Das bets ao SUS: como as apostas impactam finanças, rotina e relações

Especialistas apontam efeitos que vão do endividamento aos conflitos familiares e serviço de teleatendimento médico aumenta no Brasil
por
Ana Clara Souza e Júlia Polito
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29/09/2026

Em meio ao avanço das apostas online no país, o Sistema Único de Saúde (SUS) ampliou o atendimento oferecido a pessoas que enfrentam problemas relacionados aos jogos. Pelo aplicativo Meu SUS Digital, o serviço de teleatendimento, que começou em março com cerca de 600 consultas por mês, passa a ter capacidade para acolher até 100 mil pessoas.

A iniciativa foi criada para facilitar o acesso ao cuidado em saúde mental e funcionar como porta de entrada para a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), estrutura criada para organizar, integrar e ampliar o acesso ao atendimento em saúde mental. O atendimento é remoto e sigiloso, realizado por meio de videochamada com uma equipe formada por psicólogos, enfermeiros e outros profissionais de saúde. 

Cada consulta tem duração de cerca de 50 minutos e, após a avaliação inicial, o psicólogo pode indicar um ciclo de até dez sessões. Ao final desse processo, o paciente pode receber alta, ser encaminhado para um novo ciclo de atendimento ou direcionado para o acompanhamento presencial.

Um estudante de engenharia mecânica, de 22 anos, que preferiu não ser identificado, contou à reportagem que decidiu parar com as apostas após perceber o impacto financeiro e o tempo que dedicava aos jogos. O processo não foi fácil, sobretudo sem acompanhamento psicológico. Caso soubesse da existência desse tipo de atendimento, afirmou que teria procurado ajuda para se manter afastado das bets.

O jovem entrou no mundo das apostas há quatro anos, por influência de um amigo. No início, era apenas uma diversão, mas, com o passar do tempo, as bets se tornaram um vício e um problema que ultrapassou as questões financeiras. 

“Eu achava que era diversão, mas comecei a perder bastante dinheiro, aí eu vi que não era mais. Eu não comia para apostar. E já briguei muito com meus pais, é uma perda também por conta disso [das bets]”, diz. 

Ao longo dos anos, as perdas se tornam um ciclo vicioso. Em algumas ocasiões, ele chegou a usar dinheiro que seria destinado à alimentação para continuar apostando. Também pediu quantias emprestadas a amigos e utilizou o limite do cartão para jogar. 

O maior valor apostado de uma só vez chegou a R$ 2 mil, mas, segundo ele, era comum fazer apostas entre R$ 1 mil e R$ 1,5 mil. “Não tenho ideia de quanto já gastei com apostas, mas com certeza já foi por volta de 10 mil reais”, conta o estudante.

Dados do Boletim Fiscal dos Estados Brasileiros, elaborado em parceria com o Comsefaz, apontam que, em 2025, primeiro ano de vigência do mercado regulamentado de apostas, os brasileiros acumularam uma perda financeira líquida de R$ 62,5 bilhões. O levantamento considera os recursos enviados às plataformas por Pix sem retorno proporcional em premiações. Entre outubro de 2024 e março de 2026, a saída líquida de dinheiro das famílias para o setor permaneceu em uma média de R$ 4,7 bilhões por mês.

Segundo o mesmo levantamento, a perda acumulada em 2025 correspondeu a aproximadamente 0,68% de toda a Renda Nacional Disponível Bruta das famílias brasileiras. À medida que parte da renda é direcionada às plataformas, diminui também o dinheiro disponível para despesas essenciais e para o consumo cotidiano. Em situações de maior comprometimento financeiro, famílias podem recorrer a modalidades de crédito de alto custo, como o rotativo do cartão, o parcelamento da fatura e o cheque especial, criando um ciclo em que as perdas com as apostas se somam aos juros e às dívidas já existentes.

Apesar dos momentos de ganho, o jovem de 22 anos voltava a apostar o dinheiro e acabava perdendo novamente todo o valor. O ciclo trouxe conflitos dentro de casa e fez com que as apostas ocupassem um grande espaço na rotina. Ele conta que passava dias acompanhando jogos e apostando, até perceber que a prática já não era saudável.

Para o psicólogo clínico e mestre em psicologia social, Gabriel Tozato, o comportamento relacionado às apostas se torna problemático quando a atividade passa a provocar prejuízos financeiros, sociais e emocionais. Segundo ele, porém, é preciso olhar além do comportamento individual e considerar também o contexto que leva uma pessoa a apostar.

Tozato explica que a precarização das condições de trabalho, o endividamento das famílias e a ampla publicidade das bets contribuem para criar um cenário em que as apostas aparecem como uma possibilidade de aumentar a renda. Nesse contexto, a promessa de enriquecimento rápido ou de uma renda extra pode fazer com que a pessoa passe a depositar nas apostas a expectativa de melhorar suas condições de vida. 

O problema surge quando essa expectativa faz com que ela continue apostando mesmo diante das perdas, principalmente na tentativa de recuperar o dinheiro ou alcançar o ganho esperado. Para ele, alguns ganhos também contribuem para manter a pessoa nesse ciclo vicioso, já que reforçam a expectativa de que uma próxima aposta poderá trazer novamente algum retorno, talvez até de maior valor.

As perdas podem levar o apostador a aumentar os valores na tentativa de recuperar o dinheiro. E todo esse processo pode trazer prejuízos financeiros e também afetar as relações pessoais e a vida emocional, com sentimentos de culpa e sofrimento constantes. Para além do acompanhamento psicológico, contudo, ampliar o entendimento sobre finanças também faz parte do processo de melhorar a relação com o dinheiro e enfrentar o endividamento.

Na avaliação do especialista em planejamento financeiro Vinícius Costa, falar sobre dinheiro ainda é visto por parte da população como algo complicado ou restrito às pessoas de maior renda. Em contrapartida, as plataformas de apostas utilizam uma comunicação mais acessível e diretamente relacionada a interesses populares. Essa estratégia, somada à compulsão para recuperar o dinheiro perdido e aos mecanismos de recompensa dos sites, pode contribuir para a manutenção do comportamento de aposta.

Para ele, existe um desequilíbrio entre a quantidade de informação financeira qualificada disponível e a exposição a conteúdos produzidos por influenciadores, atletas, artistas e celebridades que promovem as apostas. Esse cenário ocorre em um contexto no qual o funcionamento e a dimensão das operações das bets nem sempre são acessíveis ao público.

A experiência de trabalhar em uma intermediadora de pagamentos de sites de apostas, mostrou a real dimensão dessa realidade para o ex-funcionário João Vitor Scandura. Analista de sistemas, ele era responsável por acompanhar as transações feitas por apostadores durante o turno da madrugada, das 22h às 6h, em que eram processadas, em média, 5 mil transações por minuto, o equivalente a cerca de 7,2 milhões por dia.

O volume variava de acordo com os dias e horários, sendo algo inconstante. Sextas, sábados e domingos, principalmente entre 17h e meia-noite, concentravam os maiores movimentos de pagamento. Durante eventos esportivos de grande interesse, feriados ou datas comemorativas, existia um aumento significativo de transações. Em certa ocasião, a intermediadora chegou a registrar um pico de 25 mil transferências por minuto, mantido por cerca de dez minutos.

Como buscar ajuda

Além do teleatendimento agora oferecido pelo SUS, o governo também indica a autoexclusão como ferramenta de prevenção. A Plataforma Centralizada de Autoexclusão permite que o cidadão bloqueie voluntariamente o próprio CPF nas plataformas autorizadas de apostas. 

Segundo o Ministério da Saúde, mais de um milhão de pessoas já solicitaram a exclusão. O número de pedidos apresentou crescimento durante a Copa do Mundo de 2026, cerca de 40% das solicitações aconteceram durante o período da competição.

O enfrentamento do problema envolve ainda medidas de regulamentação da publicidade. As regras estabelecidas pela Secretaria de Prêmios e Apostas determinam que anúncios de bets apresentem alertas sobre os riscos do jogo, com frases como “Aposta não é investimento” e “Apostar pode causar dependência”. 

Os avisos devem ocupar pelo menos 10% da área dos anúncios em formato horizontal e ser legíveis. As regras também estabelecem responsabilidade solidária para veículos de imprensa, agências e influenciadores digitais e proíbem publicidade direcionada a menores de idade.

Para receber o atendimento, o usuário precisa acessar o aplicativo Meu SUS Digital por meio da conta Gov.br. Na seção Mini APS, deve selecionar a opção “Não Aposte Sua Saúde” e realizar um autoteste. A partir da avaliação, o paciente pode ser direcionado para a plataforma AgSUS, parceira da iniciativa, onde terá acesso ao atendimento remoto. Casos que necessitem de acompanhamento presencial ou apresentem maior gravidade continuam sendo encaminhados para a rede física do SUS, incluindo Unidades Básicas de Saúde (UBS) e Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).
 

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