Por Lorena Basilia
O céu escurece e prenuncia mais um dia chuvoso na capital paulista. Josiane, moradora do Capão Redondo, na Zona Sul de São Paulo, tem experiência negativa de sobra para temer a possibilidade de enfrentar enchentes, perder móveis e os poucos eletrodomésticos que conquistou com anos de trabalho duro. A faxineira sai às 6h de casa e segue a pé até o ponto de ônibus acompanhada de sua filha, Laura. O percurso é feito ainda na penumbra do amanhecer e traz as apreensões e os perigos reais de uma rua sem iluminação adequada para duas mulheres. Josiane nasceu e cresceu no bairro, um vínculo de pertencimento que faz a mulher se sentir menos desprotegida no seu bairro do que nas regiões consideradas seguras da cidade. Sua filha, Laura, no primeiro semestre da faculdade de Ciências Contábeis, representa o horizonte de mudança da família: graças a um longo histórico de dedicação e com o auxílio do programa Prouni do Governo conseguiu uma bolsa de estudos de 100% em uma universidade privada na Zona Oeste.
Coincidentemente, a mãe é responsável pela limpeza de um edifício comercial nessa mesma região mais nobre da cidade, o que possibilita que as duas façam juntas o extenso trajeto de ida e volta que atravessa o muro da desigualdade que cerca a metrópole. No entanto, mesmo longe de casa, a rotina de trabalho é atingida pelo receio constante. Com a estrutura da residência em área de risco de deslizamento, cada temporal ao longo do dia transforma o céu carregado em motivo de alerta ininterrupto. Os pensamentos da sua casa inundando eram ininterruptos enquanto ela esfregava o chão do hall do prédio e observava as pessoas reclamando de terem molhado os pés com a chuva. Pensamentos que nasciam de uma arquitetura da desigualdade.
Uma angústia vivida por Josiane e por milhares de famílias periféricas a cada mudança de tempo não reflete mero azar ou uma fatalidade da natureza. Trata-se da manifestação concreta do racismo ambiental, conceito, criado pelo ativista dos direitos civis norte-americano Benjamin Franklin Chavis Jr. no início da década de 1980, que define como a degradação do meio ambiente e o impacto das crises climáticas atingem de forma desproporcional as populações vulnerabilizadas — majoritariamente negras, indígenas e de baixa renda.
Enquanto os bairros centrais e de classe alta de São Paulo recebem investimentos contínuos em drenagem urbana, canalização de córregos, arborização planejada e manutenção de encostas, os territórios periféricos permanecem expostos à ausência histórica de saneamento básico, à falta de contenção de morros e ao escoamento ineficiente. A crise climática global, intensificada pelo aumento de eventos extremos de chuva, encontra nesses territórios um terreno devastador preparado pela negligência do Estado. Essa divisão não é por acaso, A construção das periferias urbanas reflete com clareza o que o geógrafo Milton Santos conceituou como a divisão do espaço entre o "centro que acumula recursos" e as "margens que acumulam carências". Historicamente empurrada para áreas de encosta ou mananciais desprovidas de saneamento e iluminação, a população periférica vivencia diariamente a reprodução da desigualdade social impressa no mapa da cidade. Essa segregação territorial e social é apontada pela deputada estadual reeleita Ediane Maria (PSOL-SP) como uma das modalidades mais perversas de violência política no país. Em análise sobre a distribuição dos espaços na capital paulista, a parlamentar destaca que existe uma barreira invisível, contudo estrutural, que dita quais corpos têm direito de habitar as áreas seguras e estruturadas.
No racismo ambiental existe uma cor que foi condenada a não circular no centro e que é constantemente empurrada para as áreas de risco, para locais sem saneamento básico, sem regularização ou qualquer tipo de documentação. Existe uma naturalização desses trabalhadores que demoram duas, três horas para vir trabalhar, para vir pro centro, e de pessoas que simplesmente não existem para o estado de São Paulo, que são subnotificadas e invisibilizadas, pontua a deputada, citando a escassez de serviços essenciais e a ausência de CEP em diversas vias das bordas da cidade.
Josiane disse que sua casa já alagou cinco vezes nos últimos dois anos, nunca houve qualquer auxílio das autoridades estaduais ou municipais. Ela aprendeu a lidar com a situação sozinha, comprou suportes para deixar seus móveis mais altos e não tem uma madrugada chuvosa que dorme profundamente. O paulista que vive esquecido nessa cidade cria uma armadura e aprende a se defender das tentativas de apagamento a todo momento.
As consequências das enchentes vão muito além dos prejuízos materiais acumulados a cada alagamento. Na vida de mãe e filha, a água barrenta que invade a casa destrói alimentos, compromete roupas de trabalho, danifica os cadernos de estudo de Laura e impõe horas de limpeza exaustiva após uma jornada de trabalho já desgastante. O impacto é também econômico e emocional: cada tempestade exige gastos inesperados para tentar recuperar o que foi perdido e traz o medo constante de contrair doenças de veiculação hídrica, transformando a rotina de rotas e prazos em uma incerteza diária.
Foto: Defesa Civil
Para ilustrar a permanência desse modelo de exclusão urbana, a deputada estadual Ediane Maria recorre à literatura e parafraseia a escritora Carolina Maria de Jesus e descreve a favela como o "quarto de despejo" da sociedade contemporânea — um espaço reservado ao esquecimento social, onde a presença do poder público costuma se resumir a intervenções pontuais e a visitas em períodos eleitorais em busca de votos. Durante coletiva de imprensa em evento no Teatro TUCA , a parlamentar fez duras críticas às diretrizes da gestão do governador Tarcísio de Freitas. Entre os pontos contestados, Ediane classificou o processo de privatização da Sabesp como um severo retrocesso social que impacta diretamente a população de menor renda, além de denunciar a falta de investimentos estruturais e políticas efetivas no combate à violência contra a mulher.
A travessia diária de Josiane e Laura mostra também como a emergência climática atravessam as questões de gênero e raça. As mulheres negras periféricas figuram no centro dessa vulnerabilidade: são elas que frequentemente chefiam os lares em áreas de risco, assumem o trabalho de cuidado com parentes e filhos em momentos de emergência, e enfrentam o desgaste de deslocamentos precários pela cidade.
A atuação de Ediane Maria no debate sobre justiça ambiental e direitos sociais encontra ancoragem em sua própria história de vida. Ex-empregada doméstica e ex-trabalhadora da limpeza, a deputada vivenciou na pele o percurso diário entre os bairros periféricos e os espaços abastados de São Paulo antes de ocupar uma cadeira na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp).
Sua prática legislativa busca refletir a urgência das pautas de quem vive à margem da infraestrutura urbana. Um exemplo direto foi sua articulação em prol das trabalhadoras terceirizadas responsáveis pela limpeza e manutenção do prédio da Alesp. Ao identificar que as funcionárias enfrentavam condições precárias e falta de infraestrutura adequada em seus horários de pausa, a parlamentar liderou reivindicações que resultaram na implementação de um espaço digno de convivência para as trabalhadoras dentro do parlamento paulista. "Nós somos o projeto que eles não queriam que sobrevivesse, mas a gente está aqui", afirmou Ediane. Ela ressaltou que as respostas para as grandes crises contemporâneas exigem que o futuro da política e das decisões públicas seja construído a partir do protagonismo de populações "indígenas, quilombolas e pretas".
Para trabalhadoras como Josiane, que enfrentam a poeira, a lama e as longas distâncias para construir oportunidades de futuro para os filhos, a discussão sobre racismo ambiental deixa de ser uma abstração conceitual e revela sua dimensão concreta, a luta pelo direito à vida, à moradia digna e à cidade deve ser constantes. Conforme sintetiza a deputada Ediane Maria: "Eu vim do lugar de onde elas vêm, e eu sei que a mudança se faz onde a gente está". Ter uma representação dentro da política para mulheres como Josiane é um sopro de esperança. Mulheres negras e periféricas que sustentam sua própria casa são invisibilizadas a todo tempo, para elas o caminho é mais árduo. Josiane deixou claro que luta a vida toda para dar melhores oportunidades para a filha e não deseja para ela o mesmo sacrifício. Mesmo quando o dia termina e a rotina de trabalho na Zona Oeste se encerra, a jornada de Josiane e Laura continua no trajeto de volta ao Capão Redondo. Entre a apreensão com o próximo temporal e o orgulho pelos passos da filha na faculdade, a história de Josiane sintetiza a resistência diária das mulheres que sustentam a periferia paulistana. Escancara a necessidade de que a justiça ambiental deixe de ser promessas para se tornarem realidade.