Memórias do cárcere

Após 33 anos, o caso ainda causa revolta
por
Beatriz Brascioli
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23/09/2025

Por Beatriz Brascioli

 

As portas de ferro enferrujadas e paredes furadas por tiros de fuzil e sujas de sangue que ali existiam, hoje dão espaço a um grande parque no meio da cidade de São Paulo, o Parque da Juventude. Ronaldo Mazotto, ex-carcereiro da antiga Casa de Detenção de São Paulo, o Carandiru, reviveu momentos que estão marcados em sua história de vida. Após 33 anos do maior massacre carcerário, esse assunto volta a correr na mídia. Em Brasília, os mestres da toga do Supremo Tribunal Federal (STF) voltaram a julgar os assassinos vestidos de farda. Isso se deve porque o antigo presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, concedeu insulto para policiais, alguns foram condenados a até 624 anos de prisão. 

Sua jornada começava cedo. Trabalhava no primeiro turno e era um dos que morava mais distante, então sua jornada começava antes do amanhecer, lá pelas quatro horas da manhã. Seu turno era de 12 horas, ou seja, começava às seis da manhã e terminava às seis da tarde. Toda troca de turno, havia uma contagem dos presos. Então os números precisavam ser os mesmos da hora que entrou. Sua maior aflição era quando esses números não batiam. Começava assim, a caça ao preso fugitivo. Nenhum funcionário poderia ir embora enquanto a contagem não estivesse correta. Dentre várias histórias, Mazotto se recorda indignado, de quando este número não bateu e foram procurar o fugitivo em todos os lugares. Buscaram no pavilhão 9 inteiro até encontrar dentro das panelas na cozinha. Tentativa de fuga fracassada.

Ele lembra que a crença na fuga era o combustível diário dos pavilhões. E por falar em crença, dentro de cada um não podia faltar religião. Um misto de credos e oferendas. Velas para todos os lados, imagens de santos, orixás,  terços, bíblias,  entre outras coisas. E isso sempre chamou muita a atenção do carcereiro. Um lugar tão violento se mesclava com um ambiente sagrado.

Uma ação que nunca esquece é quando acontecia a troca de turno, por volta das seis da tarde, tocava o hino religioso e a cadeia inteira parava para ouvir.  Chega a ser irônico pensar que no mundo das masmorras, cada um obedece a crença de cada, e no mundo inocentado, que de inocente não tem nada, existe muita intolerância religiosa e brigas por arrogância e egocentrismo.  

Mazotto sempre conseguiu lidar bem com as situações imprevistas do dia a dia. Seu pavilhão fixo era o 9, mas sempre rodava dentre os pavilhões para fazer favores em troca de respeito. Esbarrou em diversas histórias e viu com seus próprios olhos histórias marcantes e que leva consigo para toda vida.

Já foi feito de refém por um dia, em troca de cigarros, a moeda de troca no mundo penitenciário. ele conta que o clima estava tenso entre os policiais e detentos, quando foi começar a contagem para a mudança de turno, o puxaram  para dentro da cela. Pânico. Mas os presos não queriam lhe prejudicar. Ofereceram até Maria-Louca para relaxar. Os caras não o fariam mal, caso contrário aquilo voltaria para eles, apenas queriam usar como “peça-chave” para conseguir mais cigarros. 

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