A organização sem fins lucrativos “Imargem” foi fundada em 2019 no distrito do Grajaú, em São Paulo. Com o objetivo de promover atividades educativas e reforçar a relação com o território em que as comunidades do Grajaú vivem e a convivência com a represa Billings e a mata atlântica, além de sensibilizar pessoas de fora, principalmente escolas públicas, através de seus passeios educativos. A associação oferece diversas atividades, como murais de graffiti, passeios de barco à vela e reforça seu compromisso com o meio ambiente, por meio de inúmeras práticas.
Algumas das mais importantes são, o reaproveitamento de alimentos, o uso de energia solar e a implementação da prática de permacultura.
Reaproveitamento de alimentos
O projeto “O que cabe no meu prato?” leva alimentação saudável e de qualidade que são produzidos com ingredientes agroecológicos (sem agrotóxicos) que são produzidos pela agricultura familiar do Grajaú e Parelheiros. Desde março de 2022, um grupo de estudos discute o acesso à boa alimentação com a ajuda dos moradores. Muito além de colocar a mão na massa e cozinhar, o projeto cria discussões e conscientização sobre o reaproveitamento de alimentos.
Tal prática busca usar o alimento por completo, até mesmo partes que seriam descartadas. Além de ser sustentável, a ação evita o desperdício e ajuda a reduzir gastos a mais no fim do mês. De acordo com a ONU (Organização Das Nações Unidas) o Brasil ocupa a 10° posição nos países que mais desperdiçam alimentos, cerca de 46 milhões de toneladas por ano. Essa quantidade seria suficiente para alimentar 12 milhões de pessoas e acabar com a insegurança alimentar grave no país, que atinge cerca de 6,5 milhões de cidadãos. Reaproveitar a comida também alivia o bolso nos períodos em que a inflação não para de subir.
Restos de comida como cascas de frutas e legumes, talos, sementes, ganham outras funções. Cascas de legumes por exemplo podem virar chips de batata, cenoura, beterraba e abóbora, talos de folhas que podem virar sopas, farofas e molhos, e sementes que se assadas viram aperitivos. Já as de frutas podem se tornar doces, como a casca de banana e laranja, que podem ser acrescentadas em bolos, a goiaba e a parte branca da melancia que pode virar calda ou geleia, casca de manga que pode virar composta, entre outros usos.
Outras formas de aproveitar o alimento, é transformando em adubo orgânico. Esse mecanismo fornece nutrientes e funciona como um fertilizante natural. Restos de alimentos como cascas de frutas e legumes, são colocados no solo e fornecem nutrientes para enriquecer a qualidade da terra. O adubo orgânico tem efeito a longo prazo, diferente do fertilizante convencional que tem efeito imediato, uma vez que é solúvel, ou seja, se perde rapidamente por conta da lixiviação (processo de retirada de dos nutrientes do solo pela ação da água que penetra nas camadas superficiais do substrato). Além do adubo orgânico ser feito de forma rápida e barata, ele é a melhor opção para uma alimentação saudável e de qualidade.
Por mais que o fertilizante em si não seja veneno, eles são produzidos a partir de processos químicos, e a longo prazo, eles podem trazer problemas à saúde. O excesso de nitratos e nitritos no corpo humano traz problemas como a falta de capacidade do sangue de transportar oxigênio. Doenças como o câncer também estão associados a quantidade ingerida a longo prazo. É por isso que comer alimentos de um solo orgânico é a melhor opção. Essa ação resulta em alimentos com maior concentração de nutrientes, tornando o produto mais saboroso e com maior qualidade nutricional.
Energia Solar
No instituto gerido pelo grupo, a energia solar também faz parte do ciclo sustentável. Apesar deste tipo de energia ter um custo alto de implementação, já virou realidade na favela do Jardim Nakamura. Localizado no Jardim Ângela, zona sul da capital, o instituto Favela da Paz foi pioneiro na implementação da energia renovável.
A primeira microgeradora de energia fez a implementação de placas de energia solar em 2021. Uma das formas mais comuns de transformar a luz do Sol em energia é por meio de painéis solares, conhecidos como fotovoltaicos. Eles absorvem os raios e os convertem em energia limpa e renovável. A iniciativa começou com a ideia da cientista ambiental Gabriela Gonzaga e recebeu o apoio do coordenador do instituto Favela da Paz, Fábio Miranda, e de empresas como a CL Solar para se tornar realidade. Funcionando em formato “on grid”, nesta modalidade, a geradora faz a captação dos raios solares, transforma em energia, abastece a demanda das famílias e o que sobra é devolvido para a rede da concessionária de energia.
Quem usa a tecnologia pode economizar em até 95%, mas o custo para a implementação de energia fotovoltaica em residências ainda é alto no Brasil, variando entre seis mil e quinze mil reais.
O instituto também tem cursos e atividades voltadas para a comunidade com objetivo de promover o bem-estar e reduzir as desigualdades. Um dos projetos é o Periferia Sustentável, que promove o desenvolvimento de energias sustentáveis. Por meio de incentivos financeiros, eles oferecem capacitação profissional, oficinas de Permacultura e instalação de sistemas ecológicos que tornam residências e espaços comunitários autossuficientes.
A iniciativa do Instituto Favela da Paz mostra que a geração de energia pode ser também um instrumento de transformação social. Produzindo sua própria energia, a comunidade fortalece sua autonomia, reduz os impactos ambientais e inspira outras iniciativas semelhantes em diferentes regiões do país.
Permacultura
A permacultura é uma prática com o objetivo de contribuir para a criação de áreas ecológicas e sustentáveis, fazendo uso de conhecimentos tradicionais em conjunto com a ciência moderna. O termo deriva de um conceito criado na Austrália em 1970 pelos ecologistas Bill Mollison e David Holmgren e chamado de “permanent agriculture”
A ideia original era um planejamento agrário de vegetais que se preservassem naturalmente, produzindo recursos naturais o suficiente para atender as necessidades humanas de forma não predatória. No entanto, com o passar dos anos, o conceito ultrapassou as práticas agrárias e abraçou outros setores, principalmente a engenharia, a arquitetura e as ciências sociais. Foi assim que passou a se chamar “permanent culture” ou permacultura.
O conceito se baseia em práticas agrícolas e sociais que usem a natureza de modo que o ser humano não apenas se aproveita dela, mas sim trabalha para que seu desenvolvimento seja permanente.
Segundo o site “ecotelhado” esses são os três pilares da permacultura: “Cuidar da terra para que todos os sistemas de vida continuem e se multipliquem; cuidar das pessoas, permitindo que todas acessem os recursos necessários para a sua existência e compartilhar excedentes, inclusive conhecimentos, prezando pela paridade.”
Desta forma, algumas das práticas de permacultura são: os minhocários, sistemas fechados em que os resíduos orgânicos são usados como fertilizante e alimento para minhocas que, por sua vez, são usadas para ajudar a fertilizar o solo das plantações; o banheiro seco, uma tecnologia de saneamento já usada em países como Canadá, Nova Zelândia e Suécia. Esses banheiros não usam água para o descarte de dejetos, e o próprio sistema aproveita as partes sólidas como adubo orgânico e as líquidas como fertilizantes.
Por fim, há as ecovilas, comunidades autossuficientes com um foco em ecologia, estilo de vida social harmônico e sustentabilidade.
No “Imargem”, diversas atividades ecológicas são oferecidas para ensinar à pessoas de todas as idades esse estilo de vida sustentável, e principalmente disseminar a visão de permacultura que a ONG possui.
Algumas das atividades oferecidas são: “Oficinas de hortas em pequenos espaços"; apresentação de algumas formas de sistema de tratamento de esgoto alternativo; Sistemas de tratamento do resíduo orgânico com compostagem, através da vermicompostagem ou compostagem termofílica, entre outras atividades sustentáveis.