Ocupar e Resistir | Grupo Pandora de Teatro abre as cortinas para cultura em Perus

Em um prédio público abandonado, coletivo construiu a Ocupação Artística Canhoba, espaço que reúne arte, formação e convivência comunitária na zona noroeste de São Paulo
por
Ana Clara Souza e Júlia Polito
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18/06/2026

Por Ana Clara Souza e Júlia Polito

 

Em Perus, zona noroeste de São Paulo, há prédios abandonados que voltaram a respirar antes mesmo de o poder público perceber que estavam vivos. Em um deles, uma construção que deveria ter se tornado uma biblioteca pública passou anos fechada, cercada por mato alto e sinais de abandono. Hoje, o mesmo espaço recebe ensaios de teatro, oficinas, apresentações artísticas, grupos de dança e crianças que entram e saem como se o lugar sempre tivesse pertencido ao bairro. Ali funciona a Ocupação Artística Canhoba.

Perus é um bairro acostumado a carregar ruínas. Foi sede da antiga Companhia Brasileira de Cimento Portland Perus, palco da histórica greve dos Queixadas e cenário da descoberta da vala clandestina da ditadura militar, em 1990. Durante décadas, a região acumulou também a escassez de equipamentos culturais e investimentos públicos. Talvez por isso iniciativas culturais locais tenham aprendido cedo a operar na lógica da substituição. Onde falta política pública, entra mutirão. Onde sobra abandono, nasce palco. A Canhoba é resultado direto dessa dinâmica. O espaço se mantém funcionando com o trabalho de Thalita Duarte, produtora do Grupo Pandora de Teatro e gestora da ocupação, que acompanha diariamente uma rotina que mistura criação artística, gestão cultural, manutenção predial e articulação comunitária.

Ao redor, a situação era semelhante. O mato avançava sobre o terreno. Não existiam acessos adequados. A quadra vizinha estava abandonada. O prédio parecia destinado a integrar a longa lista de equipamentos públicos esquecidos na periferia paulistana. A transformação começou por meio de mutirões.

O coletivo já possuía uma longa trajetória em Perus. Fundado em 2004 a partir do programa Teatro Vocacional, da Prefeitura de São Paulo, o Grupo Pandora desenvolvia pesquisas ligadas à memória, ao território e às transformações urbanas do bairro. Thalita chegou ao grupo em 2011, inicialmente como produtora. Em 2013 estreou como atriz em Relicário de Concreto, espetáculo inspirado na história da antiga fábrica de cimento que marcou a formação da região. E quando a ocupação finalmente surgiu, o vínculo entre grupo e território ganhou uma dimensão física.

Hoje, caminhar pela Canhoba ao lado de Thalita significa percorrer uma espécie de arquivo vivo. Cada parede carrega uma reforma. Cada espaço possui uma história. A iluminação instalada na área externa, por exemplo, surgiu da necessidade de tornar mais seguro o entorno durante as atividades noturnas. A pintura recente foi realizada para recuperar uma estrutura constantemente desgastada pelo uso intenso.

A Canhoba deixou de funcionar apenas como sede do Grupo Pandora. O espaço também é palco dos ensaios de coletivos de breaking, oficinas artísticas, cursos de formação teatral e apresentações gratuitas abertas ao público. Por meio do projeto Pandora Recebe, grupos de diferentes regiões da cidade passam a integrar a programação do bairro. A política da casa é simples: manter as portas abertas. Essa decisão nasceu da observação cotidiana. Nos primeiros anos da ocupação, a equipe percebeu que dezenas de crianças utilizavam espontaneamente a praça e a quadra vizinhas como espaços de convivência. Muitas atravessavam o portão do teatro, acompanhavam ensaios, brincavam pelos corredores e passavam boa parte do dia no local.

Da relação com esse público nasceu o projeto Brincantes em Ação, que passou a oferecer oficinas, atividades lúdicas e sessões de cinema para crianças do bairro. Uma década depois, parte daqueles frequentadores já alcançou a vida adulta. Alguns continuam retornando à ocupação para assistir espetáculos ou participar das atividades promovidas pelo grupo. Nem todas as questões, porém, foram resolvidas.

Enquanto desenvolve uma pesquisa de mestrado sobre formação de público, Thalita busca compreender um desafio recorrente: como aproximar ainda mais os moradores que vivem ao redor do espaço. Apesar da consolidação da Canhoba como referência cultural em Perus, parte do público adulto que frequenta as apresentações ainda vem de outras regiões da cidade.

A preocupação surgiu de episódios aparentemente simples, quando algumas apresentações receberam um público muito menor do que o esperado. A experiência reforçou a pergunta que acompanhava a equipe há anos que era como transformar em frequentadores aqueles moradores que vivem a poucos metros do palco. As crianças continuam sendo uma das respostas mais consistentes encontradas pelo grupo. São elas que chegam primeiro, convidam familiares e ajudam a criar vínculos duradouros entre a ocupação e a comunidade. Uma relação que ultrapassa os limites do edifício. A praça e a quadra tornaram-se extensões naturais da programação cultural. Espetáculos ocupam o espaço público. Crianças brincam enquanto artistas ensaiam. Jovens utilizam a iluminação instalada pelo grupo para permanecer na quadra durante a noite. E, assim, aos poucos, a revitalização do teatro ajudou também a revitalizar o entorno.

Ao longo das últimas duas décadas, iniciativas como a Comunidade Cultural Quilombaque e a Casa do Hip-Hop Perus, assim como a experiência da Canhoba, também passaram a ocupar espaços deixados à margem dos grandes investimentos culturais da cidade. Juntas, ajudaram a construir uma rede de produção artística e participação comunitária que transformou a imagem do bairro. Com elas, Perus desenvolveu um ecossistema cultural periférico, mas mantê-lo vivo exige esforço permanente.

A Canhoba e o Grupo Pandora dependem principalmente de editais públicos, que permitem ampliar atividades e estruturar melhor a programação. Mas quando não existem recursos, o trabalho continua sustentado pelo esforço voluntário dos próprios integrantes. São as mesmas pessoas que produzem espetáculos, cuidam da manutenção do prédio, organizam eventos, captam recursos e garantem que as portas continuem abertas.

Ainda assim, a ocupação permanece, seja porque a cultura tenha aprendido a sobreviver da mesma forma que o bairro construiu sua história ou porque as cortinas continuam abertas em Perus.

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