A trajetória de brasileiros e irmãos latinos que atravessam a fronteira México-Estados Unidos em busca de novas oportunidades.
por
Rayssa Paulino
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18/11/2025

Por Rayssa Paulino

 

Isadora Ferreira é natural de São Paulo e tinha apenas dezessete anos quando deixou amigos, família para trás, buscando moldar o novo futuro em solo estadunidense. Se tornou uma a mais no meio dos cerca de 230 mil brasileiros, segundo dados do instituto Pew Research Center de 2022, que vivem ilegalmente nos Estados Unidos. Sua motivação era o noivo, que é um cidadão americano e a única pessoa que conhecia no hemisfério norte.

A forma que usou para entrar no país é talvez a mais conhecida entre as não convencionais - ou ilegais. O cai-cai, termo comum para este tipo de travessia, é liderado pelo “coiote”, uma pessoa que guia um grupo cheio de sonhos e esperança pela fronteira debaixo de chuva, sol, vento, cansaço e inúmeras intempéries - climáticas ou humanas- por dias a fio até chegarem à fronteira e se entregarem à imigração americana. Ali estão de fato a própria sorte, podem ser aceitos ou deportados.

Quinze de janeiro de 2023 foi o dia D. Isadora acordou muito antes do sol nascer, às quatro horas da manhã, para enfrentar a experiência que poderia mudar sua vida para sempre. Se arrumou, pegou sua mochila e saiu rumo ao aeroporto internacional de Guarulhos acompanhada de Vanessa e José Rocha, casal de mineiros que se juntaram à garota pelo coiote. O peito tomado de ansiedade. 

O check-in já estava feito e a próxima parada seria uma escala na Colômbia. Já em outro país, o tempo de espera não foi tanto, apenas três horas. Próxima parada, Guatemala. Ali a situação ficou um pouco mais apreensiva, a informação que chegava era de que a imigração estava mais chata, muito em cima e deportando passageiros. Já estava ali e não poderia arriscar, por isso esperou dentro do aeroporto até o horário do voo. Próxima parada, El Salvador. Neste momento o medo tomou conta, teria que sair do aeroporto e enfrentar a imigração. O que você veio fazer neste país? Quantos dias vai passar e quanto dinheiro tem com você? Vai ficar hospedada onde? Tem um endereço? Foram algumas das perguntas feitas pelos agentes na entrevista. Por sorte, Isadora tinha algumas informações e as que não tinha, conseguiu verificar rapidamente pelo celular. Os nervos, que já estavam nas alturas, duplicaram de intensidade quando somente ela e Vanessa atravessaram para o outro lado.

Atrás das grandes portas automáticas, outro coiote esperava para guiá-las até a próxima etapa. "Dale, dale, dale", apressava o homem. Elas foram levadas para um carro e conduzidas para um motel, onde iriam descansar e passar a noite. As cinco da manhã começaria tudo de novo.

No dia seguinte foram novamente colocadas dentro de um carro, mas dessa vez a companhia seria maior, passaram em outro motel para pegar mais imigrantes. O trajeto durou quarenta minutos e desembarcaram próximo a um rio, o primeiro desafio a ser enfrentado. O dia estava ensolarado, a mata em volta era esverdeada e o caminho do chão era rasteiro, quase que moldado pelos tantos pés que já o percorreram. A água não era funda, ficava quase a um palmo abaixo do joelho de Isa, mas a correnteza era bem forte. De braços dados, formaram uma corrente humana para se apoiar, muitos homens, mulheres e uma ou duas crianças pequenas.

Nesse momento, a paciência e perseverança foram grandes virtudes a serem testadas. A cada mini trajeto, mais duas a três horas de espera para serem levados até outro ponto. Até parados pela polícia local foram, mas nada que alguns dólares não resolvessem. Logo tiveram mais uma noite de descanso.

No dia seguinte se repetiu a rotina de acordar cedo e se mover. Sem andar tanto, foram colocados numa espécie de Pau de Arara e rodaram por quatro horas, os corpos pressionando uns aos outros debaixo de um sol de rachar, o suor escorrendo pelas testas e, num cantinho, uma pequena lágrima escorreu dos olhos exaustos de Vanessa. O carinho de Isa na mão da mulher foi leve - e o máximo que conseguiria fazer sem se mexer muito - mas o suficiente para demonstrar apoio naquele momento. Passaram de desconhecidas ao único rosto familiar que tinham. Já estavam chegando perto do México.

A nova hospedagem nada glamourosa era uma fazendinha que ficaram por dois dias. De todos os lugares que passou achava que esse era o pior, mas mal sabia o que ainda estava por vir. Não tinha chuveiro, o banho era de balde e a comida não tinha condições de comer. Mas o próximo lugar com certeza foi o mais difícil, a parte de dentro é extremamente abafada, estava lotado, a sustentação do teto era feita com vigas de madeira e todo o espaço era tomado por redes de pano. Nunca achei que ficaria tão triste vendo uma rede, disse Isadora em um riso leve.

A estadia em Cancún foi quase um devaneio comparado aos outros dias que tinha vivido até ali. O hotel era confortável, tinha piscina e pela primeira vez sentiu que estava comendo comida de verdade, parecia até que os pássaros estavam cantando para ela. Ok, era um lanche do Burger King, mas com certeza foi a melhor coisa que havia provado. Antes do balde de água fria que seria a realidade próxima, parecia estar em um mundo utópico. 

O último deslocamento das meninas foi para Tijuana, ali estariam somente a um passo do tão esperado American Dream, pelo menos era o que elas achavam. A última noite na cidade trazia um misto de emoções, cansaço, apreensão, saudade de casa e da família, mas uma esperança e a sensação de que tudo daria certo. A caminhada do último transporte acompanhadas por um coiote até o muro da fronteira foi feito por pernas bambas, mas surpreendentemente firmes, com ânsia de estar do outro lado.

Chegaram no deserto por volta das quatro horas da tarde do dia vinte e quatro de setembro. Nove dias de deslocamento. Foram abordadas por um policial, até que bem educado considerando a situação, perguntou de onde eles eram e instruiu através do google tradutor que esperassem por ali. Levou água e lanches rápidos para que pudessem se recompor. Por volta das dez horas da noite, uma van apareceu para levar quem estivesse no deserto para a imigração e assim terem os seus destinos traçados. O procedimento dali para frente foi de criminosos mesmo, colheram as digitais, conferiram documentos e tiraram fotos com fundo listrado. Por ser uma menor de idade, mesmo que emancipada, Isadora foi separada de todos que tinham chegado com ela até ali e levada para uma cela de jovens.

O sentimento era completo desespero. Viu diversos outros adolescentes que estavam ali há bastante tempo, conversou com uma guatemalense que havia chegado há sete dias. Mais uma vez, questionamentos de autoridades. O que veio fazer aqui? Por qual motivo saiu do seu país? Com quem você vai morar aqui? Tem um endereço e telefone? Para a última, a resposta era sim! Seu contato fixo no país era o padrasto do noivo. Isa conseguiu falar com ele rapidamente e mais uma vez aquele fio de esperança enlaçou seu coração, achava que por terem deixado ter um contato, mesmo que mínimo e muito rápido, seria liberada mais facilmente.

Ao final Isa se sentiu muito agradecida, apesar de todo o perrengue que passou até chegar em solo americano. Sempre soube que a travessia seria difícil, tanto pelas condições ambientais, quanto pelas condições emocionais em deixar tudo para trás. Sabia que poderia ter sido muito pior, no processo muitos são presos, deportados, se ferem gravemente ou até mesmo perdem a vida. Resta a dúvida sobre se o pagamento pelo American Dream é o suficiente para compensar as marcas que ficam para sempre na alma.

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Por trás de uma imagem forte, mulheres lidam com sobrecarga emocional, ausência de apoio e um silêncio que a sociedade normalizou.
por
Ingrid Luiza Lacerda
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25/11/2025

Por Ingrid Lacerda

 

Em meio a correria diária na favela do Peri Alto, aos 51 anos, recém-viúva e mãe de três filhos, Cristiana Silva Ferreira enfrenta uma realidade compartilhada por muitas: a solidão que se impõe sem aviso, silenciosa e persistente. Sua história, porém, começa muito antes da viuvez. Cresceu sem referências maternas, criada em um ambiente predominantemente masculino onde aprendeu a guardar seus sentimentos. Logo, no fundo, sempre esteve sozinha de certa forma. A solidão não chegou com a morte do marido e o luto recente não a parou, pelo contrário, exigiu que se reconstruísse, passando a organizar sentimentos que já lhe eram conhecidos. 

Assim como Cristiana, Neilde Santos Rosa, 63 anos, vive realidade semelhante há décadas. Mãe solteira há mais de 40 anos, saiu de Aracaju, no Sergipe, no caminho silencioso que leva milhares para o Sudeste em busca de realizar seus sonhos modestos com uma determinação inabalável, mas encontrou uma metrópole que oferecia condições duras de vida e pouca dignidade. Trabalhando como diarista, suas mãos carregam as marcas do ofício, que, dia após dia, limparam o mundo para que seus dois filhos pudessem viver confortavelmente. A maternidade solo nunca foi uma escolha, mas sim um caminho aceito com aquela dignidade silenciosa de quem compreende que o amor, muitas vezes, se veste de sacrifício. Aos poucos, seu corpo foi se transformando em instrumento de trabalho, sua saúde tornando-se moeda de troca por um futuro que, talvez, nem chegasse a usufruir completamente.

Um medo persistente a acompanhava o temor constante de que sua filha pudesse um dia conhecer a mesma solidão e as mesmas dificuldades que marcaram sua própria trajetória. Esse receio se materializava em gestos cotidianos na insistência com que priorizava a educação da filha, nos conselhos repetidos sobre independência financeira, nas advertências cautelosas sobre relacionamentos amorosos. Mais do que simples preocupação materna, tratava-se do legado inevitável de quem conhecia intimamente o preço amargo de uma autonomia conquistada.

Cristiana conta que, no final das contas, a solidão virou sua parceira. Não como algo desejado, mas como algo com o qual aprendeu a lidar. Admite que se reinventou, criou novos vínculos consigo mesma e aprendeu a não se culpar por não estar sempre realizada, mas, este processo de reinvenção não foi linear; envolveu recaídas, noites de choro silencioso e, aos poucos, aceitação de que felicidade poderia ter contornos diferentes daqueles que imaginara.

Para a diarista, a solidão também se tornou mestra dura, porém sábia: aprendeu a ouvir silêncio da casa, além de se ouvir - na ausência de vozes alheias, descobriu ressonâncias internas que desconhecia. Aprendeu a distinguir entre solidão que oprime e solitude que liberta, ainda que esta distinção seja tênue e móvel. A vivência da diarista aponta para processo que muitas mulheres relatam, que consiste na transformação da solidão em universo interior. Entretanto, este processo está longe de ser leve, pois, envolve desconstruções dolorosas, como quebra da crença de que ser suficiente para todos é caminho para ser amada. 

A reclusão, antes ameaçadora, vira escuta. Assim, consolida-se como um dos únicos momentos em que essas mulheres deixam de cuidar dos outros para, enfim, perguntarem-se sobre si mesmas. Consequentemente, nesse caso, deixa de ser apenas ausência e torna-se também resistência. É a recusa silenciosa de definhar completamente na solidão que a estrutura social impôs.

Ademais, as duas trajetórias demonstram como a solidão da mãe solo é qualitativamente diferente de outras formas de solidão, sentindo um vazio peculiar: era a sobrecarga de ser a única a tomar todas as decisões, a única depositária de todas as preocupações. Faltava alguém para quem ela pudesse voltar-se e partilhar as pequenas vitórias e os aborrecimentos cotidianos. Com o tempo, este sentimento mudou completamente. Dos anos de agitação com crianças, passou para uma casa vazia; se antes eram preenchidas por demandas incessantes, agora é preenchida por memórias e esperas, trazendo sempre presentes em pensamento, justamente e trazendo próprios desafios, como reconstruir identidade que não seja apenas materna, como redescobrir desejos próprios após décadas de adiamento.

Frequentemente, a solidão feminina é reflexo de sociedade que espera demais e oferece de menos. Falta rede e escuta. Falta reconhecer que por trás da mulher forte existe mulher que quer poder parar e respirar. Bem como, imagem da mulher que dá conta de tudo é conveniente, principalmente para sistema que ainda delega a elas maioria das tarefas de cuidado, sem oferecer estrutura. Solidão, nesse cenário, não é ausência de pessoas, mas ausência de escuta e partilha real.

Enfim, nenhuma mulher deveria ter que desmoronar em silêncio para provar que está viva, já que talvez o que mais falte não seja força, mas liberdade para não precisar ser forte tempo todo. Inúmeras narrativas convidam a imaginar sociedade onde cuidado não seja privilégio de poucos nem fardo de alguns, mas responsabilidade de todos; até lá, seguiremos ouvindo essas vozes.

Sob o disfarce da resiliência feminina, a sociedade ainda normaliza uma estrutura de abandono emocional, invisibilidade afetiva e sobrecarga funcional. Majoritariamente, a solidão feminina é o produto final de um sistema que cobra, mas não sustenta, exigindo que mulheres sejam mães presentes, profissionais competentes, parceiras compreensivas, filhas atentas, cidadãs produtivas - tudo ao mesmo tempo. Por isso, quando essa regra falha, o que sobra não é acolhimento, e sim julgamento.



 

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Da produção clandestina às bancas do Brás, o mercado que movimenta R$ 100 bilhões por ano e veste um Brasil que não cabe nas lojas oficiais
por
Arthur Rocha
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18/11/2025

Por Arthur Rocha

 

A madrugada ainda envolvia São Paulo quando as primeiras luzes se acendiam no Brás. Das furgonetas e caminhões baús desciam caixas e mais caixas, formando pilhas que seriam distribuídas pelas centenas de bancas do maior centro de comércio popular da cidade. Homens de rostos marcados pelo cansaço e pelas horas não convencionais descarregavam mercadorias com a agilidade de quem repetia aquela coreografia há décadas. Entre eles, Renan movimentava-se com familiaridade, seus gestos precisos revelando uma vida inteira dedicada àquele ofício.

Ele havia aprendido o trabalho ainda menino, observando o pai, Josué, negociar com fornecedores e clientes. Aos oito anos, começara carregando caixas leves após as aulas, orgulhoso por poder ajudar. Aos poucos, foi sendo introduzido nos segredos do comércio - como distinguir a qualidade dos tecidos, como reconhecer um bom fornecedor, como lidar com os diferentes tipos de clientes. Aos quinze, já dominava as nuances do negócio familiar, e aos dezoito tornara-se essencial para o sustento da casa. Sua educação formal acontecera entre um cliente e outro, seus deveres de escola muitas vezes feitos no balcão da banca, entre intervalos de atendimento.

Agora, na flor da juventude, o jovem conhecia como poucos os meandros do comércio de falsificações. Seus olhos percebiam instantaneamente a diferença entre uma réplica bem-feita e outra de qualidade inferior. Seus dedos reconheciam o toque do bom algodão, a costura bem executada, o detalhe que fazia a diferença. Mas acima do conhecimento técnico, ele compreendia a psicologia por trás de cada compra - entendia que não vendia apenas produtos, mas acessos a sonhos, mesmo que temporários e imperfeitos.

Enquanto arrumava pilhas de camisetas de times europeus, Renan observava os primeiros compradores chegarem. Uma mãe examinava atentamente cada peça, calculando mentalmente quanto duraria nas brincadeiras do filho. Um casal jovem discutia baixo sobre qual modelo de tênis escolher, pesando o custo-benefício de cada opção. Um homem maduro mexia nas gavetas de meias, buscando aquelas que melhor resistiriam ao trabalho braçal. O jovem vendedor sabia que todos eles, assim como ele e seu pai Josué, navegavam constantemente entre o desejável e o possível.

Seu pai, Josué, chegara mais cedo ainda, como sempre fazia. Homem de poucas palavras e muitos gestos práticos, ensinara ao filho não apenas o ofício, mas a filosofia por trás dele. "Não estamos enganando ninguém", dizia, "estamos oferecendo o que as pessoas podem pagar". Josué começou com uma simples banca de calçados há trinta anos, e através de trabalho duro conseguiu estabelecer o pequeno império familiar - três bancas lado a lado, cada uma com sua especialidade.

Ao longo do dia, o movimento no Brás transformava-se em um espelho da sociedade brasileira. Havia os compradores regulares, que vinham toda semana em busca de novidades; os trabalhadores procurando roupas resistentes a preços acessíveis; os jovens das periferias em busca dos símbolos de status que viam nas novelas e nas redes sociais; e até profissionais de classe média que, mesmo podendo comprar originais, preferiam a relação custo-benefício das réplicas.

Renan notava como cada grupo tinha seu próprio comportamento. Os mais velhos, cautelosos, examinavam cada costura, cada detalhe. Os mais jovens, por outro lado, preocupavam-se mais com a estética do que com a durabilidade. As mães de família calculavam mentalmente quantas peças poderiam comprar com o orçamento disponível. E ele, no centro daquela dança de desejos e realidades, adaptava seu discurso para cada situação.

Às vezes, nos raros momentos de calma, o jovem observava o movimento do Brás e pensava na complexidade daquela economia paralela. Não se tratava apenas de vender produtos falsificados, mas de fazer parte de uma cadeia que envolvia milhares de pessoas, desde os costureiros das oficinas muitas vezes clandestinas até os consumidores finais, passando por transportadores, fornecedores e vendedores como ele. Uma rede complexa que, embora operando na ilegalidade, sustentava famílias e realizava sonhos modestos.

Seu pai Josué interrompia esses devaneios com um gesto prático - uma caixa para ser aberta, um cliente para ser atendido, um fornecedor para ser recebido. A realidade sempre falava mais alto, e ela ditava que, enquanto houvesse mercadoria para vender e clientes para comprar, o trabalho não podia parar.

Ao entardecer, quando as luzes do mercado começavam a se acender anunciando o fim do dia, pai e filho iniciavam o ritual de fechamento. Enquanto arrumavam as sobras e faziam o balanço do dia, Josué compartilhava histórias dos tempos em que o Brás era menor, mais simples. Falava das dificuldades, das crises superadas, dos clientes que se tornaram amigos. Renan ouvia atentamente, compreendendo que herdava não apenas um negócio, mas uma história de resistência.

No caminho de volta para casa, no ônibus lotado de trabalhadores igualmente cansados, o jovem permitia-se sonhar. Imaginava uma loja legalizada, produtos originais, etiquetas verdadeiras. Visualizava-se mostrando a um filho hipotético um negócio honesto, regularizado, longe da sombra da ilegalidade. Mas depois olhava para o pai ao seu lado, o rosto marcado por anos de trabalho duro, e entendia que a realidade era mais complexa que seus sonhos.

A verdade era que, num lugar de contrastes como o Brasil, o mercado das falsificações representava tanto um problema quanto uma solução. Era sintoma de uma economia que não conseguia incluir todos formalmente, mas também demonstração de uma resiliência popular que encontrava seus próprios caminhos para a sobrevivência. E Renan, assim como o pai Josué e milhares de outros trabalhadores do Brás, era apenas um elo nessa cadeia complexa - um jovem que herdara não apenas um ofício, mas um lugar específico no intricado quebra-cabeça da economia brasileira.

Na manhã seguinte, antes do sol nascer, ele estaria novamente no Brás, abrindo a banca com o pai, arrumando as mercadorias que, embora carregassem logos falsos, sustentavam sonhos verdadeiros. E naquele ciclo infinito de trabalho e sobrevivência, ele seguia escrevendo, junto com Josué, mais um capítulo de uma história que era, acima de tudo, sobre a capacidade humana de se adaptar e perseverar, mesmo nas circunstâncias mais desafiadoras.

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Novo relacionamento na terceira idade faz com que o mundo de dois casais de amigos vire de ponta-cabeça e divida famílias entre apoio e repulsa
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Vitor Bonets
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18/11/2025

Por Vitor Bonets

 

Três. Dois. Um. A contagem regressiva que tirou de Carlos seu bem mais valioso. Na cama do hospital, no dia 26 de julho deste ano, o homem ouviu as últimas batidas do coração de sua esposa. O que havia lhe sobrado era somente o silêncio, que naquele momento, se tornara um barulho ensurdecedor. Ana, aos 62 anos, morreu por uma parada cardiorrespiratória após ficar internada durante três dias. Em seus últimos momentos, ela viu Carlos, um homem grande, chucro, daqueles forjados ao longo de 67 anos na antipatia, se despedaçar. Parecia que ao passo em que as lágrimas caiam, uma parte da alma de Carlos ia embora junto. Junto com o vento e junto de Ana. 

Nem a indignação sobrou ao homem, já que a morte da mulher veio de repente. Chegou sem avisar e foi embora sem nem dar explicações. Carlos até perguntava a Deus sobre o porquê daquilo, mas ele talvez nem estivesse preparado para a resposta que estaria por vir. Com a maior perda de sua vida, o homem, pai de dois filhos, precisou se apegar cada vez mais à família e aos amigos do casal. Amigos esses que foram essenciais durante a trajetória de amor de Carlos e Ana. Todos em volta dos dois presenciaram o nascimento do amor no condomínio Torres do Sul, na Zona Sul de São Paulo. Por ali,  se formou um grupo que seria como uma rede de apoio para os que moravam no local. 

Quando Ana morreu, Edu e Aline, filhos do casal, já eram crescidos e não estavam mais debaixo das asas de Carlos. Os dois sentiram a morte da mãe, mas sabiam que precisavam ser os alicerces do pai. Porém, não contavam que três meses após a morte de Ana, Carlos teria descoberto um novo amor. Mas nem tão novo assim. Vizinhos do mesmo prédio e amigos de longa data, o ex-casal Márcia e Antônio, prestaram apoio a Carlos no momento difícil. Mesmo já separados há dois anos, eles se uniram para consolar o amigo. Antônio e Carlos eram como fiéis escudeiros. Márcia e Ana eram as primeiras-damas. E os casais construíram uma amizade de mais de 20 anos. Mas, o clima de harmonia chegaria ao fim após a morte de Ana. 

Um mês após o velório da esposa, Carlos e Márcia decidiram se encontrar para conversar, o que não era muito costumeiro por parte do homem, já que ele nunca foi muito bom com as palavras. Motivo esse, que por diversas vezes, fez a mulher de seu melhor amigo sentir certa repulsa. No encontro, Carlos estava leve, como alguém que nem parecia carregar mais de 100kg em um corpo de dois metros. Márcia, já com 65 anos, estava a mesma. Vaidosa, produzida, arrumada e até mesmo com aquele ar de quem "se acha". Mas quem se achou mesmo nessa noite foi Carlos. 

Ele, que não era muito de se expressar, mostrou uma outra face para a companhia em um jantar a dois. Os dois conversaram e riram a noite toda e nem parecia que as desavenças do passado estavam presentes. Nem mesmo parecia que Ana havia partido. O primeiro encontro foi talvez um passo que nenhum dos dois estava certo de ter dado, mas depois que o clima ficou no ar, o que restou foi seguir caminhando. Igual ao primeiro, vieram outros. Restaurantes chiques, risadas, comida, conversa boa e, principalmente, sigilo.Ali estava a sensação de conhecer alguém novo após tanto tempo casados. O sentimento de, já no caminho final da vida, encontrar um novo amor. Esse, de certa forma, proibido. 

As coisas não seriam fáceis depois de Carlos e Márcia decidirem anunciar que estavam juntos. Depois de três meses em que Carlos conhecia uma Márcia que nunca viu e vice-versa, eles foram contar para as respectivas famílias. E não, a história não convenceu muita gente. Os filhos de Carlos, Edu e Aline, repudiaram a ideia completamente. Ainda machucados com a partida da mãe, não concebiam a ideia de que o pai havia arranjado uma outra mulher, ainda mais ela sendo a melhor amiga de Ana. Porém, disseram que se era da vontade de Carlos, que assim fosse feito. Os filhos de Márcia também não se sentiram confortáveis com a notícia. Murilo e Jéssica, que ouviram a mãe falar mal de Carlos durante toda a vida, não entendiam como as coisas haviam mudado em tão pouco tempo. Mas, a pior reação foi a de Antônio, que viu seu melhor amigo anunciar um romance com a mulher com quem dividiu a vida, as contas, as felicidades e as tristezas do casamento. Hoje, Antônio não frequenta mais as festas de família se Márcia e Carlos estiverem presentes. Ele mesmo diz que sente nojo do casal e que não sabe como os dois tiveram a coragem de desonrar não só o próprio matrimônio, mas também a morte de Ana. 

Carlos e Márcia se juntaram para dar respostas à solidão que sentiam no peito ao chegarem no fim de suas caminhadas e estarem sem ninguém. Talvez, essa tenha sido a forma de driblar um fim solitário. Um viúvo e uma recém-divorciada. O útil ao agradável. Talvez, o amor tenha também driblado as convenções e regras do que é "certo e errado". Se até mesmo Seu Jorge passou por um momento difícil como esse, quem dirá os meros mortais. Talvez, seja natural que Antônio sinta desgosto pelos "dribles" que tomou das pessoas em que mais confiava. E por fim, a sensação de Ana sempre ficará no talvez, já que ela foi a única que não pôde ver com seus próprios olhos o rumo que sua morte daria para a vida de todos os outros. Uma coisa é fato, alguns agradecem por ela não ter presenciado isso.

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Caso de Jesse expõe padrão de violência policial contra jovens negros e periféricos.
por
Philipe Mor
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18/11/2025

Por Philipe Mor
 

1998. Por volta de seis da tarde, o céu de São Mateus, na Zona Leste de São Paulo, se tingia de um amarelo cansado, cor de fim de turno e de fogão aceso. Na viela principal da Comunidade Divinéia, Jesse caminhava com o corpo leve de quem carregava apenas um desejo: completar o álbum da Copa. Faltava pouco, um dia, para a semifinal entre Brasil e Holanda. O bairro inteiro parecia batucar o nome de Ronaldo Fenômeno pelas janelas, escadas e campinhos improvisados. Jesse tinha 15. O mais novo dos cinco irmãos. Era franzino, riso fácil e tinha olhar de quem ainda acreditava na vida. Além da amarelinha, amava o time de verde, o Palmeiras, que tem a cor da esperança. 
 
Próximo ao “Bar do Seu Paulo” e da “Mercearia do Wilson”, os meninos se juntavam onde o asfalto quebrado servia de mesa para figurinhas repetidas. A cada troca, um campeonato inteiro nas mãos. A voz alta, o vai-e-vem das pernas finas, o futuro ainda intacto. Até que o silêncio se impôs pela força de um motor. A viatura dobrava a esquina com pressa de quem não veio perguntar nome, nem idade, nem história. No primeiro instante, a gritaria. Depois, o instinto. Correr. Em poucos segundos, o que era brincadeira virou fuga. 

A confusão riscou as vielas como um estopim. Dentro da “quebrada” cada criança buscou um caminho diferente. Jesse entrou no primeiro beco, onde um muro sem saída guardava restos de obras, roupas no varal e o cheiro do feijão que subia de uma janela. A respiração curta, o suor frio, o álbum preso no bolso da bermuda. Ao virar, deu de frente com o policial. Branco, farda alinhada e mira treinada. A voz dura ordenou a revista. Jesse ergueu as mãos devagar, tentando pescar o objeto do bolso, como quem oferece a prova de sua inocência. Era só papel. Um álbum. Nada além disso. 

O tiro veio antes da explicação. O estampido rasgou o silêncio como um gol contra no último minuto. O projétil atravessou o corpo pequeno e encontrou o coração. Aquele que batia forte pelo jogo do dia seguinte e pelo sonho simples de crescer. Segundo o policial, ele acreditava que o garoto estava armado. E por isso agiu. A frase que, desde então, se repete como reza torta nos corredores de delegacias e manchetes de jornal. “Parecia armado.” Aparentar perigo virou sentença para tantos meninos que carregam a cor da noite estampada na pele. 

 

Jesse M. da Silva Foto: Arquivo pessoal/Carmem Cruz da Silva.
Jesse M. da Silva Foto: Arquivo pessoal/Carmem Cruz da Silva.

 

Na casa dos irmãos, a notícia chegou como quebra-cabeça impossível de montar. O álbum - com pingos de sangue - ficou sobre a mesa, aberto. A figurinha do Ronaldo, seu jogador favorito, ainda faltava. Agora, como sua vida. A mãe Carmem, evangélica praticante, sem chão, tentava contar os filhos com as mãos para garantir que ainda tivesse todos, mas, a partir dali, faltava um. Thais, a irmã, guardou silêncio. Desde aquele dia, não fala sobre futebol. O pai insistia no nome de Jesse como quem repete um mantra que tenta trazer de volta o que já não respira. 

O enterro foi breve. A vizinhança segurava o choro como podia, alguns com raiva, outros com medo. Todos com um nó na garganta ao perceber que, naquela noite, algo mudaria para sempre na Divinéia. Aos poucos, os irmãos mais velhos, Jayro e Tony, que antes sonhavam com motos, empregos, até viagens, passaram a sonhar menos. A revolta, lenta e silenciosa, entrou pelas portas abertas, como vento ruim que escolhe ficar. Por vingança, por dor, por falta de escolha, os meninos buscaram refúgio no mundo do crime. A morte de Jesse não foi o fim. Foi o começo de uma outra estatística. 

E, enquanto o Brasil entrava em campo no dia seguinte, com discussões sobre escalação, defesa, ataque, a casa de Jesse se enchia de lembranças. Não houve camisa amarela, nem torcida. Só o eco de uma pergunta sem resposta que a família repete até hoje: como se mata um menino que só queria completar um álbum? 

No beco onde o tiro ecoou, o muro ainda está lá. O tempo insiste em passar, mas a marca daquele dia segue presa no chão. Entre os adesivos colados, as figurinhas trocadas e as memórias guardadas, permanece uma certeza amarga: para muitas famílias negras das periferias brasileiras, a vida vale menos que um álbum de Copa. 

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As várias formas da distribuição de alimentos para pessoas em situação de rua
por
Rodrigo Silva Marques
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03/05/2024

Por Rodrigo Silva Marques

 

Viver em cidades grandes sempre tem pontos positivos e negativos. Lugares onde o tudo e o nada se encontram. Miséria e riqueza. E uma das que melhor representa isso é São Paulo (capital). Uma metrópole que ao mesmo tempo em que se vê aqueles que moram em casas ou apartamentos de luxo e desfilam com carros caríssimos, têm pessoas marginalizadas pela sociedade que sequer tem condições de ter um abrigo. Mas nos últimos anos, a situação está ficando cada vez mais alarmante.

Não é de agora que se constata um aumento crescente no número de pessoas em situação de rua na capital de São Paulo. Entre dezembro de 2012 e dezembro de 2023, o número de pessoas que vivem nas ruas da capital aumentou quase 17 vezes, passando de 3.842 para 64.818. Um dos principais motivos por ter alavancado tanto esse número foi a pandemia do COVID-19 (no período entre 2020 e 2022). Média de idade dessa população varia entre os 40 e 60 anos.

Para tentar dar suporte a esta classe extremamente vulnerável de pessoas, existem diversos tipos de programas de ajuda. E uma das formas para garantir ajuda é através da distribuição de alimentos, não só pelo governo, mas por iniciativas de ONGs, igrejas, escolas e até de pequenas instituições ou empresas. Muitas instituições estão suprindo boa parte das brechas assistenciais deixadas pelo poder público.

Uma delas atua no bairro da Mooca. É a "Voluntários no Bem". Ela realiza distribuição de alimentos e seu Tônio é quem explica a importância da atividade da instituição. "Pode ser idiota o que vou dizer, mas ainda é muito lindo e ajuda muito de nós que estamos nessa situação muito ruim. Eu estou nesta m**** já faz alguns anos. É como um presente de Deus ter essas pessoas aqui", considera.

Seu Tônio, 57 anos, é um ex-viciado em crack, e diz que foi despejado do lugar onde morava por falta de dinheiro, pois usava tudo para comprar a droga. Quando o expulsaram de casa, não tinha o que comer, pensava muitas vezes que morreria de fome, o crack o tirava isso. Afirma ter ficado dias sem comer por causa disso. No início, não sentia, mas depois do efeito da droga acabar, a fome voltava com força. Para ele muitos usuários acabam morrendo por desnutrição devido a sensação prazerosa que causa uma inibição das suas necessidades básicas, como comer e dormir. 

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Seu Tônio (ao centro) ao lado de outros moradores de rua com suas marmitas

Outro caso peculiar aconteceu junto com os voluntários da Paróquia Nossa Senhora do Bom Parto no Tatuapé. Diferente da Mooca, o Tatuapé não tem tantos focos de moradores de rua, devido a presença de polícia em pontos de concentração, como praças, portas de igreja, terrenos em construção, ponto de ônibus etc. Por isso, a distribuição de alimentos foi em um espaço fechado na Santa Ifigênia, onde ocorreu a entrevista.  Tainá, chorando, disse que  nunca teve muitas coisas para comer e revirava sacos de lixos que ficavam perto de bares e padarias para achar qualquer coisa que servisse de alimento. Para ela receber alimentos é bem melhor do que comer do lixo. 

Vinda de uma família conturbada, Tainá fugiu de casa quando viu a mãe ser espancada brutalmente pelo namorado, e como não foi atrás dela na época, presumiu que ela tinha morrido. Até hoje não sabe se sua mãe está viva. O namorado sempre batia nela e ficava a ameaçando de bater e matar. Um demônio, disse. Mas as dificuldades de viver na rua logo vieram e teve que dormir em bancos em dia de frio. Afirma ter sido aliciada várias vezes por bêbados e mendigos que estavam "noiados". Ela afirma que muitos podem dizer que era melhor ela ter ficado em casa, mas preferiu comer lixo do que acabar morrendo.

No entanto, há pouco menos de um ano ela foi, em suas próprias palavras, “abençoada.  Ela conta que havia uma ONG, que não recorda o nome direito, que acolhia moradores de rua e levava para alojamentos para morar lá. Foi a primeira vez em 13 anos que tinha um teto e, emocionada, deu graças a Deus por ainda existirem pessoas que pensam nas outras com um pingo de bondade. No final de 2023, o governo de São Paulo. em conjunto com outros munícipes, órgãos e instituições governamentais e não governamentais iniciaram um processo de acolhimento para pessoas adultas, em situação de rua, a partir dos 18 anos, respeitando suas condições sociais e diferenças de origem, com o objetivo de acolher a pessoa em situação de rua, oferecendo proteção integral, escuta e condições para o fortalecimento de sua autonomia, contribuindo para o seu protagonismo e possível superação da situação de rua. 

A Pastoral do Colégio Espírito Santo realiza um trabalho de ajudar refugiados e imigrantes em situação de rua e desabrigados sem dinheiro. Como é o caso de Angel, venezuelano, que com a ajuda do professor Tino de Lucca na tradução, conta ter vindo para o Brasil com apenas uma coisa em mente: sobreviver, ou ao menos tentar. 

Ele conta que era uma luta para viver pois as coisas eram absurdamente caras. Ele tinha poucas coisas que podia comprar com os bolívares (nome da moeda na Venezuela) que tinha. Angel, que atualmente tem 22 anos, vivia a partir de salário mínimo (cerca de 130 bolívares (25 reais), um valor abruptamente esmagado por mais de 500% de inflação acumulada no país. Ele disse em poucas palavras, que fugiu do país, não podia viver daquele jeito mais. Era tudo ou nada.  Angel deixou o país no final de 2023, e chegou a São Paulo em fevereiro. Através da ajuda de algumas caravanas, e o que sobrou do seu dinheiro, com passagens de ônibus. Uma das poucas coisas que trouxe foi uma barraca para dormir, pois não iria ficar nos refúgios de imigrantes na Amazônia.

Chegando em na capital começou a tentar arrumar alguns trabalhos como Motoboy, o mesmo que exercia em seu país, mas usando uma bicicleta. Aos poucos, viu que as pessoas de São Paulo podem ser boas também. Quando começou a trabalhar como entregador algumas pessoas o ensinaram a andar de moto para ele fazer as entregas.

Imagem 3
Fotografia de Angel

Mas, por conta do baixo salário, ainda não conseguiu se ajeitar ainda. Praticamente ele dorme em sua barraca embaixo de viadutos ou ao lado de prédios. Conta que ainda não tem o suficiente para comprar muitos alimentos e obviamente passava fome às vezes, e que a Pastoral do Colégio ajuda refugiados e imigrantes. Foi a primeira vez em um que comeu arroz com feijão e carne "tão bem feitos".  

Esses foram apenas três relatos de algumas pessoas em situação de rua na cidade São Paulo, independente do motivo, a condição e o estado da pessoa, ainda continuam altamente vulneráveis. Mesmo que as ajudas humanitárias e os  pequenos gestos de oferecer algo que está sobrando em casa sejam importantes, o pontos de vista dessas pessoas também é importante para entender suas opiniões e perspectivas ao que tem sido feito para ajudá-las, sobretudo para terem acesso a alimentos.

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As diferentes faces e histórias que moldam esta nova onda migratória para o país 
por
Francisco Barreto Dalla Vecchia
|
21/11/2023

Por Francisco Barreto Dalla Vecchia

 

Diariamente milhares de pessoas passam pelo aeroporto de Guarulhos vendo-o apenas como um lugar de trânsito. O terminal 2 é ocupado principalmente por companhias nacionais como a Latam e a Gol, os viajantes chegam, fazem o check-in, despacham as malas e caminham rumo ao embarque. Este processo ocorre no térreo do pavilhão, entretanto o terminal 2 possui uma área menos visitada, que é seu mezanino.

Neste segundo andar se localiza alguns restaurantes e cafés menos movimentados, além do posto médico do aeroporto. Ali existe também o posto Avançado de Atendimento Humanizado ao migrante e em frente a ele se encontra uma área de espera, repleta de bancos, um típico espaço encontrado em qualquer aeroporto.

Desde que o Talibã tomou o poder no Afeganistão na segunda metade de 2021, dezenas de famílias afegãs refugiadas já fizeram desta sala uma casa improvisada. Idosos, jovens, homens solteiros e famílias completas dividem a mesma sala de espera. O português aqui não é a língua principal, mas sim o Pashtun. A sala de espera em frente ao posto avançado de atendimento ao migrante era o que mais chamava a atenção: aquele saguão repleto de malas e barracas de acampamento, mas se assemelhava a um camping do que a um aeroporto. 

Refugiados Afegãos acampados em frente ao  posto Avançado de Atendimento Humanizado ao migrante
Refugiados Afegãos acampados em frente ao  posto Avançado de Atendimento Humanizado ao migrante. Fonte: Estadão

Aqueles rostos transmitiam a mais completa incerteza, pareciam se sentir alienígenas, que abruptamente estavam obrigadas a abandonar tudo o que conheciam para enfrentarem um futuro desconhecido em um país completamente exótico. 

O aeroporto de Guarulhos é a principal rota de entrada dos afegãos que buscam refúgio no Brasil. Desde setembro de 2021, quando a ascensão do Talibã ao poder tinha completado um mês, o governo brasileiro passou a conceder vistos humanitários para refugiados afegãos. Quando o documento é emitido, o beneficiado tem até 180 dias para ingressar no Brasil. 

Neste local conheci um jovem de dezessete anos, um dos poucos refugiados que dominava a língua inglesa. Ainda receoso com as perseguições enfrentadas no Afeganistão e no Irã, ele preferiu se manter no anonimato, mas concedeu uma entrevista para o Contraponto, confira:

 

 

Nem todo afegão é refugiado

 

Os quase quarenta anos de conflitos ininterruptos que recaíram sobre o Afeganistão e o obscurantismo imposto pelo Talibã não foram suficientes para sufocar as mentes pensantes deste povo. Sayed Abdul Basir Samimi é um desses, durante anos pesquisou e deu aulas sobre arquitetura e urbanismo para seus alunos em sua terra natal. Sayed não é um refugiado, mas sim um professor universitário convidado e aceitou conversar com o Contraponto:

Há quanto tempo mora no Brasil? 

Moro no Brasil há quatro anos, desde 2019. Antes estava morando no Japão, onde fiz doutorado e antes de morar lá fiz mestrado na Itália. Me graduei no Afeganistão e morei lá até 2011. No ano de 2018 eu vim para o Brasil como professor visitante com uma bolsa do CAC (Coordenadoria de Admissões, Concursos Públicos e Contratação Temporária). Quando o período da minha bolsa estava chegando ao fim, o Talibã tomou o poder, logo eu não poderia mais voltar para lá, então decidi ficar aqui e esperar outra oportunidade de bolsa. Eu consegui achar um edital para pesquisador visitante e apliquei com ajuda do professor Artur Simões Rozestraten, que dá aulas de arquitetura e urbanismo na Universidade de São Paulo (USP). Ele me ajudou muito me oferecendo essa oportunidade e por conta disto hoje estou morando aqui.


O que você já sabia ou pensava sobre o Brasil antes de vir morar aqui? 


Eu não tinha muita ideia do que era o Brasil antes de morar aqui. Um amigo iraniano que encontrei no Japão estava lecionando no Brasil como professor convidado e me disse que o país era um lugar tranquilo onde as pessoas eram acolhedoras. Como eu já era professor e estava fazendo pós-graduação, me candidatei para um programa de internacionalização que estava aberto na universidade, quando eles me escolheram eu fiquei muito feliz porque desde a primeira etapa vi que eles (brasileiros) não tinham nenhuma discriminação, eles apenas olhavam para meu histórico acadêmico. 

Eu sempre falo para meus amigos que aqui é um paraíso. Digo isso não por conta da infraestrutura, mas sim pelo povo brasileiro. Além disso, a mídia, o jornalismo, as pessoas e as universidades estão alinhadas e focadas em combater a descriminação. Talvez você não perceba, mas isso causa um grande impacto. Os protestos e o debate público acerca dos direitos LGBTQIA+, do movimento negro, do movimento feminista, etc. acabam afetando todas as minorias, inclusive nós (afegãos). O que está sendo debatido é o combate a todas as formas de discriminação. Eu acho que este trabalho que a mídia vem fazendo é muito importante, porque ele muda o comportamento do povo. É importante que um país trabalhe para isso, muitas outras nações simplesmente não se importam.

Como foi o processo de aprender a falar o português?

Continuo aprendendo, a língua portuguesa é difícil, principalmente para os afegãos que não sabem falar inglês. Nestes casos a única solução é entrar em contato com as instituições de apoio aos refugiados e procurar conseguir o contato de cursos de português. Em alguns casos esses cursos oferecem uma ou duas horas de aula gratuita por semana. 

Para mim o português é uma língua fácil de entender, razoavelmente difícil de falar e muito difícil de escrever. Isso ocorre porque a estrutura linguística do português é completamente diferente do persa e das outras línguas do Afeganistão. Entretanto, é fácil de se fazer amigos aqui, os brasileiros estão dispostos a conversar conosco e isso ajuda muito no processo de aprendizagem de um novo idioma.

Você teve algum choque cultural no Brasil?

Eu sempre estive viajando e me mudando de países, então eu não tive um choque cultural muito forte. Penso que para mim o maior choque cultural foi a desigualdade social, aqui existem pessoas muito ricas e muitas muito pobres. Entretanto, é curioso notar que estes grupos vivem de forma tranquila e pacífica, dentro do possível.

Como foi a burocracia para entrar no Brasil?

A burocracia é o principal desafio entre os estrangeiros que buscam morar no Brasil. Para ser professor visitante não tive tantos problemas: mandei todos os documentos, tudo deu certo e eu fui aceito. O problema de verdade foi a revalidação do diploma de graduação: o reconhecimento do doutorado foi mais tranquilo e mais rápido; mas para a graduação eles exigiram muitos documentos. A revalidação é realmente demorada, ela demorou quase quatro anos. Eu tinha todos os meus documentos já revisados pela faculdade, eu já tinha feito todas as avaliações necessárias. Eu estou há um ano tentando lecionar na CREA-RS (Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Estado do Rio Grande do Sul). Estou esperando há um ano e meio para receber a autorização da CREA para trabalhar na minha área. Eu tenho mestrado, doutorado e pós-doutorado e, além disso, já estou trabalhando como professor visitante./p>

Você já sofreu xenofobia no Brasil? Ou algum preconceito por ser muçulmano? 

Não, eu nunca sofri descriminação no Brasil. Algumas pessoas brincam comigo porque pensam que o Bin Laden era afegão, mas fora essas pequenas brincadeiras nada. Por isso o Brasil é um paraíso. Acredito que aqui existe menos xenofobia porque pautas minoritárias sempre estão presentes no debate público. Além disso, o país foi formado por ondas migratórias, como os japoneses que imigraram para o Brasil no começo do século XX, os africanos, os portugueses e muitos outros. A maioria das famílias brasileiras possuem algum antepassado estrangeiro.

No futuro, pode haver uma comunidade afegã unida em São Paulo ou no Brasil? Semelhante às comunidades expressivas asiáticas no bairro da Liberdade, ou italianas no Brás?

Se os afegãos conseguirem se concentrar em algum local específico, seria algo muito positivo. Eles poderiam se ajudar entre si, conseguiriam se desenvolver mais rapidamente e isso também ajudaria eles a entenderem a cultura brasileira mais facilmente. O problema é que isso não irá acontecer, pelo menos por enquanto. Porque não existe um fluxo de refugiados tão grandes para o Brasil, a maioria dos refugiados que passam por aqui buscam refúgio nos Estados Unidos ou em outros países. As pessoas que conseguiram ficar por aqui acabam sendo espalhadas entre as cidades, algumas ficam em São Paulo, outras vão para Salvador ou Belo Horizonte, etc. As migrações do passado contaram com um número maior de imigrantes, o que favoreceu a criação de comunidades mais expressivas que consequentemente culminaram na formação de bairros italianos, japoneses, etc.

Em que cidade você vivia no Afeganistão? E qual era o seu trabalho no Afeganistão? 

Localização da cidade de Herat
Localização da cidade de Herat, Fonte: google maps


 

Eu cresci em Herat, a terceira cidade mais populosa do Afeganistão. Por ser localizada próxima da fronteira iraniana, o idioma majoritariamente falado é o persa. Eu fui professor na faculdade de engenharia da universidade da cidade de onde morava.

Qual é seu grupo étnico?

Eu sou de um grupo étnico minoritário bem comum no Afeganistão chamado Sayed, assim como o meu nome. Essa etnia possui origem árabe, sua linhagem é traçada até o Profeta Muhammad por meio de sua filha Fátima e seu marido Ali. Todos os grupos étnicos do Afeganistão já se misturaram com os Sayed em algum momento da história, existem tadjiques-sayeds, hazares-sayeds etc.

Os Sayed são chamados de filhos de Muhammad ou ancestrais de Muhammad e são a única etnia miscigenada entre todas as etnias presentes no país, são uma espécie de ponto de conexão entre os povos. Historicamente essa etnia serviu como mediadora que resolvia disputas entre as etnias. Além disso, não possuímos uma língua exclusiva, costumam falar o idioma predominante da região onde moramos. Eu penso que se um dia os problemas do Afeganistão forem resolvidos, serão por mãos Sayedes, já que seus membros estão presentes em todas as tribos.

Como você vê os estereótipos associados aos afegãos?

Eu acho que o que dizem é baseado em uma parte de verdade (risos). O Afeganistão é um país que nos últimos quarenta anos sempre esteve em guerras, por conta disso o que as pessoas costumam a saber sobre o Afeganistão sempre tende a ser relacionado com a guerra. Acho que associar o Afeganistão com conflitos não é um estereótipo, mas sim uma meia-verdade. A maioria dos brasileiros sabe das guerras e entendem o sofrimento que meu povo passou, por isso penso que o povo daqui é acolhedor. Na verdade, acho que não existe um estereótipo de afegão no Brasil, porque realmente sofremos com as guerras e o país conta realmente com grupos extremistas e fundamentalistas, o que posso fazer no final das contas? É tudo verdade. Quando os afegãos começaram a chegar no Brasil, as pessoas perceberam que eles não eram extremistas e também se compadecem de toda a dor que os refugiados passaram. Não é o meu caso, pois não sou refugiado, mas é isso que eu percebo.

Do que você mais sente falta do Afeganistão?

Agora eu já virei brasileiro (risos), durante os dois primeiros anos senti um pouco de falta da comida afegã, dos meus amigos e de alguns lugares. Mas a grande questão é que desde que o Talibã tomou o poder tudo foi destruído. Não tenho mais familiares nem amigos lá. Todos os meus familiares vieram para o Brasil em 2021, no total foram vinte e um familiares e todos estão em Porto Alegre. Minha família foi uma das primeiras que conseguiram pegar o visto humanitário. Antes do Talibã subir ao poder, eu comecei a mandar e-mails para a embaixada brasileira do Paquistão e do Irã. Eu pensei “a situação está ruim, os Talibãs irão tomar o poder, tenho que tirar minha família”

Na primeira vez eles não responderam, mas depois entrei em contato com o Itamaraty. Por minha cidade ser central, ela ficou segura por mais tempo, mas o Talibã acabou conquistando toda a zona rural nos entornos da cidade de Herat. Foi nesse momento que percebi que eles iriam alcançar seus objetivos. Foi aí que o Itamaraty respondeu meu e-mail, primeiramente me dizendo que eu estava exagerando (risos) e que o Talibã jamais tomaria o poder, mas posteriormente acabaram decidindo me ajudar. Eu fiquei muito grato! 

Minha família tinha cinco membros: três deles eu consegui tirar o visto de estudantes e os outros 2 com visto de união familiar, o visto humanitário ainda não estava sendo emitido naquele momento. Nessa época um funcionário da embaixada brasileira em Teerã (capital do Irã) me ajudou muito com a papelada e com a documentação, e logo depois que consegui os nossos vistos o Talibã tomou o poder (risos de alívio). Depois disso, os catorze outros membros da família também conseguiram vir para o Brasil com vistos humanitários.

Quando a estabilidade voltar, você pensa em retornar para a sua terra? 

Depende da situação, depende de onde serei mais efetivo. Como morei em diferentes países, acabei tendo minha visão de mundo alterada. não sinto atualmente que meu local de origem é minha casa, qualquer lugar pode ser minha casa. Quero estar em qualquer lugar do mundo onde eu tenha impacto, do que adianta estar em um lugar onde você não é útil?  Não sou apegado ao meu local de origem. Me considero um cidadão do mundo.

Os primeiros dois anos são muito difíceis para todo mundo, não é fácil deixar tudo para trás. Mas quando se começa a construir conexões e criar redes de apoio, você começa a criar um novo lar. O país de origem de uma pessoa costuma ser seu capital cultural porque ele traz segurança e conforto para as pessoas. Esse capital cultural é formado por amigos e familiares. É ele que faz você se sentir apoiado, é como ser membro de uma tribo (risos). Quando você consegue desenvolver isso você consegue se sentir em casa.  Acho que os humanos são como formigas que precisam estar em grupo. Por isso acho que seria bom se os afegãos conseguissem se estabelecer em um bairro específico, pois isso traria um sentimento de pertencimento a uma “tribo”.

 

 

 

Combatentes do Talibã, fonte: BBC
Combatentes do Talibã, fonte: BBC

 

 

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Política Internacional

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Todos queríamos o poder de congelar o tempo
por
Michelle Batista Gonçalves
|
26/09/2023

13 de setembro de 2023. 29 dias que completei 21 anos. 2 anos que "seu magrão" não compartilha mais sua vida conosco. A data — dia 13 de setembro — fica bem vívida porque foi consideravelmente perto do meu aniversário, uma data que você sempre fez questão de lembrar. Não só de lembrar, mas também de celebrar. Uma data a qual eu mesma já não comemoro há bastante tempo. Mas que você não se permitia esquecer. Lembro que um dos meus primeiros e melhores celulares (para a época, claro) foi um presente seu de aniversário. Que você me avisou num post na minha linha do tempo do Facebook achando que era uma mensagem privada. Post esse que acabou entrando no meu vídeo de retrospectiva do ano, feito de maneira automática pela própria rede social e que eu guardo com muito carinho até hoje. 

 

Ainda é difícil assimilar que o senhor não está mais aqui. Sua presença tinha muita força. Eu sabia que tinha chegado em minha casa só pelo jeito que fechava o portão, por exemplo. De uma maneira ou de outra, o senhor sempre esteve por perto. No jeito que era apaixonado por música e viciava a mim e meus irmãos em cantores como Ritchie, Fagner, Raça Negra e Raul Seixas (este último originou o nome de seu próprio filho, até). Seu violão, aliás, continua aqui em casa. Não me atrevo a tentar tocá-lo, mas lembro que me ensinou uma ou duas notas certa vez. Lembro da maneira que tocava nos bares e animava a todos. Às vezes eu esqueço, é só como se eu não tivesse mais ido te visitar ou vice-versa. E consigo sorrir e imaginar que você tá por aí fazendo algum corre, porque você nunca conseguiu ficar muito tempo parado e estava sempre trabalhando com alguma coisa. 

 

Tento lembrar de qual foi nossa última vez juntos, mas nada me vem à mente. Só consigo lembrar de momentos longínquos, como se meu cérebro tentasse se proteger ao chegar perto demais da fração de tempo em que recebi a notícia da sua partida. Um membro perdido. Te sinto como se ainda estivesse aqui. O formigamento que os soldados dizem sentir após terem alguma parte do corpo amputada, como se ela ainda estivesse ali. Sua ausência pesa quase como uma presença. O não te ter como "ter" um vazio carregável, do qual não consigo me livrar. A angústia dos mistérios que cercam sua morte. A certeza de que só posso te visitar num cemitério. A revolta de sempre querer adiar setembro. 

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Grupos de extrema direita encontraram o revisionismo histórico como uma importante ferramenta para sua expansão ideológica, buscando se infiltrar nos ambientes escolares.
por
Gabriel Lourenço e Lucca Fresqui
|
26/07/2023

Com o crescimento recente da extrema direita no país, além de confrontos no campo político, a disputa no campo ideológico se agravou. Nesse cenário de intensa polarização, pautas revisionistas ganharam força

Com isso, observamos uma tendência preocupante de reexaminar eventos históricos cruciais, sob uma lente de relativização e negação. Essa abordagem visa diminuir ou até mesmo apagar a gravidade e as consequências desses acontecimentos. 

Leonardo Nascimento, professor de História e pesquisador da Universidade Federal da Bahia, conta que, se por um lado a universidade sofreu ataques durante os quatro anos de governo Jair Bolsonaro, por outro adotou comportamentos para se blindar de ameaças.

Em sua avaliação, o ambiente democrático e crítico das universidades passou a ser corrompido uma vez vozes dissidentes eram vistas com um olhar de desconfiança. Por vezes até mesmo encaradas como bolsonaristas.

Para ele, a tentativa de silenciar vozes dissidentes e de construir uma homogeneidade de opiniões no ambiente acadêmico teve como impacto a perda da crítica e da inovação no ensino.

Já Marcelo Reis, professor de História em uma escola de ensino médio na capital paulista, reclama de projetos educacionais, como o “Escola sem Partido”, que buscam implementar uma cartilha conservadora na escola. “Eles [revisionistas] falam tanto de doutrinação, entretanto, na verdade eles querem que a escola seja um meio de dispersão de pautas conservadoras”.

Reis também acredita que discursos revisionistas passaram a ser mais presentes nos últimos anos em suas salas de aula. “Criou-se uma relação de conflito entre professor e aluno. A figura do professor foi desacreditada”, diz.
Existe também medo do “comunismo” e de uma esquerda que seria a grande detentora de toda a mídia e todo o sistema educacional – visões irreais, mas que são tidas como fatos por alguns. 
 
Guilherme Assis, de 22 anos, fez parte de movimentos bolsonaristas no passado e diz que esses grupos tinham como prática uma conduta agressiva em sala de aula. Conta que esses comportamentos eram motivo de admiração nas redes bolsonaristas. “Mandavam vídeos de dentro da sala de aula para mostrar para os outros”, explica Assis.

Essa postura de negação da história e de “desafio ao sistema” é extremamente valorizada entre apoiadores desses movimentos, segundo Guilherme.

Reis afirma que esses casos estão fortemente ligados ao fenômeno da extrema direita. “A retórica é a mesma do Bolsonaro, é parte de um projeto de criar uma juventude bolsonarista” Na sua avaliação, descreditar o ambiente acadêmico permite criar suas próprias verdades.

Leonardo Nascimento diz que a ideia de traçar o ambiente da escola como um ambiente a ser combatido estava fortemente presente nas políticas do ex-presidente. Aponta para sua candidatura em 2018, onde uma de suas principais pautas era de “desesquerdizar” o ambiente escolar, incorporando no bolsonarismo movimentos pré-existentes como o “Escola sem Partido”.

Essas pautas se mantiveram em voga durante os quatro anos do seu mandato. “Vamos acabar com a doutrinação no Brasil”, declarou Bolsonaro em sua cerimônia de posse em 1º de janeiro de 2019.

O ex-ministro da Educação, Abraham Weintraub, deu declarações atacando a “doutrinação marxista” nas escolas. Em uma reunião no Conselho Nacional da Educação, em abril de 2019, disse: "Não vamos permitir que nossas crianças e jovens sejam doutrinados ideologicamente por uma minoria que detém o poder".

Segundo Marcelo Reis, essas políticas têm uma forte ligação com a mentalidade violenta da extrema direita. “O bolsonarismo coloca com um alvo em qualquer discurso que se oponha a ele. Fazem com que sejam inimigos a serem eliminados”, opina. “Faz parte da ideia de criar um clima bélico contra a imprensa, professores e quaisquer outros considerados inimigos”, continua.

Questionado sobre os desafios gerados pelo revisionismo no sistema educacional, o professor de Comunicação da PUC-SP, José Salvador Faro afirma que isso "força os professores a se manterem sempre antenados e atualizados".

Mas ele aponta que esse desafio tem pontos positivos, uma vez que, mesmo trazendo consigo uma carga de desinformação e fraude, novas descobertas e perspectivas podem surgir ao se revisitar a História.

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A fome ou uma dieta pobre em nutrientes e minerais traz prejuízos incalculáveis às crianças,
dificultando a concentração e o foco
por
Guilherme Lima Alavase
|
24/07/2023

“O desemprego, o trabalho precário e mal remunerado, a má distribuição de
renda, são os principais causadores da fome e da desnutrição no Brasil.” Essa
é avaliação de Nanci Maria da Silva de Oliveira, uma das coordenadoras da
Pastoral da Criança em São Paulo.

Uma de suas funções é acompanhar e orientar as gestantes e crianças de zero
a 6 anos em relação à alimentação saudável e barata, ensinando as mães para
o aproveitamento completo dos alimentos, utilizando as folhas, cascas,
sementes e tudo o que for possível ser consumido.  

Segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU), o Brasil voltou ao
mapa da fome, ou seja, a estar em situação de insegurança alimentar, quando
as famílias vulneráveis economicamente, ao acordar, não sabem se terão
algum alimento para comer no decorrer do dia.

De acordo, com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), uma
situação é crônica “quando os moradores passaram por privação severa no
consumo de alimentos”. Com a insuficiência de comida, o indivíduo não tem
energia suficiente para manter o seu organismo funcionando adequadamente
para desempenhar as suas atividades cotidianas. 

A coordenadora da Pastoral da Criança diz que desperdiçamos muitos
alimentos e que o principal programa de seu grupo é ensinar as famílias, que
frequentam as atividades da pastoral, a fazer as suas compras no final da feira,
a chamada “xepa”, pois os preços estão mais baixos. Mas também pechinchar
pelos produtos que estão sobrando na banca do feirante, pedir a doação das

folhagens e legumes que ele pretende descartar. Com os alimentos em mãos,
ensinam a higienizá-los e armazená-los adequadamente.

Por fim, preparam pratos, muitas vezes desconhecidos pelos participantes.

Segundo o IBGE, cerca de 30% dos alimentos comercializados no Brasil são
descartados em alguma parte do processo. Isso equivale a jogar 46 milhões de
toneladas de comida no lixo todos os anos. 

O desperdício acontece em todas as fases da produção e comercialização dos
produtos. As perdas começam no transporte, sem o cuidado necessário,
passam pelo ponto de venda, onde os produtos “machucados” ou com
pequenos defeitos são descartados, pois não há interesse comercial neles.

Por fim, o consumidor final joga fora uma parte dos itens adquiridos, pois
compra em excesso, descuida com a conservação ou descarta frutos, legumes
e verduras que não estão bonitos e viçosos. Boa parte do desperdício de
alimentos é proveniente do dia a dia das famílias. 

A professora Irene Neves, também colaboradora da Arquidiocese de São
Paulo, afirmou que a fome ou uma dieta pobre em nutrientes e minerais
essenciais ao crescimento e desenvolvimento traz prejuízos incalculáveis às

crianças, dificultando a concentração e o foco - habilidades essenciais no
processo de aprendizagem.

Segundo ela, não se consegue aprender quando o corpo não tem os nutrientes
necessários.  Tais impactos no desenvolvimento físico, emocional e cognitivo
certamente irão prejudicar a qualidade de vida na fase adulta, pois o jovem terá
baixa escolaridade associado à dificuldade de aprendizagem, frustrando sua
inserção no mercado de trabalho.
Irene também ressaltou que a fome na primeira infância pode levar à morte,
pois a criança desnutrida apresenta o sistema imunológico vulnerável, sendo
menos resistentes às doenças comuns da infância.  
 
A coordenadora da Pastoral da Criança, Nanci enfatizou que a fome e as
restrições a uma alimentação saudável desaparecem com uma renda bem
distribuída, pois, segundo ela, a questão não é de escassez de alimentos no
país e sim do convívio com a desigualdade social.

Uns desperdiçam comprando e consumindo em excesso, outros ficam na fila
do osso para conseguir resto de carne para fazer uma sopa. Como exemplo,
basta observar a grave crise de desnutrição e fome dos índios Yanomami. Eles
não estão morrendo de fome por falta de alimentos no Brasil e sim porque o
governo anterior não garantiu que a comida chegasse às aldeias.

O Brasil saiu do mapa da fome nos primeiros anos do século 21, porém, as
políticas públicas de combate à fome e a pobreza adotadas na época foram
gradativamente desmobilizadas. As reformas trabalhistas não trouxeram os
empregos prometidos, pior, abriram a possibilidade de ampliação sem
precedentes do trabalho precário, sem garantias sociais e com baixos salários
empobrecendo ainda mais a população já vulnerável.

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