Por Anna Cândida Xavier, Juliana Bertini e Maria Eduarda Cepeda
O Instituto Chão vende alimentos orgânicos pelo preço de custo, sem margem de lucro e sem intermediário. Na Vila Madalena, zona oeste de São Paulo, isso significa preços até três vezes mais baratos que o comércio convencional da esquina. A associação de trabalhadores sem fins lucrativos nasceu da iniciativa de sete amigos em maio de 2015. Thiago Guardia e Fabio Mendes trabalhavam em uma clínica de saúde mental e queriam transformá-la em uma associação sem fins lucrativos – porém, a diretoria da clínica recusou a proposta. Assim, antes mesmo de decidirem trabalhar com a venda de alimentos orgânicos, os amigos decidiram estabelecer um negócio sem hierarquia e orientados pelos princípios da economia solidária.
A preocupação política está na raiz da iniciativa, segundo o site “o Chão se movimenta para o aprofundamento da consciência crítica, da democracia e da igualdade de direitos, a fim de construir coletivamente uma sociedade justa e solidária”. A concepção de um mercado de produtos orgânicos sem margem de lucro nasce de uma preocupação com a remuneração dos pequenos produtores.
Os grandes varejistas e supermercados tradicionais pagam pouco aos produtores e impõe a padronização de formato e cor dos vegetais. Nesse contexto, o Instituto Chão se dispõe a ser um ponto de distribuição de alimentos onde os produtores não sejam esmagados pelo poder de barganha de grandes compradores.
Hoje o Instituto conta com mais de 550 produtores parceiros espalhados por todo o Brasil. Natália Cheung, que trabalha no Instituto há dois anos, conta que “a escolha dos fornecedores se baseia nos valores do projeto: priorizamos a agricultura familiar, agricultura de comunidades quilombolas e ribeirinhas e assentamentos da reforma agrária, temos parceria com o MST”. O preço repassado ao produtor cobre nota fiscal, frete e perdas. Nada é descontado para gerar margem. “O preço do custo do produto é o valor que você encontra nas prateleiras”, conclui.
Toda a feira de hortifrutis é composta de produtos orgânicos certificados e a rede de produtores parceiros do Instituto é disponibilizada aos clientes, que assim podem conhecer a origem dos alimentos que consomem. Na mercearia, o Chão também comercializa grãos, laticínios, carnes, pães, bebidas e até mesmo produtos de higiene e limpeza – todos com o certificado de orgânicos. Ainda no início do projeto, quando não estavam economicamente estabelecidos, o Chão recusou colocar produtos da Pullman nas prateleiras, preferindo pequenos empreendimentos que respeitam o meio ambiente e que produzem sem exploração da força de trabalho.
Um artigo publicado no Brazilian Journal of Development em 2020 analisou o impacto da parceria com agricultores familiares e concluiu que o modelo promove sustentabilidade produtiva, diversificação agrícola e maior autonomia econômica do produtor rural. A compra de arroz do MST, destacada na pesquisa, sustenta uma cadeia inteira - da terra à prateleira, sem que o lucro do varejo seja capturado no meio do caminho. O mercado de orgânicos no Brasil cresceu mais de quatro vezes entre 2003 e 2017, segundo pesquisa de cientistas da UFRGS e da UTFPR. A produção nacional avança mais de 20% ao ano, ritmo inferior à demanda. O número de agricultores com certificação orgânica triplicou na última década, denunciando que o problema não é a oferta, mas sim, o preço.
O acesso ao orgânico ainda é restrito. No varejo convencional, a diferença de custo em relação ao alimento comum pode chegar a 100% ou mais e é esse o principal fator que mantém o produto fora da cesta de boa parte da população. O modelo do Instituto Chão opera exatamente nesse ponto: ao eliminar o lucro do varejo, derruba a barreira de preço sem transferir o custo para o produtor. Uma pesquisa do Instituto Ipê comparou os preços de mercados convencionais e orgânicos da região da Vila Madalena. O estudo mostra que o Chão mantém preços semelhantes aos mercados convencionais e produtos orgânicos muito mais baratos. “Queremos mostrar que o alimento orgânico não é para ser caro, não é só para quem tem dinheiro. Na verdade, é uma questão de saúde pública e ambiental”, afirma Natália Cheung.
“A gente tem vontade que o acesso aos alimentos orgânicos cresça, que existam outros projetos e iniciativas como a nossa pela cidade e pelo país todo. “O propósito de transparecer os preços é mostrar para as pessoas que a gente pode vender comida orgânica de qualidade sendo justo com os produtores” afirma Natália.
O resultado aparece na prateleira: um brócolis inteiro sai por cerca de R$4,00, a banana custa menos de R$3,00 o quilo. São produtos agroecológicos, comprados diretamente de agricultores familiares, chegando ao consumidor sem a margem que o varejo convencional capturaria no caminho. Natália resume: “aqui nós não mercantilizamos o alimento”. Desde o início, o Chão se mantém com o apoio dos consumidores: quem compra decide se quer ou não contribuir com os custos do espaço. Atualmente, o percentual necessário para fechar as contas tem variado entre 25% e 28% do total arrecadado, as contribuições sustentam o Instituto há mais de uma década.
Natália Cheung conta que todo mês o Chão faz um balanço das contas do projeto e as disponibiliza para os consumidores. “Fazemos uma previsão das nossas vendas, os nossos custos e de quanto que a gente precisa para pagar as nossas contas. Alguns meses são mais movimentados que outros e ao longo do ano conseguimos manter a estabilidade, mas sugerimos que os clientes ajudem com 30% do valor da compra para mantermos uma margem de segurança de funcionamento”. Mesmo com o apoio do público, o Instituto Chão ainda depende do adiantamento de crédito do banco para fechar as contas.
O balanço mais recente disponibilizado pelo Instituto é de março de 2026. Os custos operacionais e despesas somam pouco mais de R$ 1 milhão , considerando a remuneração de 35 pessoas, aluguel, impostos, água, luz, telefone, Internet e infraestrutura. A maior fatia - quase R$ 500 mil – é destinada ao salário dos funcionários, o que evidencia um modelo que prioriza o trabalho digno e a remuneração justa em vez da maximização de lucros. “Como o Chão não visa o lucro, sempre que juntamos dinheiro investimos em melhorias da loja. Também temos um sítio em Bragança Paulista onde produzimos alguns alimentos em sistema agroflorestal para vender aqui”, complementa Natália.
Uma das missões da associação é o cuidado, a aproximação das pessoas e a busca de relações mais justas e transparentes para construir uma sociedade solidária. Nesse sentido, o Chão leva como prioridade propor outras relações de trabalho dentro do estabelecimento. Natália Cheung trabalha no Instituto Chão há dois anos comenta “essa é uma experiência muito diferente de outros lugares em que já trabalhei, a gente não está acostumado a trabalhar em um ambiente em que nossas opiniões são escutadas e as decisões são compartilhadas. É um desafio muito positivo compartilhar as responsabilidades do trabalho”. Segundo Natália, “na autogestão a gente reveza as tarefas, não tem um chefe ou gerente e todos recebem a mesma remuneração, ninguém precisa fazer ‘bico’ por fora para pagar as contas”.
Neste sentido, a partir desses espaços de trabalho, o Chão convida as pessoas a experimentar novas formas de relação. “Tem muitas pessoas que vêm aqui desde o comecinho do projeto, elas conhecem as pessoas que trabalham aqui e a gente estabelece uma relação.
O modelo adotado pelo Instituto Chão está inserido nos princípios da Economia Popular e Solidária, uma forma de organização do trabalho baseada na cooperação, na autogestão e na divisão coletiva dos resultados. Diferentemente da lógica empresarial tradicional, em que as decisões e os lucros costumam ficar concentrados nas mãos dos proprietários, os empreendimentos solidários funcionam de maneira participativa, com transparência na gestão e compartilhamento das responsabilidades entre seus integrantes.
Segundo o secretário nacional de Economia Popular e Solidária do Ministério do Trabalho e Emprego, Fernando Zamban, a Economia Solidária não deve ser entendida apenas como uma alternativa para trabalhadores desempregados, mas como um modelo econômico estruturado, capaz de promover inclusão social, desenvolvimento territorial e sustentabilidade ambiental. Atualmente, o setor possui respaldo legal por meio da Lei nº 15.068/2024, conhecida como Lei Paul Singer, regulamentada pelo Decreto nº 12.784/2025, que instituiu a Política Nacional de Economia Solidária.
Dados do Cadastro Nacional de Empreendimentos Econômicos Solidários (Cadsol) indicam que os empreendimentos cadastrados movimentam cerca de R$ 54 milhões por mês em todo o país. O artesanato representa 30% dessas iniciativas, seguido pela agricultura familiar, com 26%, e pela coleta e tratamento de materiais recicláveis, com 10%. Para Zamban, esses números demonstram que a Economia Solidária deixou de ocupar um espaço marginal e passou a representar uma parcela significativa da atividade econômica brasileira.
O secretário destaca ainda que o fortalecimento desse modelo é especialmente importante diante do cenário de informalidade no país. Segundo dados do IBGE citados pelo Ministério do Trabalho e Emprego, cerca de 38,5 milhões de brasileiros trabalham de forma informal, o equivalente a 37,5% da população ocupada. Nesse contexto, a organização coletiva oferecida pelos empreendimentos solidários pode ampliar a segurança econômica e fortalecer a geração de renda para trabalhadores que não encontram espaço ou proteção suficientes no mercado formal.
Além disso, a Economia Solidária está presente em setores estratégicos para o desenvolvimento sustentável. A agricultura familiar organizada em cooperativas e associações abastece escolas, hospitais e equipamentos públicos por meio do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), enquanto cooperativas de catadores são responsáveis por aproximadamente 90% da coleta de materiais recicláveis realizada no país. Para o Ministério do Trabalho e Emprego, o modelo também tem papel importante na inclusão produtiva de grupos historicamente excluídos do mercado formal, como mulheres, pessoas negras e comunidades tradicionais.
Uma das missões da associação é o cuidado, a aproximação das pessoas e a busca de relações mais justas e transparentes para construir uma sociedade solidária. Nesse sentido, o Chão leva como prioridade propor outras relações de trabalho dentro do estabelecimento. Natália comenta que é uma experiência muito diferente de outros lugares em que já trabalhou, pois trabalha em um ambiente em que as opiniões são escutadas e as decisões são compartilhadas.
Fernanda, cliente de longa data do Instituto Chão, afirma que a convivência no Chão é diferente de outros estabelecimentos, “sou do bairro e já encontrei muitos amigos por aqui. Aqui é a minha turma, inclusive politicamente”. A escolha pelo estabelecimento também está conectada à sua saúde, “o Brasil é um dos países que mais liberou agrotóxico no mundo – é uma loucura, um absurdo e nós precisamos nos cuidar”. Renato mora no Itaim Bibi e faz o trajeto até a Vila Madalena toda semana “o Chão é o único lugar que eu conheço em São Paulo que tem frutas e legumes orgânicos com variedade”. Ele não é o único que mora longe, Natália conta que alguns clientes moram fora de São Paulo e esporadicamente aparecem para fazer grandes compras. Muitos conhecem o Instituto no final de semana, ao passear pelo bairro.
Segundo o site do Instituto Chão, “a comida, além de ser a cadeia essencial, pode ser usada para fazer uma discussão cotidiana sobre modelo econômico e modo de estar no mundo. Em busca de alimento, as pessoas frequentam semanalmente esse espaço e, a cada dia, inserimos mais uma camada de questionamentos. O grande debate é a mudança das relações entre as pessoas. O objetivo é colocar luz em processos que estão escondidos nas relações convencionais de consumo. O ato de comprar significa incentivar ou não determinada rede de relações, determinado fluxo econômico”.