A mostra “Grafiteiras Pela Vida das Mulheres" foi inaugurada em 27 de março no prédio da Ação Educativa, na Vila Buarque, região central da capital paulista, onde vai permanecer até o dia 27 de maio. A exposição exibe obras de arte que exaltam a resistência feminina e foi uma iniciativa do coletivo Mulheres Urbanas, que reafirma o espaço das mulheres na cultura periférica e promove conscientização e educação por meio da arte urbana.
A abertura da exibição aconteceu no Dia do Grafite e foi marcada por um evento de inauguração com comida, bebida e música, com direito a uma DJ ao vivo. A data também marca o dia em que o prédio inaugurou novos grafites que, há anos, são substituídos nessa data especial após um cuidadoso processo de curadoria.
Assim, quem comparecer ao local para contemplar as obras da mostra vai ser recebido por tinta fresca, colorida e viva nos muros. As artes das paredes também seguem a temática de resistência e empoderamento feminino, além de serem produzidas por grafiteiras mulheres.
“O meu olhar não é de inclusão, mas de retomada. Se estudarmos a história da arte, veremos que as mulheres são a maioria pintando, desenhando e ocupando essas frentes de cultura e de arte”, declarou Juliana Costa, grafiteira responsável pela curadoria dos novos grafites no prédio, sobre o aumento do número de mulheres nessa área que ainda é ocupada majoritariamente por homens.
Segundo ela, a ausência de mulheres em certas áreas é um apagamento e uma sabotagem. Ela ainda afirma que é muito importante que as pessoas se abram para o espaço feminino na arte não como algo novo, mas como algo que sempre deveria ter estado ali.
“É uma forma de mostrar que as mulheres podem estar em vários caminhos e reforçar as diversas formas de liberdade e autonomia das mulheres. Às vezes a estrutura que nós temos faz parecer que as mulheres não têm muito para onde ir”, declarou a grafiteira.
O grafite, que serve como instrumento de protesto e é uma importante forma de arte urbana, é regularmente associado à figura masculina. No entanto, eventos como este mostram que há mulheres no nicho, que manifestam seus anseios, expondo os preconceitos e violências que passam.
O encontro mostrou que o grafite, além de uma poderosa plataforma de manifestações políticas, também é campo de interesse das mulheres e pode servir como um apoio à luta contra o machismo e o sistema patriarcal que estrutura a sociedade.
Além disso, a arte ainda dá voz à arte feminina de periferia. O grafite que está presente nos muros das comunidades e faz parte da luta no território, também é representado no edifício. Com isso, não só quadros podem ser prestigiados, mas o grafite em sua essência, na parede, também está presente no evento.
Juliana ainda diz ter entrado no mundo do grafite devido a ideia de “radicalizar a liberdade”, pensamento que atinge não só a curadora, mas grande parte das artistas que encontram nas tintas e nos pincéis, uma maneira de ser livre e se desprender das amarguras de ser mulher atualmente.
Feminicídios cresceram em 2026
Uma das intenções do projeto é transformar a tinta em uma arma contra o feminicídio, que vem crescendo há anos e bateu número recorde no Brasil em 2025.
O Código Penal define o feminicídio como: “o assassinato de uma mulher por razões da condição do sexo feminino”. Ele é classificado como um crime hediondo, sem possibilidade de progressão de regime e com a pena variando de 12 a 30 anos de prisão.
Dados da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP-SP) mostram que somente no primeiro bimestre de 2026, foram registrados 56 casos de mortes por feminicídio em todo o estado. Um aumento, se comparado ao mesmo período de 2025, que teve 42 registros.
Um estudo publicado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, aponta que foram registrados 1.568 casos em todo o Brasil em 2025, um crescimento de 4,7% em comparação com o ano anterior. Em comparação com o ano de 2015, quando houve a tipificação desse tipo de crime, o número de casos subiu 349%.
Além disso, a pesquisa também revelou que em 13,1% das mortes pelo crime registradas em todo o país, a vítima tinha medida protetiva emitida contra o agressor, e que mais de 60% das mulheres mortas eram negras. O estudo ainda diz que 59% delas foram assassinadas por seus próprios companheiros.
Sobre isso, Juliana conta que a iniciativa do grafite, além de outras ações, posiciona as mulheres e lhes dá protagonismo para um lugar de pertencimento, não só pela violência. Ela ainda aponta que esses projetos reforçam as diversas formas de liberdade e autonomia das mulheres.