Por Eduarda Amaral e Emily de Matos
Todo domingo, a partir do meio-dia e meia, um cheiro de comida toma conta do térreo de um prédio na Avenida Nove de Julho, no centro de São Paulo. A fila que se forma é mista: moradores da ocupação, vizinhos do bairro, artistas, pesquisadores, militantes, pessoas em situação de rua. Todos comem juntos. É assim todo fim de semana, há anos, com entrada livre e almoço até às 16h30min, como o próprio movimento anuncia: comida para alimentar a luta.
Desde 2017 funciona o projeto de cozinha coletiva da Ocupação 9 de Julho, cujo objetivo é suprir as necessidades do MSTC em relação à alimentação durante suas atividades e promover, através dos almoços abertos, uma maior visibilidade à luta por moradia. O que começou como uma necessidade interna tornou-se, ao longo dos anos, uma das iniciativas de soberania alimentar mais conhecidas da cidade, e um instrumento político deliberado nas mãos do Movimento Sem Teto do Centro.
A cozinha não funciona sozinha. Uma vez por mês um chefe com experiência é chamado para conduzir o almoço, em uma ação voluntária e aberta ao público. Nesses momentos, visitantes e moradores experienciam o espaço coletivo da Ocupação. Os domingos de evento incluem programação com shows, oficinas e ações de formação. Quem cozinha também é remunerado. As cozinheiras e cozinheiros responsáveis pela elaboração das refeições são moradoras e moradores de baixa renda das ocupações do MSTC, que recebem ajuda de custo pelo trabalho. A iniciativa, portanto, não é apenas um equipamento comunitário, é também fonte de renda para quem mora ali. Os almoços e a programação cultural fortalecem a organização de moradores e moradoras, além de proporcionar renda por meio do trabalho na própria cozinha.
Por fora, uma rede de parcerias sustenta a operação: o projeto trabalha em parceria não apenas com outros movimentos de moradia e organizações sociais, mas também com a classe artística, tornando-se um importante centro cultural e ponto de encontro ativo para ativistas, intelectuais, artistas e lideranças políticas. A horta comunitária instalada no local também integra esse circuito: os moradores cuidam do plantio e todo o resultado da colheita vai para eles.
Em domingos festivos, porém, a cozinha ganha um contorno diferente do habitual. O almoço é também festa de aniversário: o vereador e ativista histórico Eduardo Suplicy completa 85 anos, e a Ocupação comemora junto com o público. MPB toca em clima de festa, quase como um show, mas sem perder o acolhimento que é marca da casa. Da cozinha sai baião de dois, fumegante nas panelas grandes, enquanto um bar montado para a ocasião produz caipirinhas, sucos de cupuaçu e mate para quem circula pelo pátio.
Espalhadas pelo espaço, barraquinhas apresentam projetos que decidiram contribuir ali dentro: o Projeto Gaia e o Simplesmente Sou dividem espaço com o resto da programação, cada um com sua proposta própria de cuidado e renda para quem mora ou já morou na ocupação. Naquela tarde (21), a celebração ganha ainda mais força com o anúncio de duas novas conquistas do espaço: o lançamento de um desfile de moda autoral, confeccionado pelas mãos das próprias moradoras, e a aula inaugural de um cursinho popular gratuito, promovido pelo Instituto Carmen Silva em parceria com o MEC.
A programação cultural se estende com a presença da Velha Guarda da Vai-Vai, convidada para ditar o ritmo após os parabéns. Para quem visita o local pela primeira vez, a liderança Carmen Silva faz questão de lembrar que a Nove de Julho é uma ocupação icônica, cuja história resiste desde 1997. Segundo Carmen, o movimento não agrega somente a moradia como segmento, mas integra cultura, educação e, acima de tudo, o bem-estar coletivo.
Em uma dessas barracas está Andrea Escobar, massoterapeuta, oferecendo atendimentos a quem se aproxima. Andrea conhece a engrenagem da luta por moradia por experiência própria. Em outubro de 2010, ela ingressou em um coletivo habitacional "no escuro" e sem nenhuma noção do que enfrentaria ao participar de uma ocupação. O início foi difícil, período em que enfrentou o desafio da adaptação guiada pela coragem. Andrea viu o cenário se transformar através da organização interna, dos mutirões de limpeza e da rotina na cozinha comunitária. Foi lá que conheceu seu companheiro, com quem, três anos e meio depois, deixou o local. O afastamento trouxe o arrependimento por ter interrompido a caminhada, mas hoje ela resgata esse fio direto com o passado. Enquanto participa ativamente das reuniões do Grupo de Base para conquistar a moradia definitiva, Andrea volta a ocupar os espaços da resistência em outra condição: oferecendo cuidado através de suas mãos, que funcionam como instrumento para aliviar as dores e amparar os percursos de quem continua na luta e atravessa histórias semelhantes à sua.
Nem todas as pessoas que circulam pela ocupação carregam uma longa trajetória no movimento. Alguns chegaram há pouco tempo e encontraram ali um lugar para recomeçar. É o caso de Aline, que vive na Ocupação 9 de Julho há seis meses. Depois de passar dez anos em Marília, desembarcou em São Paulo e ficou na casa de uma pessoa que fazia parte do MSTC. O contato a aproximou da luta por moradia e a levou a integrar o movimento desde os primeiros dias na cidade. Com um sorriso largo atrás da mesa de doces de leite, ela apresenta a nova parceria entre a cooperativa Terra Viva, o MSTC, e o Projeto Gaia, vendendo os potes artesanais que fazem sua estreia no evento. Para ela, a experiência de construir renda e comunidade na ocupação é ao mesmo tempo maravilhosa e desafiadora, reflexo de uma luta diária que se renova a cada encontro, atividade e domingo compartilhado no pátio.
O prédio tem quinze andares e um passado que ninguém ali esconde: foi a sede do INSS, depois ficou vinte anos fechado, as janelas cegas, o reboco caindo pedaço por pedaço sobre a calçada da Avenida Nove de Julho. Em 1997, um grupo decidiu que aquele vazio tinha um custo maior do que qualquer risco de ocupar, e entrou. Dali nasceria, alguns anos depois, o Movimento Sem Teto do Centro. Onde antes só havia papelada de autarquia e poeira, agora moram cerca de 120 famílias, e o prédio aprendeu a ter outros órgãos além dos apartamentos: uma escola, uma horta que sobe em vasos e canteiros pelos andares, uma galeria de arte, um brechó, e no terceiro andar, a cozinha, que é talvez o órgão mais vital de todos, porque é dali que sai o sangue que circula pelo resto do corpo. É a partir desse território que a comunidade se baseia para garantir que todas as crianças frequentem a escola e que os moradores acessem os postos de saúde, as rodas de samba e a cultura.
Carmen Silva, que ajudou a fundar tudo isso, tem uma frase que repete como quem repete uma oração: a moradia é a porta de entrada para os outros direitos. Não é retórica. É quase uma fórmula química: do teto vem a escola, da escola vem o trabalho, do trabalho vem a mesa posta, e da mesa posta volta, de novo, a força para resistir a mais uma ameaça de despejo. A casa, ali, não é ponto final, é começo de frase. Para ela, a permanência no centro da cidade é a própria consolidação da cidadania, uma certeza de que a ocupação cumpre sua função social ao dar dignidade para quem antes era invisível. E é exatamente por isso que a cozinha nunca foi só sobre comer. É sobre provar, todo domingo, que a resistência tem cheiro, tem tempero, tem fila.