Por Rafael Rizzo
A luz da tarde entrava enviesada pela janela basculante entreaberta, cortando a penumbra da sala pequena no bairro do Capão Redondo, zona sul de São Paulo. Havia poeira dançando no feixe de luz, uma suspensão lenta que parecia imitar o tempo dentro daquela casa: arrastado, pesado, dolorido. Sentada na poltrona de curvim marrom, que já conhecia o formato exato de seu corpo cansado, Maria da Paz ajeitava a saia sobre os joelhos inchados. O cheiro de café recém-coado misturava-se ao odor mentolado de uma pomada analgésica barata, criando a atmosfera olfativa que define seus dias de descanso.
Maria não olhava diretamente enquanto falava. Seus olhos, cercados por rugas finas que denotam mais sofrimento do que idade, fixavam-se em um ponto qualquer do chão de taco gasto. Ela tem cinquenta e dois anos, mas suas pernas, segundo ela mesma, parecem ter vivido duzentos. A artrose severa nos dois joelhos, somada a uma má formação congênita no quadril, transformou a gravidade em sua maior inimiga. Para a maioria dos paulistanos, a cidade é um cenário de passagem; para Maria, São Paulo é uma pista de obstáculos desenhada por um arquiteto sádico. O silêncio da sala era interrompido apenas pelo ruído distante dos ônibus na avenida principal, um som que faz o corpo de Maria retesar instintivamente. É o som da batalha. Ela começou a narrar sua rotina não pelo despertar, mas pela dor que antecede o abrir dos olhos. Ela diz que a dor acorda antes dela. É uma pontada aguda, fria, que sobe da canela e se aloja na base da coluna. Antes mesmo de colocar os pés no chão, ela precisa negociar com o próprio corpo a permissão para levantar.
São quatro e meia da manhã quando o rádio-relógio desperta. A primeira batalha é contra o colchão. Rolar para o lado, apoiar o cotovelo, puxar a perna inerte com as mãos calejadas de quem descasca quilos de batata há três décadas. Maria conta que, nessas horas, a escuridão do quarto é sua única confidente. Não há glamour em sua luta, nem plateia para aplaudir o esforço hercúleo de apenas ficar de pé. Ela é cozinheira em um restaurante por quilo na região da Vila Olímpia, um dos centros financeiros da cidade. A ironia geográfica é cruel: Maria sai da periferia esquecida pelo poder público para alimentar os engravatados que desenham as regras da cidade, num bairro onde as calçadas são tapetes de pedra portuguesa, mas onde ela, paradoxalmente, também não consegue caminhar.
Enquanto ela falava, suas mãos, grossas e com marcas de queimaduras antigas de óleo e forno, alisavam a bengala de madeira apoiada ao lado da poltrona. Aquele pedaço de madeira é a extensão de seu braço, o terceiro membro que sustenta o peso de sua existência. O trajeto até o trabalho é o capítulo mais violento de seu dia. Maria descreveu a calçada da sua rua como um campo minado. Raízes de árvores antigas estouram o concreto, criando degraus invisíveis no escuro da madrugada. Cada passo é calculado. Onde pisa, onde a bengala firma são perguntas cotidianas. Se chove, o medo triplica. O piso liso das tampas de bueiro vira sabão. Cair, para Maria, não é apenas um acidente; é a certeza de não levantar sem ajuda, é a humilhação pública, é o risco de não trabalhar e ter o dia descontado.
Ela caminha trezentos metros até o ponto de ônibus. Trezentos metros que, para uma pessoa sem deficiência, duram quatro minutos. Maria leva vinte. Ela para duas vezes para respirar, apoiando-se nos muros das casas, sentindo o suor frio brotar na testa mesmo nos dias de garoa. Ao chegar ao ponto, a espera é angustiante. Não pelo atraso do transporte, mas pela incerteza da acessibilidade. Muitos ônibus passam direto. Os motoristas, com suas metas de horário a cumprir, fingem não ver a senhora com a bengala acenando timidamente. Quando um para, começa a segunda estação de sua via sacra: o degrau. Mesmo os ônibus com piso baixo, muitas vezes, param longe da guia. Aquele vão entre o asfalto e o veículo é um abismo. Maria precisa pedir licença, ignorar os suspiros impacientes da fila atrás dela, jogar o peso do corpo na bengala, içar a perna ruim com a mão e se lançar para dentro.
Ela contou, com a voz embargada, mas sem chorar — como se as lágrimas tivessem secado há anos pela repetição da mágoa — sobre os olhares. O olhar de pena é ruim, ela diz, mas o olhar de impaciência é o que fere. As pessoas olham para o relógio. O tempo de Maria entrar no ônibus, passar pela catraca (quando esta não está travada) ou se acomodar no assento preferencial, é o tempo que o executivo perde de sua reunião, que o estudante perde de sua aula. A mobilidade reduzida de Maria é vista como um atraso coletivo, um estorvo no fluxo frenético da metrópole.
E então, há o metrô. A estação, teoricamente moderna e acessível, é um labirinto de promessas quebradas. Elevadores que não funcionam são a regra, não a exceção. Maria relatou dias em que chegou à plataforma e descobriu que o elevador de saída na estação de destino estava em manutenção. A alternativa eram as escadas rolantes que ela tem pavor de usar, pelo medo de não conseguir firmar o pé a tempo na saída, ou lances de escada fixa que são, para ela, impossíveis. Houve uma manhã, ela recordou olhando para o teto descascado da sala, em que sentou no banco da plataforma e chorou. Não de tristeza, mas de exaustão. Um funcionário veio perguntar se ela estava passando mal. Ela respondeu que estava apenas cansada de ser invisível. Ele ofereceu um copo d'água, mas não tinha como consertar o elevador.
Quando finalmente chega ao restaurante, a batalha muda de configuração. A cozinha industrial não foi feita para corpos que doem. O chão é escorregadio, o calor é sufocante. São seis, sete horas em pé. O dono do restaurante, um homem que ela descreve como prático e distante, permitiu que ela usasse um banquinho alto para descascar legumes, mas na hora do "rush", do almoço, Maria precisa estar no fogão. O calor das bocas do fogão industrial incha suas pernas. A pressão venosa aumenta, a pele estica, lateja. Maria cozinha o feijão, frita as bistecas, refoga a couve, tudo isso enquanto sua mente tenta dissociar a dor física da tarefa manual. Ela tempera a comida dos outros com o sal de seu próprio suor. E ninguém nota. O cliente que se serve no buffet não imagina que o sabor daquela comida custou a cartilagem gasta de uma mulher que está sorrindo forçadamente atrás do balcão de reposição.
Durante a conversa, Maria pediu licença para tomar um comprimido. A caixa de remédios ficava sobre a estante, ao lado de um porta-retratos com a foto de um neto sorridente. Aquele neto é o motivo, ela disse num sussurro quase inaudível. É por ele que ela enfrenta o leão de asfalto todos os dias. A aposentadoria por invalidez foi negada duas vezes pelo INSS. O perito, em uma sala com ar-condicionado e cadeira ergonômica, olhou para os exames dela e disse que ela ainda tinha capacidade laboral. Maria sorriu com amargura ao lembrar disso. Capacidade ela tem; o que ela não tem é dignidade no processo. A cidade de São Paulo, na narrativa de Maria da Paz, é um organismo vivo que rejeita corpos estranhos. E corpos lentos, corpos quebrados, são corpos estranhos. As calçadas da Vila Olímpia, apesar de mais bonitas que as do Capão, também são traidoras. As rampas de acesso muitas vezes são bloqueadas por carros de luxo estacionados irregularmente, ou terminam em degraus mal planejados. O piso tátil, feito para ajudar cegos, muitas vezes leva a postes ou lixeiras. Para quem tem mobilidade reduzida, cada esquina é uma aposta.
Ela falou sobre a volta para casa. O retorno é sempre pior. O corpo já esfriou do ritmo de trabalho, a adrenalina baixou, e o que sobra é a inflamação pura. O ônibus da volta vem lotado. O assento preferencial é uma disputa de ética selvagem. Jovens fingem dormir. Homens e mulheres carregados de sacolas ocupam os espaços. Maria, muitas vezes, viaja em pé, travando os joelhos para não cair nas curvas, rezando para o motorista não frear bruscamente. A segurança também é um fantasma. Uma mulher que não pode correr é uma presa fácil. Maria já foi assaltada duas vezes no trajeto curto entre o ponto de ônibus e sua casa. Na última vez, levaram a bolsa com os documentos e a bengala. Sim, levaram a bengala. Ela teve que se arrastar, apoiando-se nas cercas das casas vizinhas, até chegar ao portão de casa. Ela contou isso sem raiva na voz, apenas com uma resignação assustadora, como quem aceita que a chuva molha e que a violência atinge os fracos.
Enquanto a tarde caía e a sala ia ficando mais escura, as feições de Maria pareciam se fundir com as sombras. Ela serviu um café. O movimento de levantar da poltrona, ir até a cozinha e voltar com a garrafa térmica foi um espetáculo de determinação dolorosa. Foi possível ouvir o estalo de suas articulações e ver a careta involuntária que ela tentou esconder mordendo o lábio inferior. Ela disse que sonha com uma cidade plana. Em seus sonhos, não existem ladeiras, nem escadas, nem ônibus com degraus altos. É tudo liso, contínuo, infinito. Mas quando acorda, a realidade é vertical e cheia de arestas.
Perguntada o que ela diria ao prefeito, se ele estivesse sentado naquela mesma poltrona onde eu estava. Maria riu, um riso seco, curto. Ela disse que não diria nada. Apenas convidaria ele para dar uma volta. Mas não uma volta de carro oficial com ar-condicionado. Uma volta com ela. Segurando no braço dela. Sentindo o tranco do ônibus, o buraco da calçada, o desnível do bueiro. Ela queria que ele sentisse nos próprios ossos a vibração da cidade que ele administra. Porque a dor, ela explicou, é a única linguagem que não permite tradução; só sente quem carrega.
A conversa caminhava para o fim. Maria precisava descansar. No dia seguinte, a rotina recomeçaria. O despertador às quatro e meia. A luta contra o colchão. A caminhada na escuridão. O ônibus. O olhar de impaciência. O fogão quente. A volta dolorida. Ao me despedir, apertei a mão de Maria. A pele era áspera, quente e forte. Havia uma força vital ali que contrastava com a fragilidade de suas pernas. Saí da casa dela e pisei na calçada irregular do Capão Redondo. Pela primeira vez, notei o desnível de cinco centímetros entre o concreto da garagem e o asfalto da rua. Tropecei de leve. Para mim, foi apenas um tropeço. Para Maria, seria um dia de trabalho perdido, ou talvez algo muito pior.
Caminhei até o meu carro com uma consciência pesada, sentindo o privilégio de meus passos firmes e sem dor. Olhei para trás e vi a janela da sala de Maria. A luz estava apagada. Ela já estava se preparando, no escuro, economizando energia para a guerra que o sol traria na manhã seguinte. Maria da Paz, a cozinheira que alimenta a cidade que a devora, recolhia-se em sua trincheira de silêncio e pomada mentolada, esperando o próximo round contra o concreto armado de São Paulo.