A roupa serve para além da moda

Quando o figurinista se torna a parte mais importante do filme
por
Wanessa Celina
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29/09/2026

Por Wanessa Celina

 

No corredor estreito de um estúdio, entre as as araras que seguram casacos, vestidos, uniformes e camisas, Oliv está trabalhando. Seu trabalho não é como roteirista e nem ator. Seu trabalho é outro, um dos mais importantes para que um filme ocorra. Sua ferramenta de trabalho é além do que essas roupas. É o olhar. É a memória. É a capacidade de entender quem é o personagem antes mesmo que o ator vista a primeira peça. Oliv Barros, diretor de arte e figurinista, tem formação técnica em Figurino e em Modelagem do Vestuário. Afirma que figurinista não é moda. Para ele, a moda veste um grupo de pessoas, como homem, mulher, idoso e noiva. Já no figurino, veste-se todo mundo, independentemente de quem seja, da classe social, de ser morador de rua ou não, ou mesmo de ser gato, cachorro, morto ou vivo.

Considera que ser figurinista vai além de apenas colocar uma roupa em um ator. É como criar, através do figurino, um personagem que você apenas imagina como ele é.  É construir um universo visual, utilizando o figurino, o cenário e a estética como ferramentas de narrativa e criação de um mundo. Resume a tarefa de colocar pequenos signos, por mais que isso não seja dito durante a o filme. Diz que é como sentir uma certa conexão com esse personagem, porque vai falar se ele usa ou não drogas, se ele tem amigo ou não tem, se ele mora sozinho ou não, se ele gosta de plantas ou não, isso vai me ajudar a construir o personagem.

Oliv  é um homem negro, nascido e criado em Heliópolis,  São Paulo. Sua história com a moda não começou em ateliês iluminados, nem em revistas importadas, nem em desfiles assistidos de camarotes. Começou numa sala de casa, diante da televisão com a mãe, uma mulher que trabalhou a vida inteira como diarista e que, mesmo sem ser artista, desenhava pequenas coisas no papel. Foi ela quem lhe ensinou a bordar e quem lhe deu papel e caneta quando o levava para as casas das famílias onde trabalhava, para que ele ficasse quieto, entretido, desenhando. Naquele gesto simples de uma mãe que queria o filho por perto, nasceu um criador. Oliv desenhava roupas sem saber que aquilo poderia ser um ofício. Desenhava porque a linha no papel era a única forma de inventar um mundo que a realidade ainda não lhe havia apresentado.

Ele lembra que quando tinha onze anos, começou a frequentar um centro educacional para crianças e adolescentes, uma espécie de extensão da escola, com atividades que a grade curricular padrão não oferecia. Lá, aprendeu sobre letramento, sobre arte, sobre negritude. Disciplinas que a escola comum insistia em ignorar. Foi nesse espaço que ele fez um curso de desenho. E como já gostava de moda, começou a desenhar croquis. Alguém lhe disse que ele poderia trabalhar com aquilo. A frase caiu como uma semente em terra fértil. Aos quinze anos, surgiu um curso de moda dentro daquela mesma unidade. Oliv participou. Aprendeu a costurar. Aprendeu modelagem. Ficou deslumbrado.

Mas o primeiro contato com o mundo real da moda veio aos dezessete anos, em um evento pequeno, uma espécie de semana de moda de Sorocaba, voltada para estudantes que estavam começando. Oliv foi, mas não gostou. Não gostou do que viu nos bastidores. Lembra que todos os estilos eram brancos, todas as marcas que estavam lá eram de pessoas brancas, os modelos eram totalmente brancos. E ele, um jovem negro da periferia, sentiu que aquele não lhe pertencia. Ouviu conselhos que diziam que ele precisava direcionar sua marca para um público específico, como se a moda fosse um clube fechado, com portas que só se abriam para alguns. Oliv percebeu que aquele não era o caminho dele. Não era ali que ele queria estar.

Foi então que, aos vinte anos, conheceu o Instituto Criar, uma ONG idealizada por Luciano Huck, voltada para jovens periféricos que queriam ingressar no mercado audiovisual. A instituição oferecia oficinas de direção de arte, figurino, maquiagem, áudio, pós-produção e câmera. Oliv entrou na idade limite. Ou entrava naquela turma, ou não entrava mais. E escolheu o figurino. Não porque soubesse exatamente o que era, mas porque a câmera, que era o curso mais concorrido, com duzentos inscritos para cem vagas, não lhe parecia o seu lugar. O figurino tinha quinze vagas e apenas seis inscritos. Oliv entrou. E ali, durante um ano, aprendeu que o figurino não é moda. É outra coisa. É uma roupa que não serve para vender, mas para revelar. Não segue tendências, mas segue personagens. É a roupa que não está nas vitrines, mas nas telas, nos palcos, nas histórias.

Ele já conhecia o figurino de longe, por filmes, por artistas como Lady Gaga, Madonna, Michael Jackson. Já tinha feito teatro e entendia que a roupa podia ser mais do que tecido sobre o corpo. Mas foi no Instituto Criar que ele compreendeu a profundidade daquele ofício. Formou um coletivo com sete amigos. Fizeram um trabalho de conclusão de curso sobre transtorno de identidade, que virou um curta-metragem premiado e exibido em festivais de São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro. 

Depois, vieram outros projetos. Um deles, chamado Menarca, falava sobre a violência da passagem da infância para a vida adulta feminina nos anos 70, quando meninas de onze anos eram obrigadas a carregar o peso de uma mulher adulta. Oliv fez a direção de arte e o figurino, com a ajuda das mulheres que escreveram o roteiro. E foi entendendo, pouco a pouco, que o figurino não é só uma roupa. É uma conexão. É uma colaboração. É uma forma de ver e sentir o personagem para, só então, colocar um pano sobre o corpo dele.

O caminho profissional não foi fácil. Oliv Barros trabalhou na segunda temporada de Irmandade, uma série sobre pessoas negras e periféricas nos anos noventa. Ele era o terceiro assistente de figurino. A chefe era uma mulher branca. A equipe, em sua maioria, era branca. Oliv foi silenciado muitas vezes. Não era ouvido. Recebia demandas subalternas. E quando via pessoas negras sendo retratadas de forma estereotipada, com roupas puídas, sujas, como se pobreza fosse sinônimo de miséria, ele se revoltava. Porque ele sabia que não era assim.

Seus pais copiavam os patrões. Suas tias copiavam os patrões. As pessoas da periferia não se vestem como o cinema insiste em mostrar. Elas têm dignidade. Têm estilo. Têm história. E Oliv bateu o pé. Falou. Brigou. Não aceitou.

Em Silvio, filme sobre a vida de Silvio Santos, dirigido por Leandro Raposo, ele enfrentou outra batalha. Havia uma cena que fazia piada com uma pessoa trans, chamando-a de homem vestido de mulher. Oliv leu aquilo e sentiu uma revolta profunda. Não era uma piada. Era uma ofensa. Era mais uma vez a utilização de um corpo marginalizado como motivo de riso. Ele falou com suas chefes. Falou com a diretora. Explicou. Argumentou. E a cena foi retirada do filme. Não foi ao ar. Essa vitória, para Oliv, não é apenas profissional. É humana. É a prova de que o figurinista não está ali apenas para escolher roupas. Está ali para defender histórias. Para proteger personagens. Para impedir que o cinema reproduza violências que a sociedade insiste em naturalizar.

Em Homem com H, filme sobre Ney Matogrosso, Oliv Barros teve a oportunidade de mergulhar nos anos sessenta. Sua chefe lhe deu todo o elenco secundário. Ele estudou com afinco a década, as roupas, os corpos, as cores. Trabalhou com pessoas de manequim quarenta, quarenta e seis, até sessenta. Foi um desafio de modelagem, de caimento, de acabamento. Mas foi também uma alegria. Porque quando as pessoas viam o figurino, reconheciam ali um pedaço de suas próprias histórias. Mães choravam ao ver os filhos vestidos como seus pais se vestiam. Avós lembravam da própria juventude. O figurino, Oliv percebeu, tem o poder de trazer de volta. De acionar memórias. De fazer o público se reconhecer na tela.

O reconhecimento veio. No 9º Festival Santa Cruz de Cinema, Oliv Barros foi premiado na categoria de figurinista. O prêmio não é apenas uma estatueta. É a confirmação de que o trabalho invisível tem valor. É a prova de que o figurino não é detalhe. É parte essencial da obra. Sem figurino, o personagem não existe por completo. Sem figurino, a história perde camadas. Sem figurino, o cinema fica nu de sentido. Oliv não trabalha sozinho. Ele insiste que o figurino é um trabalho comunitário. Ele precisa de pessoas ao seu lado. Pessoas que escutem. Pessoas que colaborem. Pessoas que tragam suas vivências. E ele faz questão de trazer pessoas pretas, pessoas trans, pessoas indígenas, pessoas nordestinas, pessoas de povos originários para as equipes. Porque ele sabe o que é ser silenciado. Sabe o que é ser invisibilizado. E não quer que ninguém mais passe por isso. Ele quer ser uma fonte. Uma ponte. Um caminho para quem vem depois.

O figurinista fala sobre o futuro sem pressa. Quer continuar trabalhando em filmes e montando looks. Quer continuar contando histórias que ninguém mais quer contar e seguir vestindo personagens que a sociedade prefere não ver. Quer continuar sendo ponte entre o tecido e a emoção, entre a cor e a memória, entre o visível e o invisível. Ele não costura. Ele compõe. Ele não confecciona. Ele revela. Ele não faz roupa. Ele monta o look que permite que uma história respire. E quando o pano sobe, quando a câmera liga, quando o ator entra em cena, Oliv observa. Não há agulha em suas mãos. Não há tesoura em seus dedos. Há apenas a certeza de que cada escolha feita longe dos holofotes está ali, diante de todos, silenciosa e essencial

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