feira, festa ou acampamento sem música. Essa relação existe desde o começo da organização. Embora o MST tenha sido fundado oficialmente em 1984, o primeiro registro musical com composições próprias do movimento surgiu em 1985, com a fita cassete "Dor e Esperança", gravada de forma simples pelos próprios militantes.
A presença da música no MST também está ligada à história do próprio movimento. Antes mesmo da fundação oficial, a música já fazia parte da vida no campo e das lutas populares que vieram antes do MST, como as Ligas Camponesas, a Guerra do Contestado e outros movimentos rurais. Além disso, grupos como as Comunidades Eclesiais de Base e a Comissão Pastoral da Terra ajudaram a fortalecer o uso da música como forma de mobilização e organização coletiva.
Nesse contexto, a música ajuda a construir o significado do que é ser “Sem Terra”. Para o movimento, essa identidade não está ligada apenas à falta de terra, mas à experiência coletiva da luta. Segundo Dandara, “é uma identidade produzida pela luta”. As músicas ajudam a comunicar os debates internos do MST, seus valores políticos e as pautas de cada momento histórico. Ao mesmo tempo, fortalecem os laços entre as pessoas do movimento, reforçando a ideia de coletividade.
As canções também têm diferentes funções políticas e sociais. Muitas denunciam injustiças, falam sobre resistência e incentivam a luta. Outras ajudam a espalhar informações importantes dentro dos assentamentos e acampamentos, principalmente em épocas em que o acesso à comunicação era mais difícil. Durante as mobilizações pela educação no campo, por exemplo, várias músicas defendiam a alfabetização, a reforma agrária e uma educação ligada à realidade dos trabalhadores rurais. Além da comunicação interna, a música também serve para dialogar com a sociedade. O MST usa a cultura para explicar suas pautas, disputar narrativas e mostrar sua visão de país. Dandara afirma que a música do movimento também “incomoda” adversários políticos, justamente porque deixa claros os conflitos de classe ligados à disputa pela terra. Assim, a produção musical se torna também uma forma de enfrentamento político.
Nos assentamentos e acampamentos, a diversidade cultural brasileira aparece nos diferentes estilos musicais presentes no dia a dia. Ritmos como forró, toada amazônica, chamamé, rasqueado e moda de viola convivem com cantos religiosos e músicas ligadas ao trabalho no campo. Essa mistura mostra que, mesmo com diferenças regionais, existe uma unidade cultural construída em torno da luta pela terra e da identidade Sem Terra.
Outra característica importante da produção cultural do MST é a relação entre música e trabalho. Nos últimos anos, iniciativas como o bloco carnavalesco Pisa Ligeiro, criado em Minas Gerais, passaram a usar enxadas como instrumentos musicais. A ideia é transformar um símbolo do trabalho rural em elemento artístico. Segundo Dandara, o uso das enxadas reforça a identidade camponesa e conecta três partes da vida no campo: a produção agrícola, a resistência e a cultura.
Essa experiência inspirou outras iniciativas, como orquestras de enxadas em diferentes estados do Brasil. Além do impacto visual, a prática também desenvolveu técnicas musicais específicas, explorando os sons produzidos pelos diferentes tamanhos e formatos das ferramentas. Para o MST, esse tipo de manifestação mostra que a cultura popular nasce da vida cotidiana e do trabalho coletivo.
A música também tem um papel importante na preservação da memória histórica do movimento e das lutas populares. As canções ajudam a registrar acontecimentos, manter vivas experiências de resistência e conectar diferentes gerações de militantes. O repertório do MST dialoga tanto com momentos históricos brasileiros quanto com experiências internacionais, como a Comuna de Paris e a Revolução Russa. Músicas como “A Internacional” aproximam o movimento de outras lutas sociais ao redor do mundo e reforçam a ideia de internacionalismo presente no MST.
Ao mesmo tempo, a produção musical continua mudando com o tempo. Sem abandonar suas raízes camponesas, as músicas mais recentes passaram a incluir debates sobre racismo, gênero e política, mostrando os desafios atuais enfrentados pelo movimento. Iniciativas como a Oficina Nacional de Música, realizada em Belo Horizonte, reforçam a importância da formação artística dentro do MST, com estudos de composição, canto, instrumentos e expressão corporal. Entre tradição e renovação, a música no MST continua sendo uma forma de resistência, aprendizado e organização coletiva. Mais do que acompanhar a história do movimento, ela ajuda a construir sua identidade, preservar sua memória e fortalecer a luta social no cotidiano dos trabalhadores rurais.
Por Laila Santos e Julia Cesar Rangel
Por Natália Perez e Wanessa Celina
Guimarães Rosa, em seu livro Grande Sertão: Veredas, ecoa: “Coração cresce de todo lado. Coração vige feito riacho colominhando por entre serras e varjas, matas e campinas. Coração mistura amores. Tudo cabe”. A terra tem uma relação intrínseca com as pessoas, além da concepção de países ou cidades, ela é fundamental para a construção identitária. Crescer, viver ou morar em uma metrópole ou na zona rural inegavelmente gera características diferentes aos indivíduos - porém o conceito ainda mais relevante a ser entendido aqui é o de habitar, sentir e perceber a terra em que se ocupa.
A identidade sempre esteve ligada ao acesso à terra e ao reconhecimento de quem podia pertencer plenamente à sociedade. Desde o período colonial, o acesso ao território definiu quem podia pertencer plenamente à sociedade e quem seria empurrado para as margens: restringido, concentrando e excluindo populações inteiras. Décadas depois, movimentos sociais organizados passaram a disputar não apenas o espaço físico, mas o direito à dignidade e ao reconhecimento.
O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) ultrapassa a luta pela reforma agrária e se consolida como espaço de construção coletiva de cidadania. Nos assentamentos, a terra deixa de ser apenas meio de produção e passa a representar a luta ancestral pelo direito ao pertencimento, comunidade e proteção social para grupos historicamente marginalizados.
Foi nesse chão que Anindayê, Thaisson e Luana - militantes integrantes do coletivo LGBT+ na organização - e tantos outres aprenderam primeiro a se reconhecer como sem-terra antes mesmo de compreenderem suas próprias dissidências de gênero e sexualidade. Crescer em assentamentos significou entender, desde cedo, o valor do coletivo, da partilha e da resistência. Para além de um movimento de luta popular pela disputa territorial e pela reforma agrária, o MST faz-se referência de formação humana e política.
Para muitas pessoas LGBTQIA+, especialmente no campo, esse processo significou também a possibilidade e espaço seguro para pensar, entender a si mesmo e, por vezes, pela primeira vez de verdadeiramente pertencer. Identidades que nascem primeiro no território antes de ganharem nome no próprio corpo.
“Existe uma diversidade bem grande dentro do movimento. Recentemente houve o primeiro encontro Trans do MST, em que a gente estava lá junto, presenciou junto. Dialogamos sobre os nossos direitos, até de existir que, na verdade, é uma pauta maior que a existência: é a resistência”, explica Thaisson, coordenador do coletivo LGBT+ no Paraná.
“O Sertão é dentro da gente”
Para quem cresce dentro do MST, antes de qualquer formulação teórica sobre identidade, gênero ou sexualidade, existe a experiência concreta da terra: o cheiro da plantação, o trabalho coletivo, os encontros, as marchas, os barracos erguidos em ocupações e a noção, construída desde cedo, de que existir também é ocupar espaço. Nos assentamentos, a identidade sem-terra não é apenas política – ela é afetiva. Está na maneira como crianças aprendem cedo o significado de comunidade, de partilha e de resistência. Em um país onde a exclusão territorial historicamente definiu quem teria dignidade e cidadania, crescer dentro do movimento sem terra significou aprender que ninguém existe sozinho.
Ali, a violência histórica se transforma em experiência coletiva de enfrentamento. Embora o MST não possua um levantamento nacional sobre a quantidade de integrantes LGBTQIA+ em seus acampamentos e assentamentos, o Coletivo LGBT Sem Terra está presente com mais de 300 militantes organizados em diferentes estados do país.
“Eu posso dizer que para mim nunca foi estar só. Sempre teve gente. Principalmente mulheres”, descreve Aline Luana, integrante da coordenação do Coletivo. Formalizado em 2015, após o primeiro seminário nacional sobre diversidade sexual do movimento. Em um processo de amadurecimento interno que vinha crescendo, o encontro contou com mais de 30 integrantes. Não se tratava apenas de inserir uma “nova pauta” dentro da reforma agrária, mas de compreender que corpos LGBT+ também fazem parte da construção do campo brasileiro e da luta popular.
Com presença cada vez mais nítida, somaram-se sem vergonhas ou amarras para serem vistos. “Sou uma mulher preta, mãe, lésbica. Todo dia, eu levanto motivada a entender a minha tarefa e que eu não estou movendo só a mim. Eu estou movendo muita gente”, completa ela. Mas, insistir na própria existência, dentro de estruturas historicamente marcadas por valores tradicionais que nem sempre soube acolher diferenças, não é fácil. Ao sair do caminho imposto a ela, ainda no processo de amadurecimento identitário, Aline viveu um choque, que mudou sua forma de pensar sua existência: “Eram mais ou menos 20 homens brancos sentados à minha volta me fazendo questionamentos sobre por que eu não estava mais namorando um homem e que história era essa de eu ser lésbica”, lembra.
Foi naquele momento, ainda jovem em sua militância, que ela se deu conta da missão à sua frente: “O meu afeto, de quem eu gosto, com quem eu quero me relacionar afetivamente, isso não tem que ser ponto de pauta de reunião de ninguém. A minha construção coletiva de luta está aqui e ela é com homens e com mulheres”.
Em camadas, o pertencimento aparece e se constroi. Primeiro, há o pertencimento à terra, ao coletivo, à luta social e, então, a possibilidade de pertencer a si mesmo – em um de seus mantras mais marcantes, ela se entendeu em si: “A partir de agora, a sua tarefa histórica é todo dia levantar e dizer que você tem orgulho de ser sapatão.”
Hoje, coordenadores trans, travestis, gays e lésbicas ocupando espaços políticos, conduzindo formações e organizando assim como ela, fazem o máximo para garantir que os próximos cresçam em assentamentos encontrando referências e o apoio que outres não necessariamente tiveram. Expõe, lado a lado, bandeiras coloridas e as bandeiras vermelhas do movimento. E encontram, sobretudo, a possibilidade concreta de imaginar sua permanência.
“Eles combinaram de nos matar, mas nós combinamos de não morrer”
Dentro e fora dos assentamentos, o processo de descoberta da sexualidade e da identidade de gênero acontece atravessado por uma vivência comunitária submersa de amarras e liberdade. “Eu fui uma criança trans, mas não entendia até então o que que era. Até me reconhecer dentro dos espaços não me expressava muito, exatamente porque nem me entendia muito bem”, relembra Thaisson.
Assim como toda característica e vivência que torna alguém, si próprio, cada pessoa trans tem a sua particularidade, trajetória e especificidade de acolhimento. Com isso em mente, em 2025, o Coletivo promoveu o 1º Encontro Nacional Trans do MST. No País em que mais se mata pessoas trans e travestis do mundo, liderando o ranking de assassinatos há 16 anos – segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais – viver torna-se revolucionário.
O movimento não elimina e nem é imune aos conflitos ou preconceitos, mas o Coletivo faz questão de oferecer algo ainda raro para pessoas dissidentes no território brasileiro: a chance de não enfrentar o mundo completamente sozinhas. “A luta é coletiva, formada por pessoas diversas, porque sozinho a gente não vai fazer nada” – ele reafirma – “A luta só terá sentido se a gente colocar como prioridade que a igualdade vem em primeiro lugar.”
Sobre sua participação no Coletivo, o coordenador explica que, para além do diálogo, o movimento proporciona oportunidades de vida e formação que pessoas trans e travestis marginalizadas pelo país enfrentam ainda mais dificuldades para alcançar. Na vivência dele, por exemplo, fazer parte dessa rede proporcionou viagens, bagagens e até uma formação universitária com um propósito ainda maior.
Integrante da comunicação, do coletivo LGBT e do coletivo de juventude do MST Alagoas, Anindayê, esteve presente no encontro e explicou a importância de se pensar, falar e, ainda mais, ouvir pessoas trans e travestis, como ela: “Meu movimento de me compreender enquanto uma pessoa travesti foi paralelo à minha inserção no movimento. Nós que somos LGBT temos determinadas coisas colocadas na nossa cabeça. As pessoas sempre estão dizendo quem nós somos, mas sem abrir espaço para que possamos refletir sobre nós mesmos e compreender nosso lugar no mundo."
E o diálogo tem tido efeito, criando mais espaço e mais alinhados. “A gente está lado a lado com as pessoas, fazendo elas entenderem que não é nenhum bicho de sete cabeças. Eu não deixo de ser uma pessoa que presta por ser LGBT, sou só trans.” Mesmo assim, ela destaca que pertencer aos assentamentos acalentou sua trajetória. “Nunca senti que estar no movimento dificultou esse processo. Pelo contrário, o movimento trouxe uma rede de apoio.”
E, talvez, seja aí que reside uma das maiores potências de como a presença desses militantes modifica o próprio movimento e faz surgir novos questionamentos à realidade e obriga a revisitação e inova as práticas, discursos e formas de convivência que oprimem a todos. “O patriarcado destrói, o capitalismo faz a guerra, o sangue LGBT também é sangue sem terra. Seja o machismo, seja o racismo, seja LGBTfobia – pensar a reforma agrária e pensar a luta pela terra tem que ser junto com tudo isso”, declara ela.
“Há que endurecer, mas sem perder a ternura jamais”
No fim, talvez a relação entre pessoas LGBT+ e o MST seja justamente sobre isso: a busca contínua por um lugar onde a existência não precise ser fragmentada. Um lugar onde a terra, para além da produção ou sobrevivência – é também afeto, memória e possibilidade. Como escreveu Clarice Lispector, “pertencer é viver” e a presença LGBT+ há de perseverar – organizando coletivos, ocupando coordenações e transformando os assentamentos em territórios mais plurais. Se a luta pela terra exigia resistência, diante do latifúndio e da violência histórica no campo, a luta por reconhecimento da própria identidade dentro desses espaços aos poucos tem sido um passo a mais na coragem cotidiana.
Somando-se cada vez mais, o coletivo LGBT+ integrado ao MST cresce junto às novas gerações que já encontram no movimento um espaço menos solitário do que aquele vivido por quem veio antes. Entre marchas, plantações e assembleias, constrói-se a ideia de que semear também é criar futuro em que o direito de verdadeiramente ser é irrevogável. Como no coração descrito por Rosa, no fim: a luta, a identidade, o afeto e a esperança... tudo cabe.
Por Amanda Campos e Lorena Basilia
A exclusão da mulher de posições de poder é resultado de uma estrutura social historicamente marcada pela desigualdade de gênero. No Brasil, o movimento sufragista, que garantiu o direito ao voto feminino foi conquistado apenas em 1932, há menos de um século, e muitas das garantias legais voltadas à equidade ainda são recentes. Em 2023, por exemplo, foi sancionada a Lei nº 14.611, que fortaleceu mecanismos de transparência e fiscalização para combater a desigualdade salarial entre homens e mulheres. A necessidade de uma legislação específica demonstra que, apesar dos avanços jurídicos, as oportunidades ainda não são plenamente iguais. Relatórios do Ministério do Trabalho indicam que as mulheres continuam recebendo, em média, cerca de 20% menos que os homens, mesmo quando ocupam funções semelhantes.
As conquistas ainda estão em curso e há uma luta diária para, não só a conquista de direitos, mas a resistência das mulheres em preencher espaços que não são designados a elas. Para liderarem, a segregação de gênero é ainda mais escancarada. Segundo uma pesquisa do IBGE de 2025, apenas 39% das posições de chefia e liderança são ocupadas por mulheres no Brasil, apesar de elas representarem mais da metade da população economicamente ativa no país.
Organizações sociais que investem em mecanismos de participação e formação política feminina podem representar um respiro para uma realidade tão dura. No Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), a existência de um setor de gênero e a adoção de políticas de incentivo à participação das mulheres buscam garantir um maior equilíbrio nos espaços de decisão.
A construção da liderança feminina dentro do MST ultrapassa a simples ocupação de cargos; ela representa uma reconfiguração profunda da política, onde o território e o corpo são compreendidos como espaços indissociáveis de resistência. Essa trajetória é marcada pelo rompimento de cercas físicas e simbólicas, em um processo que desloca a mulher da invisibilidade dos bastidores para o protagonismo nas mesas de negociação e análise de conjuntura. Trata-se de uma transição complexa, onde a paridade de gênero deixa de ser uma métrica estatística para se tornar uma cultura política que exige uma transformação das condições materiais de participação.
As trajetórias de Elaine e Elizete ajudam a mostrar como esse modelo é efetivo, em contextos distintos, ambas encontraram no movimento oportunidades de formação, protagonismo e exercício da liderança que ainda permanecem restritas para muitas mulheres brasileiras. Enquanto Elaine precisou enfrentar o preconceito da própria família e da sociedade para construir sua atuação no MST, Elizete cresceu em um ambiente onde a militância já fazia parte da vida cotidiana.
Elaine, 43 anos, assentada pelo MST mais da metade de sua vida e membro da coordenação, compartilha sua luta pelo fim do preconceito com a mulher e o movimento sem terra. Ela nasceu no interior do norte da Bahia e sempre teve gana por uma realidade digna. Na juventude, foi quando Elaine conheceu os assentamentos, surgiram como uma dose de esperança. Porém sua família não entendia tanta entrega da jovem a um propósito. "Olha, você esquece que você tem uma família aqui, porque você não tem necessidade", lembrou a mãe, numa frase que condensava tanto o afeto quanto o preconceito.
Por trás do apelo familiar havia uma visão amplamente difundida pela sociedade: a de que o movimento é sinônimo de invasão, de desordem. "Aquela visão que a sociedade constrói sobre nós enquanto Movimento Sem Terra, que a gente rouba terra", completou Elaine. Romper com essa narrativa foi parte do seu processo de formação política e de emancipação pessoal. Recém formada em pedagogia e sem esperanças da casa própria, foi a entrada no MST que proporcionou uma mudança de perspectiva. Hoje, Elaine cursa mestrado no Movimento e já ocupa cargo de liderança no estado da Bahia, conquistou sua casa e se alimenta da sua plantação, com qualidade de vida e dignidade.
No estado do Pará, Elizete viveu uma história diferente com o MST, a paraense já nasceu no movimento. Seus pais eram participantes ferrenhos e desde criança o movimento foi seu ambiente natural de formação. Não há, para Elizete, uma vida apartada do MST, são ambos uma única força. Com 27 anos, ela mora na Escola Nacional Florestan Fernandes, em Guararema, no interior de São Paulo. Faz parte da Brigada Apolônio de Carvalho há um ano, as brigadas são instâncias de formação política do MST compostas por jovens militantes que se dedicam integralmente à organização durante um período determinado, onde vivem coletivamente e se preparam para assumir responsabilidades de direção. O nome é uma homenagem ao militar e revolucionário brasileiro Apolônio de Carvalho, símbolo da resistência à ditadura.
Elizete expôs seus sentimentos de como é desafiador estar longe da sua família para cumprir essa missão. “A gente tem que fazer escolhas, né? E pra mim é muito gratificante fazer parte desse movimento, então, a gente precisa estar longe da família para lutar pelo que a gente acha que é certo”. A frase é simples, mas carrega uma maturidade política construída ao longo de uma vida inteira dentro do movimento.
As histórias de Elaine e Elizete revelam como a liderança feminina é construída a partir da formação política, da autonomia e da capacidade de romper barreiras históricas. Mesmo com vivências tão distintas, Elaine e Elizete dividem a luta como mulheres do MST. A conquista de espaço dentro do movimento reverbera nos moldes da sociedade, o MST propicia um ponto de partida para a expansão do feminismo além das cercas, sejam as de arame, sejam as simbólicas.
Embora a paridade de gênero tenha se tornado uma norma institucional dentro do MST, a resistência à liderança feminina frequentemente se manifesta por meio de mecanismos sutis. Se antes o desafio era garantir a presença das mulheres nos espaços de decisão, hoje o debate se desloca para a forma como o trabalho e o protagonismo político são distribuídos no cotidiano da organização.
Esse cenário, entretanto, tem passado por uma transformação estrutural nas últimas décadas. Se antes as mulheres eram frequentemente associadas às funções de apoio e organização interna, hoje ocupam cada vez mais os espaços de formulação política e direção. O protagonismo político feminino tem crescido a ponto de, em regiões como o Maranhão e o Pará, a maioria esmagadora das dirigentes serem mulheres. No âmbito nacional, a composição da nova direção reflete essa mudança: dos 15 dirigentes escolhidos, 10 são do gênero feminino.
Fernanda Farias, que integra a Coordenação Nacional pelo Coletivo de Juventude, pontua que, embora o MST não esteja isolado da sociedade machista e patriarcal, ele busca criar mecanismos para enfrentá-la internamente. Nesse sentido, a formação política das mulheres e o fortalecimento de sua autoestima tornam-se ferramentas centrais para que elas reconheçam e questionem processos históricos de subordinação.
A progressão para o topo da posição política, contudo, não ocorre sem fricções. A ascensão feminina representa a emancipação de uma relação humana historicamente pautada pela submissão, o que significa que, para uma mulher ocupar um espaço de poder, um privilégio masculino precisa ser deslocado. Em uma sociedade na qual o exercício da autoridade foi tradicionalmente associado ao masculino, a ampliação da participação feminina implica necessariamente uma redistribuição de poder. Lizandra Guedes é enfática ao associar essa dinâmica às disputas de poder que acompanham a emancipação feminina: “Quando há violência, há uma relação desigual de poder que está em jogo”, afirma. Seu apontamento sugere que a violência é um mecanismo de manutenção de hierarquias que são ameaçadas quando as mulheres passam a ocupar posições de liderança. O enfrentamento dessa realidade está, portanto, indissociável do enfrentamento às relações de poder tradicionais.
Para além da segregação mais explícita, há nuances do cotidiano feminino que acabam produzindo um afastamento dos espaços de liderança política. Mesmo quando existe paridade formal e incentivo à participação das mulheres, a responsabilidade pelo cuidado continua recaindo de forma desproporcional sobre elas. Lizandra Guedes aponta que muitas militantes enfrentam obstáculos que seus companheiros raramente precisam considerar. "Tem um filho, uma filha em idade escolar, uma sogra doente", exemplifica. Essas responsabilidades, associadas ao trabalho doméstico e à manutenção da vida cotidiana, frequentemente limitam a presença das mulheres em reuniões, formações e instâncias de direção
A desigualdade se manifesta de maneira prática. Segundo Lizandra, mesmo em espaços onde há previsão de representação paritária, nem sempre as mulheres conseguem ocupar plenamente as vagas destinadas a elas. O desafio da participação feminina ultrapassa a garantia de assentos ou cargos de liderança. Trata-se também de criar condições materiais para que as mulheres possam exercer esses espaços. A chamada dupla jornada — entre a militância, o trabalho e as responsabilidades familiares — continua sendo uma barreira concreta para muitas dirigentes
As mudanças também passam pela participação dos homens nesse debate. A pauta feminista não pode ser tratada como uma responsabilidade exclusiva das mulheres. "O MST tem entendido que a pauta da mulher não é só para a mulher discutir, mas o homem tem que se responsabilizar", explica Fernanda. Essa compreensão se traduz em iniciativas concretas, como a presença de homens na condução do setor de gênero, numa tentativa de envolver toda a organização no enfrentamento ao machismo e à violência de gênero.
Fernanda observa sinais de mudança, especialmente entre os mais jovens. Ela identifica uma geração preocupada em construir relações humanas emancipadas, livres da violência e baseadas em novos valores de convivência. Sua expectativa para o futuro é ambiciosa e, ao mesmo tempo, reveladora do papel que atribui às mulheres nessa construção. "A Revolução vai ser feminista, e vai ser as mulheres que vão conduzir", afirma. Na sua visão, as mulheres do campo carregam uma experiência política e coletiva capaz de contribuir para a construção de um projeto popular para o Brasil. As histórias de Elaine, Elizete, Lizandra e Fernanda demonstram uma luta permanente pela transformação das relações sociais e pela construção de um futuro em que liderança, cuidado e poder deixem de ser definidos pelo gênero.
Por Ana Clara Souza e Júlia Polito
Em Perus, zona noroeste de São Paulo, há prédios abandonados que voltaram a respirar antes mesmo de o poder público perceber que estavam vivos. Em um deles, uma construção que deveria ter se tornado uma biblioteca pública passou anos fechada, cercada por mato alto e sinais de abandono. Hoje, o mesmo espaço recebe ensaios de teatro, oficinas, apresentações artísticas, grupos de dança e crianças que entram e saem como se o lugar sempre tivesse pertencido ao bairro. Ali funciona a Ocupação Artística Canhoba.
Perus é um bairro acostumado a carregar ruínas. Foi sede da antiga Companhia Brasileira de Cimento Portland Perus, palco da histórica greve dos Queixadas e cenário da descoberta da vala clandestina da ditadura militar, em 1990. Durante décadas, a região acumulou também a escassez de equipamentos culturais e investimentos públicos. Talvez por isso iniciativas culturais locais tenham aprendido cedo a operar na lógica da substituição. Onde falta política pública, entra mutirão. Onde sobra abandono, nasce palco. A Canhoba é resultado direto dessa dinâmica. O espaço se mantém funcionando com o trabalho de Thalita Duarte, produtora do Grupo Pandora de Teatro e gestora da ocupação, que acompanha diariamente uma rotina que mistura criação artística, gestão cultural, manutenção predial e articulação comunitária.
Ao redor, a situação era semelhante. O mato avançava sobre o terreno. Não existiam acessos adequados. A quadra vizinha estava abandonada. O prédio parecia destinado a integrar a longa lista de equipamentos públicos esquecidos na periferia paulistana. A transformação começou por meio de mutirões.
O coletivo já possuía uma longa trajetória em Perus. Fundado em 2004 a partir do programa Teatro Vocacional, da Prefeitura de São Paulo, o Grupo Pandora desenvolvia pesquisas ligadas à memória, ao território e às transformações urbanas do bairro. Thalita chegou ao grupo em 2011, inicialmente como produtora. Em 2013 estreou como atriz em Relicário de Concreto, espetáculo inspirado na história da antiga fábrica de cimento que marcou a formação da região. E quando a ocupação finalmente surgiu, o vínculo entre grupo e território ganhou uma dimensão física.
Hoje, caminhar pela Canhoba ao lado de Thalita significa percorrer uma espécie de arquivo vivo. Cada parede carrega uma reforma. Cada espaço possui uma história. A iluminação instalada na área externa, por exemplo, surgiu da necessidade de tornar mais seguro o entorno durante as atividades noturnas. A pintura recente foi realizada para recuperar uma estrutura constantemente desgastada pelo uso intenso.
A Canhoba deixou de funcionar apenas como sede do Grupo Pandora. O espaço também é palco dos ensaios de coletivos de breaking, oficinas artísticas, cursos de formação teatral e apresentações gratuitas abertas ao público. Por meio do projeto Pandora Recebe, grupos de diferentes regiões da cidade passam a integrar a programação do bairro. A política da casa é simples: manter as portas abertas. Essa decisão nasceu da observação cotidiana. Nos primeiros anos da ocupação, a equipe percebeu que dezenas de crianças utilizavam espontaneamente a praça e a quadra vizinhas como espaços de convivência. Muitas atravessavam o portão do teatro, acompanhavam ensaios, brincavam pelos corredores e passavam boa parte do dia no local.
Da relação com esse público nasceu o projeto Brincantes em Ação, que passou a oferecer oficinas, atividades lúdicas e sessões de cinema para crianças do bairro. Uma década depois, parte daqueles frequentadores já alcançou a vida adulta. Alguns continuam retornando à ocupação para assistir espetáculos ou participar das atividades promovidas pelo grupo. Nem todas as questões, porém, foram resolvidas.
Enquanto desenvolve uma pesquisa de mestrado sobre formação de público, Thalita busca compreender um desafio recorrente: como aproximar ainda mais os moradores que vivem ao redor do espaço. Apesar da consolidação da Canhoba como referência cultural em Perus, parte do público adulto que frequenta as apresentações ainda vem de outras regiões da cidade.
A preocupação surgiu de episódios aparentemente simples, quando algumas apresentações receberam um público muito menor do que o esperado. A experiência reforçou a pergunta que acompanhava a equipe há anos que era como transformar em frequentadores aqueles moradores que vivem a poucos metros do palco. As crianças continuam sendo uma das respostas mais consistentes encontradas pelo grupo. São elas que chegam primeiro, convidam familiares e ajudam a criar vínculos duradouros entre a ocupação e a comunidade. Uma relação que ultrapassa os limites do edifício. A praça e a quadra tornaram-se extensões naturais da programação cultural. Espetáculos ocupam o espaço público. Crianças brincam enquanto artistas ensaiam. Jovens utilizam a iluminação instalada pelo grupo para permanecer na quadra durante a noite. E, assim, aos poucos, a revitalização do teatro ajudou também a revitalizar o entorno.
Ao longo das últimas duas décadas, iniciativas como a Comunidade Cultural Quilombaque e a Casa do Hip-Hop Perus, assim como a experiência da Canhoba, também passaram a ocupar espaços deixados à margem dos grandes investimentos culturais da cidade. Juntas, ajudaram a construir uma rede de produção artística e participação comunitária que transformou a imagem do bairro. Com elas, Perus desenvolveu um ecossistema cultural periférico, mas mantê-lo vivo exige esforço permanente.
A Canhoba e o Grupo Pandora dependem principalmente de editais públicos, que permitem ampliar atividades e estruturar melhor a programação. Mas quando não existem recursos, o trabalho continua sustentado pelo esforço voluntário dos próprios integrantes. São as mesmas pessoas que produzem espetáculos, cuidam da manutenção do prédio, organizam eventos, captam recursos e garantem que as portas continuem abertas.
Ainda assim, a ocupação permanece, seja porque a cultura tenha aprendido a sobreviver da mesma forma que o bairro construiu sua história ou porque as cortinas continuam abertas em Perus.