Por Pedro Banhara
Compor uma música envolve uma sequência de escolhas que começa muito antes da faixa chegar a uma plataforma de streaming. Há quem passe dias procurando uma melodia, reescreva versos, grave dezenas de versões de um instrumento ou refaça uma mixagem até encontrar o resultado desejado. Parte desse processo começa a ser compartilhada com ferramentas de inteligência artificial, que já podem auxiliar em tarefas específicas da produção e, em alguns casos, gerar elementos inteiros de uma música.
A mudança altera a relação dos músicos com o próprio trabalho. Uma ferramenta pode ajudar a encontrar um erro em uma mixagem, sugerir caminhos para um arranjo ou ensinar como utilizar determinado recurso de um programa. Também pode participar de decisões que antes dependiam exclusivamente de compositores, produtores e técnicos. Quanto maior essa participação, mais questões aparecem sobre aprendizado, autoria, identidade artística e espaço para novas produções em um mercado que já recebe uma quantidade enorme de músicas.
Há ainda uma diferença importante entre usar a tecnologia como apoio e transferir a ela uma parte significativa do processo criativo. Um músico pode recorrer à IA para resolver uma etapa técnica e continuar responsável por todas as decisões de composição. Outra pessoa pode partir de uma instrução e receber uma faixa praticamente pronta. Entre essas duas situações há muitas possibilidades, e cada uma envolve uma relação diferente com a criação.
Essa variedade também aparece entre músicos em momentos distintos da carreira. Pedro Farias, de 22 anos, terminou de produzir recentemente seu primeiro EP, com cinco faixas, enquanto ainda procura entender qual é seu próprio processo de composição e produção. Roberto Santana, de 55 anos, trabalha há décadas com música e trilhas sonoras e começou a experimentar ferramentas de IA em mixagem e masterização. As experiências dos dois ajudam a observar o que muda no trabalho musical à medida que a tecnologia deixa de ser apenas uma promessa e passa a fazer parte do estúdio.
Roberto começou a testar ferramentas de inteligência artificial para entender o que elas realmente conseguiam fazer. Em algumas mixagens, passou a comparar o resultado produzido com auxílio desses recursos com o trabalho que faria normalmente. Em certos casos, encontrou soluções interessantes. Em outros, percebeu limitações que exigiam intervenção humana. O teste abriu outra possibilidade. Em vez de pedir que a ferramenta executasse determinada tarefa, Roberto passou a utilizá-la para entender melhor o próprio processo de produção.
Ele pode apresentar uma mixagem e perguntar o que pode estar causando um problema, comparar duas versões ou descobrir como utilizar uma função de um programa que ainda não conhece. Para quem está aprendendo, esse tipo de uso pode ser tão importante como a automação de uma etapa do trabalho. Um músico que descobre com a IA como corrigir determinado problema pode levar aquele conhecimento para outros trabalhos. O mesmo vale para quem está aprendendo um software. A ferramenta explica uma função, apresenta possibilidades e permite que o usuário teste o procedimento por conta própria.
Roberto vê nessa relação uma das utilidades mais interessantes da tecnologia. Em vez de depender sempre da IA para executar uma tarefa, o profissional pode utilizá-la para entender como a tarefa funciona. Um erro identificado durante uma revisão pode se transformar em conhecimento para o trabalho seguinte. Essa forma de utilização também muda o papel que a tecnologia ocupa no estúdio. Ela deixa de ser apenas um recurso para economizar tempo e passa a funcionar como apoio durante o aprendizado. Para Roberto, conhecer as ferramentas é importante justamente porque elas estão modificando a maneira como determinadas etapas da produção podem ser realizadas.
A relação de Pedro com a tecnologia é mais cautelosa. No momento em que começou o projeto, ele ainda estava descobrindo como queria escrever e produzir. Nesse contexto, os erros também tinham importância. Testar uma melodia, perceber que ela não funcionou, mudar uma parte e gravar novamente fazem parte da maneira como ele entende a composição. Pedro prefere atravessar essas etapas antes de recorrer a ferramentas que possam resolver determinadas escolhas por ele. Isso explica sua diferença entre os recursos automáticos já incorporados aos programas de produção e sistemas capazes de gerar uma música a partir de comandos. Uma função que ajuda em uma etapa técnica ainda deixa grande parte das decisões nas mãos do músico. Uma ferramenta que entrega uma faixa completa participa de uma parcela muito maior da criação.
Pedro ainda está construindo referências, experimentando possibilidades e tentando descobrir qual tipo de música quer fazer. Por isso, o processo tem um peso importante na maneira como ele enxerga a tecnologia. Aprender a compor também envolve descobrir o que funciona, lidar com o que deu errado e reconhecer características próprias ao longo do caminho.
Já a experiência de Roberto traz outro ponto para essa discussão. Em trilhas sonoras, ele considera que algumas decisões dependem da leitura de uma cena, de um personagem ou da intenção de um diretor. Nem sempre essas escolhas podem ser reduzidas a uma explicação técnica. Uma mudança pequena em uma nota ou em um timbre pode alterar a percepção de um momento.
Ferramentas capazes de reconhecer padrões podem oferecer possibilidades rapidamente. A experiência do profissional entra na decisão sobre qual delas combina com aquela música, aquela cena ou aquele projeto. E o mercado vira referência para a produção.
A preocupação de Pedro também está relacionada ao mercado. Um artista que está lançando o primeiro trabalho já precisa disputar atenção com um catálogo gigantesco. A IA acrescenta uma possibilidade de produção em escala que pode aumentar ainda mais a quantidade de músicas disponíveis. Um músico pode passar meses trabalhando em algumas faixas. Uma ferramenta generativa consegue produzir uma quantidade muito maior de material em um período curto. A diferença de escala pode pesar especialmente para quem ainda está tentando encontrar público.
As reproduções artificiais acrescentam outro problema. Pedro chama atenção para o uso de bots capazes de inflar números de streaming. Se músicas produzidas em grande quantidade também recebem reproduções falsas, elas podem ocupar espaço nas plataformas e interferir na distribuição de recursos. Ao mesmo tempo, ele reconhece que a tecnologia pode facilitar a entrada de novos músicos. Uma pessoa com uma ideia e pouco conhecimento técnico pode encontrar nessas ferramentas uma maneira de experimentar. Alguém que não tem dinheiro para alugar um estúdio ou ainda não sabe operar um programa pode conseguir produzir uma primeira versão de uma música. Para ele, essa possibilidade tem valor. A preocupação aparece no uso da automação para produzir milhares de faixas com o objetivo de preencher catálogos ou gerar receita. São usos diferentes da mesma tecnologia e produzem efeitos diferentes sobre o mercado.
Quanto mais a IA participa de mais etapas da produção, também fica mais difícil definir o papel de cada envolvido em uma música. Roberto faz uma distinção entre utilizar a tecnologia em uma etapa e entregar a ela uma parte extensa do processo criativo. Uma pessoa pode compor uma música, gravar os instrumentos e recorrer a uma ferramenta para auxiliar em uma etapa da produção. Outra pode fornecer algumas instruções e receber uma faixa pronta. Nos dois casos, há participação de uma ferramenta de IA, porém a relação com a criação é bastante diferente.
Essa diferença também interfere na maneira como o músico reconhece o próprio trabalho. Para Pedro, ainda existe valor em saber de onde veio cada escolha de uma música. Durante seu projeto, ele quis acompanhar esse percurso de perto, inclusive nas partes que precisaram ser refeitas.
Roberto, por sua vez, vê a tecnologia como algo que pode entrar em diferentes momentos do processo sem necessariamente ocupar o lugar do profissional. Uma ferramenta pode ajudar a identificar um problema ou mostrar uma possibilidade. A decisão sobre o que fazer com aquela informação continua dependendo de quem está produzindo.
A discussão também envolve questões que ultrapassam o estúdio, como o uso de obras para treinamento de sistemas, reconhecimento de autoria e remuneração. Quanto mais a IA passa a participar da produção e distribuição musical, maior fica a necessidade de distinguir a contribuição de cada agente envolvido.
A pressão para acompanhar essas ferramentas aparece de maneira diferente para cada músico. Para quem está começando a carreira em um cenário no qual a IA já faz parte dos programas e plataformas que cercam a produção musical e para quem teve contato com sucessivas transformações tecnológicas ao longo de décadas e agora testa mais uma. Pedro pode passar dias trabalhando em uma música enquanto uma ferramenta produz diferentes possibilidades em pouco tempo. Isso levanta uma questão sobre o que acontece com o aprendizado necessário para desenvolver um estilo próprio. Já Roberto encontrou na própria tecnologia uma forma do recurso deixar de ser apenas um executor e participar do processo de formação do músico.
A trajetória de cada um ainda pode mudar conforme as ferramentas evoluem. O que permanece em aberto é a proporção dessa participação e o espaço que cada músico pretende deixar para a tecnologia dentro do próprio processo. Por enquanto, a inteligência artificial amplia o conjunto de ferramentas disponíveis para quem faz música. O que ela fará com esse espaço depende das escolhas de cada artista e das regras que vão definir sua relação com o mercado musical.