Por Felipe Achoa
Amanda, “Mandi”, era ainda uma jovem garota quando começou a passar bastante tempo com seus primos mais velhos. Ainda muito nova para ficar sozinha e cheia de entusiasmo para entender aquele mundo maduro que seus familiares viviam (como qualquer criança), Amanda escolhia passar o máximo de tempo que podia na casa de seus tios. Muito por influência dessa convivência, Mandi, como era carinhosamente chamada, teve seus primeiros contatos com o Hip Hop e o cenário do RAP. Artistas como Black Alien, Marcelo D2 e Crioulo preenchiam aquela casa com ritmo e poesia e suas letras críticas e batidas viciantes ficaram marcadas na memória da pequena garota que alí crescia.
Conforme Amanda ficava mais velha, madura e começava a consolidar seu pensamento crítico, o RAP passava a participar mais ainda de sua vida. A grande mudança veio de fato quando Mandi começou a se interessar e adentrar mais à fundo no contexto da política; o RAP, de alguma forma, tinha o poder de traduzir todas aquelas insatisfações que ela carregava. Essa vertente musical sempre teve por característica propor reflexões e pensamento crítico, isso a encantava.
Certa vez, assistindo alguns vídeos de RAP no Youtube, o algoritmo lhe recomendou vídeos de batalhas de rima. Não apenas um, vários. O momento peculiar ajudava, pois coincidia com o crescimento exponencial de algumas batalhas, principalmente nas redes sociais, como eram os casos de “Museu (DF)” através do canal Meleca Vídeos e “Aldeia” via canal próprio. Muito por suas relações na época, que em vários casos pareciam compartilhar do mesmo gosto musical por RAP que Amanda tinha, ela entrou no mundo das batalhas de rima, agora presencialmente, por influência de amigos. Alguns que eram DJs de certas batalhas, outros MCs, enfim.
Mandi, que sempre foi espectadora, criou um gosto especial pela cena. Não necessariamente por uma batalha em si, até porque ela sempre foi em várias delas, como Aldeia, Largo da Batalha, Leste, entre outras, mas sim pois o que a encantava era a ideia de uma roda onde as pessoas se encontravam para compartilhar cultura. Conhecer pessoas novas e de lugares e origens diferentes, discutir temas importantes e exercer um papel de resistência às mazelas da sociedade era o que transformava aquele contexto em algo mágico para a jovem. Era como um convite, pras pessoas serem quem elas são, sentirem-se confortáveis e compartilhar suas personalidades.
O Hip Hop surgiu para dar voz à quem carecia de uma fonte que lhe permitisse ser ouvido. Para conquistar o espaço do povo preto; resistir ante à despretensão do estado; valorizar a identidade cultural e as vozes pulsantes que eram perdidas em meio ao vento. O cenário do RAP sempre teve como fundamento ser um espaço aberto e inclusivo, um diálogo poético, um embate de ideias e rimas, como sua própria origem o agrega, o repente nordestino.

Foto: Batalha da Aldeia Via Canal no Youtube
Mandi viveu o contexto das batalhas como poucos, viu o poder que o RAP tem de apresentar caminhos diferentes, trazer a arte para o contexto existencial. Foram muitos aqueles que a garota teve a honra de conhecer, muitos que mudaram de vida por conta do Hip Hop, alguns, talvez, mais do que outros. A verdade é que Mandi nunca enxergou uma verdadeira valorização da mídia, ou até da sociedade, para o Hip Hop; depois de tantos anos ela entendeu que o RAP nunca foi uma cultura “mainstream” pois é originária das mesmas pessoas que o estado oprime; logo, um cenário que é sempre criminalizado, exatamente como ocorreu com Samba e Funk em tempos anteriores.
Passados 14 anos vivendo essa cultura, isso se tornou um fator fundamental na vida de Mandi. Na consolidação de seu pensamento crítico, na luta por seus direitos e pelo direito dos seus e mais do que tudo culturalmente. Hoje sua dança favorita é o Hip Hop, seu hobby segue sendo assistir batalhas e a maioria de seus grandes amigos são do meio, seu gênero preferido é o RAP e seu Trabalho de Conclusão de Curso, bem como seu foco em toda a graduação de Advocacia foi direito penal e o direito à cultura, pensados para essa vertente cultural em questão. O estilo musical foi a sua forma de conseguir enxergar a sociedade de um forma menos descrente e mais esperançosa.
Pedro Dab por outro lado era apenas um garoto quando teve o contato com RAP pela primeira vez. Não muito diferente da maioria dos jovens da época, Dab, como era conhecido entre amigos, foi introduzido e se encantou pelo estilo ouvindo artistas como Emicida e ConeCrew Diretoria, muito em alta na época. As referências clássicas moldaram seu gosto por RAP e cada vez mais o garoto se via imerso nessa vertente musical tão profunda. Certa vez, em uma excursão promovida pela escola na qual estudava, os colegas de Pedro decidiram fazer uma batalha de rima entre os alunos. Já influenciados pelo crescimento de algumas batalhas, como eram os casos de “Santa Cruz” e “Aldeia”, que passavam a tomar proporções cada vez maiores na época, em meados de 2014/2015, os garotos e garotas da escola se reuniram para competir e ver quem sairia vencedor.
Em sua primeira batalha de rima, Pedro podia sentir o frio na barriga por tamanha exposição. Ele não queria perder. Ouvia RAP como poucos que integravam aquela roda. A atmosfera, de tantas pessoas atentas, esperando de você uma resposta incrível, a pressão de atender às expectativas, tantas ouvidos querendo escutar o que ele tinha a falar…Era uma nova conexão com o RAP. Dab foi escalado para enfrentar uma garota que não conhecia. O que era para ser uma brincadeira acabou se transformando em algo mais próximo de uma humilhação e Pedro foi absolutamente vencido pela estranha que rimava tanto. Quando voltou para casa, o jovem não parava de se remoer pelo vexame e aquilo havia adentrado tão fundo em sua mente, que ele decidiu escrever uma letra respondendo tudo que ele sabia que era capaz de pensar, mas não conseguiu dizer no momento chave. Despertava o amor por fazer RAP.
Assim foi, conforme Pedro crescia, sua vontade de mostrar ao mundo o que tinha à falar se tornava cada vez maior e o mesmo foi válido às suas habilidades. Depois de algum tempo participando de batalhas, assim como ainda é para a maioria dos MCs devido à pouca capacidade de rentabilizar em cima disso (batalhando), Dab decidiu adentrar no meio musical mais à fundo e passou a produzir músicas do gênero.
O ponto chave na vida do rapper foi a criação do Linha Fina, um grupo musical em parceria com um colega. Os dois começaram a ter cada vez mais contato efetivo com o cenário do RAP de uma forma mais ampla e começaram a explorar cada vez mais a essência de suas origens musicalmente.

Foto: Casa1 produtora via YouTube
Batidas que remetiam à cultura de suas famílias, à origem do RAP, do repente nordestino e todas as influências externas; letras ácidas, abridoras de mente; uma filosofia cabreira ao ponto de ser macabra. Aquele era um espaço de resistência, no qual Pedro podia falar, gritar e fazer barulho até um dia ser ouvido. O RAP, para muito além de um estilo musical, é uma forma de dar voz às pessoas, permitir que a manifestação cultural ocorra e que a identidade de cada um seja valorizada. É um espaço que recebe as pessoas em pé de igualdade e que mantém viva a cultura de todo um povo, repleta de ritmo e poesia.
Conforme o garoto se tornava adulto, o RAP permeava a sua vida do início ao fim. Mudou muito sua forma de pensar, o apresentou a novas culturas, à pessoas diferentes, consolidou seu caráter e o fez aprender muito. No RAP há um ditado que diz: a rua ensina muitas coisas que não se aprende em outro lugar.
Hoje, Dab já não vive mais da música, para além de um cenário pouco rentável musicalmente, produzir Hip Hop é muito caro e ainda é uma realidade vivida por muito poucas pessoas no Brasil. Ainda assim, as influências do RAP na vida de Pedro são tamanhas, que ele ainda segue na carreira solo por Hobby. Foi muito mais do que uma fase; foi e segue sendo a sua forma de se expressar, de resistir, de se encontrar num mundo repleto de atribulações.