Por Marco Nery
Em meio ao vai-e-vem constante da Avenida Parada Pinto, na zona norte de São Paulo, um rosto já conhecido se mistura à rotina de passageiros, comerciantes e moradores do bairro Vila Amália. Deitado quase sempre diante de uma loja de artigos médicos, ou sentado no ponto de ônibus poucos metros adiante, ele há 20 anos faz parte silenciosa e às vezes sonora do cenário cotidiano da via. João “da Parada Pinto”, como muitos o chamam, é um dos inúmeros personagens que a cidade abriga nas calçadas, carregando histórias marcadas pela resistência, pela solidão e pela luta para continuar existindo.
João tem 57 anos. A cabeça sempre raspada, a pele castigada e o olhar cansado parecem contar décadas a mais. Ele chegou às ruas aos 37, depois de uma sucessão de acontecimentos que representaram uma queda lenta, gradual, quase sempre dolorosa. Natural de Sorocaba, trabalhou durante anos como ajudante de pedreiro, vendedor e até como limpador de carros. Morava com a mãe, dona Tereza, aposentada, e sustentava a casa com um salário simples, mas suficiente para garantir estabilidade. A rotina era sempre a mesma: acordar cedo, tomar café com a mãe, ir ao trabalho, voltar para casa e encerrar o dia assistindo televisão ao lado dela.
Essa rotina começou a se desfazer quando dona Tereza adoeceu. João abandonou o emprego para cuidar dela em tempo integral, enfrentando dois anos de idas e vindas a hospitais. Após a morte da mãe, perdeu também a estabilidade emocional e financeira que o sustentava. Sem renda, sem emprego e sem familiares próximos, viveu alguns meses de pequenos trabalhos até que as contas se acumularam. Perdeu a casa onde vivia e passou a dormir na rua pela primeira vez no mesmo dia do velório de dona Tereza. A partir daquele momento, tudo o que tinha era uma mochila e uma coberta.
Desde então, João encontrou na Avenida Parada Pinto um ponto para permanecer. A escolha surgiu da sensação de familiaridade: a movimentação constante, os ônibus chegando e saindo, o barulho dos carros, tudo isso criava uma espécie de companhia permanente. Ele sempre comenta que o som da rua o distrai dos próprios pensamentos. Por isso passa boa parte do dia murmurando frases soltas, conversando sozinho ou ouvindo músicas antigas em um celular doado por uma passageira. Guarda o aparelho com zelo, junto a um carregador remendado com fita isolante, e passa horas ouvindo moda de viola e Roberto Carlos.
Ele também convive com a esquizofrenia que o faz conversar sozinho grande parte do tempo. Por causa disso, muitas pessoas que passam pela avenida se assustam ou atravessam a rua ao vê-lo se movimentando e conversando de maneira desordenada. Para quem o acompanha todos os dias, porém, esses episódios já fazem parte da rotina. Funcionários da loja, passageiros do ponto de ônibus e comerciantes afirmam que nunca o viram agir com agressividade. Eles explicam que o que pode parecer ameaça para quem passa apressado é, na verdade, apenas a manifestação de uma condição que João carrega há anos e que nunca recebeu tratamento adequado.
A loja de artigos médicos diante da qual ele dorme há duas décadas é parte essencial de sua rotina. Antes de o comércio abrir, ele estende sua lona, organiza sacolas e deita com a cabeça apoiada em uma jaqueta dobrada. Quando os funcionários chegam, por volta das oito da manhã, recolhe tudo e segue para o ponto de ônibus, repetindo um acordo silencioso que se formou ao longo dos anos: ele respeita o espaço da loja, e a loja o respeita.
Nos meses de inverno, porém, João faz um movimento diferente. Quando o frio aperta, procura abrigo em unidades da Prefeitura, especialmente durante as madrugadas mais geladas. Costuma escolher os abrigos próximos de Santana e Casa Verde. Ele mesmo admite que não gosta do ambiente coletivo, das regras rígidas e da falta de privacidade, mas reconhece que, nas noites de temperatura extrema, é ali que encontra proteção. Nos dias mais frios do ano, sempre desaparece por um ou dois dias, retornando depois à calçada já familiar. Para ele, os abrigos são uma necessidade pontual, uma pausa obrigatória na rua quando o corpo pede socorro.
Entre as pessoas que passam por ele diariamente, relatos de convivência se acumulam. Dona Cleide, de 63 anos, que pega o ônibus para ir ao trabalho cedo, diz que João já faz parte do percurso. Quando não o vê na calçada ou no ponto, estranha e se preocupa. Ela sempre recebe dele um aceno discreto e comenta que, apesar de falar sozinho, ele demonstra educação e gentileza.Thiago, motoboy que entrega marmitas ali perto, costuma deixar um lanche para João no horário do almoço. Observa que ele nunca pede, mas agradece como quem recebe algo raro. Para Thiago, João permanece nas ruas porque perdeu vínculos e referências, como alguém que já não acredita mais que pertence a outro lugar.
Renata, funcionária da loja, lembra da forte chuva que uma vez molhou todas as sacolas de João. Ela e os colegas ofereceram espaço no depósito para ele guardar seus pertences até secarem. João chorou ao agradecer, emocionado por sentir que alguém cuidava dele. Desde então, eles se revezam perguntando se ele precisa de água, de um remédio ou de um casaco. Mesmo com abordagens constantes da assistência social, João sempre recusa a ideia de morar definitivamente em abrigos. Carrega medo da violência, aversão à perda de privacidade e uma vontade firme de manter a autonomia. Diz que já perdeu tanto que não quer abrir mão das poucas escolhas que ainda tem: onde dormir, onde ficar, onde estar.
Às vezes comenta, de maneira tímida, o desejo de ter um quarto só dele, com uma cama e silêncio. Mas logo volta à incerteza que acompanha sua rotina. Até que isso aconteça, continua onde está: na frente da loja quando ela fecha, no ponto de ônibus quando ela abre, observando a cidade passar ao seu redor.Na avenida que nunca dorme, João permanece como parte da paisagem humana muitas vezes ignorada. Vinte anos depois de chegar à Parada Pinto, continua ali, conversando sozinho, ouvindo músicas antigas e resistindo como pode. Sua presença, constante e silenciosa, revela uma cidade que acolhe e abandona na mesma medida, mas onde cada pessoa carrega uma história que merece ser contada.