“Favela Galeria” insere arte no cotidiano da comunidade

Projeto aproxima moradores da Vila Flávia ao universo artístico e gera acesso às discussões políticas que surgem na arte urbana
por
Nathalia de Moura, Nicole Domingos e Victória da Silva
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29/04/2026

A Favela Galeria foi criada por integrantes do Coletivo OPNI. Nas ruas da Vila Flávia, no bairro de São Mateus, na zona leste de São Paulo, o Coletivo foi fundado em 1997. Inicialmente, era composto por cerca de vinte jovens residentes no bairro, que se juntaram com um ideal em comum: expressar por meio de arte, a realidade do dia a dia que os tornava invisíveis, para oportunidades e alvo para compor estereótipos.

Valdemir Pereira Cardoso, conhecido como Val Rua, é cofundador do OPNI, que tem relação com “OVNI” (objeto voador não identificado) e explica que a sigla já teve diversos significados. O primeiro era “Objetos Pichadores Não Identificados”, pois naquela época, estava no auge as histórias sobre extraterrestres e os integrantes se identificavam de certa forma: “Nos sentíamos muito como extraterrestres desse planeta, porque não nos víamos encaixados em nenhum lugar.”, explica Val.

Os anos foram passando e novos significados para o Coletivo surgiram, como “O Povo Nada Impõe”, “O Desprezado Nada Importante” e “O Ódio Produz Nossa Inspiração”. Val pontua que o grupo tinha uma “inquietação” com as situações cotidianas, já que viam frequentemente a violência pelas ruas de São Paulo, mas isso não os impedia. Eles adquiriram conhecimento através das culturas de São Mateus como a música, com foco no rap, no rock e no samba, junto com o gosto de desenhar.

Através dessas experiências, o Coletivo OPNI saiu da cidade e até do estado para vivenciar coisas novas. “Vimos que a gente tinha uma necessidade de mostrar o que a gente tava vendo de lá de fora”, disse Val. A partir disso, a Favela Galeria surge.

Em 2009, a Favela Galeria foi idealizada e desenvolvida pelo Coletivo OPNI, junto com artistas e lideranças comunitárias da Vila Flávia. A galeria a céu aberto é considerada patrimônio da comunidade e um dos maiores atrativos da região, que conta com cerca de 200 intervenções. A curadoria é desenvolvida de forma coletiva e já proporcionou para as ruas e vielas da região referências nacionais e internacionais da arte urbana.

O espaço serve como encontro, difusão, articulação artística e cultural entre as periferias, lugar onde a arte também consegue elevar a autoestima dos moradores, potencializa os jovens, preserva as memórias da população negra, além de alimentar debates importantes para o território, como o combate à violência, à desigualdade social e opressões diversas. “Nós acreditamos que combatemos a violência com amor, com esperança, com arte, cultura, lazer e aí onde vem toda essa atmosfera da Favela Galeria”, explica Val, que também é um dos curadores do projeto.

A Favela Galeria possui parcerias com diversos grupos e oferece cursos e oficinas gratuitos de diferentes linguagens para crianças e jovens da comunidade. Segundo Val, atualmente eles não contam com apoio do governo para manter o espaço. Através dos trabalhos dele e de Carlos Moreira dos Santos, o Toddy ou Nego Todd, que também faz a curadoria do espaço, eles garantem a renda para irem pagando pelo local.

O ateliê é composto por dois andares, mas hoje, apenas o primeiro andar está em uso devido a falta de verba para manter o segundo. O grupo participa de alguns projetos e, no momento, conta com a ajuda de um fomento para pagar o aluguel do primeiro andar. “Essa questão de manter é um dia após o outro dia, né? Quando falamos de financiamento, a gente tá falando da grana, mas a gente realmente precisa de uma estrutura.”

Impacto do projeto na comunidade

Em galerias convencionais, o ambiente é, na maioria das vezes, muito elitizado. Até mesmo o MASP (Museu de Arte de São Paulo) - que é considerado o maior museu da América Latina e está entre os mais visitados do mundo de acordo com o levantamento do The Art Newspaper - não é acessível e não gera pertencimento entre pessoas da periferia. Val destaca que, por motivos como esse, a comunidade se identifica com a Favela Galeria, já que ela se insere no meio da comunidade e compõe o território, aproximando ainda mais as pessoas.

A Favela Galeria surge como um contraponto às demais que existem em São Paulo. O artista ainda reflete sobre a sensação de que nessas galerias não há lugar para todo o mundo. Em contraste, a Favela Galeria, que segundo Val é um local bem pensado, não há distinções de pessoas: “se a galeria não nos cabe, então vamos fazer a nossa galeria”.

Outro ponto de importância do projeto na periferia é que, para além do fator estético que ele carrega, a Favela Galeria mostra as mazelas que aquela região enfrenta. “Foi através dessas mazelas que a gente começou a canalizar o esgoto e foi através do grafite que a gente ajudou a abrir uma instituição chamada ‘São Mateus em Movimento'.” contou Val.

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A música também é retratada nos grafites e se torna um elemento fundamental para a vivência da comunidade. Foto: Mayara Pereira

Além disso, a sensação de pertencimento cresce com a relação com a música que o Coletivo carrega. Val conta que o rap, o hip-hop e o samba também foram instrumentos de aproximação com a comunidade, em momentos que, dentro do ateliê, as pessoas se achegaram para ouvir as músicas e trocavam experiências com outros moradores dentro do ambiente.

O cofundador também disse que o contato com artistas musicais da região também foi importante para expandir o projeto. Além da inspiração artística que as canções traziam aos artistas visuais, grupos como o “Samba de São Mateus” foram essenciais para a Favela Galeria ser conhecida fora da Vila Flávia.

O grafite como instrumento de transformação

Durante visita ao espaço onde o projeto acontece, é possível perceber que o grafite ultrapassa a ideia de intervenção urbana e passa a atuar diretamente na dinâmica da comunidade. As ruas, antes marcadas por carências estruturais tornam-se espaços de pertencimento, identidade e circulação cultural. Nesse sentido, o grafite não apenas colore muros, mas ressignifica territórios e trajetórias.

O próprio Val destaca que a criação da Favela Galeria nasce de uma provocação diante da exclusão dos espaços tradicionais de arte: “Se a nossa quebrada não vai para o mundo, a gente traz o mundo para a nossa quebrada.” A fala evidencia como o grafite atua como ponte entre periferia e centro, rompendo barreiras históricas de acesso à cultura e inserindo a comunidade em circuitos mais amplos de visibilidade artística.

Além disso, o impacto do grafite na vida cotidiana dos moradores se revela na transformação da autoestima coletiva. Ao ver seu território reconhecido como espaço de produção artística, o olhar sobre si mesmo e sobre o lugar onde se vive se altera profundamente. Como aponta o artista, “O meu lugar, onde que eu tinha vergonha, não, eu moro onde que é uma galeria de arte.” Essa mudança de percepção demonstra como a arte pode atuar diretamente na construção de identidade e valorização social.

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Ruas da comunidade ficam mais coloridas e cheias de vida com os grafites. Foto: Mayara Pereira.

Outro aspecto fundamental é o papel do grafite na promoção de novas formas de convivência e organização comunitária. Para o coletivo, a arte também se apresenta como alternativa às violências estruturais presentes no território. Nesse sentido, Val reforça: “A gente acredita que a gente combate a violência com amor, com esperança, com arte, cultura, lazer.” A fala sintetiza o entendimento do grafite como ferramenta ativa de transformação social, capaz de gerar diálogo, pertencimento e novas possibilidades de futuro.

Dessa forma, o trabalho do Coletivo OPNI evidencia que o grafite vai muito além da expressão artística individual. Ele se configura como prática coletiva, política e transformadora, que impacta não apenas o espaço urbano, mas também as subjetividades e perspectivas de quem vive nele.
 

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