Por Cecília Leite e Julia Naspolini
O Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) surgiu em 1997, consolidando-se ao longo de quase três décadas como um dos maiores movimentos sociais urbanos da América Latina, com presença em 14 estados brasileiros. Sua base fundamenta-se na denúncia de que, embora a Constituição Federal brasileira garanta a moradia como um direito social e uma obrigação do Estado, o modelo de desenvolvimento das cidades é pautado pela lógica capitalista e pela especulação imobiliária. Esse sistema empurra milhões de pessoas para periferias precarizadas e negligenciadas, enquanto mantém imóveis vazios apenas para valorização financeira, gerando um déficit habitacional que afeta cerca de 5,8 milhões de pessoas que hoje vivem em condições de insegurança, sob ameaça de despejo ou em habitações precárias.
Para o MTST, a conquista da casa própria é o passo inicial, mas insuficiente para romper com a invisibilidade social de quem vive à margem. Por isso, o movimento expandiu sua atuação sob o lema "Teto, Trabalho e Pão", defendendo uma reforma urbana integral que garanta acesso a saneamento, transporte, educação e saúde. Essa visão ampla de cidadania inclui o combate à fome através das Cozinhas Solidárias e o reconhecimento do valor da economia popular e dos trabalhadores informais. É nesse processo de "ocupar a vida" e fortalecer politicamente as periferias que a cultura emerge como um pilar essencial de resistência, criando o terreno fértil para iniciativas coletivas de expressão e formação, como é o caso da Trupe de Teatro Sem-Teto.
Idealizado em meio à pandemia, o grupo consolidou-se a partir de uma frente de cultura do MTST que buscava o compartilhamento de poesia e arte como uma necessidade humana de expressão durante o isolamento. A Trupe concentra indivíduos que, ao longo da vida, enfrentaram vulnerabilidades ligadas às suas identidades e que encontraram na arte uma forma potente de se encontrar e se expressar. Pautada por um processo de construção artística profundamente coletivo, seu elenco é majoritariamente formado por pessoas sem-teto (sem moradia estável, segura e/ou adequada), que praticam teatro amador e compartilham uma identidade comum de luta, mas mantendo suas individualidades pulsantes. Esse processo criativo aberto permite que as diversas idades, sexualidades e religiosidades presentes no grupo sejam exploradas na construção das cenas, transformando as vivências pessoais dos militantes em ferramentas de criação. No fim, essa diversidade enriquece o coletivo, trazendo uma multiplicidade de perspectivas e personagens que dão voz e visibilidade às complexas realidades das periferias.
Cecília Azevedo, jovem ativista com formação em Teatro entrou para o movimento mesmo sem ser sem-teto, apenas para lutar pela causa, e foi uma das responsáveis pela formação da frente de cultura que originou a Trupe de Teatro Sem-Teto. Ela conta que a primeira apresentação da Trupe ocorreu em 2023, durante as comemorações do aniversário de 25 anos do MTST, e foi marcada por um cenário de superação. Sem qualquer recurso financeiro, o grupo precisou criar a peça de forma fragmentada: como não havia verba para o transporte dos integrantes, os ensaios aconteciam em diferentes regiões, como as zonas Norte, Leste, Sul (Grajaú e Capão Redondo) e o ABC, onde as cenas eram construídas separadamente para serem "costuradas" apenas no final. Esse processo contou com o apoio fundamental de grupos profissionais, como o Estudo de Cena, que auxiliou nos ensaios, e o Engenho Teatral, que cedeu espaço para as atividades.
A montagem foi um verdadeiro desafio logístico e artístico, com apenas um ensaio geral antes da estreia em um auditório histórico que quase não oferecia estrutura de luz ou técnica. Lutando contra o tempo e as rotinas corridas dos militantes, a Trupe utilizou materiais do próprio cotidiano das ocupações, como bambu e lona, para erguer o cenário, que trazia como símbolo central um barraquinho. Diante de um público de mais de 200 pessoas, a apresentação foi descrita como "mágica", pois, apesar de todas as adversidades, a execução foi impecável. O sucesso na estreia foi o que garantiu à Trupe o respeito e o apoio oficial do movimento, permitindo que, a partir dali, o grupo se consolidasse e conseguisse reservar a agenda dos seus integrantes para projetos futuros mais ambiciosos.
A consolidação definitiva da Trupe veio com a busca por recursos que permitissem um trabalho mais estruturado. O grupo inscreveu-se no Programa VAI, da Prefeitura de São Paulo, um edital de fomento a iniciativas culturais que possibilitou a realização de um desejo antigo: criar uma montagem com suporte financeiro adequado. Após a aprovação em 2024, o projeto começou a ser implementado no final daquele ano, mas ganhou força total ao longo de 2025, com ensaios semanais e uma dedicação integral à construção de cada detalhe do espetáculo, desde a preparação dos atores e a escrita do roteiro até a elaboração da cenografia e do figurino. O resultado desse esforço coletivo foi a peça "Capitães Sem-Teto: se essa rua fosse nossa", apresentada no final de 2025.
A escolha da obra base, o clássico "Capitães da Areia" de Jorge Amado, partiu da identificação direta do movimento com os temas de marginalidade e invisibilidade social. No entanto, o grupo promoveu adaptações profundas para que os integrantes do MTST fossem representados no palco: o cenário deixou o trapiche baiano para ganhar a identidade de um escadão de "quebrada". Além disso, para refletir a verdadeira base do movimento, o elenco majoritariamente masculino do livro original foi transformado em um grupo diverso que incluía muitas mulheres e pessoas de diferentes idades, além de integrar expressões de identidades LGBTQ+ e a convivência harmoniosa entre diferentes fés, como o Candomblé e o Cristianismo.
Um ponto crucial na adaptação do roteiro, realizada pela militante e roteirista conhecida como Poeta (Marilene Souza), foi a mudança do conflito central: para evitar os estigmas que frequentemente marginalizam os sem-teto, a peça substituiu a prática de roubos por discussões sobre as relações de trabalho contemporâneas. Na trama, os personagens enfrentam a exploração de um patrão inescrupuloso e as duras condições de "bicos" e subempregos, refletindo a realidade de quem, mesmo trabalhando exaustivamente, ainda luta contra a precariedade habitacional. Mesmo com o recurso público, a produção manteve o espírito de cooperação e sustentabilidade, priorizando a ajuda de custo para transporte e alimentação dos integrantes e utilizando materiais recicláveis, como caixotes de feira e papelão, para criar uma cenografia potente que marcou o amadurecimento artístico da Trupe.
A escolha da obra "Capitães da Areia" para a montagem de 2025 também foi estratégica por sua natureza coral, que permite explorar "muitas vidas ao mesmo tempo" através de diversas sub-tramas, fugindo da lógica de um protagonista único. Para a Trupe, era fundamental que o roteiro distribuísse o protagonismo, pois o objetivo central do grupo é dar visibilidade e oportunidade a todos os seus integrantes, reconhecendo o talento de pessoas que historicamente tiveram seus espaços de expressão negados. Esse processo de construção coletiva permitiu que os atores inserissem suas próprias identidades e vivências nas personagens, transformando o palco em um espelho da diversidade encontrada no próprio MTST.
Um dos eixos centrais dessa narrativa é a trajetória de Bala, interpretada por Rosa Ribeiro, que na adaptação tem um passado ligado ao Movimento Sem Terra (MST), trazendo para a cena a herança da luta política de seus pais. Sua jornada de transformação atinge o ápice após sofrer o luto pela morte de Dora e o trauma de um despejo na "quebrada". Diferente da Dora original, a versão da Trupe, vivida por Lilian Lins, é uma figura transgressora e "descolada" que trabalha em uma associação exploradora e incentiva os Capitães a se revoltarem contra as injustas relações de trabalho, sendo assassinada como "queima de arquivo" por sua insubmissão. A morte de Dora e o posterior acolhimento pelas Cozinhas Solidárias são o que impulsionam Bala a organizar o grupo para uma ocupação urbana, unindo o desespero à esperança da luta por direitos.
O roteiro também se aprofunda em questões de fé e estrutura familiar periférica através de personagens como a Pirula e o garoto Cleitinho. Pirula, interpretada por Luiza Neta, representa a figura da avó que assume o papel de mãe após a perda de um filho para a violência policial, uma realidade simbólica e triste que reflete a vida real da própria atriz. Essa densidade emocional permitiu a criação de cenas marcantes, como o momento de sincretismo religioso em que Pirula une sua prece católica ao canto de Candomblé da personagem Baiana (Maria Angélica), simbolizando a união de diferentes fés em um contexto de resistência. Além disso, a individualidade dos integrantes foi respeitada e celebrada, como no caso do ator Fran, que trouxe sua marca registrada, um leque com a bandeira LGBTQ+, e sua própria identidade sexual para a composição de seu personagem, provando que a diversidade da Trupe é o que realmente enriquece a obra coletiva.
O desfecho de "Capitães Sem-Teto: se essa rua fosse nossa" marca o ponto exato onde a ficção se dissolve na urgência da luta real, transformando o palco em um espaço de convocação política. O clímax é motivado por um cenário de desolação: após sofrerem um despejo violento na quebrada e enfrentarem o luto pela morte de Dora, os Capitães encontram-se desamparados. É nesse momento que o movimento social se manifesta através do acolhimento das Cozinhas Solidárias, um momento simbolizado na peça pela distribuição de um caldinho quente para os atores e para a própria plateia, unindo todos em um gesto de solidariedade comum.
A transformação da protagonista Bala é o fio condutor desse levante final. Ao ser relembrada sobre o passado de seus pais no MST, Bala compreende que a luta faz parte de sua identidade e que o movimento apareceu para ela em seu momento de maior desamparo. Com esse despertar, ela deixa de ser apenas uma líder de grupo para se tornar uma articuladora política, convocando os outros personagens e o público para lutar por seus direitos. A simbologia atinge sua plenitude quando o teatro rompe as barreiras físicas do auditório: os portões são abertos e a Trupe, acompanhada pela plateia, ocupa a rua de forma literal. Essa transição da cena para o espaço público concretiza o lema do movimento e transforma a arte em um ato de resistência viva.