Brigadas no exterior do Movimento Sem Terras são símbolo de resistência
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Enrico Peres, Fernando Amaral, João Palhares e Liz Ortiz
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18/06/2026

Por Enrico Peres, Fernado Amaral, João Lucas Palhares e Liz Ortiz

 

A história do MST sempre representou muita luta. O movimento, que foi formado em janeiro de 1984 a partir de uma união de trabalhadores rurais que convergiram no primeiro Encontro Nacional, realizado em Cascavel, no Paraná, é o resultado da grande necessidade de - no Brasil. Após o evento de janeiro de 84, foi realizado o primeiro Congresso do MST em janeiro de 1985, e dele as ideias de ocupação como forma de luta, junto dos princípios do movimento relacionados a luta pelas terras, reforma agrária e o socialismo começaram a ser idealizados.  Entre fracassos e sucessos, como o assentamento de 90 mil famílias graças ao Plano Nacional da Reforma Agrária, realizado em pequena escala em relação com a prévia inicial de 1,5 milhão, a realização do segundo Congresso do movimento, em Brasília, com a reafirmação das ocupações em pauta, o MST crescia em sua infraestrutura e dentro do âmbito político nacional. 

Junto a isso, em 1993, foi criado a Via Campesina, um conjunto internacional que aglutinava organizações camponesas, pequenos agricultores, trabalhadores agrícolas e comunidades indígenas. A fundação oficial do grupo se deu em uma conferência internacional realizada em Mons, na Bélgica, com presença do MST, que era aliado desde antes da concepção da Via Campesina. Com esse conjunto operante, se abriram portas dentro do MST para dialogar com movimentos campesinos no mundo inteiro em prol de restaurar a soberania alimentar em países agredidos pelo imperialismo. 

A história do MST sempre representou muita luta. O movimento, que foi formado em janeiro de 1984 a partir de uma união de trabalhadores rurais que convergiram no primeiro Encontro Nacional, realizado em Cascavel, no Paraná, é o resultado da grande necessidade de - no Brasil. Após o evento de janeiro de 84, foi realizado o primeiro Congresso do MST em janeiro de 1985, e dele as ideias de ocupação como forma de luta, junto dos princípios do movimento relacionados a luta pelas terras, reforma agrária e o socialismo começaram a ser idealizados.    Entre fracassos e sucessos, como o assentamento de 90 mil famílias graças ao Plano Nacional da Reforma Agrária, realizado em pequena escala em relação com a prévia inicial de 1,5 milhão, a realização do segundo Congresso do movimento, em Brasília, com a reafirmação das ocupações em pauta, o MST crescia em sua infraestrutura e dentro do âmbito político nacional.   Junto a isso, em 1993, foi criado a Via Campesina, um conjunto internacional que aglutinava organizações camponesas, pequenos agricultores, trabalhadores agrícolas e comunidades indígenas. A fundação oficial do grupo se deu em uma conferência internacional realizada em Mons, na Bélgica, com presença do MST, que era aliado desde antes da concepção da Via Campesina. Com esse conjunto operante, se abriram portas dentro do MST para dialogar com movimentos campesinos no mundo inteiro em prol de restaurar a soberania alimentar em países agredidos pelo imperialismo.    Mulheres Membras da Vía Campesina em Tlaxcala, México, em 1996. Reprodução: Capire  O MST começou a organizar brigadas internacionais, mas foi antes das brigadas e até antes da criação da Via Campesina que o MST possui essas relações e ambições internacionais. Conversamos sobre a história do Internacionalismo do movimento e sobre as brigadas com Judite Santos, membro da Coordenação Nacional e militante do MST. Para ela, o Movimento sem Terras nasceu como uma organização internacionalista, carregando heranças de lutas anteriores no Brasil e na América Latina
Mulheres Membras da Vía Campesina em Tlaxcala, México, em 1996. Reprodução: Capire

O MST começou a organizar brigadas internacionais, mas foi antes das brigadas e até antes da criação da Via Campesina que o MST possui essas relações e ambições internacionais. Conversamos sobre a história do Internacionalismo do movimento e sobre as brigadas com Judite Santos, membro da Coordenação Nacional e militante do MST. Para ela, o Movimento sem Terras nasceu como uma organização internacionalista, carregando heranças de lutas anteriores no Brasil e na América Latina e revoluções que estavam acontecendo junto da crescente do MST. Essa bagagem histórica faz os militantes carregarem esse senso de senso de processo revolucionário, de estarem fazendo por meio das brigadas, segundo Judite, um dever humanitário.  

Os militantes que se voluntariam para as missões internacionais são coordenados e orientados antes das missões, para estarem preparados na hora do contato com uma cultura diferente, realizando um processo de estudo sobre a história e da formação social, política e econômica do país para evitar um grande choque cultural. Isso se dá pelas brigadas não serem apenas missões ocupacionais, são também uma ajuda com objetivo de restaurar a cultura de povos sob ameaças constantes do imperialismo. Ao realizar uma brigada internacional, as pessoas que lá vão entram também em contato com comunidades agredidas que precisam de ajuda.  

Na Zâmbia, o MST faz um processo de alfabetização com crianças e adultos da região, assim como já fizeram em Cuba. Atualmente, existem brigadas na Zâmbia, Venezuela, onde atuam desde 2005 e no Haiti, que, após o terremoto que devastou o país em 2010, sempre é ajudado pelos militantes. Na Venezuela, com os acontecimentos recentes do ataque imperialista que o governo estadunidense realizou, aconteceu a Brigada Pela Solidariedade, que levava a juventude do MST para visitar o território.  Uma outra grande missão foi a Brigada Ghassan Kanafani, realizada na Palestina que ajudava camponeses na colheita de azeitonas, pois lá era uma área que constantemente era atacada pelo exército de Israel. Devido ao aumento do conflito e das invasões israelenses, a brigada não consegue mais ser realizada. 

Além das brigadas, Judite contou também de sua história e sua relação com o movimento. Filha de trabalhadores rurais, ela cresceu com o projeto em sua vida e, em sua formação, foi se tornando uma militante. A família de Judite, que não possuia terras, conheceu e entrou no MST após o massacre de Eldorado dos Carajás, realizado em abril de 1996. Na ocasião, uma manifestação de reinvindicações dos direitos dos trabalhadores, que fizeram uma marcha até a cidade de Belém, no Pará, acabou com a morte de 21 trabalhadores pela polícia do estado do Pará. Esse acontecimento levou a intensificação pela luta de terras. Hoje, a família de Judite é assentada e ainda é ativa no MST.  

Judite Santos durante a Secom, em 2024. Foto: Rafa Neddermeyer/ Secom
Judite Santos durante a Secom, em 2024. Foto: Rafa Neddermeyer/ Secom

A luta do Movimento Sem Terras continua, com diversas articulações internacionais, movimentos, organizações que conseguem se mobilizar para o futuro da luta dos povos, cada vez dialogando mais com diferentes povos. A Via Campesina, hoje, abriga 180 organizações e mais de 80 países, e se articula com o objetivo de lutar pela independência e pela soberania de países agredidos. 

 

 

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Após anos de permanência no território, moradores veem a regularização da terra se aproximar e celebram uma trajetória marcada por trabalho, luta e pertencimento. 

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Maria Dantas, Pedro Menezes e Yan Gutterres
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18/06/2026

Por Maria Dantas, Pedro Menezes e Yan Gutterres

 

Em uma área cercada por condomínios de alto padrão e pela intensa valorização imobiliária da Região Metropolitana de Campinas, centenas de famílias celebram uma trajetória marcada pela resistência, pela produção de alimentos e pela luta por moradia e reforma agrária. O Acampamento Marielle Vive, organizado pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), completa oito anos de existência, se consolidando como uma das principais experiências de organização popular do estado de São Paulo.

Fundado em 2018, o acampamento surgiu a partir da ocupação da fazenda Eldorado Empreendimentos, considerada improdutiva em Valinhos. Desde então, o local passou por disputas judiciais, ameaças de despejo e desafios relacionados à permanência das famílias no território. Apesar das dificuldades, a comunidade conseguiu estruturar uma experiência coletiva que vai além da reivindicação pela terra, incorporando práticas de produção agrícola, educação popular, preservação ambiental e fortalecimento dos laços comunitários. O nome escolhido para o local homenageia a vereadora Marielle Franco, assassinada no Rio de Janeiro poucas semanas antes da ocupação. A escolha refletia o momento político vivido pelo país e também os valores defendidos pelas famílias que chegavam ao terreno: a luta por direitos, justiça social e participação popular.

No dia 18 de julho de 2019, as famílias do MST estavam na Estrada do Jequitibá, na cidade de Valinhos, interior de São Paulo, realizando um ato de denúncia aos poderes públicos locais por conta da falta da garantia do direito à água. Entre elas estava Seu Luís, como era conhecido por todos, um nordestino que, como tantos homens e mulheres, tinha migrado à região sudeste do Brasil em busca de trabalho. Neste dia, Seu Luís foi atropelado pelo vendedor Léo Luiz Ribeiro durante uma manifestação por falta d’água de moradores. A caminhonete acelerou por trás de um ônibus que estava parado, entrou na contramão e passou por cima das pessoas (acampadas e apoiadores) que estavam participando da jornada pela água e fugiu sem prestar nenhum socorro.

Gerson Oliveira, coordenador do acampamento, conta que a fazenda já tinha sido ocupada cerca de dez anos antes do Marielle Vive, mas foram despejados de forma violenta após mobilização e forte repressão da tropa de choque. Decidiram, então, em 2015 retomar o trabalho de base em Campinas, e passaram a estudar a realidade econômica da região e de como a crise se instalava nas periferias, influenciado pela saturação da região metropolitana de São Paulo, onde o município do interior paulista passou a ser o foco da imigração. A cidade, porém, não conseguia mais acolher os trabalhadores na mesma intensidade de antes, o que resultou na formação de bairros periféricos.

Coordenador do Acampamento, Gerson Oliveira, discursando no aniversário do acampamento
Gerson Oliveira discursando no aniversário do acampamento. Foto: Yan Gutterres

A cidade de Campinas foi fundamental para o processo de retomada daquela terra. Gerson relata que foi uma redescoberta de Campinas pelo MST, pois ali era uma região que sempre deu bons frutos para o movimento, contribuindo para a exportação de militantes, sendo crucial para a construção do MST no estado de São Paulo, já que muitos dos trabalhadores vivendo nas áreas periféricas da cidade já haviam participado da luta anteriormente, então o contato e principalmente o convencimento de retomar esse processo de luta aconteceu de maneira muito fácil e muito natural.

Enquanto o primeiro ônibus chegava na frente da fazenda, o último comboio ainda estava chegando na cidade de Valinhos, há cerca de 8,5km dali. Quando as primeiras famílias chegaram à área, na madrugada do dia 14 para o dia 15 de abril de 2018, encontraram um terreno marcado pelo abandono. O que viria depois foi resultado de um processo coletivo construído diariamente por homens, mulheres, jovens e crianças que decidiram apostar na permanência e na organização comunitária. Segundo Gerson, o cenário era de muito frio - menos de 10°C - e o mato estava em uma altura que chegava até a cintura. Diante disso, de imediato os trabalhadores e trabalhadoras se mobilizaram. Ainda nas primeiras horas, começaram a surgir os primeiros esforços para erguer estruturas improvisadas, limpar áreas para barracos e organizar a ocupação do terreno, transformando o cenário de abandono em um ambiente em processo de construção comunitária. 

Apesar disso, o cotidiano do acampamento nunca se resumiu à disputa pela terra. Entre processos e tentativas de despejo nos tribunais, parte da comunidade se dedicava às articulações políticas e jurídicas pela permanência na área. Paralelamente, a produção agrícola foi se consolidando como eixo central da vida no território. Hortas comunitárias passaram a ocupar espaços antes tomados pelo mato, e diferentes culturas começaram a ser cultivadas de acordo com a experiência e o conhecimento trazido pelas próprias famílias. Aos poucos, o território passou a produzir alimentos que abastecem feiras, mercados locais e iniciativas de comercialização direta, aproximando produtores e consumidores.

O acampamento também teve sua importância no aspecto político. Em um momento no qual o Brasil passava por momentos turbulentos, desde o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, em 2016, até a ascensão da extrema direita em 2018, com a eleição do ex-presidente Jair Bolsonaro, o Marielle Vive foi essencial, dando uma espécie de injeção de ânimo para a esquerda na região. Para Gerson, em determinado momento o local passou a ser uma trincheira, reunindo atos e juntando militantes de diversos partidos de esquerda. Ele também conta que era incrível olhar toda aquela mobilização, tanto por conseguir juntar diversas frentes para conversar sobre o processo de luta que estava sendo vivido ali, quanto pelo fato de nunca ter havido antes uma perspectiva de como a luta pela terra pudesse ser uma vanguarda de reunião da classe.

Uma das principais marcas do acampamento é a produção agrícola desenvolvida pelas famílias. Em áreas coletivas e lotes cultivados pelos moradores são produzidos alimentos como hortaliças, frutas, legumes e ervas medicinais, parte deles destinados ao consumo interno e parte comercializados em feiras e circuitos de economia solidária. Sueli Oliveira é uma das quase 800 pessoas que residem no acampamento, trabalhando principalmente na agricultura do local. Além da produção, os moradores organizam mutirões, assembleias e atividades coletivas que contribuem para a manutenção da infraestrutura local e para a tomada de decisões da comunidade. 

Sueli é um exemplo de como a luta pela terra segue viva. Ela relata que o acampamento a reencontrou depois de uma vida marcada pelo trabalho, pela criação dos filhos, pela viuvez e por uma sensação que o movimento soube acolher: a de que ainda havia lugar para ela na história. Sueli passou a infância na área rural, no Paraná, até que a lógica da monocultura e a necessidade de sustentar a família empurraram seus parentes para a cidade. Foi ali que a terra ficou para trás, enquanto o peso do trabalho se acumulava. 

No Marielle Vive, ela diz ter voltado, de algum modo, à primeira infância, e também a uma forma de pertencimento que havia se perdido ao longo do caminho. A vivência da agricultora se entrelaça à trajetória do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), oficializado em 1984, mas gestado na década de 1970 por meio de ocupações de áreas improdutivas. O movimento nasceu do encontro entre a concentração fundiária no Brasil, a modernização desigual do campo e a resistência de famílias que se recusaram a aceitar a exclusão como destino. Desde então, a reforma agrária deixou de ser apenas uma pauta legal e se tornou também uma disputa por permanência, trabalho e dignidade.

Sueli lembra que, no começo, não havia água encanada, o acesso era difícil e a rotina incluía ir até a cidade buscar água para a cozinha coletiva. Ela relata episódios de tensão com a polícia, que por vezes derrubava a água transportada para o acampamento, além de documentos rasgados e da sensação permanente de enfrentamento. Ainda assim, insiste ter sido ali que encontrou sentido para continuar. 

Sueli trabalhando na horta do acampamento
Sueli trabalhando na horta do acampamento. Foto: Maria Dantas

Enquanto trabalha na horta, ela conta que cada função dentro do acampamento é revezada entre os moradores a cada dia, desde a produção agrícola, passando pela manutenção da infraestrutura do acampamento, como moradias, cozinhas coletivas e espaços de convivência, até os trabalhos de educação e alfabetização, com atividades de Educação de Jovens e Adultos (EJA), projetos de alfabetização e formação política e cultural. Ela explica também que esse processo de participação coletiva vem desde a infância. As crianças que vivem no acampamento são incentivadas a acompanhar as atividades da comunidade e a compreender a importância do trabalho coletivo, da cooperação e do cuidado com a terra. 

A permanência no local representa também uma forma de resistência pessoal. Depois de criar os filhos e vê-los seguir a vida na cidade, Sueli diz que não queria se tornar um peso para a família nem passar a velhice isolada e adoecida. No movimento, encontrou outra forma de viver a maturidade: com tarefas, convivência e propósito.

Passada a comemoração pelos oito anos de luta, o Marielle Vive passa agora por uma etapa decisiva. Após anos de disputas judiciais, mobilizações e permanência no território, o governo federal anunciou em 2026 a compra dos terrenos da fazenda Eldorado para o assentamento das famílias que vivem no local. O Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) iniciou as tratativas para transformar a área em um Projeto de Desenvolvimento Sustentável, voltado à produção agroecológica e à preservação ambiental. 

Para os moradores, porém, o assentamento representa mais do que a regularização da posse da terra. Significa o reconhecimento de uma experiência construída coletivamente ao longo de oito anos, em que barracos deram lugar a moradias, áreas abandonadas se transformaram em espaços produtivos e a luta pela terra se converteu também em uma luta por pertencimento. Enquanto o processo segue em andamento, as famílias continuam cultivando alimentos, formando novas gerações e mantendo viva a organização comunitária que permitiu ao Marielle Vive resistir até aqui.
 

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Mais do que uma forma de arte, a música funciona como ferramenta política. No Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) ela se apresenta como um registro de sua história e luta.
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Laila Santos e Julia Cesar Rangel
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18/06/2026

Por Laila Santos e Julia Cesar Rangel

 

A música ocupa um papel central no cotidiano e na organização do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Ela está presente desde as primeiras ocupações de terra até as atividades mais recentes do movimento. Mais do que uma forma de arte, a música funciona como ferramenta política, ajuda a fortalecer a identidade coletiva, serve como espaço de aprendizado e também registra a história da luta pela terra no Brasil. Ao longo de mais de 40 anos, as músicas criadas dentro do movimento surgiram da necessidade de mostrar a realidade dos trabalhadores rurais e fortalecer a união entre eles.

Segundo Dandara, integrante da Coordenação Nacional do Coletivo de Cultura do MST, a música é “a linguagem mais familiar e cotidiana” do movimento. Ela explica que não existe ocupação, marcha, feira, festa ou acampamento sem música. Essa relação existe desde o começo da organização. Embora o MST tenha sido fundado oficialmente em 1984, o primeiro registro musical com composições próprias do movimento surgiu em 1985, com a fita cassete "Dor e Esperança", gravada de forma simples pelos próprios militantes.

A presença da música no MST também está ligada à história do próprio movimento. Antes mesmo da fundação oficial, a música já fazia parte da vida no campo e das lutas populares que vieram antes do MST, como as Ligas Camponesas, a Guerra do Contestado e outros movimentos rurais. Além disso, grupos como as Comunidades Eclesiais de Base e a Comissão Pastoral da Terra ajudaram a fortalecer o uso da música como forma de mobilização e organização coletiva.

Nesse contexto, a música ajuda a construir o significado do que é ser “Sem Terra”. Para o movimento, essa identidade não está ligada apenas à falta de terra, mas à experiência coletiva da luta. Segundo Dandara, “é uma identidade produzida pela luta”. As músicas ajudam a comunicar os debates internos do MST, seus valores políticos e as pautas de cada momento histórico. Ao mesmo tempo, fortalecem os laços entre as pessoas do movimento, reforçando a ideia de coletividade.

As canções também têm diferentes funções políticas e sociais. Muitas denunciam injustiças, falam sobre resistência e incentivam a luta. Outras ajudam a espalhar informações importantes dentro dos assentamentos e acampamentos, principalmente em épocas em que o acesso à comunicação era mais difícil. Durante as mobilizações pela educação no campo, por exemplo, várias músicas defendiam a alfabetização, a reforma agrária e uma educação ligada à realidade dos trabalhadores rurais. Além da comunicação interna, a música também serve para dialogar com a sociedade. O MST usa a cultura para explicar suas pautas, disputar narrativas e mostrar sua visão de país. Dandara afirma que a música do movimento também “incomoda” adversários políticos, justamente porque deixa claros os conflitos de classe ligados à disputa pela terra. Assim, a produção musical se torna também uma forma de enfrentamento político.

Nos assentamentos e acampamentos, a diversidade cultural brasileira aparece nos diferentes estilos musicais presentes no dia a dia. Ritmos como forró, toada amazônica, chamamé, rasqueado e moda de viola convivem com cantos religiosos e músicas ligadas ao trabalho no campo. Essa mistura mostra que, mesmo com diferenças regionais, existe uma unidade cultural construída em torno da luta pela terra e da identidade Sem Terra.

Outra característica importante da produção cultural do MST é a relação entre música e trabalho. Nos últimos anos, iniciativas como o bloco carnavalesco Pisa Ligeiro, criado em Minas Gerais, passaram a usar enxadas como instrumentos musicais. A ideia é transformar um símbolo do trabalho rural em elemento artístico. Segundo Dandara, o uso das enxadas reforça a identidade camponesa e conecta três partes da vida no campo: a produção agrícola, a resistência e a cultura.

Essa experiência inspirou outras iniciativas, como orquestras de enxadas em diferentes estados do Brasil. Além do impacto visual, a prática também desenvolveu técnicas musicais específicas, explorando os sons produzidos pelos diferentes tamanhos e formatos das ferramentas. Para o MST, esse tipo de manifestação mostra que a cultura popular nasce da vida cotidiana e do trabalho coletivo.

A música também tem um papel importante na preservação da memória histórica do movimento e das lutas populares. As canções ajudam a registrar acontecimentos, manter vivas experiências de resistência e conectar diferentes gerações de militantes. O repertório do MST dialoga tanto com momentos históricos brasileiros quanto com experiências internacionais, como a Comuna de Paris e a Revolução Russa. Músicas como “A Internacional” aproximam o movimento de outras lutas sociais ao redor do mundo e reforçam a ideia de internacionalismo presente no MST.

Ao mesmo tempo, a produção musical continua mudando com o tempo. Sem abandonar suas raízes camponesas, as músicas mais recentes passaram a incluir debates sobre racismo, gênero e política, mostrando os desafios atuais enfrentados pelo movimento. Iniciativas como a Oficina Nacional de Música, realizada em Belo Horizonte, reforçam a importância da formação artística dentro do MST, com estudos de composição, canto, instrumentos e expressão corporal. Entre tradição e renovação, a música no MST continua sendo uma forma de resistência, aprendizado e organização coletiva. Mais do que acompanhar a história do movimento, ela ajuda a construir sua identidade, preservar sua memória e fortalecer a luta social no cotidiano dos trabalhadores rurais.

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Quando a luta é pela terra e pela transformação social, a música também se torna instrumento de resistência. Nos acampamentos, assentamentos e mobilizações, ela fortalece a memória coletiva, aproxima gerações e dá voz ao projeto popular construído pelo MST.
por
Laila Santos e Julia Cesar Rangel
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18/06/2026

 

 

Por Laila Santos e Julia Cesar Rangel

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Com atuação em diversos estados, o LGBTs Sem-Terra transforma experiências de invisibilidade em organização política, formação e resistência coletiva.
por
Natália Perez e Wanessa Celina
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18/06/2026

Por Natália Perez e Wanessa Celina

 

Guimarães Rosa, em seu livro Grande Sertão: Veredas, ecoa: “Coração cresce de todo lado. Coração vige feito riacho colominhando por entre serras e varjas, matas e campinas. Coração mistura amores. Tudo cabe”. A terra tem uma relação intrínseca com as pessoas, além da concepção de países ou cidades, ela é fundamental para a construção identitária. Crescer, viver ou morar em uma metrópole ou na zona rural inegavelmente gera características diferentes aos indivíduos - porém o conceito ainda mais relevante a ser entendido aqui é o de habitar, sentir e perceber a terra em que se ocupa.

A identidade sempre esteve ligada ao acesso à terra e ao reconhecimento de quem podia pertencer plenamente à sociedade. Desde o período colonial, o acesso ao território definiu quem podia pertencer plenamente à sociedade e quem seria empurrado para as margens: restringido, concentrando e excluindo populações inteiras. Décadas depois, movimentos sociais organizados passaram a disputar não apenas o espaço físico, mas o direito à dignidade e ao reconhecimento.

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) ultrapassa a luta pela reforma agrária e se consolida como espaço de construção coletiva de cidadania. Nos assentamentos, a terra deixa de ser apenas meio de produção e passa a representar a luta ancestral pelo direito ao pertencimento, comunidade e proteção social para grupos historicamente marginalizados. 

Foi nesse chão que Anindayê, Thaisson e Luana - militantes integrantes do coletivo LGBT+ na organização - e tantos outres aprenderam primeiro a se reconhecer como sem-terra antes mesmo de compreenderem suas próprias dissidências de gênero e sexualidade. Crescer em assentamentos significou entender, desde cedo, o valor do coletivo, da partilha e da resistência. Para além de um movimento de luta popular pela disputa territorial e pela reforma agrária, o MST faz-se referência de formação humana e política.

Para muitas pessoas LGBTQIA+, especialmente no campo, esse processo significou também a possibilidade e espaço seguro para pensar, entender a si mesmo e, por vezes, pela primeira vez de verdadeiramente pertencer. Identidades que nascem primeiro no território antes de ganharem nome no próprio corpo.

“Existe uma diversidade bem grande dentro do movimento. Recentemente houve o primeiro encontro Trans do MST, em que a gente estava lá junto, presenciou junto. Dialogamos sobre os nossos direitos, até de existir que, na verdade, é uma pauta maior que a existência: é a resistência”, explica Thaisson, coordenador do coletivo LGBT+ no Paraná.  

“O Sertão é dentro da gente”

Para quem cresce dentro do MST, antes de qualquer formulação teórica sobre identidade, gênero ou sexualidade, existe a experiência concreta da terra: o cheiro da plantação, o trabalho coletivo, os encontros, as marchas, os barracos erguidos em ocupações e a noção, construída desde cedo, de que existir também é ocupar espaço. Nos assentamentos, a identidade sem-terra não é apenas política – ela é afetiva. Está na maneira como crianças aprendem cedo o significado de comunidade, de partilha e de resistência. Em um país onde a exclusão territorial historicamente definiu quem teria dignidade e cidadania, crescer dentro do movimento sem terra significou aprender que ninguém existe sozinho. 

Ali, a violência histórica se transforma em experiência coletiva de enfrentamento. Embora o MST não possua um levantamento nacional sobre a quantidade de integrantes LGBTQIA+ em seus acampamentos e assentamentos, o Coletivo LGBT Sem Terra está presente com mais de 300 militantes organizados em diferentes estados do país.

“Eu posso dizer que para mim nunca foi estar só. Sempre teve gente. Principalmente mulheres”, descreve Aline Luana, integrante da coordenação do Coletivo. Formalizado em 2015, após o primeiro seminário nacional sobre diversidade sexual do movimento. Em um processo de amadurecimento interno que vinha crescendo, o encontro contou com mais de 30 integrantes. Não se tratava apenas de inserir uma “nova pauta” dentro da reforma agrária, mas de compreender que corpos LGBT+ também fazem parte da construção do campo brasileiro e da luta popular. 

Com presença cada vez mais nítida, somaram-se sem vergonhas ou amarras para serem vistos. “Sou uma mulher preta, mãe, lésbica. Todo dia, eu levanto motivada a entender a minha tarefa e que eu não estou movendo só a mim. Eu estou movendo muita gente”, completa ela. Mas, insistir na própria existência, dentro de estruturas historicamente marcadas por valores tradicionais que nem sempre soube acolher diferenças, não é fácil. Ao sair do caminho imposto a ela, ainda no processo de amadurecimento identitário, Aline viveu um choque, que mudou sua forma de pensar sua existência: “Eram mais ou menos 20 homens brancos sentados à minha volta me fazendo questionamentos sobre por que eu não estava mais namorando um homem e que história era essa de eu ser lésbica”, lembra.

Foi naquele momento, ainda jovem em sua militância, que ela se deu conta da missão à sua frente: “O meu afeto, de quem eu gosto, com quem eu quero me relacionar afetivamente, isso não tem que ser ponto de pauta de reunião de ninguém. A minha construção coletiva de luta está aqui e ela é com homens e com mulheres”. 

Em camadas, o pertencimento aparece e se constroi. Primeiro, há o pertencimento à terra, ao coletivo, à luta social e, então, a possibilidade de pertencer a si mesmo – em um de seus mantras mais marcantes, ela se entendeu em si: “A partir de agora, a sua tarefa histórica é todo dia levantar e dizer que você tem orgulho de ser sapatão.”

Hoje, coordenadores trans, travestis, gays e lésbicas ocupando espaços políticos, conduzindo formações e organizando assim como ela, fazem o máximo para garantir que os próximos cresçam em assentamentos encontrando referências e o apoio que outres não necessariamente tiveram. Expõe, lado a lado, bandeiras coloridas e as bandeiras vermelhas do movimento. E encontram, sobretudo, a possibilidade concreta de imaginar sua permanência.

“Eles combinaram de nos matar, mas nós combinamos de não morrer”

Dentro e fora dos assentamentos, o processo de descoberta da sexualidade e da identidade de gênero acontece atravessado por uma vivência comunitária submersa de amarras e liberdade. “Eu fui uma criança trans, mas não entendia até então o que que era. Até me reconhecer dentro dos espaços não me expressava muito, exatamente porque nem me entendia muito bem”, relembra Thaisson.

Assim como toda característica e vivência que torna alguém, si próprio, cada pessoa trans tem a sua particularidade, trajetória e especificidade de acolhimento. Com isso em mente, em 2025, o Coletivo promoveu o 1º Encontro Nacional Trans do MST. No País em que mais se mata pessoas trans e travestis do mundo, liderando o ranking de assassinatos há 16 anos – segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais – viver torna-se revolucionário. 

O movimento não elimina e nem é imune aos conflitos ou preconceitos, mas o Coletivo faz questão de oferecer algo ainda raro para pessoas dissidentes no território brasileiro: a chance de não enfrentar o mundo completamente sozinhas. “A luta é coletiva, formada por pessoas diversas, porque sozinho a gente não vai fazer nada” – ele reafirma – “A luta só terá sentido se a gente colocar como prioridade que a igualdade vem em primeiro lugar.”

Sobre sua participação no Coletivo, o coordenador explica que, para além do diálogo, o movimento proporciona oportunidades de vida e formação que pessoas trans e travestis marginalizadas pelo país enfrentam ainda mais dificuldades para alcançar. Na vivência dele, por exemplo, fazer parte dessa rede proporcionou viagens, bagagens e até uma formação universitária com um propósito ainda maior. 

Integrante da comunicação, do coletivo LGBT e do coletivo de juventude do MST Alagoas, Anindayê, esteve presente no encontro e explicou a importância de se pensar, falar e, ainda mais, ouvir pessoas trans e travestis, como ela: “Meu movimento de me compreender enquanto uma pessoa travesti foi paralelo à minha inserção no movimento. Nós que somos LGBT temos determinadas coisas colocadas na nossa cabeça. As pessoas sempre estão dizendo quem nós somos, mas sem abrir espaço para que possamos refletir sobre nós mesmos e compreender nosso lugar no mundo." 

E o diálogo tem tido efeito, criando mais espaço e mais alinhados. “A gente está lado a lado com as pessoas, fazendo elas entenderem que não é nenhum bicho de sete cabeças. Eu não deixo de ser uma pessoa que presta por ser LGBT, sou só trans.” Mesmo assim, ela destaca que pertencer aos assentamentos acalentou sua trajetória. “Nunca senti que estar no movimento dificultou esse processo. Pelo contrário, o movimento trouxe uma rede de apoio.”

E, talvez, seja aí que reside uma das maiores potências de como a presença desses militantes modifica o próprio movimento e faz surgir novos questionamentos à realidade e obriga a revisitação e inova as práticas, discursos e formas de convivência que oprimem a todos. “O patriarcado destrói, o capitalismo faz a guerra, o sangue LGBT também é sangue sem terra. Seja o machismo, seja o racismo, seja LGBTfobia – pensar a reforma agrária e pensar a luta pela terra tem que ser junto com tudo isso”, declara ela.

“Há que endurecer, mas sem perder a ternura jamais”

No fim, talvez a relação entre pessoas LGBT+ e o MST seja justamente sobre isso: a busca contínua por um lugar onde a existência não precise ser fragmentada. Um lugar onde a terra, para além da produção ou sobrevivência – é também afeto, memória e possibilidade. Como escreveu Clarice Lispector, “pertencer é viver” e a presença LGBT+ há de perseverar – organizando coletivos, ocupando coordenações e transformando os assentamentos em territórios mais plurais. Se a luta pela terra exigia resistência, diante do latifúndio e da violência histórica no campo, a luta por reconhecimento da própria identidade dentro desses espaços aos poucos tem sido um passo a mais na coragem cotidiana. 

Somando-se cada vez mais, o coletivo LGBT+ integrado ao MST cresce junto às novas gerações que já encontram no movimento um espaço menos solitário do que aquele vivido por quem veio antes. Entre marchas, plantações e assembleias, constrói-se a ideia de que semear também é criar futuro em que o direito de verdadeiramente ser é irrevogável. Como no coração descrito por Rosa, no fim: a luta, a identidade, o afeto e a esperança... tudo cabe.

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O aumento pela busca do lado humanitário e ecológico da moda volta a trazer à tona os bastidores da indústria
por
Ana Vitória Borges, Anna Ferreira, Beatriz Lauerti, Bruna Janz e Camilo Libério
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02/05/2021

Imagem: Joanna e Marc Bolland, CEO da Marks & Spencer, na East London Street coberta por roupas descartadas para realçar o problema de roupas indo para o aterro. 


O mercado da moda movimenta por ano cerca de 2,3 trilhões de dólares no mundo. São cerca de 100 milhões de toneladas de fibras processadas em escala global. Nesse setor, o Brasil é responsável pela 5ª posição mundial, e somente por aqui são geradas cerca de 100 mil toneladas de lixo todo ano, segundo a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit). Mas, a indústria têxtil, bastante rentável, está vendo seu antigo modelo Fast Fashion - produção em escala, rápida e que segue a lógica do descarte - perder espaço substancialmente à Slow Fashion - conceito de moda que pauta a ecologia no processo industrial, preservando as pessoas e natureza. Tendência ainda mais urgente com o início da pandemia.

Depois de décadas de um modelo de produção que prioriza o lucro, condições precárias de trabalho em várias partes do mundo e o descarte exacerbado de lixo, novas tendências, estratégias e meios de produção surgiram. Isso está ligado à pauta ambiental, que vem ganhando maior visibilidade devido às crises enfrentadas pelo mundo atualmente. A inovação pensada na redução dos impactos ambientais se faz necessária, assim como a consciência social, de quem produz e de quem consome. A relação entre moda e sustentabilidade está conquistando cada vez mais espaço nos últimos anos. A Internet, as mídias digitais e grande parte da geração Z são responsáveis pelo movimento que exige cada vez mais um olhar crítico para a procedência e uso cotidiano da moda.

A Abit realizou um painel online com o tema Como a Indústria da Moda Está Cuidando do Seu Lixo, no dia 1º de abril do ano passado. Para responder à pergunta “O que fazer com o que nós geramos?” Fernando Valente Pimentel, presidente da Associação, apontou que a melhor forma de não poluir é fazer isso desde o início, ter uma concepção do produto. Como observado por Pimentel, o começo dos processos deve ser modificado para uma possível solução da questão ambiental no mundo da moda.

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Intervenção artística War on Waste, por Hugh Fearnley-Whittingstall (Foto: https://www.edie.net/news/5/Hugh-Fearnley-Whittingstall-War-on-Waste-fashion-sustainability/)

Nesse sentido, a estudante de moda Marina Guimarães, 21 anos, que é aluna da Fundação Armando Álvares Penteado, FAAP, comentou que não existe uma disciplina específica na graduação sobre o assunto, mas os professores buscam incluir isso nos temas que abordam. “Os professores fazem a gente pensar nessa questão e a influência dela em todos os aspectos que estudamos. Em todas as matérias, a relação com o meio ambiente é evidenciada, além da realização de palestras sobre sustentabilidade”, relatou.

Marina afirmou que o maior problema hoje em dia é o uso da água. “Um jeans para ser feito, precisa ser lavado muitas vezes. Na hora de tingir os tecidos, também se gasta muita água”. Outro ponto destacado foi a volatilidade da moda e a geração de lixo. “Hoje você quer ter uma determinada blusa que está em alta, e semana que vem quer comprar algo que é uma tendência nova. A compra excessiva e o descarte incorreto das roupas contribuem para a poluição. As próprias marcas deveriam informar aos clientes o jeito certo de se desfazer da peça.”

Cerca de 80 bilhões de peças de roupas são adquiridas a cada ano, de acordo com o estudo “A injustiça ambiental global da moda rápida”. Nesse sentido, a estudante ainda evidenciou o papel relevante dos consumidores no processo de mudança para que o mundo da moda se torne um meio mais sustentável. “É preciso prestar atenção à vida útil das vestimentas. Comprar aquilo que realmente vai ser usado por um bom tempo”.

Ela também falou sobre tendências inovadoras para evitar a geração de lixo ou o descarte inadequado, e apresentou a técnica chamada de Upcycling.  “É possível juntar duas roupas, costurar e transformar em algo diferente. Não precisa nem ir longe. Por exemplo, posso pegar uma camiseta, cortar, e terei um top. A proposta muda totalmente e você fica com uma peça nova.” Dois exemplos da transformação do mercado são a Zara e a Forever 21, impactadas principalmente pelo modo insustentável de produção têxtil e sua decadência. Das duas empresas, a Zara resolveu se reinventar para uma abordagem mais sustentável aos olhos do público, assim como a Riachuelo, que deixa em suas propagandas e etiquetas informações de que aquela roupa foi feita em um processo mais eco amigável. Apesar disso, essas empresas ainda são acusadas de trabalho escravo/infantil para a produção de suas roupas. Já a Forever 21 resolveu continuar com sua abordagem Fast Fashion sem mudar nada sobre o propósito da empresa, o que resultou em perda de lucros e consequentemente na declaração de falência do conglomerado.  

Para Natalya Picheictt, fundadora da marca Slow Fashion FAMME, a primeira coisa que vem a sua mente ao pensar em sustentabilidade é progresso. “Assim como assuntos como veganismo levantam bandeiras ambientalistas, muitas vezes você pode olhar pra dentro do teu guarda-roupa mesmo e ver que a moda também é uma forma de você ajudar o meio ambiente sem fazer muito”, ressaltou. Reutilizar roupas ou pensar em doá-las ou mesmo comprar alguma peça pensando na sua longa duração já é um grande passo. Para a empreendedora, o mais difícil ao iniciar um modelo de negócios sustentável é saber a procedência dos materiais utilizados em sua marca. Além da pesquisa para encontrar os fornecedores certos, é um desafio também rastrear toda a cadeia.

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Com o avanço dessa nova tendência, novos movimentos surgem para atingir o maior número de adeptos. Um deles é o Fashion Revolution, ONG criada em 2013 que, com atuação em mais de 100 países, opera para uma moda limpa, segura e responsável. Como uma rede de designers, acadêmicos, escritores, comerciantes, marcas e qualquer pessoa “amante da moda”, realiza anualmente a Fashion Revolution Week, evento para o debate dos temas acerca da moda. Em 2021, a Semana que se encerrou no dia 25 teve como tema central os Direitos Humanos, Natureza e Revolução Sistêmica. Onde seu principal objetivo, em 7 dias de evento, é a mobilização de pessoas para além de suas realidades. Para Ana Carolina Olyveira, representante da Fashion Revolution no Brasil, a sustentabilidade ainda é uma bolha. Por que não pensar ao invés de um sistema linear, num sistema circular, onde os produtos sejam reutilizados? O conserto é uma das formas de se pensar ecologicamente. Segundo Ana Carolina, o evento também faz perguntas às próprias marcas. O fator pandemia fez com que as pessoas parassem para pensar sobre sua relação com o que vestem. “Pessoas começaram a olhar o que têm no guarda-roupas”. Por outro lado, também fez pessoas comprarem mais através da Internet.

A sustentabilidade não significa produtos mais acessíveis financeiramente. Pelo contrário. Roupas e acessórios provenientes do Slow Fashion ainda são inacessíveis para parcela de baixa renda da população. Mas cada vez mais a tendência é de transformação de hábitos. Segundo a empreendedora e representante do Movimento, parte dessa mudança vem do consumidor. É preciso também questionar e cobrar as marcas para serem mais flexíveis.

 

Ao mesmo tempo, frente a essa nova tendência comportamental, os preços atrativos do modelo Fast Fashion ainda sustentam a suposta necessidade de consumo desenfreado. Apesar desses delírios por peças de vestuário não ser algo recente, a consolidação dos e-commerces e a publicidade das marcas nas redes sociais, especialmente no Instagram, colaboraram para um aumento no frenesi pela prática. No entanto, para que essa rede de consumo se sustente e alguns possam se deleitar com uma nova vestimenta, muitas das empresas assumem um sistema de exploração e abuso de seus funcionários, mesmo dentre aquelas que se promovem com a sustentabilidade.

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O mercado da moda possui uma notória relação com a escravidão contemporânea. Em 2018, a fundação Walk Free, através de uma pesquisa efetuada pelo The Global Slavery Index, apontou a moda como o segundo setor com maior exploração de trabalho análogo a escravidão. No mesmo ano, o Índice de Escravidão Moderna divulgou dados mostrando que dos 354 bilhões de dólares em itens importados para países do G20, - produzidos através de mão de obra escrava – um terço são peças de vestuário.

Não são poucas as marcas que já estiveram ou ainda estão relacionadas a práticas de exploração da força de trabalho, ocorrendo principalmente em países subdesenvolvidos. Durante a década de 1990, a Nike foi incriminada por utilizar mão de obra infantil em suas fábricas na Ásia. Nos últimos dez anos, a Renner, Marisa e Pernambucanas estiveram envolvidas com a exploração de costureiros bolivianos trabalhando de forma análoga à escravidão. Sem contar a Zara, que já foi flagrada mais de três vezes submetendo trabalhadores estrangeiros a situações degradantes e de abuso.

A ONG Repórter Brasil forneceu dados apontando que no território nacional mais de 35 marcas do setor estiveram relacionadas ao trabalho escravo e, desde 2010, foram resgatados mais de 400 costureiros e costureiras em condições análogas à escravidão. O relatório da Walk Free também indicou a existência de mais de 40 milhões de pessoas colocadas nessas condições de trabalho dentro do setor da moda - considerando um cenário mundial – sendo que 70% desses trabalhadores são mulheres.

Esses índices expressivos se devem a cadeia de produção da moda, especialmente àquela conhecida como fast fashion, que almeja maior produtividade em suas fabricas pagando menos pelos serviços e obtendo maior lucro com as vendas no varejo. Essa tática de produção é a mais seguida pelo mercado, o que já proporciona a venda de aproximadamente 80 bilhões de peças de roupas por ano ao redor do mundo. Para a manutenção desse sistema, muitas marcas de moda passaram a migrar suas fabricas para países com legislação mais favoráveis – como Índia, China, Coreia, Bangladesh entre tantos outros.

Tal medida já proporcionou, por exemplo, que Bangladesh se tornasse o segundo maior exportador de vestuários do mundo, movimentando US$ 28 bilhões na economia do país, conforme informações da Organização Mundial do Comércio (OMC). Contudo, a invasão da indústria da moda nesses países não traz apenas benefícios econômicos. Em 2013 ocorreu a tragédia do edifício Rana Plaza, localizado na periferia da capital de Bangladesh, na qual uma construção de oito andares desabou deixando 1.133 pessoas mortas; nela 2 mil funcionários que recebiam aproximadamente R$360 para trabalhar - durante 10 horas em seis dias na semana - para fabricas de cinco confecções estadunidenses.

A tragédia do Rana Plaza foi o estopim para o surgimento da Fashion Revolution. Ana Carolina Olyveira explica melhor acerca das reflexões promovidas pela campanha: “A #quemfezminhasroupas é uma das principais do Fashion Revolution. Quando a gente pergunta "quem fez minhas roupas?" a gente quer saber o nome da pessoa que faz a sua roupa. Às vezes respondem "ah, foi tal confecção", mas quais foram as condições de trabalho nessa confecção? Como essas pessoas trabalham? Do que as minhas roupas são feitas? Quem cortou minhas roupas? Quem bordou minhas roupas? Então é um questionamento muito mais a fundo que se estende.”

Sobre o mercado nacional, ela ainda diz: “entre 2016 e 2018, a cada cinco trabalhadores resgatados nessa situação análoga à escravidão, quatro eram negros. Então, é além, você vai percebendo que a questão vai ficando mais profunda, porque aí vira uma questão estrutural”.

O Brasil é o quarto maior produtor de roupas mundial, faturando de US$ 55,4 bilhões em 2014, proporcionando 1,6 milhão de empregos e tendo 85% da produção consumida dentro do país, segundo dados da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit). E assim como em Bangladesh, existem inúmeras histórias de flagras e tragédias envolvendo exploração de mão de obra escrava – principalmente estrangeira oriunda da Bolívia – nas fábricas das confecções.

Em 1995, o Brasil foi uma das nações pioneiras em reconhecer oficialmente as práticas de trabalho forçado em sua extensão. Institucionalmente o país possui certo programa de combate a essa forma de exploração, com uma legislação regulamentando práticas de trabalho, um Código Penal prevendo pena de 2 a 8 anos para o cidadão que explorar seus funcionários e com a “Lista Suja” – um recurso para registrar e divulgar empregadores irregulares.

Já em 2005 houve uma CPI do trabalho escravo na Câmara Municipal de São Paulo, proporcionando que Auditores-Fiscais do Trabalho pudessem usar o poder público no combate ao trabalho escravo na indústria paulista de moda. Em 2009, também houve articulações políticas para a proteção do trabalhador imigrante, o que resultou na homologação do Pacto Contra a Precarização e Pelo Emprego e Trabalho Decentes em São Paulo – Cadeia Produtiva das Confecções.

Além das medidas em âmbito político, ONG’s e instituições colaboram na conscientização da população acerca do tema. O aplicativo Moda Livre, desenvolvido pela ONG Repórter Brasil, reúne informações de diversas marcas sobre seus envolvimentos na exploração de mão de obra escrava e avalia as ações adotadas pelos varejistas do país; o que permite ao consumidor se conscientizar sobre a produção da peça que será consumida.

Diversos projetos também surgem diariamente, tornando-se fortes aliados na divulgação e na conscientização acerca dos problemas no mundo da moda. Uma iniciativa que surgiu nas redes sociais é o Devagarzin, instagram criado por Srah Rabello como trabalho de conclusão do curso de publicidade, em 2017. No qual tem o propósito de informar os consumidores sobre as marcas, a partir de análises de campanha. Dando assim, a oportunidade para os consumidores de pensar e refletir se o que consomem é o mesmo em que acreditam. Para ela, as principais mudanças hoje se dão através da Internet e de propostas como a dela: “a Internet e as mídias sociais trouxeram poder pro consumidor, [...] que começa a entender o papel dele de exigir das marcas o que ele quer. Então agora o poder vai mais para a mão de um consumidor que tem melhor acesso à informação e que entende mais as consequências da sustentabilidade. Com isso, o movimento sustentável, o movimento slow fashion, vêm crescendo muito”.

Outro projeto que se consolidou através das redes sociais é o Não É Moda, instagram criado no início de 2020 junto com o podcast Esse Não É Um Podcast Fashion, por Gabriel Coutinho e Rafaella Parma diante da insatisfação de não encontrar tantas pessoas expondo tais problemas de maneira popular. Para eles, a melhor maneira de mudar esse cenário é através da cobrança das marcas e também do aprendizado. “é uma questão de transparência, de cobrar, de perguntar “quem são os seus trabalhadores?”. Você está remunerando para que eles tenham uma vida digna? Que eles tenham um mínimo de condições de sobreviver? Você está dando condições para esse(a) trabalhador(a) também poder consumir uma outra moda, ou ele(a) está só fazendo porque precisa do mínimo pra poder dar comida pros filhos?”.

A tendência mundial de mudança comportamental no mundo da moda veio para ficar. O próprio movimento Slow Fashion e a urgência quanto ao cuidado ambiental se tornaram ainda mais evidentes, levando muitas pessoas a se questionarem sobre o modo pelo qual se relacionam com suas próprias roupas e acessórios. Esse movimento, influenciado principalmente pelas gerações Z e Millenials, é um novo respiro no modo insustentável de produção têxtil, nas questões trabalhistas e no pensamento cíclico de consciência, desde o início do processo até seu final. A reutilização dos artigos de vestimenta é uma âncora também para a fiscalização e exigência de mais e mais consumidores conscientes para que as marcas erradiquem a escravidão contemporânea.

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Brasil teve 12 denúncias por hora em 2020 segundo o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos
por
Beatriz Lauerti
|
06/04/2021

    A violência física contra as mulheres é a mais conhecida, mas não é a única. Existem pelo menos 5 tipos previstos na lei Maria da Penha, sancionada em 2006 e que visa prevenir e proteger o público feminino dessas hostilidades.

    Além das atitudes que interfiram na integridade corporal, a agressão acontece na forma psicológica, sexual, patrimonial e moral. Relacionamentos abusivos, assédios, estupros, privação ou destruição de bens, recursos pessoais e outros relacionados a dinheiro, e calúnias, são alguns exemplos na prática. Não ocorrem isolados uns dos outros e são considerados violação dos direitos humanos.

    Atualmente, o movimento feminista tem ganhado mais força, e os outros modos de opressão têm sido disseminados. A informação é uma parte importante na luta em favor da causa.

    Um exemplo disso pode ser visto no caso Marielle Franco. A vereadora, mulher e negra, foi assassinada no dia 14 de março de 2018, vítima de violência política. A fatalidade gerou repercussões e manifestações em larga escala.

    A investigação permanece inconclusiva e estão em aberto, 3 anos após o ocorrido, as principais dúvidas, como quem foram os mandantes da execução e o motivo. Outro questionamento que pode ser feito é: porquê os conhecimentos sobre a causa, que afeta uma grande parcela das cidadãs do mundo inteiro todos os dias, dependem de tragédias para serem propagados com maior intensidade?

    Esse é um ponto que ainda precisa evoluir, apesar das conquistas que a luta feminina vem alcançando. Outro fato que explicita essa necessidade de mais avanço são os dados de um relatório divulgado pela Organização Mundial da Saúde. A pesquisa constatou que um terço das mulheres do mundo, o que representa cerca de 736 milhões de pessoas, já sofreram com a violência de gênero.

    Ainda, a OMS destacou que os agressores geralmente são os parceiros ou indivíduos próximos. Thedros Ghebreyesus, diretor da entidade, revelou que do número exposto, 641 milhões dos crimes foram de responsabilidade do companheiro.

    As conclusões mostraram que o sofrimento tem começado cada vez mais cedo e das adolescentes de 15 a 24 anos, 25% já esteve envolvida em algum episódio. O líder também comentou que esses casos estão presentes em todas as culturas e países. Isso é visto na prática, a partir de depoimentos de meninas dessa faixa etária.

    A estudante de Moda Marina Guimarães, de 20 anos, citou circunstâncias vivenciadas em festas universitárias, e na visão dela “é um ambiente que concentra algumas dessas situações com frequência, principalmente o assédio, já que quase todas as vezes presencia garotos insistindo ou até mesmo forçando meninas a beijá-los, por exemplo”.

    Já a estudante de Psicologia, Ingrid Guillen, também de 20 anos, relatou o medo de andar sozinha na rua, especialmente para ir até a academia. “Eram 4 quadras para chegar na SmartFit, e eu recebi 5 cantadas, ou seja, mais de uma por quarteirão. Foi um dos dias que fiquei com mais medo de voltar para casa depois do treino, e eu sempre ficava muito nervosa, já que roupa de academia é apertada e marca mais o corpo. Eu nunca podia ir de shorts, porque já faziam tudo isso comigo de calça, imagina se eu estivesse de shorts. “

    Segundo Thedros, os desdobramentos da pandemia de Covid-19 agravaram o cenário. Ele disse que os governos devem possibilitar maior acesso e investir mais em oportunidades para essa parte da população, e assim reforçar o combate à violência.

    Além dos casos citados, milhares de outros acontecem a todo momento. 12 denúncias foram feitas a cada hora no Brasil em 2020, de acordo com o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, o que mostra a grande incidência da opressão contra as mulheres, dentro e fora das casas e do núcleo familiar delas.

No combate à violência contra a mulher, A GAZETA lança projeto "Todas Elas"  | A Gazeta

Moça protesta em favor do combate à violência contra as mulheres.

 

    Essas informações e os relatos só evidenciam a insuficiência de recursos para realmente combater todos os modos de violência contra o público feminino. Ficam explícitas a necessidade e a urgência em melhorar o apoio, os meios, auxílios e instrumentos para ajudar as vítimas e para evitar que o número de atingidas aumente cada vez mais.

    A intervenção do governo e de líderes mundiais é essencial, principalmente quanto ao investimento em educação em todos os países, e em políticas públicas de defesa e proteção das mulheres. A comunidade e a imprensa também têm um papel importante nesse processo.

    Exemplos de atitudes que seriam colaborativas são a criação de programas que desconstruam o machismo enraizado na sociedade, o apoio a entidades dedicadas à causa, a divulgação de informações para que todos entendam a gravidade do assunto, reforçar a relevância da união para lutar contra isso, incentivos para que os agressores sejam denunciados, e todos os esforços possíveis que contribuam e possam salvar vidas femininas.

 

 

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Mulheres trans vivem uma luta constante contra o preconceito do Feminismo Radical, o Radfem.
por
Luiza Nascimento
|
30/03/2021

Quando falamos sobre feminismo, a imagem que vem à mente é um grupo de mulheres unidas, lutando contra o patriarcado e defendendo umas às outras com unhas e dentes. Essa imagem, no entanto, está longe de ser a realidade vivida pelo movimento, que ao longo das décadas se dividiu.

Mulheres trans lutam para ingressar nas pautas feministas.
Mulheres trans lutam para ingressar nas pautas feministas. | Foto: Reprodução.

Essa necessidade de separação surge das divergências de luta e da visão que cada mulher possui do movimento feminista e de seu papel na sociedade. Grupos como o feminismo liberal, feminismo negro e o feminismo radical (o popular Radfem), buscam o mesmo objetivo, porém, com meios diferentes. 

 

Mas para aqueles que acreditam que os fins justificam os meios, essa noção pode estar abalando a luta feminista. Com essa divisão, surge a marginalização das vertentes dentro do feminismo e a homogeneização da luta. O movimento se torna exclusivo para aquelas que atendem as expectativas de cada vertente. 

 

Um dos grupos mais afetados por essa exclusão é o de mulheres trans, que lutam para serem reconhecidas como mulheres e detentoras de pautas feministas.  

O Radfem e o Movimento Trans

O Radfem surge por meio de obras de autoras como Shulamith Firestone (A dialética do Sexo), Kate Millet (Política Sexual) e Simone de Beauvoir (O segundo sexo). Elas abordam qual seria a origem do patriarcado e do machismo enraizado na sociedade, afirmando que essa busca é necessária para a mudança do comportamento social e político, analisando questões como elementos históricos e sociopolíticos, contrapondo-se às explicações e abordagens deterministas, como por exemplo o fator biológico. 

 

Essa vertente que se popularizou na década de 70, contudo, possui suas próprias derivações. Com o advento da internet, a comunicação de movimentos sociais ganhou força e atraiu novas pessoas para esses grupos. O Radfem se tornou um movimento dentro da internet com seu próprio pensamento. 

 

O grupo aborda atualmente a questão biológica como um fator determinante na construção da imagem do feminino. Elas defendem que não há subjetividade em ser mulher e que o preconceito surge a partir do gênero associado ao nascimento. O movimento afirma que suas ideias se baseiam na teoria clássica do feminismo radical, utilizando autoras como Robin Morgan, Julie Bindel, entre outras, como exemplo. 

 

A transfobia se tornou um dos sintomas do Radfem atual, que divulga por meio das redes sociais o pensamento que pessoas trans não possuem uma identidade verdadeira. 

 

Segundo elas, essas mulheres não podem se considerar parte do gênero feminino, pois em sua nascença são homens. Há, aquelas que acreditem que a mulher trans é uma reação da sociedade patriarcal à luta feminista, que pretende desestabilizar suas pautas com sua participação. Homens trans, por sua vez, podem ser associados a mulheres que não aceitaram seu papel como oprimidas e transformaram-se nas opressoras. 

 

Para Djamila Ribeiro, no entanto, as performantes do Radfem, atualmente, não compreendem o que foi escrito pelas primeiras autoras. Para a filósofa, houve uma distorção de suas ideias, o que resultou em um movimento transfóbico. 

O preconceito na prática 

Para compreender, na prática, como a transfobia por parte do movimento Radfem impede ou atrapalha mulheres trans de participarem das pautas feministas, foram entrevistadas Nicolly e Pâmela, duas mulheres trans que se relacionam com o feminismo de maneiras distintas. 

 

Nicolly iniciou sua transição aos 18 anos, após sair do colégio. Segundo ela, a partir do momento que começou a tomar seus hormônios adquiriu liberdade. Para ela, entretanto, se assumir como uma mulher foi algo difícil, pois ao longo de sua vida sofreu preconceito em todos os lugares que adentrou, seja para trabalhar ou em seu convívio. Mas alerta para o preconceito que sofreu quando era apenas um jovem garoto gay, sendo algo explícito e mais agressivo. 

Segundo Nicolly, ela compreendeu seu papel como mulher na sociedade quando começou a fazer programa, em suas palavras “fazer programas como trans foi a maneira que conheci a vida”. Quando o assunto feminismo foi abordado, ela afirmou que pautas feministas nunca fizeram parte de sua vida, pois durante sua transição e sua vida como mulheres, essas questões jamais se aproximaram de sua realidade.  

 

O feminismo é algo distante para ela, porém, algo que a sociedade trata a todo o momento. De acordo com o que disse: “tudo é feminismo hoje em dia, mas isso nunca me afetou como mulher trans”.  

Nicolly é uma mulher trans que não se sente parte do feminismo devido a distância entre sua realidade e a de mulheres cis.
Nicolly é uma mulher trans que não se sente parte do feminismo devido a distância entre sua realidade e a de mulheres cis. | Foto: Reprodução/Instagram.

A jovem paulistana sente a segregação entre mulheres cis e trans, seja dentro do movimento feminista ou na sociedade em que vive. Ela afirma que emprego para mulheres cis é algo fácil, assim como suas relações, enquanto pessoas trans, em geral, sofrem para serem reconhecidas. A maneira que encontra para que uma mudança dentro do feminismo ocorra é que surja o feminismo trans, assim como o feminismo negro, o intuito é abordar as pautas de gênero direcionando-as para mulheres. Em sua visão, não apenas o Radfem, mas todo o movimento, exclui mulheres trans de suas decisões, deslegitimando suas mudanças e necessidades. 

 

Se para Nicolly o feminismo é algo distante, para Pâmela é uma pauta que está presente desde sua adolescência. Sua transição começou quando tinha apenas 15 anos de idade e, de acordo com ela, foi algo turbulento e complicado. 

 

Sua família resistiu a ideia desde o princípio, porém Pâmela estava decidida a se tornar quem nasceu para ser. 

 

Na escola, afirma que participou ativamente de seu grêmio estudantil e ingressou nas pautas feministas abordadas pelo grupo. Na época, já sabia ser uma mulher e não se escondia de seus colegas. Essa participação, entretanto, foi dificultada por figuras importantes de sua escola, como sua professora de Ciências Sociais e a Coordenadora da escola.  

 

Segundo Pâmela, as duas deslegitimavam sua participação por ser menino e reafirmavam a ideia de que mulheres são mulheres por determinação biológica. Ela relembra que ambas faziam parte do pequeno grupo Radfem que existia em sua região, porém, os ideais do movimento não eram de seu conhecimento. 

 

Foi apenas quando ficou mais velha e concluiu sua transição, que Pâmela compreendeu a necessidade de lutar contra um movimento de repressão e exclusão dentro do feminismo. Em suas palavras “o feminismo pertence a todas e a pauta de todas as mulheres que, em algum momento, sofreram com a opressão da sociedade por seu gênero, seja cis ou trans.” 

 

Ela ingressou na faculdade de Ciências Sociais aos 22 anos e iniciou um pequeno blog durante seu período de estudante. A jovem, no entanto, se viu forçada a excluir suas redes sociais e sua página após ataques frequentes na internet, associados a grupos feministas de dentro da universidade. A partir desse momento, começou a escrever para o pequeno jornal impresso pelo Movimento de Feministas Negras de seu campus.  

 

Pâmela diz que as feministas negras são as únicas que se aproximam da dor de uma mulher trans, pois reconhecem o sofrimento que é ser deslegitimado em seu campo político e social, de forma opressora e histórica.  

 

“Em um país onde negros são assassinados com frequência ao andarem por suas comunidades ou carregarem um guarda-chuva e mulheres trans são espancadas, violentadas e destinadas a prostituição, se unir por uma causa é a solução que mulheres negras e mulheres trans encontraram para ganharem força. Mulheres sozinhas não fazem verão, mas quando se unem provocam mudanças. É triste observar grupos que nos ignoram e excluem de pautas que nos interessam ou se quer ouvem nosso sofrimento, nos diminuindo a uma questão biológica. Sei que homens fazem coisas terríveis para essas mulheres e que o sofrimento pode gerar raiva e angústia, mas também sei que generalizar não é a solução, pois conheci feministas radicais que foram duríssimas comigo e me humilharam, mas outras que apresentaram a simples vontade de mudar o que vivemos.” 

 

Pâmela acredita que a solução não é o feminismo trans, mas sim, a unificação de ideias. Ela acredita que o feminismo deve expandir para dentro de comunidades, para o interior do País e da comunidade LGTQIA+, quebrando a homogeneização existente. 

Contraponto ao Radfem

Segundo Lola, do blog feminista Escreva Lola Escreva, o movimento feminista precisa dar um próximo passo quando o assunto são mulheres trans e o patriarcado. E acredita que o movimento necessita compreender o papel do machismo na vida de meninos e pessoas trans, pois assim como as mulheres são oprimidas e presas a um estigma social, homens também participam dessa opressão.  

 

Durante uma entrevista ao Universa, Uol, sobre a resistência de feministas aceitarem mulheres trans nas pautas, ela observa que um dos maiores problemas entre as Radfem e mulheres trans, é o uso de estereótipos femininos, construídos por uma sociedade machista, por parte das mulheres trans. A feminista aponta que o grupo de feministas radicais não compreende as razões que essas mulheres possuem para utilizar desses padrões. 

 

Lola afirma que utilizar batom, salto, maquiagem, e outras características que são sempre atribuídas por mulheres é uma maneira da mulher trans se afirmar como mulher. Segundo ela, uma mulher cis não necessita disso, pois quando abandona esse padrão é ainda mulher e seu gênero jamais é questionado, mas sim sua feminilidade. 

 

A feminista reafirma que o feminismo deve ser para todas, para que assim ele mude algo dentro dessa construção patriarcal e machista que vivemos. Abraçar mulheres trans, as suas pautas e afirmar seus direitos, exigindo sua segurança, é trazer uma nova face ao feminismo. 

 

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O movimento feminista já teve muitas conquistas. Entenda como ele é muito necessário ainda hoje.
por
Niara Viana de Brito
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29/03/2021

A luta feminista: novidade que perdura por muito tempo

 

A luta feminista é um movimento social, político e econômico que perdura até os dias de hoje, com o objetivo de discutir e lutar por direitos igualitários das mulheres. O movimento feminista busca, principalmente, a igualdade de direitos, oportunidades e tratamento entre homens e mulheres, além de lutar contra a inferioridade e opressão que as mulheres são submetidas na sociedade até os dias de hoje.

Para entender melhor como esse movimento persiste até hoje, é necessário, primeiro, saber como surgiu essa luta, suas conquistas e sua caminhada histórica.

Como surgiu o movimento feminista e suas as ondas

Uma das maiores influências para a criação do movimento foi a Revolução Francesa e as alterações sociais que começaram a acontecer nesta época, durante o século XIX. A partir das mudanças causadas pela Revolução, as mulheres começaram a entender as desigualdades políticas e de direitos a que eram submetidas e passaram a questionar, lentamente, sobre os modelos sociais em que viviam. Esse período ficou conhecido como a primeira onda do feminismo.

Nessa mesma época, nos Estados Unidos e, principalmente, no Reino Unido, mulheres começaram a se reunir em manifestações para garantir o direito à participação na vida política, direito de votos femininos nas eleições, aos estudos e melhores condições de trabalho. Dando assim, origem ao chamado movimento sufragista.

No período entre os anos 60 e 90, aconteceu a segunda onda do feminismo. Neste período, a luta pela igualdade social e de direitos se intensificou e as mulheres passaram a questionar todas as formas de submissão e inferioridade que enfrentavam.

Além disso, fizeram parte das questões debatidas pelo movimento nessa fase, as decisões sobre liberdade sexual, maternidade e direitos de reprodução. Uma das principais discussões nessa época girava em torno das opressões sofridas e do motivo de existirem tantas formas diferentes de opressão a que as mulheres eram submetidas. Ainda nesta época, começou a surgir a ideia da coletividade, da força da união das mulheres enquanto movimento capaz de provocar alterações na sociedade.  Mulheres negras e lésbicas também se juntaram ao movimento feminista, trazendo ainda mais força feminina, novas demandas e novas discussões para o feminismo.

A terceira onda feminista é o período iniciado a partir dos anos 90, que perdura até hoje, podendo ser definido como a busca de total liberdade de escolha das mulheres em relação às suas vidas. Nessa fase, surgiu o termo interseccionalidade (ou feminismo interseccional), usado para se referir às diversas formas de opressão que uma mesma mulher pode sofrer, sendo em função de sua raça, classe, comportamento ou orientação sexual, por exemplo.

Nesta fase, foi dada uma maior importância para as trocas de informações e debates entre uma maior quantidade possível de mulheres, cada qual com suas condições e exigências especificas, trazendo mais visibilidade para o movimento feminista. Entendeu-se, também, que os comportamentos e submissões enfrentados pela mulher são resultados de construções sociais ao longo de vários anos, deixando espaço para serem discutidos e reconstruídos nessa luta.

Seus grupos e ideais feministas

Algumas questões importantes para a luta feminista são: o fim da desigualdade salarial entre homens e mulheres; igualdade na participação política do país, tanto na tomada de decisões quanto na ocupação; problemas de saúde ligadas diretamente às mulheres, como sexualidade e a discussão sobre o aborto; direitos relacionados a maternidade e a amamentação; luta contra estereótipos; e combate aos diferentes tipos de assédio e violências sofridas pela mulher, como moral, sexual, psicológica, dentre outras.

O movimento também leva em consideração questões específicas de alguns grupos de mulheres: como negras, lésbicas, periféricas, prostituas, indígenas e transexuais. Cada grupo possuiu uma demanda diferente a mais para ser questionada e discutida em relação às suas vidas e condições.

Suas principais conquistas e lutas

Em 1791, no contexto da Revolução Francesa, foi publicada a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã, que exigia a igualdade jurídica entre homens e mulheres, escrita por Olympe de Gouges.

Em 1827, as brasileiras obtiveram autorização para estudar, mas apenas o ensino elementar. Foi a brasileira Nísia Floresta, do Rio Grande do Norte, a pioneira a levantar a bandeira da educação. Em 1879, as mulheres receberam a autorização do governo para cursar o ensino superior, porém, as que seguiam o caminho eram criticadas. Apenas em 1887 a primeira brasileira recebeu um diploma de ensino superior. Rita Lobato Velho Lopes se formou na Faculdade de Medicina da Bahia.

Em 1911, o dia 8 de março ficou marcado como Dia Internacional da Mulher, devido a morte de cerca de 130 operárias em uma fábrica têxtil de Nova York, quando as mesmas se revoltaram pelas más condições de trabalho que estavam submetidas. Apesar da data só ter sido oficializada em 1975, ela é relembrada todo ano como um dia de lutas sociais, políticas e econômicas das mulheres.

Em 1918, as mulheres do Reino Unido tiveram o direito ao voto, após uma extensa luta feminista gerada pelo movimento sufragista, com a fundação União Nacional pelo Sufrágio Feminino, criada pela educadora britânica Millicent Fawcett. Já no Brasil, em 1932, o voto feminino foi liberado para mulheres casadas com autorização dos maridos, viúvas e solteiras com renda própria. Essas restrições foram removidas em 1934.

No dia 27 de agosto de 1962, há apenas cinquenta e cinco anos atrás, foi sancionado o Estatuto da Mulher Casada que, entre outras coisas, instituiu que a mulher não precisaria mais da autorização do marido para trabalhar, receber herança e, em caso de separação, ela poderia requerer a guarda dos filhos. Antes disso, o cônjuge precisava autorizá-la a exercer tais atividades. No mesmo ano, a pílula anticoncepcional chegou ao Brasil, Apesar de não ser o melhor método contraceptivo, o medicamento trouxe autonomia à mulher e iniciou uma discussão importantíssima sobre a liberdade sexual feminina.

Em 2006, a Lei Maria da Penha (lei nº 11.340/06) foi criada para reprimir a violência familiar ou doméstica contra as mulheres. A lei trouxe regulamentações específicas em relação à punição e tratamento da violência doméstica e familiar contra a mulher. A lei recebeu este nome em homenagem a Maria da Penha Maia Fernandes, uma mulher que sofreu violência doméstica do marido durante o casamento e ficou paraplégica em razão das violências sofridas, tornando-se um símbolo da luta contra a violência doméstica no país.

O movimento atualmente

De uns tempos para cá, o tema vem se espalhando e ganhando forças em vários lugares, e isso se deu, sobretudo, por causa das redes sociais. “As plataformas online proporcionaram a propagação das experiências e vivências diárias, em relação ao machismo e patriarcado, de diversos grupos de mulheres”, diz Tatiane Viana, estudante de Artes Visuais na UNESP de Bauru e participante do coletivo feminista do campus.

“Sejam elas lidando com a desvalorização no mercado de trabalho, casos de assédio, estupros, violência doméstica, entre outros” acrescentou Tatiane. Assim, a ideia da coletividade pôde unir ainda mais as mulheres e fortalecer o movimento, dando maior relevância e aumentando as demandas de disseminação sobre o assunto.

A importância dessa luta

Apesar de todas essas conquistas e, aos poucos, a valorização do movimento, a luta feminista perdura muito atualmente, não estando perto de acabar. “Isso porque muitos dos direitos das mulheres ainda não foram debatidos e oficializados, como a discussão sobre o direito de aborto no Brasil”, comenta Letícia Barbosa, estudante de biologia e ativa no coletivo feminista da UNESP, no campus de Santos.

De modo geral, o feminismo busca desconstruir os ideais machistas e patriarcais que estão enraizados na sociedade desde muito tempo, e luta por uma comunidade mais igualitária na questão de acesso à direitos entre todos. “Longe de pregar a dominação das mulheres sobre os homens ou odiar o sexo oposto, o feminismo busca apenas igualdade de gênero”, enfatizou Letícia.  

 

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Mesmo depois de tantos anos de luta, gênero feminino ainda sofre para obter seu espaço ao fazer e falar de automóveis no Brasil.
por
Thiago Pereira
|
22/03/2021

Campanhas, criação de ongs, manifestações... A luta das mulheres por uma sociedade mais igualitária não é novidade para ninguém e já vem atravessando séculos. É fato que o cenário não é o mesmo de tempos atrás; as mulheres já conseguiram conquistar diversos direitos, como ingressar no mercado de trabalho e ter sua própria independência, mas isso não significa que dentro desse âmbito não sofram com os preconceitos e dificuldades de viverem em uma sociedade enraizada em conceitos patriarcais e machistas.

 

Dados do Ministério do Trabalho mostram que a participação feminina no mercado de trabalho formal atingiu o patamar de 44% em todo o território nacional em 2018; mesmo assim, apenas 3 em cada 100 CEOs no país são mulheres. Dados como esse comprovam que, mesmo depois de muitos anos de luta para que se tornasse um ambiente mais justo e igualitário em termos de oportunidade e valorização do trabalho, o mercado continua sendo um meio muito machista e sexista. Dentro desse cenário, algumas áreas estão mais avançadas e outras menos, no que diz respeito aos tópicos apresentados, e uma das que estão menos avançadas é a automotiva, aquela que envolve tudo aquilo relacionado a automóveis e afins. Piadas que envolvem a questão de gênero ainda são muito recorrentes e a ideia de que "mulher não entende de carro" também.

 

A indústria automotiva conta com 83% dos cargos em empresas de cadeia produtiva ocupados por homens, informam dados da pesquisa Presença Feminina no Setor Automotivo, realizada pela Automotive Business em parceria com a MHD Consultoria no segundo semestre de 2017. Um fato que, além de problemático simplesmente pela presença do preconceito relacionado ao gênero, é prejudicial para as próprias empresas, porque como é óbvio, as mulheres fazem parte do mercado consumidor, e por isso é imprescindível que essas empresas estejam alinhadas às expectativas e filosofias desse público, e ninguém melhor do que uma mulher para saber o que outra mulher espera de um produto. Em casos como esse, a representatividade ajuda a superar não somente barreiras sociais, mas também comerciais, gerando maior rentabilidade.

 

Infelizmente e obviamente, o jornalismo automotivo, assim como o segmento em que se apoia para produzir seus conteúdos, também ainda é um meio muito opressor, mas com muito esforço e uma qualidade de trabalho impecável para provar o que não precisaria ser provado, alguns nomes vêm ajudando a transformar essa realidade, mostrando para o público que mulher entende sim de carro, que elas devem estar inseridas nesse cenário e que o conteúdo produzido por elas faz frente a qualquer outro produzido por qualquer um.

 

Um desses nomes é Michelle de Jesus. Com experiência de 15 anos na oficina mecânica do pai, ela também foi piloto automobilístico por mais de 10, apresentadora do programa Oficina Motor, veiculado no canal +Globosat e colunista de revistas especializadas em automóveis. Hoje, apresentadora do seu próprio canal de Youtube (que já conta com mais de 120 mil inscritos) e Head de Marketing de uma das maiores empresas de tecnologia do Brasil, ela ainda consegue ajustar sua rotina à um MBA executivo no Insper (Instituto de Ensino e Pesquisa). Multifacetada como se vê, Michelle conta que, ao longo de sua carreira, sempre viveu e conviveu com vários homens e, por isso, enfrentou muitas dificuldades simplesmente pelo fato de ser mulher, mas nunca deu importância à elas. “Meu conselho é para que as mulheres não fiquem dando voz à essas pessoas, que elas simplesmente façam e sejam melhores que elas, porque é inevitável o talento, a capacidade, quando você tem e mostra seu talento e capacidade, é inevitável que você consiga seu espaço”.

 

Um verdadeiro caso de sucesso, Michelle, que já havia feito seu primeiro milhão antes dos 30 e viajado o mundo inteiro pilotando, testando e avaliando os carros mais legais do mundo, conta que a necessidade de empreender e aproveitar as oportunidades que lhe apareciam foram as principais “motivações” para ela alcançar o patamar onde está hoje. “Às vezes a gente fica buscando algo com o qual nos identificamos, mas na verdade o que temos de fazer é abraçar as oportunidades que aparecem e fazer delas as melhores oportunidades do mundo. Eu fiz isso lá atrás”. Sem formação de Jornalismo, ela conta também que a experiência em frente às câmeras foi fundamental para torná-la uma comunicadora. “Eu não era jornalista, não era apresentadora; fiz alguns cursos e treinamentos então acabei me especializando, virando uma apresentadora, influencer, garota propaganda (...) fiz vários comerciais, trabalhei pra várias marcas, várias montadoras, enfim, as coisas foram acontecendo meio que de forma natural, pelo fluxo e pela persistência de querer dar certo. Tanto faz a área, o que importa é fazer dar certo”, afirma.

 

Ao ser questionada sobre a possibilidade de estudantes de Jornalismo fazerem algo para tornar o cenário automotivo mais “justo”, Michelle é certeira: “eu acho que justiça é você batalhar pela mínima oportunidade que se tem, ela pode ser pequena, boba ou até sutil, às vezes passa desapercebida por algumas pessoas, mas aí você pega essa oportunidade que ninguém deu valor e faz aquilo que ela propõe de maneira muito bem feita, assim você vai conseguir ter voz, alcançar o maior número de pessoas possíveis, não se esquecendo sempre de fazer isso de uma forma justa e honesta com a informação. Acho que pra qualquer profissional, jornalista ou não jornalista, a questão de justiça é essa, é pegar algo mínimo, nem que seja dentro do seu bairro, e transformá-lo em algo verdadeiro, transparente e de grande valor para a comunidade”, finaliza.

Michelle de Jesus avalia Volkswagen Virtus GTS
Michelle de Jesus avalia o Volkswagen Virtus GTS. / Foto: Canal Michelle J

Além de Michelle, Giu Brandão, apresentadora do canal MundoSobreRodas, no YouTube, e Silvia Garcia, apresentadora do canal da Webmotors, que se encontra também no YouTube e representa uma gigante no meio de compra e venda de automóveis e motocicletas, também produzem um conteúdo de altíssima qualidade. É claro que muitas outras também o fazem, mas nesse texto seria impossível citar todas, elas são muitas e cada vez mais, o que é ótimo; mas para quem gosta ou precisa de dicas sobre o assunto, o conteúdo dessas mulheres é um prato cheio, e consumi-lo é um favor a si mesmo.

 

 

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