Por Ana Julia Mira e Victória Miranda
Ao atravessar o discreto portão de ferro, o visitante é transportado para algo que não se assemelha em nada com a imensidão de concreto de onde acabou de vir. A Horta das Flores, localizada no bairro da Mooca em São Paulo, é como um refúgio da vida barulhenta e corrida da região que – segundo moradores e pesquisas realizadas desde 2014 – é uma das áreas menos arborizadas de toda a cidade. Mas a luta para que a horta fosse estabelecida foi extensa e árdua. Desde sua fundação, em 2002, até 2021, foi necessário o enfrentamento de tentativas de destruição dos seis mil metros quadrados que tentam mudar a realidade ambiental negativa do bairro.
O que começou com a própria comunidade da região se reunindo para realizar a manutenção da horta, depois de mais de 20 anos é um importante espaço socioambiental, utilizado, especialmente, para o desenvolvimento e promoção da educação ambiental. Mas em 2017 os voluntários tiveram de se unir contra a decisão da Prefeitura da capital de incluir o local em uma parceria público privada, que visava a construção de moradias populares. A mobilização das pessoas que frequentavam a Horta os levou à mais uma vitória, mas não a definitiva. Em 2021, a área correu o risco de ser desmantelada para um projeto imobiliário, no entanto, novamente a união em protestos e mobilizações, além de ações judiciais, fez com que fosse possível evitar o projeto de ser seguido. Com todas as conquistas ao longo do tempo, hoje o projeto é reconhecido e respeitado, culminando na entrega da Escola Estufa da Horta das Flores pelo programa Sampa+Rural, da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico e Trabalho da cidade de São Paulo.
Na Horta das Flores, a sustentabilidade não é um conceito linear, mas uma rede de interdependências que o gestor José Luiz Fazzio define como um "guarda-chuva" de iniciativas. O equilíbrio do espaço nasce da convivência entre diversos projetos como o Oquideia, o GEPEM (Grupo de Estudos e Pesquisas em Meliponicultura) e o Ciclo Vida. Sem qualquer fim comercial, o foco reside integralmente na educação ambiental, transformando o cultivo em ciência: o que é plantado ali torna-se objeto de estudo e artigos científicos publicados por biólogos e estudantes de diversas faculdades. Esse ecossistema permite que a produção de hortaliças e PANCs vá além do canteiro através de mutirões realizados todos os domingos, das 09h30 às 13h. Nesses encontros, voluntários e alunos se unem não apenas para colher, mas para limpar canteiros e realizar a manutenção geral do espaço. O resultado desse esforço é dividido entre quem ajuda no plantio e, o que excede, é destinado a instituições parceiras, como o Arsenal da Esperança e o Bompar. Assim, fecha-se um ciclo onde o conhecimento acadêmico e o alimento são compartilhados com quem mais precisa, combatendo a insegurança alimentar através da generosidade comunitária.
O GEPEM, criado em 2021, atua no estudo e na conscientização sobre as abelhas sem ferrão. Nativas da fauna brasileira, essas espécies não possuem ferrão e desempenham um papel crucial na polinização, tendo o projeto como objetivo difundir o conhecimento sobre a biodiversidade e destacar a importância ecológica desses insetos. Compartilhando o mesmo espaço, o projeto Ciclo Vida é uma iniciativa de educação ambiental criada em 2022 por estudantes e profissionais de Ciências Biológicas. Com o propósito de conectar as pessoas à natureza, o Ciclo Vida funciona como um polo de desenvolvimento sustentável dentro da Horta das Flores, onde oferece oficinas gratuitas, vivências e aulas práticas sobre botânica e compostagem.
A entrega da nova Escola Estufa em março de 2025, por meio do programa Sampa+Rural, marcou a transição da Horta de um coletivo de amigos para um centro de referência em capacitação técnica. O espaço reformado potencializa a vocação do local como um polo de formação para estudantes de biologia, agronomia e gestão ambiental, que encontram ali a oportunidade de realizar estágios obrigatórios e iniciação científica em um ambiente real. Como destaca Nicholas Fontoura, supervisor do Ciclo Vida, a intenção é inspirar novos profissionais a seguirem carreiras na agroecologia e agricultura urbana. Sob a gestão da Associação Verditude, a Escola Estufa deixa de ser apenas um local de lazer para se tornar uma ferramenta de autonomia, onde moradores aprendem que o cultivo urbano é uma profissão viável e uma resposta estratégica para as crises climáticas e sociais das grandes metrópoles.
O cotidiano da Horta das Flores vai para além do plantio. Não é incomum ao adentrar a pequena selva guardada em meio ao caos do bairro da Mooca e se deparar com grupos de crianças aprendendo a valorizar o ambiente verde. A Horta recebe escolas públicas e privadas, abre oficinas de plantio abertas ao público, e promove atividades que vão desde aprender a cultivar plantas simples, como suculentas, à descobrirem o vasto universo das PANCs. Nicholas afirma que um dos seus maiores prazeres é levar o conhecimento e a conscientização socioambiental para aqueles que ainda estão desenvolvendo suas primeiras ideias.
O artigo “A educação ambiental na educação infantil segundo os saberes de Morin”, publicado por Daniela Gureski Rodrigues e Daniele Saheb, aponta os benefícios do ensino acerca do meio ambiente para crianças. Para as autoras, a educação infantil é a primeira formadora da integralidade e subjetividade humana, sendo essencial para a criação de conceitos que acompanham o indivíduo por toda a vida. Nicholas complementa que a importância de implementar o meio ambiente no início da trajetória em sociedade, torna os indivíduos que formarão o futuro mais conscientes de suas atitudes e das consequências delas para o meio ambiente – e logo, para seu próprio bem estar.
A Horta também proporciona um ambiente comunitário, que torna a vivência educativa e acadêmica – para os estudantes em fase universitária – em algo que os faz desenvolverem habilidades sociais e olhar para o cuidado da natureza para além de suas pessoalidades, mas um ato de resistência feito em sociedade. Não raro são os relatos de voluntários da Horta que iniciaram como visitantes e alunos com desejo de aprender, mas com o passar do tempo desenvolveram apego pela causa ambiental, optando por permanecer e contribuírem com o avanço do projeto.
O reconhecimento pelo trabalho de mais de duas décadas do Coletivo ultrapassou as fronteiras da Mooca e alcançou as instâncias oficiais da capital. No dia 6 de maio de 2026, o projeto foi protagonista de uma solenidade em sua homenagem na Câmara Municipal de São Paulo, reunindo gestores, voluntários e os diversos coletivos que compõem esse "guarda-chuva" socioambiental. A celebração não apenas honrou a trajetória de resistência liderada por José Luiz Fazzio e Maria Regina Grilli, mas também estabeleceu um marco histórico para o movimento: a partir do próximo ano, o dia 22 de março — data que marca o aniversário da unidade — passará a ser oficialmente o Dia das Hortas Comunitárias de São Paulo, consolidando o projeto como referência máxima de política pública e mobilização social no estado.