Por Arthur Rocha
A luz da tarde despeja um ouro velho sobre salas de convivência em centenas de instituições pelo País, iluminando partículas de poeira que dançam como memórias leves no ar parado. São nesses horários que os asilos respiram diferente, ou melhor, tentam respirar entre suspiros e os ruídos de mentes que se perdem. Em uma sala qualquer, mulheres idosas se reúnem ao redor de mesas cobertas de retalhos, tentando sobrepor o som de suas agulhas aos gritos que vêm do corredor. De alguma ala, sempre ecoam vozes conversando com fantasmas de entes falecidos há décadas, enquanto outras arrastam malas imaginárias na espera eterna por alguém que nunca virá.
Os que mantêm a lucidez trocam olhares de uma cumplicidade cansada, um silêncio que diz mais que palavras. Em outra sala, um homem tenta recordar o amigo da melodia de O Show tem que continuar, do Grupo Fundo de Quintal, mas a memória escorre pelos dedos a cada cinco minutos, como água entre as mãos. Lágrimas silenciosas molham instrumentos desafinados enquanto acordes simples se perdem nos labirintos do esquecimento. São cenas que se repetem diariamente em milhares de quartos e corredores pelo Brasil, histórias não contadas de resistência silenciosa.
O cenário é alimentado por números que assustam: segundo o Censo da Pessoa Idosa 2023, existem mais de 5,7 milhões de idosos vivendo sozinhos no Brasil, muitos deles completamente abandonados por suas famílias. A Fundação Perseu Abramo revela que cerca de 4 milhões de idosos não recebem visitas de familiares, nem mesmo em datas especiais como Natal ou aniversários.
Os refeitórios dessas instituições se transformam em palcos de dramas silenciosos. Em uma mesa, um homem empurra o prato com suspeita de veneno inexistente. Em outra, uma senhora perambula entre as cadeiras perguntando incessantemente pela filha que morreu há anos. Nos cantos, outros balançam travesseiros como se fossem bebês, cantarolando canções de ninar para fantasmas do passado. São cenas que se multiplicam por milhares de instituições, cada uma com seus personagens anônimos presos em labirintos mentais.
Os dados da Organização Mundial da Saúde mostram que o Brasil tem uma das maiores taxas de depressão entre idosos institucionalizados das Américas, chegando a 40%. A Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) 2019 aponta que 29,1% dos idosos relatam sentir solidão, um sentimento que se intensifica dramaticamente entre os que vivem em instituições.
Quando a noite chega, os corredores escuros se enchem de sons que testam a sanidade dos que ainda a mantêm. Gritos intermitentes ecoam pelo silêncio , pesadelos que se confundem com realidade, confusões mentais que se agravam com a escuridão, dores da alma que encontram voz quando não há mais distrações diurnas. Em quartos espalhados por todo o País, homens reorganizam as mesmas roupas repetidamente, mulheres conversam com quadros nas paredes, vozes discutem com sombras.
O Disque 100, canal de denúncias do Ministério dos Direitos Humanos, registra cerca de 40 mil denúncias de violação de direitos dos idosos anualmente, sendo o abandono uma das principais queixas. Os Conselhos Estaduais do Idoso estimam que para cada caso notificado, outros dez permanecem invisíveis , histórias que nunca chegam aos registros oficiais, se perdendo nos muros das instituições.
A verdade mais dura é que esses números representam apenas a ponta de um iceberg de abandono e sofrimento. Por trás de cada estatística, há dezenas de histórias não contadas , homens e mulheres que desaparecem da memória coletiva enquanto ainda respiram, que se tornam fantasmas em vida em instituições esquecidas nos quatro cantos do país.
Ainda assim, como pequenos milagres cotidianos, a resistência persiste. Em salas de atividades por todo o Brasil, mãos idosas continuam tecendo não apenas pontos e melodias, mas redes frágeis de sanidade que os mantêm à tona. Quando ajudam um companheiro a encontrar notas perdidas na escala musical, ou quando acalmam um vizinho em crise com palavras suaves, esses anônimos afirmam silenciosamente que mesmo onde a razão deserta, a humanidade ainda pode florescer em gestos simples.
Nessa teia invisível de afetos e paciência, entre gritos noturnos e lágrimas diurnas que nunca serão registrados em nenhuma pesquisa, milhares encontram a força suave que os impede de desistir completamente. E talvez essa seja a maior resistência de todas: permanecer são em ambientes que constantemente testam os limites da sanidade, dia após dia, sem plateia, sem reconhecimento, sem que ninguém lá fora sequer saiba que existem.