Ocupar e Resistir | Cozinhas Solidárias nascem da urgência e suprem lacuna do Estado

Os desafios que permeiam ocupar a sombra do Estado na alimentação dos brasileiros

por
Chloé Dana e Leticia Falaschi
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21/06/2026

Por Chloé Dana e Leticia Falaschi

 

As Cozinhas Solidárias do MTST nasceram não de um plano, mas de uma urgência. Era março de 2021, e o Brasil enfrentava uma crise que era, ao mesmo tempo, sanitária, econômica e social. O botijão de gás ultrapassava de R$100. O arroz virou objeto de luxo. E a pandemia deixava claro que a fome, sabia muito bem os endereços que preferia visitar.  O Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST),  já distribuía cestas básicas desde o início de 2020, quando lançou a Campanha de Solidariedade como resposta ao colapso. Porém cesta básica, perceberam logo, não é o mesmo que comida.Cesta básica é uma promessa. Comida é a refeição de hoje. 

O funcionamento das cozinhas tem uma rotina bem definida. Todos os dias da semana, voluntárias em sua maioria mulheres, chegam cedo para começar o preparo. O cardápio é balanceado e feito com alimentos que vêm de longe: arroz e feijão cultivados em assentamentos do MST, em terras que a Reforma Agrária devolveu à produção. Alimentos sem agrotóxico, que no movimento chamam de "comida de verdade".

A parceria entre o MTST urbano e o MST rural não é apenas logística, é estrutural. Enquanto as cidades acumulam fome nas suas bordas, o campo produz alimento em excesso que o mercado não absorve, as Cozinhas Solidárias criam uma ponte entre esses dois mundos. Em muitas unidades, hortas urbanas brotam nos terrenos ao redor, cultivadas coletivamente, fornecendo verduras e temperos frescos que chegam direto da terra à panela. Os números acumulados são expressivos: mais de 5,8 milhões de refeições servidas, mais de 3,8 milhões de quilos de alimentos distribuídos, 55 cozinhas espalhadas por 14 estados e o Distrito Federal, atendendo regularmente mais de 12 mil pessoas. Mas por trás de cada número há alguém concreto, uma criança que não foi para a escola com fome, um idoso que não precisou escolher entre o remédio e o almoço, alguém em situação de rua que encontrou uma fonte regular de alimentação nutritiva.

As Cozinhas Solidárias sempre foram mais do que simples refeitórios. Desde o início, o projeto percebeu que a fome não está isolada, ela caminha lado a lado com a falta de educação, com a ausência de assistência médica, e com a vulnerabilidade de quem não sabe como reivindicar seus direitos. O início foi a panela, mas não o encerramento. Em torno dela, surgiram atividades, rodas de discussão, cursos de alfabetização, além de suporte psicológico e jurídico. A cozinha evoluiu para algo diferente: um ponto de apoio, um local onde as pessoas podiam se apresentar com múltiplas carências e sair com diversas soluções.

 

 

 

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Cozinha do MTST faz mais de mil marmitas pros afetados nas enchentes do RS
Foto: Comunicação MTST

 

Hortas comunitárias


Enquanto a Cozinha Solidária tenta remediar a urgência de quem passa fome hoje, as portas voltam-se  para a continuidade e tentam pavimentar caminhos para uma produção alimentar acessível e sustentável. As hortas comunitárias e urbanas são parte da engrenagem do MST e MTST, são cultivadas ao redor (muitas vezes, dentro) dos próprios territórios das cozinhas. Elas operam na tentativa de fugir da dinâmica de cestas, tentam consolidar autonomia. São semeadas coletivamente e, geralmente, as cozinheiras que já atuam na Cozinha Solidária, o que une produção e preparo no mesmo gesto político.

As hortas permitem a colheita de verduras, ervas e temperos frescos (que, normalmente, seriam o item mais caro e mais perecível de qualquer cozinha popular) e que, cultivados localmente, deixam de depender da variação do mercado. Mas, muito além do abastecimento, elas geram a possibilidade espaço pedagógico, onde crianças e jovens aprendem agroecologia na prática. Tudo isso engajado no espaço político, onde se discute soberania e acessibilidade alimentar como conceito vivido, não apenas teorizado. Esse sincronização reproduz, na escala urbana, o que o MST já semeia há décadas no campo: a possibilidade de se impor contra a ideia do agronegócio e do uso de agrotóxicos como único modelo viável de produção de alimentos. O encurtamento da cadeia entre quem produz e quem consome proporciona a superação de intermediações que encarecem, envenenam e descaracterizam a comida.

A aliança entre o MST rural, fornecedor de arroz e feijão cultivados sem agrotóxicos em assentamentos de Reforma Agrária, e o MTST urbano, gestor das cozinhas e das hortas que complementam esse cardápio, não é coincidência: é a prova de que campo e cidade, tradicionalmente pensados como mundos apartados, podem operar como um único sistema de produção e distribuição de comida quando a lógica que os organiza não é o lucro, mas a necessidade. 

 

 

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Horta Comunitária do Spama, Zona Norte de SP.
Foto: Comunicação MTST

A sombra do Estado


Essa multiplicidade de funções não é acidental, é sintoma. As Cozinhas Solidárias não nasceram como projeto de extensão de um movimento social, nasceram como resposta para uma omissão. O Estado brasileiro, signatário de tratados internacionais que reconhecem a alimentação como direito humano básico e tendo a segurança alimentar inscrita na própria Constituição, não conseguiu garantir esse direito de forma estável. Os números o comprovam: o Levantamento da Rede PENSSAN (Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional)  com base em dados da FAO mostra que, entre 2022 e 2024, 3,4% da população brasileira enfrentou restrição severa de acesso a alimentos, enquanto 13,5% viviam em insegurança alimentar moderada ou grave.

Houve avanço importante no período recente: entre 2022 e 2023, a insegurança alimentar severa caiu de 17,2 milhões para 2,5 milhões de pessoas, uma redução de 85%, tirando 14,7 milhões de brasileiros dessa condição.  Mas o fato de que ainda restam milhões de pessoas nessa situação, mesmo em um ciclo de melhora, revela o quanto a garantia desse direito permanece intermitente, sujeita a oscilações de governo, de renda e de política pública, em vez de assentada como obrigação permanente do Estado. 
É nesse vazio que o MTST identificou sua tarefa: não substituir o Estado por convicção ideológica, mas ocupar, com solidariedade, o espaço que o Estado deixou vago. A Cozinha Solidária, vista sob esse ângulo, não é caridade, é diagnóstico. Ela existe porque, todos os dias, em algum lugar do Brasil, o direito à alimentação deixa de ser cumprido.

É nessa lógica que esse modelo, hoje sustentado por militância e voluntariado, não precisa permanecer como apenas um paliativo. As mais de 5,8 milhões de refeições servidas e os mais de 3,8 milhões de quilos de alimentos distribuídos pelas Cozinhas Solidárias não são apenas números de uma campanha emergencial, são provas de conceito. Demonstram que existe um modelo replicável de produção e distribuição de alimentos, descentralizado, baseado em economia solidária, agroecologia e organização comunitária, capaz de operar em escala significativa mesmo sem o aparato de um orçamento estatal. Esse modelo já funciona com os recursos limitados de um movimento social, o que poderia ser ampliado substancialmente se fosse reconhecido e financiado como política pública permanente, integrado a programas como o Fome Zero, o PAA (Programa de Aquisição de Alimentos) ou novas formas de parceria entre poder público e organizações de base.

As Cozinhas Solidárias e as hortas que as alimentam mostram, na prática, que o direito à alimentação adequada pode ser cumprido de forma descentralizada, participativa e sustentável. O que falta não é o modelo. É a decisão política de reconhecê-lo como parte da arquitetura permanente de proteção social do País.

 

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