Ocupar e Resistir | O cheiro da chuva em Perus

Como uma geração criada ao cheiro do Aterro Bandeirantes fundou um coletivo que hoje lidera a luta contra um incinerador no mesmo lugar
por
Luis Henrique Oliveira e Wildner Felix
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21/06/2026

Por Luis Henrique Oliveira e Wildner Felix

 

Tem gente que aprende a ler o clima pelo céu. Em Perus, bairro da zona noroeste de São Paulo, os moradores cresceram aprendendo a ler a chuva pelo nariz. Quando o tempo virava e trazia aquele cheiro horroroso, fedorento, pesado e inconfundível, até as crianças já sabiam: vinha chuva por aí! Os rejeitos de toda uma cidade chegavam antes das nuvens. Durante décadas, o aterro Bandeirantes recebeu o que São Paulo não queria ver nas ruas da capital. Quase trinta anos de lixo soterrado, apenas a poucos quilômetros de onde as pessoas dormiam, criavam seus filhos e tentavam ter uma vida. E esse odor fétido não era só uma metáfora; era uma experiência quase tátil que entrava pelas janelas, grudava nas roupas e permanece até hoje na memória de quem cresceu na vizinhança. Foi a partir deste cheiro que nasceu uma geração. E foi dessa geração que nasceu a Comunidade Cultural Quilombaque.

Clébio Ferreira, mais conhecido como Dedê, nos disse que Perus sempre foi um bairro de luta. Antes de existir o aterro, houve a Fábrica de Cimento Portland. Na década de 1970, os operários da usina iniciaram uma grande greve devido às condições de trabalho precárias que eram submetidos pela gestão do empresário J.J. Abdalla. O levante durou sete anos com o apoio dos cidadãos e deu vitória na certa para a classe trabalhadora, que tiveram seus salários remunerados pelo tempo de greve. 

A batalha pode até ter sido ganha, mas ainda estava longe da guerra. Nos anos 1980, uma torre sem filtro despejava o pó sobre as casas do distrito e, quando chovia, o cimento acumulado pesava e os telhados afundavam. A população, obviamente cansada do descaso tanto governamental quanto da usina, foi às ruas lutar pelo que foi uma das primeiras manifestações ambientais conhecidas no Brasil. A região aprendeu desde cedo que algumas coisas só mudam quando o povo se mobiliza para ir às ruas. E que essa memória precisa ser passada adiante, senão a cidade apaga.

O fechamento do aterro sanitário Bandeirantes foi uma dessas batalhas herdadas. Os moradores se mobilizaram, os atos se multiplicaram, o aterro fechou. Uma vitória construída no chão por gente que morava do lado errado da cidade e, justamente por isso, não podia se dar ao luxo de só aceitar a situação.

Em 2005, Dedê junto de alguns amigos se reuniram na garagem da mãe com o intuito de ensiná-los a tocar percussão. O que era para ser uma simples roda de música foi berço para a Quilombaque, um espaço de arte, formação, convivência e resistência, que hoje, após 21 anos de sua criação, ocupa um terreno que a própria comunidade comprou no meio da pandemia, sem um tostão furado no bolso. Tinham apenas uma campanha online, a solidariedade de artistas, apoio do SESC, do Itaú Cultural, da Secretaria da Cultura… Enfim, de muita gente que entendeu a necessidade que o lugar tinha para Perus.

No quintal do espaço, o chão é de terra. O primeiro pensamento pode ser que é por descuido, mas, na realidade, é pelo contrário: é por escolha. Numa cidade onde o primeiro instinto é cimentar tudo, pois a terra parece sujeira para quem perdeu a memória dos quintais, manter o solo exposto e deixar que as pessoas sintam o chão com seus pés descalços é um ato pequeno, cotidiano, até mesmo insistente, mas sem dúvida alguma também é político. O lugar, inclusive, funciona como uma horta comunitária de ervas medicinais, aberta para todos que necessitam.

E se engana quem pensa que a Quilombaque é apenas um espaço cultural – na verdade ele é uma linha de frente. Durante o isolamento do Covid-19, enquanto a cidade parava e se distanciava uns dos outros, o coletivo manteve as portas abertas para receber doações e distribuir cestas básicas, não só para o bairro, mas também para as aldeias indígenas e periferias de toda São Paulo. Quando alguém no território precisa de encaminhamento para o CRAS, CREAS ou qualquer serviço, é lá que batem primeiro. E, quando a especulação imobiliária bate à porta, também é lá que a resistência se organiza.

No mesmo lugar em que funcionava o antigo aterro sanitário, uma concessionária chamada Loga quer instalar um incinerador. A tecnologia, como respondem os defensores do projeto, é moderna, segura e, além de tudo, “limpa”. Já os críticos apontam que a Europa está desativando seus incineradores e não abrindo nenhum outro como forma de preservar o meio ambiente. Mas esse debate técnico, por si só, não explica tudo.

O que ajuda a entender melhor o que tá em jogo é o questionamento dos moradores, simples e cirúrgico: por que não colocam o incinerador no Morumbi ou na Vila Mariana? Por que Perus tem que ser o alvo mais uma vez? Não é necessário uma resposta dita em voz alta. Ela é óbvia e todo mundo já sabe.

A Loga, ao defender sua ideia, chegou com um projeto e uma “audiência” pública. Descobriu-se depois que foram contratados figurantes para aplaudir o empreendimento diante dos moradores. A denúncia foi ao Ministério Público. O processo segue em andamento, assim como a luta dos habitantes. A Quilombaque permanece junto nos atos, nas audiências, na articulação com a vizinhança que não quer repetir a história.

Ao redor, Perus ainda guarda a Serra da Cantareira, o Parque do Jaraguá, as aldeias guaranis que resistem à pressão de construtoras – que já tentaram erguer prédios sobre a terra indígena e foram barrados, também com a presença da Quilombaque. É o pulmão que resta de uma cidade que esqueceu de respirar. A especulação não desiste. Ela chega pelos corredores da Câmara Municipal, nos votos que liberam zonas antes protegidas e em projetos que aparecem prontos antes que o bairro seja consultado. Quando a comunidade não está de olho, os tratores chegam.

Por isso a Quilombaque não prega o olho: ela mantém na memória que a distração tem um preço, e ele sempre será cobrado de quem já tem menos. O incinerador não iria para o Morumbi, nem para a Vila Mariana ou algum bairro classe-média. As obras que ninguém quer ficam nas bordas, como explica Dedê. Ainda bem que Perus nunca se calou diante das injustiças ambientais. Alguns tambores e o cheiro de chorume ensinaram uma geração inteira.

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