Por Felipe Achoa
Ricardo Barreto acorda todos os dias às 6 horas da manhã, antes mesmo do despertador. Como é para todo cidadão comum, a rotina é quase um ritual para ele. Acordar, tomar banho, abrir os poros da pele. Uma lâmina de barbear devidamente afiada, trocada a cada 3 dias, uma inspirada forte para acordar e fazer a barba encerram suas atividades no banheiro, afinal, uma boa impressão é fundamental na sua área de trabalho. A manhã segue com café coado na hora e algo leve para comer. Sai antes das 7 horas para ir trabalhar. Pega as chaves na bancada, dá um beijo na esposa e vai direto para o carro; acende um cigarro, seu fiel companheiro, abre a janela e começa seu dia.
Como é padrão em São Paulo há muito trânsito pela manhã. Pessoas estressadas, atrasadas, mas ele já nem sente mais. Ricardinho, como é popularmente conhecido, é um representante comercial do setor de material de construção; sua rotina de trabalho é bem longa e cansativa, sai de manhã cedo e chega no final da tarde, parando em diversos lugares diferentes ao longo do dia para conversas com representantes de empresas e reuniões. Sempre rodando por São Paulo, ao ponto das pernas ficarem duras de tanto andar entre depósitos, escritórios e canteiros de obra.
Quinta e sexta a regra é diferente. Depois da última visita, o carro sempre vai para o mesmo lugar: Montanha Tap House. Perto de casa, uma cervejaria de confiança. Cerveja artesanal gelada, tira-gosto de bar, conversa fiada sobre futebol, trabalho, viagens e brincadeiras com amigos. Em meio às pessoas que gosta, risadas e Pints de cerveja, Ricardo recarrega sua energia e alma. Sábado, quando está livre de funções do trabalho, é dia de pegar a Harley-Davidson Road King, vestir a jaqueta, e sumir rumo à estrada; com amigos, se possível. A ideia é sempre aproveitar a beleza das rodovias interior afora, até o sol queimar o ombro, comer em algum lugar para aproveitar a vista e a cultura local e voltar com o cheiro de asfalto quente impregnado na roupa.
Domingo é da esposa. Almoço caprichado ou sair para comer em algum lugar diferente, um filme durante a tarde e o silêncio tranquilo de quem já não precisa mais falar tudo. Essa é sua forma de recarregar as forças e não sucumbir ao pragmatismo da rotina, para voltar inteiro à mais uma longa semana.
Ele nunca esbanjou muito capital, pelo contrário, Ricardo sempre foi o tipo de pessoa que não liga muito para luxos. Para ele, poder sair para comer com a esposa de vez em quando, ter sua tão sonhada moto e um carro simples para o dia a dia já é o suficiente, mas como para qualquer um, há tempos bons e tempos soturnos. A verdade é que o trabalho o recompensava bem o suficiente para que não passasse grandes sufocos, mas nem sempre, e a longa duração, bem como a monotonia do cotidiano lhe sugava todas as energias.
Em determinado momento de sua vida, quando garantiu alguma estabilidade e segurança financeira, Ricardo encontrou nas viagens uma “válvula de escape”. Uma forma de enxergar a vida através de uma outra íris. De início, não apenas com as férias tradicionais com a esposa, que eventualmente aconteciam e eles amavam, mas especialmente nas viagens em que ele podia colocar a moto na estrada e o coração no mundo. Já tinha descido de São Paulo até Porto Alegre pela BR-116, enfrentando chuva, neblina e caminhões assassinos. Estava planejando agora o grande norte: São Paulo, Goiás, Tocantins, Pará, Amazonas, e Colômbia. Só de pensar nas curvas da Serra do Tepequém e na transamazônica ele já sorri.
A viagem que nunca vai esquecer, no entanto, foi a que cruzou a Argentina. Ele e mais dois amigos saíram de Uruguaiana, rumo à Ruta 40. Passou por cidades pequenas onde o tempo parecia ter parado. Pessoas diferentes para conversar na calçada, eletrônicos antigos, crianças brincando nas ruas. Rodava centenas de quilômetros por dia, vento cortando o rosto, a Cordilheira dos Andes se debruçando sobre a terra como se fosse um monstro, em tons de azul que ele nunca vai esquecer.
Numa tarde qualquer, parou num posto de gasolina perdido num pequeno vilarejo à beira da estrada para abastecer. Aquele posto parecia uma benção, ele sempre foi uma pessoa preparada, mas a gasolina estava no fim e sequer haviam resquícios de uma possível civilização. O frentista, um rapaz de uns vinte e poucos anos, ficou olhando com os olhos cheios de brilho a beleza daquela Road King como quem olha uma nave espacial. O rapaz perguntou se podia tirar uma foto e Ricardo sorriu e acenou com a mão mandando o garoto subir para tirar uma foto. Colocou o capacete nele, o óculos de sol para dar um charme, pegou o celular do frentista e tirou uma foto. Feliz, muito feliz, tão feliz quanto quando estava tirando a primeira foto de sua moto. Ricardo viu que o sonho dele era maior que a foto e perguntou se o jovem queria dar uma volta. O frentista olhou para os lados, viu que o dono do posto estava distraído, subiu atrás. Deram uma volta no quarteirão. Quando voltaram, o rapaz parecia uma criança de tão animado; quase chorava. Ricardo sentiu um aperto no peito que não sabe explicar até hoje. Apertaram as mãos como se fossem amigos de infância. Nem trocaram nome. Também não foi necessário, a identificação entre ambos já tinha ficado clara o bastante sem mesmo se conhecerem propriamente.

Naquela noite, olhando as estrelas da Patagônia, Ricardo entendeu tudo. Não eram os cartões-postais, as fotos perfeitas ou os quilômetros rodados que valiam. Era aquilo: Tantas cores encantadoras, pessoas, culturas, de tantos tipos… Um frentista argentino que, talvez, nunca sairá daquele posto, vivendo quinze minutos de sonho puro porque o destino colocou aquele lugar no caminho dele. Era a certeza de que, naquele momento, ter dado a alguém o que ele mesmo batalhou anos para conquistar. Era uma conexão sem palavras.
Outros momentos que o marcaram, também carregam simplicidade. Como a melhor empanada que ele comeu na vida, numa pequena loja ao lado de um posto de gasolina já quase na fronteira com o Chile, que nunca mais sairá de sua memória de tão magnífica. Como o Festival Saenzpeñense, realizado em Presidencia Roque Sáenz Peña, na província do Chaco, um festival conhecido por conter artistas da música folclórica e popular argentina, que encantaram Ricardinho. Como a beleza simples e ao mesmo tempo assustadora de algumas estradas argentinas que beiravam encostas íngremes, mas que, para os locais, eram banalidades.
O último da linhagem Barreto, uma vez que não teve filhos, mudou a sua perspectiva de mundo viajando; entendeu as dificuldades e foi capaz de se colocar no lugar do outro, experimentou novas comidas, conheceu novas músicas... Todo desânimo que sentia ante a cansativa rotina de trabalho parecia ter sido substituído pelo entusiasmo da próxima viagem, pela expectativa do que o próximo lugar teria a oferecer para ele. Hoje Ricardinho segue uma linha pouco usual, talvez não tão inteligente do ponto de vista de investimento financeiro, mas certamente um ótimo investimento à sua saúde mental: compra a moeda local de sua próxima viagem todo mês; o que sobra de suas despesas tradicionais, não vai para regalias, não vai para uma mudança de casa, vai para viagens, sempre que possível, com sua amada esposa. É isso que o faz se sentir vivo. Agora ele carrega dentro do peito um mundo inteiro de cores que a rotina cinza de São Paulo nunca vai conseguir apagar, afinal, o mundo é mais bonito e mais colorido.