Por Beatriz Brascioli Alves
Na cozinha de Angélica, o cheiro doce preenchia cada canto como se tivesse vida própria. A mesa estava tomada por montes coloridos de guloseimas: balas de goma vermelhas e amarelas, pirulitos redondos, dadinhos embalados em papel quadriculado, pingos de leite cuidadosamente empilhados. Entre eles, os rolinhos de plástico transparente aguardavam para se tornarem sacolinhas de Cosme e Damião, uma tradição que atravessava gerações de sua família.
Cozinheira, Angélica se movia com um gesto que não era apenas automático: era quase religioso. Ela separava três balas de goma, dois pirulitos e um punhado de confeitos. Os sons ritmados, o plástico farfalhando, as fitinhas coloridas sendo puxadas, o clique preciso do nó, criavam uma espécie de música. Era como se cada saquinho, ao ser fechado, guardasse dentro não apenas doces, mas um pedaço de história, de memória e de fé.
A tradição para ela, nunca foi apenas sobre distribuir balas. Era sobre religião e esperança de um mundo melhor. Contava com saudade no olhar sobre a promessa que sua avó fizera religiosa décadas antes, quando reunia os netos e explicava a história dos dois irmãos que deixaram este mundo como símbolos de bondade: Cosme e Damião. Médicos, dizia ela, que tratavam todos com o mesmo cuidado,com um olhar especial às crianças, e que por isso foram canonizados como santos protetores dos pequenos.
Depois de estudos sobre sua ancestralidade e religião, a cozinheira aprendeu que, no Brasil, essa devoção católica encontrou os ibejis, orixás das religiões afro-brasileiras, e que, desse encontro, nasceu uma celebração única, vibrante, miscigenada. E assim o doce, pouco a pouco, foi se transformando no símbolo do gesto: oferecer balas significava oferecer alegria. Era algo simples, mas cheio de intenção, um convite à doçura em um mundo tão frequentemente dominado pela violência.
Naquela tarde, enquanto amarrava o último laço, Angélica parou por um instante para observar a mesa agora vazia. A cozinha, antes ruidosa, estava silenciosa, e o brilho das sacolas empilhadas refletia a luz suave do fim do dia. Ela respirou fundo, tomada pela sensação familiar que surgia sempre que terminava aquela tarefa anual: uma mistura de dever cumprido e de expectativa antecipada.
Na manhã seguinte, Angélica tomou a cesta repleta de saquinhos multicoloridos e saiu pelas ruas do bairro. Bastava aparecer na primeira esquina para que as crianças começassem a surgir, os primeiros tímidos, depois brilhantes, finalmente correndo em direção a ela como quem reencontra um velho amigo. Ao entregar as balas, Angélica via uma explosão de felicidade instantânea: bocas abertas em riso, mãos pequenas segurando os saquinhos como verdadeiros tesouros, crianças pulando, abraçando-se, mostrando umas às outras os doces que acabaram de ganhar. Eram gestos simples, mas que tinham um peso simbólico enorme.
Para ela, era ali, naquele instante breve e luminoso, que tudo fazia sentido. Ver a alegria pura estampada no rosto das crianças era como reacender uma chama interna — aquela mesma chama que, ano após ano, motiva a repetir o ritual. Ela nunca conseguia explicar completamente por que sentia essa necessidade tão profunda. Talvez fosse fé. Talvez fosse memória. Talvez fosse apenas amor.
Segundo dados do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), o Brasil registrou 3.853 violações motivadas por intolerância religiosa em 2024, um aumento de mais de 80% em relação ao ano anterior. Em meio a essa realidade dura e crescente, o gesto de Angélica adquiria outro significado: resistência, afirmação, esperança.
Ao final do dia, com a cesta vazia e os pés cansados, Angélica voltava para casa sentindo-se leve. Carregava consigo os risos, os abraços, a gratidão silenciosa. E sabia, sem sombra de dúvida, que no ano seguinte estaria ali novamente, repetindo todo o ritual, o cheiro na cozinha, os laços coloridos, a música do plástico, a expectativa pela manhã seguinte. Porque doar balas no Dia de Cosme e Damião não era apenas uma tradição familiar. Era um pedacinho de amor embrulhado em papel colorido. Era memória, fé e resistência, sobretudo a certeza de que a bondade, quando compartilhada, nunca se acaba, apenas se multiplica nas mãos que a recebem.