Por Marco Nery
Em meio à correria da PUC-SP, três carrinhos se tornaram parte da rotina de estudantes, professores e funcionários. Tapioca, milho e pipoca são os protagonistas das bancas que resistem ao tempo e às dificuldades, sustentando famílias e mantendo viva a tradição da comida de rua. Por trás deles, histórias de luta, persistência e sonhos: Rafaela Medeiros, João Francisco e Edison Pereira.
O sol ainda não nasceu e Rafaela Medeiros de 35 anos, da Tapiocaria Mel em São Paulo, já está em ação. Trabalha na PUC-SP há quatro anos, mas está no ramo da tapioca há dez seguindo os passos do pai. Inspirada pela tradição familiar, Rafaela mantém ativa uma rotina intensa. Para ela, cada madrugada é uma nova tarefa. Acorda mais cedo para preparar tudo. Separa os ingredientes frescos e cuida também da casa. O aroma da tapioca no fogo e a movimentação dos utensílios compõem seu início de dia. Precisa deixar tudo pronto. Sai de casa às 7 da manhã. Ela trabalha nesse ramo há 10 anos junto com seu marido e está há 4 anos vendendo tapiocas na frente da faculdade.
Além dessa barraca principal a família de Rafaela tem mais 5 pontos espalhados pela cidade, que também exigem acompanhamento e coordenação. Nem tudo foi fácil. Já teve problemas com a Prefeitura relacionada a regularizações, autorizações, exigências burocráticas que pareciam ser mais obstáculos do que ajuda. Em uma ocasião, chegou a perder seu ponto por não estar “trabalhando regularmente” segundo normas locais. Em São Paulo, o programa Tô Legal, voltado para ambulantes e pequenos empreendedores, já emitiu mais de 80 mil autorizações desde sua criação. Atualmente, há cerca de 23 mil autorizações ativas para ambulantes e empreendedores de rua. A Prefeitura estimava, em 2019, cerca de 45 mil vendedores ambulantes na capital paulista, muitos deles sem permissão formal para ocupar o espaço público. Críticas também aparecem entre os clientes: muitos dizem que a tapioca está cara mas outros reconhecem o cuidado, o sabor e elogiam muito sua comida.
Os desafios não se restringem aos problemas coma Prefeitura. Além disso a chuva, frio e os perigos de trabalhar na rua são riscos constantes. Ainda assim, Rafaela destaca o lado positivo: a autonomia de trabalhar para si mesma, de manter a tradição familiar e construir algo próprio. Com a visão voltada para crescimento, Rafaela tem planos ambiciosos: ela deseja aumentar as franquias da Tapiocaria Mel, levando sabor, tradição e paixão para ainda mais cantos da cidade, com o cuidado artesanal que aprendeu com o pai. O entorno da faculdade é um espaço promissor para o ambiente de vendas de alimentos.
João Francisco mais conhecido como João do Milho acorda diariamente às 4h30min para preparar o carrinho. Há 21 anos, ele vende seu produto na PUC-SP, ponto que conquistou depois de uma longa trajetória. Desde os 6 anos já trabalhava como vendedor, mas foi aos 14, em sociedade, que deu seus primeiros passos formais. Pouco tempo depois, conseguiu montar seu próprio ponto, que mantém até hoje com orgulho. Só vai dormir de madrugada, de segunda a sábado. Entre uma fornada e outra, garante que o milho esteja sempre pronto para os clientes que cruzam o campus.
Ser vendedor sempre fez parte de sua vida. Vindo do Nordeste, João é irmão de outros 12. Chegou em São Paulo acompanhado da tia e reencontrou alguns dos irmãos que já viviam por aqui. Outros familiares continuam em sua cidade natal, com quem ele mantém contato. Mesmo com a rotina pesada, João nunca pensou em desistir. Ele vende milho porquê gosta e com isso conquistou suas coisas pessoais. Desde o começo foi difícil, pois chegou na grande cidade sendo analfabeto. Além disso, sofreu preconceitos por ser nordestino. Mas ele não se deixou abalar: com a ajuda de um primo, que o fazia reescrever seu nome todos os dias, tornou-se autodidata e conseguiu vencer parte dessas barreiras. Hoje, encara sua trajetória como prova de resistência e dedicação.
João, pai de família, vê com esperança seu emprego já que seu principal sustento vem dessa oportunidade que agarrou e que ainda tem projetos para crescer, sempre mantendo os pés firmes no chão. O milho, para ele, é mais do que alimento: é a marca de uma vida inteira dedicada a construir dignidade com esforço e perseverança. As dificuldades do dia a dia não são poucas. A longa jornada de trabalho e os riscos de estar na rua fazem parte da rotina. Ainda assim, João afirma que se sente valorizado na PUC-SP, onde é reconhecido pelos frequentadores. Para ele, vender milho vai além do sustento: é fonte de identidade e pertencimento.
Aos 42 anos, Edison Pereira Coelho é presença conhecida na PUC-SP, onde vende pipoca desde 2006. Natural de São João do Rio do Peixe, no interior da Paraíba, ele deixou sua terra natal em 2003, quando se mudou para Curitiba. Dois anos depois, chegou a São Paulo com o irmão, que já trabalhava como pipoqueiro, e decidiu seguir pelo mesmo caminho. Antes de pegar o carrinho de pipoca, Edison passou por diversas funções: já foi pintor, ajudante e autônomo em diferentes ramos. Mas foi na pipoca que encontrou uma forma de sustento. O negócio deu certo e, por muito tempo, foi suficiente para manter a casa e realizar conquistas.
Morador do Jardim São Jorge, na zona sul de São Paulo, Edison mantém uma rotina intensa. Acorda todos os dias às 5h00min junto com o filho, que o ajuda no trabalho. Pela manhã, o filho fica no ponto, e à tarde Edison assume até o fim da noite, encerrando as atividades até por volta das 23h00min. O dia começa com a limpeza do carrinho, organização dos ingredientes e só então a subida para o campus. Apesar de já ter perdido o ponto algumas vezes por exigências da Prefeitura, Edison sempre conseguiu retomar sua atividade. Hoje, porém, afirma que enfrenta o período mais difícil desde que começou. O auge do negócio aconteceu durante a pandemia, quando o consumo aumentou mas, agora, a diminuição das vendas preocupa e traz insegurança.
Edison reconhece que a pipoca já lhe trouxe conquistas importantes, mas também vive com receio diante da crise financeira. O lado positivo é o ganho, que o permitiu muita coisa. O negativo é a incerteza: nunca sabe como vai ser o próximo dia. Ainda assim, segue sem desistir, mesmo após quase duas décadas no mesmo ponto. Enquanto continua no carrinho, busca novos caminhos. Atualmente, está fazendo um curso de cabeleireiro, na esperança de diversificar as fontes de renda e reduzir a dependência das vendas. Para ele, a pipoca foi essencial para construir a vida em São Paulo, mas o futuro ainda é um território a ser conquistado.
Apesar das incertezas, todos têm em comum a mesma força: transformar a rua em palco de sobrevivência e esperança. Entre o milho, a tapioca e a pipoca, cada carrinho carrega não apenas um produto, mas também uma história de vida que se entrelaça com a comunidade da PUC-SP. São histórias de luta que mostram que, além do sabor, a comida de rua serve também como prova de resistência, pertencimento e dignidade.