Ao rolar o feed de Redes Sociais, sobretudo aquelas que priorizam conteúdos em vídeo como o Instagram e o Tik Tok, a depender da forma como se comporta o seu algoritmo, muito provavelmente você será apresentado a conteúdos de trophy wife, ou “esposa troféu” em português. Nos vídeos, as mulheres apresentam as suas rotinas de esposa que se mantêm em casa enquanto o marido sai para trabalhar. Em grande parte do tempo elas aparecem indo ao mercado, cozinhando, cuidando dos filhos e indo à academia. A descrição é muito semelhante às já conhecidas tarefas domésticas praticadas por donas de casa, mas nos conteúdos de esposa troféu ocorre um diferencial: a preocupação excessiva com a beleza e comportamentos femininos.
A pesquisadora na área de Saúde Mental e Gênero e professora no Departamento de Psicologia Clínica da Universidade de Brasília, Valeska Zanello explica em suas redes sociais sobre a vaidade e a necessidade de mulheres de manter a aparência padronizada: "No dispositivo amoroso, mulheres aprendem a terceirizar sua auto-estima, de modo que só se sentem desejáveis quando tem alguém as desejando, e normalmente esse alguém é um homem". Para a especialista: "o corpo é utilizado para exercer poder através da sedução. A auto-objetificação que é comumente interpelada nas mulheres atua como forma de afirmação da feminilidade e de empoderamento”, conclui.
A expressão “dona de casa” ganhou maior relevância no Brasil a partir dos anos 50, de acordo com Carla Cristina Garcia, Doutora em Sociologia de Gênero, pesquisadora em Estudos Feministas e professora assistente na PUC-SP. Para Carla, por influência do modelo familiar norte-americano que fazia referência ao estilo de vida empresarial da época, o patriarca chefe de família seria o responsável por trabalhar fora de casa e prover as condições de subsistência da esposa e dos filhos, enquanto a esposa seria “a mulher perfeita que cozinha, lava, passa, educa os filhos e ainda serve de apoio psicológico para o marido”.
Enquanto as “donas de casa” estão ultrapassadas, em 2024 o movimento de esposa troféu aparece como uma releitura do modelo familiar estadunidense, dessa vez com uma nova face. A especialista completa: “A esposa troféu é uma dona de casa que acha que está em vantagem por trabalhar em casa e não na rua”, e para a pesquisadora o problema é justamente este, porque “as mulheres que se consideram “troféu” não reconhecem que trabalham em casa. Elas acham que cozinhar e modelar o corpo exaustivamente na academia não é trabalho”.
Em entrevista para a Revista AzMina, a filósofa e escritora italiana Silvia Federici disse considerar o sexo no relacionamento heteroafetivo como uma das tarefas da atividade doméstica, como uma forma de exploração de trabalhos não pagos da mulher: “Para as mulheres, sexo sempre foi trabalho, é parte do trabalho doméstico. Esse é o contrato de casamento. Estamos analisando quais têm sido as expectativas sociais do trabalho da mulher em casa.”

A palavra “troféu” vem do latim “tropaneum”, que se relaciona diretamente com conquistas realizadas em guerras, seja de cativos, bens ou armas. “O troféu surge como uma forma de reconhecimento (militar) coletivo de que o grupo vencedor tem o direito legítimo de dominação do perdedor”, explica Paloma Comparato, doutoranda em Filosofia pela PUC-SP: “É essa ideia que o conceito de esposa troféu carrega etimologicamente”.
Muito comum entre publicações de influenciadoras digitais de classe alta, o comportamento de hipervalorização da manutenção estética do corpo da mulher chama atenção nas postagens e são reproduzidos mesmo por mulheres de classe média e baixa que não costumam realizar procedimentos estéticos e cirurgias plásticas. Para Paloma, “mesmo que alguns pontos se alterem” há uma linha argumentativa que se repete: “acredito que as primeiras perguntas devem ser: por que estes corpos e não outros? O que há de comum entre eles? O que nos dizem e o que deixam de dizer?”
Segundo Comparato, o movimento só tem ganhado notoriedade porque há quem o acompanhe. “O troféu só existe enquanto objeto a ser visto, exaltado, admirado. O que é o Instagram se não uma vitrine? (...) a vitrine só funciona de maneira relacional: há o objeto exposto mas há também o sujeito espectador.” Em publicação no perfil de uma marca independente da Malásia chamada “Detalic Retail” foi anunciado o lançamento de uma linha de roupas de nome “Trophy Wife”, que consiste em roupas justas, curtas e associadas a mulheres jovens.
A modelo aparece no vídeo do Instagram falando inglês, com frases que se propõem a ressignificar o conceito de esposa troféu, como “a esposa troféu não é uma mulher cujo trabalho é apenas ficar imóvel e parecer bonita, mas sim a sua versão mais elevada. (...) Que valoriza a si mesma, para se tornar o seu bem mais precioso.” A fala final que fecha o vídeo é: “Somos chamadas de troféu por uma razão.”
Apesar de o consumo e o compartilhamento desses conteúdos parecerem circular em um grupo específico de mulheres, normalmente de classe média, os debates a respeito das publicações não se limitam a este grupo. Marina Onofre, de 59 anos, é uma liderança de seu bairro na região de Sapopemba, Zona Leste de São Paulo, e presta consultoria para parlamentares e movimentos sociais que desejam realizar ações populares locais. Para Marina “esse negócio de esposa troféu é antigo, mas só as mulheres ricas eram. Elas terceirizam o cuidado com a casa e os filhos e podem passar o dia malhando o corpo”. Onofre diz não acreditar que o movimento seja positivo para mulheres trabalhadoras: “Agora, é muita ilusão as mulheres pobres acharem que são iguais, quando mostram uma rotina de (empregada) doméstica! O que tem de troféu nisso?!”.
Sob pensamento semelhante, Paloma Comparato completa: “me parece que essa lógica discursiva que parece nova, mas só reitera papéis estabelecidos, demonstra que a emancipação não se trata ali de um engajamento do sujeito, mas de seu poder de compra, talvez”. De acordo com Paloma, “é evidente dizer que esses movimentos colocam o corpo feminino sob uma normatividade já vista como ultrapassada”, e que “não seria mais interessante se perguntar então o que, na nossa sociedade, faz com que esse discurso seja reverberado e sua prática desejada?”