As eleições de outubro bateram o recorde no número de policiais e de oficiais de forças de segurança para disputar cargos políticos. Segundo o levantamento realizado pelo Tribunal Superior Eleitoral, foram mais de 1,8 mil candidatos registrados, o que representou um aumento de 27% em relação ao pleito anterior. Sendo impulsionados pela pauta de segurança encabeçada por Bolsonaro e a esperança de assegurar mais direitos, os que concorrem veem como uma oportunidade de conquistar um cargo na política e de melhorar as condições de trabalho dos policiais.
O impasse policial
Considerada como uma das profissões mais estressantes do mundo, o policial passa por constante pressão psicológica, baixos salários e hostilização por parte da sociedade. Segundo o 16º Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2021, houve 121 casos de suicídio entre policiais no Brasil, tendo um aumento de 55,4% quando comparado ao ano anterior. Em termos da média populacional, este número é quase oito vezes maior.
A constante exposição à violência, aliada ao elevado risco de morte e situações traumatizantes formam elementos que podem impactar diretamente a saúde mental dos policiais. Esses fatores podem torná-los mais vulneráveis, potencializando o surgimento de doenças psiquiátricas, como depressão e ansiedade; doenças que podem ser encaradas como sinais de fraqueza ou de falta de comprometimento profissional pela instituição.
O delegado Mario Palumbo, do MDB (Movimento Democrático Brasileiro), terceiro vereador mais votado em 2020, diz que: “há fortes restrições na corporação, no nosso serviço você consegue resolver alguns problemas até certo ponto, além disso, só é possível resolver entrando na política”.
O policial não pode entrar em greve, sofre com casos de corrupção, falta de infraestrutura e fornecimento de equipamentos de segurança, não podendo protestar fora das normas da corporação. Por ter autonomia limitada para resolver essas situações, acabam aceitando as condições impostas.
Com muitos se sentindo sob pressão, observados e julgados pelas suas ações, Palumbo diz que os policiais se sentem desrespeitados pela população: “daqui a pouco vão pedir para gente servir um café para quem você vai prender”. Por ser um consenso entre grande parte dos agentes, torna-se mais fácil para os policiais se agruparem, “todos estão passando pelo mesmo perrengue”, conclui.
A falta de representatividade e apoio institucional, fez surgir entre os agentes um crescimento natural do interesse pela política, sendo visto como a única saída para buscarem os seus direitos trabalhistas. Somado a extrema direita no poder, que traz pautas sobre armamentismo civil e segurança pública, surge para os policiais o terreno propício para recorrerem aos seus direitos.
Troca de valores na participação política
Como principal ferramenta para alavancar votos, o uso das redes sociais são utilizadas para impulsionar a popularidade dos agentes, autopromovendo a sua imagem como um bom representante político para defender os direitos da categoria. No entanto, além de desejarem assumir o papel de representante dos policiais, os candidatos priorizam o seu interesse pessoal em conquistar poder e influência no campo político.
Segundo Fábio Vasconcellos, cientista político e doutor pela UERJ, o fator da violência funciona como uma estratégia dos policiais como bandeira eleitoral. Utilizando o seu serviço em campo para fortalecer a sua imagem política, muitas vezes de forma não ética e desrespeitando o código judicial. “Esses candidatos apresentam características em comum, o discurso radical e o fato de usarem das prerrogativas concedidas pela sua posição pública em benefício próprio”.
Os membros das forças de segurança têm uma vantagem maior na questão da sua representação midiática, pois além de falarem para os colegas de trabalho, conseguem alcançar a população, “eles utilizam de discursos populistas que a sociedade se interessa, dizendo que vão prender mais criminosos e impedir o tráfico de drogas”, diz Vasconcellos. Aplicando também a narrativa de arriscar a vida para proteger a comunidade, sendo estratégias que funcionam para o ganho de votos.
Esse fenômeno da transformação do policial em figura de herói está sendo formado há décadas, desde os programas policiais que cobrem o dia a dia dos agentes até mais recentemente com o surgimento de celebridades policiais. Mario Palumbo, que também foi protagonista do reality show “Operação de risco”, diz que muitos policiais estão utilizando o poder que possuem para ganhar popularidade nas redes sociais: “não sou contra as forças de segurança usando esses veículos para fazer propaganda política”. O delegado enfatiza que este é o único jeito de competir contra o poder que os políticos detêm.
O tiro pode sair pela culatra
A organização militar identifica como problemática a figura do policial herói e mais especificamente o policial celebridade, que utiliza do seu status e suas histórias como munição para os seus interesses políticos. O deputado federal coronel Glauco Marcolino, observa que: “essa glamourização também causa problemas no comportamento dentro da instituição, criando mais abertura para a manipulação de evidências e politizando uma organização que precisa ser apartidária”.
Marcolino diz que: “nos estados de São Paulo e Santa Catarina, está sendo discutido entre os oficiais como limitar a apropriação da figura do policial”. A figura citada pelo coronel é referida aos símbolos da corporação, - a arma, o uniforme, ou distintivo, os seus títulos e as suas ações feitas no campo - benefícios que podem facilitar a entrada para a carreira política.
O delegado Carlos da Cunha (MDB) é um exemplo de quem gravava as suas operações policiais - algumas foram encenadas - e publicava na rede social Youtube para aumentar sua popularidade. As atitudes forjadas do ex-delegado, somada às declarações contra integrantes da instituição acarretaram na sua demissão, mas o efeito da divulgação midiática rendeu a ele o cargo de deputado federal em São Paulo com mais de 181 mil votos.
Katia Sastre, do PL (Partido Liberal), também utilizou da própria imagem para alavancar votos, utilizando de um registro de câmera onde ela dispara contra um criminoso em reação a um assalto. Ao final de sua propaganda eleitoral, ela aparece fardada e diz: “Atirei, e atiraria de novo. Coragem eu tenho”.
A estratégia surtiu efeito, sendo eleita deputada federal com mais de 264 mil votos. Ao estimular o ato violento, Sastre aprofunda a violência social, legitimando expressões como: “bandido bom é bandido morto” e fomentando que o cidadão armado também tem o direito de se defender.
O Instituto Sou da Paz, também demonstra interesse na questão. Seu intuito é propor formas que o policial consiga se representar e ser ouvido politicamente, sem que a politização afete a instituição em garantir a segurança pública. O instituto apresenta em seu podcast “Policialismo - A sua segurança é pública”, possíveis soluções para limitar o aproveitamento da imagem do policial para os ganhos pessoais sem ser hostil com a corporação e o serviço que ele presta à comunidade.
Para tentar combater essa distorção da atividade policial e manter um equilíbrio entre as forças de segurança e o aparelho político, é sugerido pelos especialistas do instituto e as forças armadas um leque de opções, tais como: estabelecer um período de quarentena para o membro das forças de segurança antes de se inscreverem no ramo da política. Assim como uma maior regulamentação das mídias sociais pelos membros da corporação, impedindo a presença de elementos da instituição em campanhas políticas.
Como dito no início de todos os episódios do podcast: “o policial ou qualquer oficial das forças de segurança, tem o direito de ter os seus interesses representados na política e ter as suas vozes ouvidas como qualquer cidadão que atua dentro de um sistema democrático”. O problema surge quando indivíduos dentro da corporação se aproveitam da imagem do policial para ganho pessoal, prejudicando a credibilidade de ambas as instituições.
Alexandre Rocha, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, diz que esse comportamento de fé no policial não traduz os sentimentos de segurança da corporação, seja ele parte da polícia ou da política nacional. Segundo ele, não há correlação entre aumento de popularidade nas páginas de serviço público com a popularização de policiais influencers, sugerindo que muitas vezes esse valor não é compartilhado com a instituição: "muitas vezes a pessoa se vincula ao influenciador mas não se importa com a polícia. Então a segurança está depositada em quem? Na instituição ou no influencer?", conclui Rocha.
Alguns nomes como Jilmar Tatto, deputado federal por São Paulo e Eduardo Bolsonaro, também deputado federal pela maior metrópole do país, são bem conhecidos no cenário político de São Paulo. Isso porque eles não representam somente uma pessoa, mas sim uma família que atua de forma direta ou indireta na política paulista. O fato é que essas famílias, independentemente se são de esquerda ou direita, muitas vezes possuem grande influência dentro do cenário político brasileiro.
Um clã pode ser definido com um conjunto de pessoas que por conta de algum parentesco em comum se mantém unido. E é isso que encontramos quando falamos dos irmãos Tatto e de Jair Bolsonaro e seus filhos em questões políticas. Ambas as famílias possuem cargos na câmara dos deputados e nas câmaras municipais.
Outro fator em comum entre eles é o fato de que se fortalecem com a presença de seus membros. O sobrenome ganha uma força que supera as ideias e até mesmo os partidos políticos. O doutor em sociologia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) Tiago Valenciano ressalta que existe esse empréstimo de sobrenome para que as campanhas eleitorais ganhem mais força e seja um atrativo para futuros votos.
Apesar da frente política dos Tatto ser bem forte em São Paulo, principalmente na região de Capela do Socorro, na Zona Sul de São Paulo, os irmãos não possuem origem paulistana. A família migrou do interior do Paraná para o Estado mais populoso do país na década de 70.
Arselino, Ênio, Nilto, Jilmar e Jair Tatto são os únicos dos 10 filhos de pequenos agricultores que entraram de cabeça no cenário político de São Paulo. Os Tatto estão tanto no governo estadual e federal quanto no municipal.
Atualmente, Nilto e Jilmar foram reeleitos em 2022 para deputados federais por São Paulo, cargos esses que já estavam à frente desde 2006 e 2014, respectivamente. Já Ênio, que é deputado estadual desde 2006, se reelegeu para mais um mandato. No âmbito municipal, há Jilmar e Arselino como vereadores da cidade de São Paulo, ambos reeleitos na última eleição. Ambos estão no poder há mais de dois mandatos.
Os irmãos também são peças-chave para a história do Partido dos Trabalhadores (PT). Todos eles são filiados ao partido desde suas primeiras candidaturas. Alguns deles, como Arselino e Ênio, participaram ativamente da fundação do PT.
Um clã que, segundo Valenciano, em que o sobrenome vale muito mais do que o partido político é o da família Bolsonaro. Apesar de não terem São Paulo como seu maior foco, possui uma certa ramificação no Estado graças a Eduardo Bolsonaro, que já está em seu terceiro mandato como deputado federal pelo Estado. Essa influência se dá mais por ideias do que de fato por políticos.
Ao contrário dos Tatto, os Bolsonaro tiveram origem paulista, uma vez que Jair Messias Bolsonaro nasceu em Campinas. O presidente que não conseguiu sua reeleição em 2022, construiu toda a sua carreira política no Rio de Janeiro. Ele foi vereador da cidade maravilhosa em 1989. Desde 1991, ano de sua primeira eleição como deputado federal, ele garantiu sete mandatos.
Com exceção de Eduardo, os filhos de Bolsonaro Flávio e Carlos também são ativos no cenário político carioca. Seu filho mais novo, Jair Renan, já deixou claro que pretende entrar na política em 2028.
A estrutura dos clãs políticos
Mesmo o clã Bolsonaro sendo de extrema direita e os Tatto serem de esquerda, Valenciano ressalta que a estrutura de suas famílias na política é a mesma. A partir do momento em que um membro se torna uma figura pública, as chances de os demais conseguiram os mesmos feitos, apoiados em um sobrenome, são grandes.
Essa situação fica clara com nomes de envergadura nacional, como no caso da família Bolsonaro. Isso se dá muito pela eleição de Jair Bolsonaro em 2018 à Presidência da República. Usar seu nome para angariar votos, segundo Valenciano, virou uma forte tática nas campanhas eleitorais, principalmente de seus familiares próximos. E não foi somente os filhos que se aproveitaram disso, as ex-esposas também aproveitaram esse benefício.
Um exemplo desse empréstimo aconteceu nessas eleições. Cristina Bolsonaro, ex-esposa do atual presidente, se candidatou para o cargo de deputada distrital pelo Distrito Federal. Apesar de não ter sido eleita, ela usou o nome Bolsonaro como um “empurrãozinho” em sua campanha, para conseguir mais votos.
Sérgio Praça, professor da Fundação Getúlio Vargas, apontou que o fato de pertencer a uma família com tradição política, aumenta não só as chances de um candidato ser eleito, mas também de entrar para o cenário político. Isso seria um dos principais motivos para que tanto os Tatto quanto os Bolsonaro tenham poder e influência nas mãos.
Existe também a questão da credibilidade na hora de decisão dos eleitores. Se um eleitor se identifica com as pautas de um dos Tatto, é provável que ela vote em um deles ou nas indicações feitas por eles. Valenciano explica que, “em geral, o cidadão vota na família política, exatamente porque ele espera uma entrega de um resultado, com uma dominação que já vem de muito tempo.”
Sob essa perspectiva, é possível perceber que essas famílias podem ter grandes influências nos bastidores do cenário político. O empréstimo de sobrenome é colocado em prática e acaba se tornando um tipo de marca. Ou seja, os candidatos que se apossam e se apoiam de nomes, acabam sendo relacionados diretamente às pessoas que já estão no meio político e tem alguma relevância, seja ela positiva ou negativa.
O professor Ricardo Costa de Oliveira, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), afirma que “toda política brasileira é dominada por famílias ou clãs políticos, o que significa que todas as instituições políticas brasileiras são atravessadas por relação de parentesco”. Seguindo essa lógica, a ideia de que os clãs políticos realmente seriam uma espécie de grife se fortalece e confirma que pode existir candidatos novos em cada eleição, mas na realidade eles pertencem a grupos que já estão no poder.
Oliveira ainda destaca que essas famílias acabaram se tornando uma instituição dentro do cenário político e que isso facilita que as futuras gerações desses clãs continuem perpetuando as ideologias desse grupo.
O retorno financeiro
Valenciano destaca que a política precisa ser tratada muitas vezes como uma empresa, uma vez que aqui no Brasil existe uma rede de pessoas que depende das grandes campanhas políticas e das equipes de gabinetes para sobreviver. Seguindo essa lógica, o especialista ainda ressalta que apesar de muitos clãs quererem ajudar a população e suas demandas, eles possuem um retorno financeiro ao serem ativos na política.
Sob essa ótica, tanto Valenciano quanto Oliveira, revelam que não é somente os candidatos que lucram ao serem reeleitos em cada eleição, mas também quem participa de suas campanhas, que acaba garantindo de quatro em quatro anos uma renda. Muitas vezes, existe uma única grande equipe por trás de um clã, algo que vimos nas últimas eleições com os Bolsonaro.
Termos políticos sendo reeleitos por vários anos consecutivos já se tornou algo rotineiro no cenário de São Paulo. A força familiar nesse âmbito é renovada a cada eleição e a cada novo membro que adota um nome para entrar no jogo político. Apesar de não serem os mais importantes para o cenário político de São Paulo, os clãs possuem sua relevância ao manter a democracia viva, mesmo que para o próprio interesse.
Pela primeira vez em 28 anos, o PSDB foi derrotado nas eleições para o governo do Estado de São Paulo. Na disputa eleitoral entre Fernando Haddad (PT) e Tarcísio Freitas (Republicanos), a vantagem que levou o apoiador do presidente Jair Bolsonaro à vitória foi de 10,54%. Nesse sentido, especialistas acreditam que a ascensão de Tarcísio é explicada pela queda da importância do PSDB, em que os votos foram direcionados para uma direita mais conservadora.
No segundo turno da disputa, o candidato do Republicanos obteve 55,27% dos votos válidos contra 44,73% do petista. De acordo com dados do Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP), foram 6,76% votos brancos e 4,04% nulos. Em relação à taxa de abstenção, o percentual caiu de 21,63% para 21,07%, do primeiro para o segundo turno da eleição deste ano.
Na cidade de São Paulo, o candidato pelo PT, Fernando Haddad, venceu por 44,38%. Já no interior do Estado, quem venceu foi Tarcísio de Freitas. Grandes cidades interioranas como Bauru, Campinas e São José dos Campos tiveram resultado favorável ao aliado de Bolsonaro: 50,95%, 46,13% e 53,45%, respectivamente.

Bolsonarismo conquista espaço do conservadorismo tucano
Pesquisadora sobre o conservadorismo no Brasil, a professora doutora na PUC-SP Katya Mitsuko acredita que o pensamento conservador nos dias atuais, liderado por Bolsonaro e seus aliados, é um dos fatores que levou Tarcísio a ser eleito. Katya acredita na existência de uma ampla substituição do poder político tucano pelo poder bolsonarista justamente pelo discurso “personalista” que utiliza o elemento da família para chamar os eleitores, uma característica do conservadorismo brasileiro.
De acordo com Katya, a denominação de família tradicional, por exemplo, foi criada para servir como um símbolo ao cidadão conservador, uma espécie de identificação global com os pares que se identificam com essa representação. Como símbolos da família tradicional, a professora descreve essa representação utilizando o homem, a mulher e filhos. Ao fazer um contraponto com o cenário nacional, ela afirma: “Mentira, a história do Brasil deixa isso claro”.
Segunda Katya, é difícil encaixar esse padrão da família tradicional na sociedade brasileira, lembrando que as pessoas podem ter vida fora do casamento. Toma como exemplo o período de escravidão no país onde “pessoas foram casadas e amantes dos seus escravos”. “O mundo não é assim, mas, no entanto, se cria uma tradição e se pauta todo um movimento social em cima de uma tradição criada”, afirma.
Esse viés ideológico se firmou como uma forma de resposta às mudanças, com o desejo por estabilidade na condição social e econômica. Nesse sentido, Katya afirma que o pensamento conservador muitas vezes parte de uma classe mais alta, que quer consolidar sua posição na elite.
Analisando o histórico paulista, ela acredita que a força política da direita também não é de hoje e houve um longo processo histórico que perpetuou a tradição conservadora. “No meu entender, isso está estabelecido desde as bases da cafeicultura dos primórdios do republicanismo paulista. Isso é muito antigo”, afirma. Dessa forma, a pesquisadora aponta que, ao longo dos anos, apesar do conservadorismo ter se mantido presente no Estado, ele se alterou, pois é adaptativo. “Não dá para dizer que nós estamos falando dos mesmos conservadores de 1920 e que um sujeito conservador é imediatamente fascista”, argumenta.
Katya é moradora do município de Cerquilho, a 137 km da capital, no interior paulista, - que IDH alto de 0,782, segundo o Censo de 2010. Ela destaca que a cidade é bonita, limpa, tem transporte público gratuito e na maior parte dos anos foi liderada por partidos de direita. Por isso, segundo ela, se gera uma sensação de estabilidade no munícipe em votar na direita.
“Uma das coisas que o cerquilhense diz é: ‘Ah, vai mudar partido, mas a cidade continua’. Então também tem essa ideia de que ‘Para que eu vou votar na esquerda?’”, afirma.
Segundo apuração da reportagem, a gratuidade do transporte em Cerquilho é parcial e se baseia no serviço de “Tarifa Zero”, implementado e bancado pela gestão municipal desde outubro de 2020 e direcionado para toda população cerquilhense, cerca de 52 mil habitantes, segundo estimativa do IBGE 2020. De acordo com a prefeitura, o serviço inclui apenas algumas linhas de ônibus e com horários tabelados, não contemplando todos os itinerários de transporte público do município.
A professora destaca a religiosidade como ferramenta amplificadora para o pensamento conservador nas eleições deste ano. Associando a sensação de nostalgia ao conservadorismo, ela acredita que essa vontade de estar no passado também está presente no discurso evangélico, em que se utiliza a fé como forma de manter o passado no presente. "Os reacionários do conservadorismo acham que podem fazer a marcha ré, 'a família tradicional é o homem, a mulher e os filhos", afirma.
Outro ponto que a pesquisadora aponta sobre o conservadorismo nas igrejas é em relação à capacidade de modernização do discurso. Analisando algumas correntes evangélicas dos Estados Unidos e do Brasil, Katya afirma que essas se fundam pela tradição, mas buscam constantemente se manter atuais. "O conservador nem sempre vai se apegar apenas ao velho, muitas vezes a ideia é ressignificar a tradição de modo que ela se apresente como nova. É por isso que temos sempre conservadores presentes, eles se refazem o tempo todo", diz.
A cientista política Maria do Socorro Sousa Braga, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR), acredita que uma explicação para a direita estar muito presente no interior é a forma como o Estado desenvolve o seu crescimento econômico.
“O interior de São Paulo é muito rico. Recebe muito investimento. Tem várias empresas e, muitas delas, a direção apoia o atual presidente. Que, por sua vez, existe todo um trabalho para conseguir o apoio dos seus funcionários para o mesmo grupo político, que é o de Jair Bolsonaro”, ressalta Socorro.
Além disso, a cientista política reforça que a visão de estado mínimo agrada o conglomerado empresarial, e isso explica o motivo do antipetismo na região que, por tamanha força, representa o estado.
“A maior parte desse segmento empresarial apoia essa visão de Estado mínimo. Enquanto o PT, partidos de esquerda defendem um Estado provedor, de políticas sociais que abrangem a maior parte da sociedade, especialmente, as mais vulneráveis. Essa visão acaba se contrapondo a boa parte dos empresários que controlam as empresas no interior de São Paulo”, afirma Socorro. “Isso afeta o comportamento eleitoral dos trabalhadores dessas empresas, que podem temer seus empregos, caso venha uma força em outra direção daquelas que eles acreditam ser essencial para a continuidade da existência das empresas, o que não é verdade.”
Socorro menciona que a existência de igrejas tanto católicas como evangélicas também pode influenciar no comportamento eleitoral.
Para Monica Muniz, professora do departamento de sociologia da PUC-SP, esse conservadorismo também é representado, principalmente, pela questão fundiária, simbolizada por uma elite agrícola do interior do Estado.
Essa perspectiva contrapõe-se à visão que a maioria do eleitorado conservador tem sobre as pautas de esquerda nesse campo, como, por exemplo, o Movimento Sem Terra (MST), afirma. “Coloca muito medo nessa elite do interior. É uma elite que está enraizada e tem muito temor ligado ao discurso da reforma agrária ou do MST”, diz a professora ao CP Digital.
A queda do PSDB
De acordo com o Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP), nas eleições de 2022, 39 cidades da região metropolitana somaram 16,4 milhões de eleitores, e os 606 municípios do interior, 18,2 milhões. Tarcísio de Freitas venceu na maioria das cidades do interior. Ele perdeu para Haddad na capital do Estado.
Em 2018, na disputa entre Márcio França (PSB) e João Doria (PSDB), o tucano foi eleito no segundo turno com 51,7%. França teve 56,1% dos votos da Grande São Paulo e 41,2% do restante do Estado.
Em 2010, Geraldo Alckmin venceu no primeiro turno, com 50,6% - 46,4% na capital e 54,6% no interior. Em 2014, foi reeleito, vencendo em todas as cidades paulistas, com exceção de Hortolândia.
Anteriormente, em 2006, 2002, 1998 e 1994, foram eleitos José Serra, Geraldo Alckmin e Mário Covas (dois mandatos), respectivamente. Todos do PSDB.
Maria do Socorro comenta que, quando Mário Covas (PSDB) foi eleito em São Paulo ao mesmo tempo em que Fernando Henrique Cardoso (PSDB) foi eleito presidente, teve início a força do partido no Estado, o princípio de um apoio contínuo que a região teve ao PSDB. Essa "dobradinha" entre o diretório estadual e nacional fez com que o interior de São Paulo tivesse muitos ganhos. Houve muito investimento no interior de São Paulo.
Mas em 2022 a hegemonia do partido nas eleições do Estado chegou ao fim. Socorro aponta que a derrocada ocorre paralelamente ao crescimento do bolsonarismo no interior de SP, sinalizando a piora do PSDB no Estado. Ela explica que o fim do PSDB já podia ser visto desde a união "bolsodoria". No segundo turno das eleições de 2018, o então candidato ao Estado João Doria se aproximou de Jair Bolsonaro (PL) em uma aliança política batizada de “bolsodoria” para angariar mais votos do eleitor de direita.
A cientista política argumenta que a aliança de parcela do PSDB com o bolsonarismo construiu uma barreira entre quadros mais velhos do partido, conhecidos como “cabeças brancas”. A ala de deputados jovens do partido que apoiavam Doria votava alinhados ao presidente Bolsonaro em muitas pautas no Congresso, contrapondo-se o posicionamento dos integrantes mais velhos da legenda.
Para Maria do Socorro, essa heterogeneidade do próprio partido foi um dos fatores responsáveis pelo seu declínio. A falta de um consenso de seus membros e de uma unidade que minimizasse os problemas internos da sigla, revelou que o PSDB não deu conta de se manter popular, em comparação com outras legendas de mesma estatura e história. Socorro resume a situação do partido na seguinte expressão: “cavou a sua cova". declara Socorro.
O pensamento conservador, segundo análise de Monica Muniz, professora do departamento de sociologia da PUC-SP, é regido por uma mudança social interpretada como um termômetro que serve de orientação a esse grupo. Como lembra a professora, a história mostra que o lema ‘Deus, Pátria, Família’, utilizado como slogan político pelo bolsonarismo, esteve presente em momentos significativos no país: no movimento Integralista de 1930; na Ditadura Militar de 1964; e no atual debate político.
As transformações sociais, políticas e econômicas que ocorreram durante esses períodos, impactaram na maneira como a parcela da população que se identifica como conservadora, e seus representantes políticos, age de acordo com o momento. “É a mudança que traz essa reação. Ficam todos desesperados e vão em busca da ordem”, aponta Muniz.
As pesquisas de intenção de voto para a eleição ao governo do Estado de São Paulo apontavam um empate técnico entre o segundo e terceiro colocados – o candidato bolsonarista Tarcísio de Freitas (Republicanos), e o atual governador paulista, Rodrigo Garcia (PSDB). Os resultados, contudo, apontaram grande vantagem para Tarcísio. Em um cenário de desconfiança em relação ao sistema democrático brasileiro, é importante pontuar a atuação dos institutos por trás dos resultados nas pesquisas de 2022.
As pesquisas de intenção de voto têm o objetivo de projetar possíveis resultados para as eleições. Felipe Nunes, CEO da Quaest e doutor em ciência política pela Universidade da Califórnia, em Los Angeles, diz que o maior desafio dos institutos foi não ter conseguido estimar adequadamente o grau de abstenção eleitoral. Ele afirma já estar acostumado a ataques, principalmente de grupos que estão perdendo.
Nunes acredita que, para reverter essa situação, o único caminho é investir em uma educação que explicite as reais expectativas que a população deve ter a respeito do papel dos institutos. “Pesquisas são prognósticos, e não diagnósticos. Serve para retratar um dado momento da opinião pública brasileira, não devendo ser utilizadas para fins de previsão” diz, em entrevista ao Contraponto.
Segundo o Conselheiro Estadual da OAB/SP e doutor em direito das relações sociais pela PUC-SP Alexandre Rollo, os grandes perdedores nas eleições do Estado de São Paulo foram as pesquisas eleitorais.
O especialista ainda argumenta que existem explicações sobre os resultados coletados. Os fatores que podem ter alterado os dados, de acordo com o advogado, podem ter sido a falta da coleta do Censo antes do período eleitoral, organizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ou o boicote por parte dos apoiadores de Jair Bolsonaro às pesquisas eleitorais.
Em entrevista ao UOL News, a presidente do Datafolha, Luciana Chong, defendeu a tese de que houve uma dificuldade em coletar as intenções de votos bolsonaristas. Segundo ela, os ataques hostis à imprensa e, em especial, aos institutos de pesquisa, alteraram as proporções dos dados captados.
“No último mês, os ataques em relação às pesquisas, aos institutos, ao Datafolha especialmente, moldaram um clima de hostilidade e agressividade em relação aos pesquisadores. Em um ambiente normal, com outras condições, a gente teria captado algo mais do Bolsonaro na véspera."
Já Andrei Roman, cientista político e CEO do Instituto AtlasIntel, destacou para o jornal Correio Braziliense que existiu dificuldades em realizar cortes de rendas eficientes, além da dificuldade em registrar o "voto envergonhado", quando o eleitor não divulga seu voto até o momento da eleição por medo de represálias ou linchamento político.
Segundo a especialista em ciência de dados pela USP Paula Oliveira, os institutos devem investir no aprimoramento dos seus métodos, e assumir maiores custos operacionais para oferecer mais qualidade e confiança aos eleitores.
Boicote às pesquisas
Em 1986, o então candidato a prefeito para a capital paulista Franco Montoro (PSDB) pediu para que seus eleitores não respondessem às pesquisas eleitorais. Na época, empresas e institutos de pesquisa apontavam a vitória de Fernando Henrique Cardoso, que então estava filiado ao PMDB.
Algo similar aconteceu nas eleições para presidente de 2022, onde blogueiros e políticos próximos a Bolsonaro incentivaram a fraude das pesquisas. Durante o período eleitoral, o Ministro das Comunicações Fábio Faria clamou por boicote publicamente. “Quero dizer ao povo brasileiro: não respondam mais nenhuma pesquisa desses institutos de pesquisa, nem Datafolha nem Ipec”, diz em vídeo publicado em suas redes sociais.
Foi protocolado, neste ano, o Projeto de Lei, na Câmara de Deputados, que previa punição para institutos de pesquisa que não acertassem o resultado das urnas. Segundo a proposta, enviada pelo deputado Ricardo Barros (PP-PR), a punição é de 4 a 10 anos de prisão para líderes de grupos de coleta de dados eleitorais.
Rollo também afirma que a criação de um crime para institutos que erram resultados não é a solução, já que o crime apenas existiria como “prova de dolo de falsear” um levantamento de intenção de votos, que não se parece com o cenário atual, segundo ele.
Outros especialistas também apontam que a falta de regulamentação dos institutos de pesquisa podem causar dúvidas e questionamentos na população, porém acham o projeto de lei inconstitucional.
Segundo Turno
Sobre os resultados nas urnas, o doutor em direito constitucional pelo Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa de Brasília (IDP/DF) Acacio Miranda afirma que o reconhecimento dos resultados é, inegavelmente, mais importante para a democracia brasileira do que manter o foco sobre os erros das pesquisas eleitorais.
“Zelar pela Constituição significa reconhecer o resultado divulgado pela justiça eleitoral, seja qual for o resultado. Eventuais questionamentos posteriores são legítimos, mas eles passam, necessariamente, por um primeiro reconhecimento que é essencial para a pacificação social”, afirma o especialista.
O resultado das eleições para governador de São Paulo colocou em destaque a força do antipetismo no interior paulista. Tarcisio de Freitas (Republicanos) obteve 55,27% dos votos, enquanto Fernando Haddad (PT), 44,73%. As cidades do interior e do litoral foram decisivas para esse resultado.
O eleitorado do interior de São Paulo apoia e se identifica com as pautas defendidas pelo candidato bolsonarista, como a liberação das armas, e se afasta da esquerda, diferentemente da capital, explica Vinicius Alves, cientista político e pesquisador da Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR). “O interior, desde sempre, tem uma mente mais conservadora, por conta do agronegócio, da religião e do que aconteceu nos últimos anos com o PT. Esses elementos ficaram fixados no imaginário dessa população e, com tudo isso, criou-se o antipetismo”, complementa.
Não é à toa que a campanha de Tarcísio focou nos votos da população de cidades pequenas ou médias, como Campinas, Barretos e Sorocaba. Diferentemente de Haddad, que encontrou dificuldades para atingir esse público e teve que cancelar a agenda de campanha em Presidente Prudente, após receber um áudio com apoiadores do Bolsonaro combinando de hostilizar o candidato. A assessoria do petista justificou o cancelamento da passagem pela região devido à “ameaças explícitas à passagem do candidato na cidade”, disse a assessoria do petista.

“O PT hoje é um partido que se alinha com pautas da minoria: movimento negro, movimento LGBT, pautas ambientais. Então, quanto mais você sai dos grandes centros, menos essas pautas são aceitas. (...) Nessas eleições, muitas fake news foram criadas para indignar essas pessoas que têm esse pensamento mais conservador”, explica Marco Teixeira, cientista político e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV).
Teixeira complementa que Haddad até tentou se aproximar desses locais, mas não foi bem aceito. Por isso, o foco maior da campanha foram os grandes centros, como na capital de São Paulo, onde obteve 54,41% dos votos, contra 45,49% do candidato bolsonarista.

Relação das cidades pequenas com a religião
Na cidade de Pinhalzinho, com cerca de 15 mil habitantes e a 112 km da capital paulista, Tarcísio recebeu 68,94% de votos, contra 31,06% do petista no segundo turno. Durante a campanha, foram organizadas passeatas a favor do governador eleito em que houve grande mobilização das igrejas evangélicas da cidade, além da participação de moradores de municípios vizinhos, como Bragança Paulista, Socorro e Amparo. A oposição foi quase inexistente nesses locais.

Muitos fiéis da igreja repetiram o discurso do líder religioso. Na primeira semana após o primeiro turno, uma seguidora que não quis ser identificada, vestida com uma camiseta do Brasil, saiu de um culto com uma Bíblia em mãos e foi até a lotérica em que Giovana Silvestre, de 19 anos, trabalha para pedir voto ao seu candidato.
Ao chegar, a cristã começou a defender a candidatura do atual presidente Jair Bolsonaro (PL) e de Tarcísio. “Eu não entendo como alguém pode defender esse traste [Lula], e ainda querem trazer a gangue dele para São Paulo [Haddad]. Não podemos deixar isso acontecer!”, afirmou a senhora. Giovana relata que expressou discordância da fala em sua expressão facial, o que desencadeou a pergunta: “Você é petista? Por favor, não me bata. Vocês do PT são tudo loucos!” Depois, a senhora saiu brava do estabelecimento.
O acontecimento é um retrato do antipetismo forte nas cidades do interior, reforçado ainda por um discurso religioso. O pastor da igreja, que também não quis se identificar, afirma que pede votos ao candidato Bolsonaro “pelos cidadãos de bem'', para a ‘quadrilha’ não voltar ao poder. "E para nós podermos frequentar aqui [igreja] sem sermos perseguidos."
O agronegócio com Tarcísio
Outro aspecto que mobiliza o interior de São Paulo é o agronegócio. Ribeirão Preto, que está a 315 km da capital, se identifica como o município do agro e, não coincidentemente, Tarcísio ganhou no local com 59,56% dos votos. Um produtor de hortifruti local diz que ficou feliz com a vitória de Tarcísio, e que, diferentemente do governo do atual tucano e do ex-governador João Doria, ele tem esperança de melhorias em São Paulo e da valorização de seu trabalho.
O empresário do ramo da mineração Arthur Silva mora em Bragança Paulista. Ele afirma que não teria como Fernando Haddad governar para ele e para a sua classe, uma vez que acredita que perderia alguns privilégios, mas não quis citar quais eram. Em seu escritório, há bandeiras do Brasil espalhadas pela parede.
Tarcísio agradece ao interior
“Eu agradeço muito o interior do nosso Estado, que foi fundamental nessa vitória. Vamos trabalhar muito em prol do interior. (...) Agradeço muito ao nosso interior do Estado, assim como agradeço os mais de 3,4 milhões de paulistas que depositaram esse voto de confiança e a todo o Estado de São Paulo”, discursou Tarcísio na vitória.
No plano de governo do bolsonarista, a gestão foi dividida em três segmentos: desenvolvimento social, desenvolvimento urbano e do meio-ambiente, desenvolvimento econômico e inovação. Até o momento, as pautas de transição estão alinhadas com a trajetória dele no governo Bolsonaro, sendo os principais temas de infraestrutura que atingem principalmente o interior do Estado.
“Os problemas de infraestrutura se espalham por São Paulo, mas se concentram no interior. Há demandas de manutenção e construção de estradas, problemas de logísticas, escoamentos de produção etc. Boa parte das propostas de Tarcísio é para o interior, principalmente no âmbito da infraestrutura, que é uma demanda daquela população”, diz Teixeira.
Contudo, o governador eleito encontrará dificuldades para fazer a gestão da capital, uma vez que o ponto de atenção é a segurança pública, aspecto preocupante para esses moradores, já que grande parte não está de acordo com as medidas propostas, como a reavaliação do uso das câmeras nos uniformes dos policiais. “A segurança é o maior ponto de atenção dele [Tarcísio]. A violência é, sobretudo, um tema metropolitano”, conclui o cientista político.