Desinformação atrapalha cobertura da vacina bivalente para covid-19

Especialistas afirmam que notícias falsas e despreocupação em relação à pandemia prejudicam imunização
por
Lucas Gomes e Matheus Marcolino
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03/07/2023

A cobertura vacinal da bivalente no Brasil está abaixo do esperado. Um dos motivos é a desinformação, que tem afastado as pessoas do imunizante. Até o momento, apenas 14% da população elegível recebeu a vacina - número muito baixo se comparado ao das doses aplicadas pelo Ministério da Saúde nos anos anteriores. 

De acordo com Luiz Gustavo de Almeida, microbiologista e diretor do Instituto Questão de Ciência (IQC), o novo imunizante da Pfizer se tornou foco dos grupos de desinformação por ser um assunto de relevância no momento. “Esses grupos utilizam a mesma retórica, buscam assuntos para ganhar reconhecimento ou capital político”, explica.

Esses grupos colocam a bivalente como um "fator novo", mesmo sendo apenas uma atualização dos imunizantes aplicados na maioria da população. “Pegaram alguns pontos muito específicos da autorização da vacina e descontextualizaram. Dizem que foi aprovada com uma rapidez diferente, que não tem todos os testes da Anvisa”, conta Ester Borges, coordenadora de pesquisa da área de Informação e Política do InternetLab (centro independente de pesquisa sobre direito, tecnologia e internet).

O aplicativo Telegram é um lugar confortável para o movimento antivaxx. Em poucos minutos de pesquisa na plataforma, é fácil encontrar diversos grupos com essa temática. Segundo Ester, isso acontece por causa da arquitetura do aplicativo, mais focada na impessoalidade e na criação de canais e grandes grupos.

As principais informações falsas divulgadas nesses grupos são de que a vacina causa trombose, derrames e infartos. “Notícias” de mortes súbitas após a aplicação também são bastante populares entre os antivacina. Esses conteúdos, inclusive, costumam ter recortes (sem contexto) de trechos de reportagens de grandes veículos, como o G1 ou o New York Post. Depois de passar pelo crivo do Telegram, o material é repassado para pessoas próximas por WhatsApp e Facebook, por exemplo.

O movimento antivacina no Brasil, porém, não surgiu recentemente. Luiz explica que esses grupos apareceram durante 2015, em meio a uma crise de HPV no Acre. “Algumas meninas desmaiavam pela expectativa de tomar a vacina, o que resultou num local propício para o nascimento desses grupos de desinformação”, conta.
Durante a pandemia, com a busca elevada por informações sobre a vacina, esses grupos se fortaleceram, enquanto o poder público não se mostrava uma fonte confiável. “A desinformação vinha do próprio governo. A partir do momento que o governo afirma que a vacina vai te transformar em jacaré ou macaco, gera uma grande desconfiança”, afirma Luiz Gustavo.

As fake news ligadas às vacinas estão muito presentes, também, em grupos ligados ao nome do ex-presidente Jair Bolsonaro. Ester explica que isso faz parte de um movimento de “junção” de movimentos negacionistas à extrema-direita - algo diferente do que se via cinco anos atrás. “É como se estivesse mais misturado. O antivaxx, o eleitor do Bolsonaro e o super liberal não estavam necessariamente ligados, mas hoje parece que estão todos no mesmo grupo radical do Telegram”, afirma a pesquisadora. 

As consequências da desinformação

Maria do Socorro, 58, é aposentada. Ela conta que sempre participou das campanhas de imunização promovidas pelos postos de saúde, e que levou seus dois filhos para tomar todas as vacinas necessárias. Maria também tomou quatro doses da vacina contra Covid-19. A bivalente, entretanto, se tornou um motivo de receio para ela.
“Eu ouvi muitas coisas de pessoas próximas. Fiquei com medo de ter reação. A gente lê algumas coisas e não sabe o que realmente é verdade, né?”, afirma. Casos como o de Maria são bem comuns, e estão contribuindo para os baixos índices de adesão à bivalente.

No fim do mês de abril, o Ministério da Saúde orientou a liberação do imunizante para todos os brasileiros com 18 anos ou mais, público que, segundo estimativas da pasta, equivale a cerca de 160 milhões de brasileiros. De acordo com o “Vacinômetro” do ministério, 22,6 milhões de doses foram aplicadas até então; a parcela de vacinados é de 14%. Para efeito de comparação, mais de 139 milhões de brasileiros maiores de idade completaram o ciclo básico (as duas primeiras doses) - ou 87% dos 160 milhões. 

Agente de saúde na Zona Leste de São Paulo, Lygia (que pediu para não ser identificada pelo sobrenome) relata que alguns dizem acreditar que a bivalente é, na verdade, um “experimento do governo” - mesmo tendo passado por diversas etapas de testes antes de ser oferecida para a população. Ela afirma que, no seu dia a dia como agente de saúde, os homens, principalmente os da faixa dos 40 anos, são os que mais costumam acreditar nesse tipo de desinformação.

Lygia comenta que vem enfrentando dificuldades para convencer alguns pacientes a tomar a vacina. “Mesmo explicando que essa vacina será igual à da Influenza (anual), muitas pessoas acham que não precisa mais”, conta.
Para Raquel Stucchi, professora da Unicamp e doutora em infectologia, vários fatores explicam a baixa procura pela bivalente. Primeiramente, a população acredita que, depois de quatro doses e de uma vida de volta à normalidade, o vírus já não é uma ameaça real. “As vacinas são vítimas do próprio sucesso. Elas conseguiram controlar e diminuir o número de casos, então as pessoas não se sentem mais ameaçadas”, comenta.

enfermeira preparando uma dose de vacina.
Enfermeira preparando dose de vacina. A bivalente da Covid-19 não vem sendo procurada nos postos de vacinação. Foto: Divulgação/Prefeitura de São Cristóvão

O horário de funcionamento das salas de vacinação também é um empecilho relevante, de acordo com Raquel. Como elas costumam operar em horário comercial, grande parte dos trabalhadores não conseguem deixar seus empregos para tomar suas vacinas. 

Como Maria do Socorro, muitos brasileiros alegam sentir medo de tomar a vacina bivalente, apesar dela ser segura e ter sido amplamente testada. A aposentada também afirma que sente falta de uma atuação maior do Ministério da Saúde, principalmente no que se refere a informações sobre a confiabilidade do imunizante. “Fecha um horário nobre na televisão e passa esse tipo de informação para deixar a população segura. Se eu tivesse esse tipo de informação, com certeza eu ficaria [mais segura]”, garante.

Doutora em Saúde Pública e pesquisadora do Instituto de Comunicação e Informação em Saúde (Icict) da Fiocruz, Patrícia Boccolini acredita que a informação deveria ser passada de forma clara e em locais de fácil acesso. “Na TV e no rádio eu pouco escuto qualquer tipo de comunicação do governo em relação a isso. A comunicação é muito rasa, tem que explicar porque é importante tomar essa vacina”, relata.

Patrícia também afirma que falta um canal de comunicação direta entre a população e o Ministério da Saúde. Um canal assim, chamado "Saúde sem Fake News", foi criado em 2018, ainda na gestão Temer. As pessoas enviavam dúvidas para um número de WhatsApp e eram respondidas por técnicos da pasta. O serviço foi descontinuado. De acordo com o ministério, as informações armazenadas no acervo foram perdidas no ataque hacker sofrido pelo MS em dezembro de 2021.

Também é necessário um fluxo constante de informações que chame a atenção das pessoas e reconquiste a confiança nas fontes oficiais, já que, segundo Luiz Gustavo, muitas pessoas esquecem de seguir o calendário vacinal quando começam a vida adulta. “Poderia existir um acompanhamento do SUS para lembrar sobre o período vacinal”, pontua.

Nos seis meses do terceiro mandato de Lula, foram convocados três pronunciamentos em rede nacional de rádio e TV; um deles, no dia 7 de maio, foi de Nísia Trindade, ministra da Saúde. O discurso celebrou o fim da emergência sanitária da Covid-19 e incentivou a vacinação de maneira geral, mas, dentre as 631 palavras ditas pela ministra, “bivalente” não foi citada nenhuma vez.

A reportagem entrou em contato com o Ministério da Saúde, mas ainda não obteve resposta.
 

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