Por Dhara Yuki
Alguns animais têm sorte de não saberem o que é o abandono por mais de cinco segundos. Amanda estava voltando da casa de uma amiga quando viu uma senhora empurrando um gato bem filhote para a rua. Ele já estava na calçada, miava bastante e tentava voltar para casa, mas a senhora insistia em empurrá-lo. Com as perninhas bem frágeis que um gato de talvez um mês de vida tenha, ele não entendia o que estava acontecendo, estava sob um teto e, de repente, estava sentindo o calor e o áspero do asfalto. Sempre que era empurrado, ele caía um pouco, não tinha muito equilíbrio ainda. Amanda se aproximou e olhou para o gato e a senhora, que apenas disse: “Ele é muito malvado.” A garota não respondeu nada, não xingou, não perguntou o porquê daquela situação. Quando se vê uma pessoa agindo de tal maneira, é difícil argumentar, discutir e até mesmo ensinar que animais também são seres vivos e que precisam de qualidade de vida tanto quanto os humanos. O gato ganhou um colo e começou a ser levado além da calçada que acabou de conhecer à força.
Ele ainda não tinha nome, ou se tinha, acabou de perder quando também perdeu sua moradia. Com pelagem branca e preta, agora ele estava rodeado por um homem também, dono de um pet shop. Amanda já tinha dois gatos e dois cachorros e uma casa com pouco quintal e cômodos, era inviável adotar um pequeno de no máximo um mês, apesar de ser muito dócil. O homem do pet shop já a conhecia, banhava e tosava seus animais. Ele não adotava, resgatava ou abrigava animais, mas já tinha três gatos que estavam lá para adoção também, de outras pessoas que abandonaram por lá, mas agora ele teria quatro, já que, assim como Amanda, não poderia simplesmente deixar o filhote na rua. O gato ainda não tem nome, ainda espera uma família para cuidar, mas pelo menos não soube o que é ficar com sede, fome, frio e sujo. Não soube o que é comer qualquer coisa estragada e nem sofrer violência física. Ele agora tem um espaço em uma gaiola, o suficiente para se locomover, brincar e se esfregar na cama.
Hoje em dia existem muitas ONGs para resgatar animais, como a Cão sem Dono, que veio do sonho do Rafael de poder abrigar todos esses animais que precisam. Apesar das dificuldades financeiras e de logística que enfrenta para manter a ONG, a maior dificuldade mesmo é conseguir pessoas que queiram adotar um animal. Então, mesmo depois de resgatados da rua ou de maus-tratos do lugar em que estão, ainda resta conseguir a família amorosa que precisam.
Alguns outros animais demoraram um pouco mais de tempo para conseguir um lar, souberam o que é viver sozinho na rua, como o caso da Paola, uma cachorrinha de pelagem caramelo bem clara que vagava pela praia do Guarujá. Dizem que os animais sentem em quem podem confiar. Às vezes são ingênuos em acreditar que uma pessoa nunca irá maltratá-lo, mas a maioria sabe. Paola começou a seguir Matheus enquanto ele aproveitava a areia e o mar, o seguiu até a casa em que estava. Começou a ganhar comida do então homem que seguia e, depois de pouco tempo, foi adotada, já que estava abandonada, ou, como o Matheus disse, ela o adotou.
Hoje Paola tem uma família grande e variada, tem um irmão que não estava tendo a qualidade de vida digna que um ser vivo merece. Também caramelo, ele morava com um pedreiro, estava com berne e uma pata que não foi tratada quando quebrada, então teve má cicatrização e ficou torta. Às vezes ele entrava no quintal do vizinho, e depois de ter sua vida ameaçada pelo dono do terreno ao lado e ter sua história ouvida pelo Matheus, ele também ganhou um novo lar e a qualidade de vida que merece. Hoje essa família mora em uma área rural, e o terceiro cachorro tem uma similaridade com Paola: também sentiu que poderia confiar no Matheus e começou a segui-lo sempre que o via andando na rua, até que um dia entrou em sua casa e também adotou seu novo dono, depois de algum tempo sozinho e abandonado na rua.
Além dos cachorros, outros animais menos comuns em uma residência também tiveram a sorte de um dia encontrar uma casa e ter os cuidados que tanto precisavam. Joaquim é um porco que, felizmente, teve um destino diferente dos demais. Os mini porcos são conhecidos por serem bem pequenos quando filhotes, mas eles crescem muito depois, ao contrário do que a maioria das pessoas que adotam pensam, achando que ele ficará pequeno para sempre. Joaquim cresceu muito e quem o adotou queria se desfazer dele e, considerando que quem poderia adotá-lo poderia passar a criá-lo para comer, Matheus sentiu no coração que deveria pegar e cuidar dele. Ele chegou em sua nova casa e teve seu lar adaptado para poder viver lá, houve todo um cuidado para recebê-lo. Hoje ele tem qualidade de vida, família e um belo espaço para viver. Paola motivou o Matheus a virar vegano, então em sua nova família todos os animais são vistos como iguais, todos merecedores de viverem suas vidas.
Mas a família não parou aí. Um dia Matheus também adotou dois pintinhos que estavam com uma pessoa em situação de rua e, mesmo filhotes, estavam sofrendo maus-tratos. Outra de suas galinhas foi resgatada de um futuro trabalho espiritual e, depois de algumas galinhas, Matheus também adotou outras de um santuário para que as que já tinha em casa pudessem conviver com mais de sua espécie, e assim como os cachorros, uma também apareceu e entrou em sua casa, passando a morar lá.
Existe um outro olhar para os animais que não são comuns em termos domésticos. Hoje, em São Paulo, cachorros e gatos são considerados animais domésticos, e porcos, vacas e galinhas são considerados animais para consumo ou até mesmo entretenimento, como as ilegais rinhas de galo que existem clandestinamente.
O Santuário Filhos do Salomão começou a partir da perspectiva de que um porco serve como alimento. Quando Fernando visitou a família de um amigo que morava em sítio, se deparou com uma única porca recém-nascida, magra e excluída em um canto, enquanto seus irmãos mais encorpados estavam mamando, e a justificativa foi que ela iria morrer por já ter porcos demais. Essa porquinha recém-nascida ganhou um novo lar ao invés do futuro que destinaram para ela. Ela cresceu muito, ganhou o nome Pupu e viveu por dezesseis anos, e sua história fez com que o santuário fosse criado para o resgate de outros animais que também estavam predestinados ao fim precoce.
Mesmo que seja ilegal, no interior existem muitas rinhas de galo, e o santuário virou um lar para esses animais que serviam para esse entretenimento tão cruel e violento. O resgate precisa ser feito pela polícia através da denúncia, mas como depois do resgate não há para onde enviar esses galos, o santuário os acolhe para que possam continuar vivendo com dignidade. Por serem de rinha, acabaram desenvolvendo um instinto violento, mas com os cuidados da nova casa eles conseguiram ficar sociáveis novamente, vivendo juntos e em harmonia.
A história desses animais não vem só da exploração humana, mas também da indústria. Muitos coelhos ainda são usados como cobaias para testes farmacêuticos, e o mesmo acontece com os galos, se não forem acolhidos, acabam indo para o abate sanitário. Então, depois de muitos maus-tratos, orelhas cortadas, olhos furados e peles machucadas pelos testes, esses animais conseguem uma vida fora da indústria para viverem com mais qualidade de vida, recebendo tratamento e cuidados para que possam viver como deveriam: como apenas um animal com vida.
Apesar da solidão, fome, sede, frio e violência que enfrentam, quando eles conseguem ser resgatados e têm um novo recomeço, mas até isso acontecer eles estão muito debilitados psicologicamente. Além de precisarem dos tratamentos veterinários, existe um longo caminho até conviverem com outros animais, até confiarem nas pessoas que agora os acolheram e a voltarem a ser eles mesmos, sem o olhar triste, sem o medo de sair do canto, com a vontade de receber carinho pelo corpo. Cachorros, gatos, porcos, galinhas, coelhos, todos possuem expectativa de vida e o sonho de poder viver sem a intervenção de usá-los para algum benefício humano. Todos que possuem vida têm o sonho de viver, não apenas de existir ou servir como entretenimento, alimento ou cobaia.