Nas ruas de São Paulo o grafite é quase unanimidade; está em todas as esquinas, em suas mais diversas formas. De murais gigantes em avenidas principais a furtivas assinaturas nos postes de luz, essa é a forma de arte que domina a cidade. No entanto, o grafite passa por uma verdadeira dualidade, já que ao mesmo tempo em que é incorporado por galerias nobres e campanhas publicitárias de grandes marcas, seu processo caracteristicamente orgânico nas ruas ainda está associado com um velho estigma: o crime. E, aos olhos da sociedade brasileira, o crime tem cor.
Muito associado ao Hip-Hop e à juventude negra periférica, o grafite nasce para além de uma forma de expressão, mas uma ocupação simbólica da cidade. E como os símbolos permanecem, empresas como a Nike e Red Bull aproveitam a estética da arte de rua para se ancorar em ideias como juventude, liberdade e cultura urbana. A simbologia do grafite e da cultura Hip-Hop é vista com muito interesse pelo setor privado.
No entanto, ao considerarmos que artistas pretos são presos em abordagens policiais intimidadoras, impedidos de realizar sua arte, desrespeitados nas ruas e muitas vezes vítimas de injúria racial, percebemos a hipocrisia escancarada. Infelizmente, essas são cenas comuns no dia a dia da comunidade do grafite e o glamour apresentado nas publicidades, omite as marcas da violência que acompanham a vida dos grafiteiros negros.
De acordo com Kleber Pagu, produtor cultural, ativista e grafiteiro, mesmo com a sua contribuição através da arte, servindo de instrumento na formação de uma sociedade mais crítica e inteligente, ele se sente injustiçado diante da marginalização que sofre. O artista que sempre é divertido e brincalhão, conta a dor da discriminação com lágrimas nos olhos. O anseio por mudar o cenário das comunidades por onde passa e denunciar os descasos que acompanha, bate de frente com a realidade nua e crua da vida, em que o problema das cores ultrapassa as paredes.
Desde 1989, o racismo é considerado crime no Brasil, e em 2023, o crime de injúria racial foi equiparado ao crime de racismo. Em teoria, atacar racialmente um único indivíduo é tão grave quanto atacar o coletivo. Contudo, vemos que essa não é a realidade do cotidiano e que na maioria das vezes o racismo é velado, inconsciente e enraizado de maneira a se passar por algo “comum”, “normal” ou “inocente”.
Wellington Neri, mais conhecido como “Tim”, também conta inúmeras situações que passa na rotina como artista e grafiteiro. A aceitação vem acompanhada de um tom humorístico, que parece surgir como disfarce do incômodo. Ele conta que diversas vezes, pessoas oferecem marmitas e moedas enquanto ele faz alguma obra artística. “A gente sabe que é por causa da cor, porque se fosse um homem branco ninguém ofereceria coisas assim”, afirma Neri.
A dualidade presente no grafite ganha ainda mais forma considerando a teoria da Améfrica, de Lélia Gonzalez. Nela, a autora explica que o racismo no Brasil se dá de maneira única e peculiar, um processo que ela denomina como “Racismo por denegação”. Ela defende que, em países de origem latina, essa estrutura racista é mais comum. Aqui, a discriminação ocorre através da negação da existência da opressão, aumentando ainda mais a desumanização.
O processo se repete no âmbito do grafite, havendo preconceito contra esses artistas enquanto seus painéis estão sendo incorporados nas cidades. A repressão ao grafite nunca esteve desvinculada da opressão aos sujeitos que o realizam. O que vemos aqui é a aderência do mercado aos nichos do grafite considerados como mais “assimiláveis”, enquanto há uma recusa da essência mais basal da arte.
O grafite segue ocupando São Paulo como uma espécie de espelho da própria cidade e, apesar de vibrante, contrapõe a profunda desigualdade que os paulistas vivem. Entre tintas e olhares atravessados, os artistas insistem em pintar não apenas paredes, mas a memória coletiva de uma metrópole que consome a estética da periferia, mas resiste em reconhecer plenamente a humanidade de quem a produz.
A partir disso, a arte se revela mais uma vez como potente, à medida que não permanece domesticada a murais, mas se torna a denúncia silenciosa de um país que ainda escolhe quem pode ser visto como artista.