Ocupar e Resistir | Sonhos de um movimento constroem uma comunidade

Para o movimento, a educação vai além da academia. É a criação e sustentação de uma comunidade.
por
Juliana Salomão e Luiza Zequim
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11/06/2026

Por Juliana Salomão e Luiza Zequim

Aos domingos, o aroma de cominho, do alho dourando no arroz e da carne grelhada em grandes panelas escapa pelos corredores e atravessa a rua, convidando até os transeuntes mais distraídos a entrar pelo portão cercado por um extenso muro grafitado, tudo em meio às obras constantes da Bela Vista, sempre em movimento, é que nasceu a Cozinha Ocupação 9 de Julho. Entre a boemia da Rua Augusta e os festivais do Vale do Anhangabaú, a ocupação do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto do Centro (MSTC) constrói uma comunidade singular — colorida, desconfiada, mas profundamente acolhedora. 

Atualmente, o espaço, criado em 2017 com Carmen Silva à frente, vai além do ofício gastronômico. No terreno irregular e com diversos patamares, há uma loja artesanal, espaços reservados para a explicação de cursos e salas multiuso que recebem vários estudantes semanalmente. Aos sábados — antecedendo os domingos de música e comida — alunos e professor se reúnem para sessões de estudo da língua espanhola e preparatórios para os vestibulares. As salas de aula funcionam como um tear silencioso do cursinho da Uniafro, onde o tempo desacelera das nove da manhã às cinco e meia da tarde. Ali, o giz risca o quadro negro desenhando caminhos pelas disciplinas tradicionais, eixos de redação e linguagens que desafiam a pressa da metrópole. 

Kellen Wini, coordenadora-geral da ocupação, costuma deixar transparecer em suas palavras que o verdadeiro ofício daquelas turmas vai muito além de decorar fórmulas para preencher um gabarito; trata-se de reerguer o direito de sonhar e de devolver a autofidelidade a quem o mundo insistiu em silenciar. Para ela, ver a juventude ocupar as carteiras a cada sábado é a prova viva de que a moradia e o saber caminham de mãos dadas, transformando o concreto do centro em um solo fértil de emancipação e liberdade.

Ao atravessar o pátio, encontra-se o universo da loja da ocupação, um lugar onde memória e futuro parecem costurados no mesmo tecido. A raiz desse chão se mistura à própria trajetória de Kellen Wini, hoje coordenadora geral do MSTC. Nascida dentro do movimento e atualmente com 30 anos, começou a morar ali em 1997, no antigo prédio do INSS da 9 de Julho, sendo reconhecida por Carmen Silva como uma de suas filhas. Wini cresceu vendo aquele espaço se transformar. Em 2016, a loja ainda era, sobretudo, um brechó popular. As roupas doadas eram cuidadosamente garimpadas, lavadas e reorganizadas, enquanto projetos de costura ganhavam vida pelas mãos de mulheres que chegaram a morar até mesmo no Residencial Cambridge. Eram elas que sustentavam o espaço e, ao mesmo tempo, encontravam nele uma forma de sustentar suas próprias famílias.

Essa costura que começou nas roupas acabou moldando uma rede solidária muito maior, sustentada majoritariamente por mãos femininas. A liderança das mulheres na coordenação, inspirada por Carmen Silva e mantida por Kellen Wini, direcionou o olhar da ocupação para o autocuidado e para a reconstrução da dignidade de moradoras vindas de contextos de violência doméstica e extrema vulnerabilidade social. É esse mesmo acolhimento que, além de costurar panos e reerguer vidas, também acende o fogão. A Cozinha Ocupação 9 de Julho insere e remunera mulheres antes marginalizadas pelo mercado de trabalho, transformando o ato de cozinhar em um exercício de afeto e autonomia.

Costuras de emancipação e saberes

Aquela primeira semente floresceu. Sob o olhar atento de Carmen Silva, o espaço revelou vocação para algo muito maior do que a gastronomia. O caminho, contudo, exigiu resiliência: em 2019, Kellen Wini assumiu a coordenação geral do MSTC em um dos períodos mais delicados do movimento, marcado pela prisão de lideranças e pela clandestinidade de outras. Ainda assim, as iniciativas comunitárias resistiram, consolidando a loja e seus arredores como um refúgio de criação, abrigo e continuidade. Hoje, a antiga dinâmica de brechó deu lugar a uma loja colaborativa de forte impacto político, que reúne 26 marcas de artistas independentes. Mais do que estética, cada peça carrega história, circularidade e autoria coletiva. Grande parte desses criadores desenvolve suas coleções em parceria com costureiras da própria comunidade, convertendo tecidos em renda, autonomia e permanência.

Na loja, que fica em frente a uma dessas 'salas multiuso', há tecidos e livros de Paulo Freire. Considerado um dos Patronos da educação brasileira e um dos fundadores da pedagogia crítica, Freire se entranha nas cadeiras, nos cadernos e nas canetas. Embora tenha sido o desenvolvedor do Ensino para Jovens e Adultos (EJA), e esse tenha sido o foco de seu maior trabalho, o educador pernambucano conseguiu instruir uma ideia central na educação do país: o diálogo e a conscientização transformam e é por eles que a formação pode atingir seu maior êxito. É com base nessas correntes e na paixão pelo acolhimento, que o MSTC forma alunos profissionalmente e academicamente. Indo além, as docentes conseguem instituir nos aprendizes o essencialismo da educação e a capacidade transformadora de tal coisa. 

Longe de transmitir conteúdos curriculares frios, as docentes cultivam nos estudantes a dimensão humana do aprendizado, seu essencialismo e sua potência libertadora. O que ganha forma na teoria entre as leituras da loja reverbera diretamente nas salas vizinhas, onde o conhecimento ganha corpo, voz e aplicação prática.
Esse movimento pedagógico não conhece idade. Somando-se às aulas tradicionais, os próprios artistas locais realizam oficinas abertas para diferentes públicos, incluindo o infantil. Nesses encontros, compartilham a origem de suas marcas e debatem sobre moda, identidade e a autoestima como contraponto ao racismo estrutural. Esse cuidado também se estende à rotina dos pequenos moradores.

No primeiro dia do final de semana, a brinquedoteca do sexto andar se transforma em um polo de arteterapia conduzido por duas psicólogas há cerca de um ano. Já no meio da semana, às quartas ou quintas-feiras, as luzes se apagam para o cinema comunitário organizado pelo cineasta Maga, sessão na qual a garotada escolhe livremente a programação. A cultura também circula pelos pátios por meio de intercâmbios institucionais, como as atividades integradas com adolescentes do Colégio Equipe.

Essa engrenagem funciona de forma estratégica para romper ciclos de exclusão. Aos sábados, antecedendo os domingos tomados por música e culinária, alunos e professores ocupam o local das nove da manhã às cinco e meia da tarde. O prédio abriga o cursinho da Uniafro, focado em disciplinas tradicionais, línguas como o espanhol e eixos preparatórios para os vestibulares, que se consolidam como a principal porta de entrada para o ensino superior. Pouco a pouco, percebe-se que o acesso à universidade é apenas uma das pontas do processo; o verdadeiro alicerce reside na construção de pertencimento, no desenvolvimento comunitário e no respeito coletivo. 

Dois tempos

Em meio a todas as vitórias e a visibilidade conquistadas pela Ocupação 9 de Julho, é imprescindível relembrar a história de luta, não só da locação, mas também do amplo movimento do MSTC. Foi só através de uma luta constante, eternizada em frases e bandeiras espalhadas pelos prédios, que o movimento existiu e se manteve vivo apesar de ataques variados e em grande escala. Cruzar o portão da 9 de Julho e observar a engrenagem poética de sua loja e de suas salas de aula é experimentar um paradoxo profundo. Do lado de fora, a Bela Vista ruge em movimento contínuo, tomada pelo som das obras, das buzinas, do trânsito e pela pressa de uma cidade metropolitana que parece incapaz de desacelerar.

Um silêncio quase sepulcral e profundamente acolhedor repousa sobre o pátio interno, desacelerando o peito de quem entra. O caos barulhento da metrópole cede lugar ao som das crianças na brinquedoteca, ao murmúrio das costureiras alinhavando futuros, ao riscar do giz no quadro negro e ao calor que vem do fogo aceso na cozinha. Entre a urgência barulhenta das ruas e a delicadeza silenciosa de seu interior, a Ocupação 9 de Julho permanece viva,  como o lugar exato onde o concreto de São Paulo finalmente reencontra a sua própria humanidade.

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