Por Maria Fernanda Müller
Há um boato misterioso de que Shakespeare teria inspirado o termo "DRAG", sigla para "Dressed As Girl", ou "vestido de menina", em uma tradução direta. O teatro grego, berço das artes cênicas, é visto por muitos como um precursor dessa performance, ou pelo menos o lugar que a popularizou. Naquela época, os homens precisavam se vestir e interpretar mulheres em peças teatrais, visto que a presença feminina nos palcos era proibida, o que transformava o ato em uma ponte entre gêneros. Embora haja poucos estudos aprofundados sobre a história das Drag Queens e suas trajetórias em diferentes sociedades e épocas, sabemos que, pelo menos desde a Grécia clássica até os dias de hoje, homens têm personificado imagens femininas de maneiras variadas e criativas.
No cenário artístico, o movimento Drag emerge como uma expressão vibrante de identidade e performance, onde pessoas, em maioria homens, se transformam em figuras extravagantes que desafiam normas de gênero e celebram a diversidade. Essa arte revela camadas profundas de resiliência e busca por pertencimento. É possível enxergar além do brilho dos vestidos e das plumas exuberantes ao reconhecer histórias de almas que, em meio a desafios, encontram leveza na arte. É uma narrativa que flutua entre a vulnerabilidade e a celebração e convida a refletir sobre o que significa ser verdadeiramente livre.
Em uma pequena cidade do interior, um garoto decide abraçar essa forma de expressão, ou até um menino deslumbrado com as oportunidades da cidade grande, como São Paulo. Desde jovem sente uma atração irresistível pela transformação, o ato de vestir-se com tecidos brilhantes, criar uma maquiagem elaborada e assumir uma persona feminina não é um disfarce, mas sim, uma libertação. A sensação é geralmente descrita como eufórica, um momento em que o corpo se alinha com a alma e permite explorar um sentimento de personalidade reprimido, ou até mesmo uma forma de reconciliar a própria essência com a arte. O artista também pode se permitir e brincar com identidades que podem misturar feminilidade e masculinidade em uma performance envolvida com danças bem características. É como se o corpo se tornasse uma tela viva, pintada com sonhos e desejos que oferecem autenticidade em um mundo limitado à conformidade.
No entanto, a liberdade não apaga o passado. O abandono familiar é um tópico recorrente, visto que pais e familiares próximos, presos a tradições conservadoras ou pensamentos limitados, rejeitam a liberdade de expressão. As noites solitárias após serem expulsos de casa, forçados a reconstruir laços em comunidades alternativas. A falta de apoio emocional agrava a vulnerabilidade e os expõem a discriminação e isolamento social. Esses momentos de rejeição contrastam com a resiliência que floresce, transformando a dor em força. Em vez de amargura, muitos drag queens optam por reescrever suas narrativas e provar que a arte pode ser curativa para o coração ferido, afinal, o show tem que continuar. Enquanto alguns enfrentam rejeição, outros encontram na drag uma fonte de empoderamento, esse simbolismo histórico transforma os palcos e as ruas em espaços de resistência.
Na década de 1960, o movimento LGBT começou a se unificar e ganhar força na luta por direitos. Jovens homossexuais buscaram uma identidade cultural própria através da música, moda e gírias. Nesse contexto, os bares gays ganharam popularidade, e as drag queens voltaram a brilhar, como estrelas renascidas. No entanto, não é possível esquecer o preconceito e a discriminação, na década de 1960. Até 1962, relações entre pessoas do mesmo sexo eram consideradas crime em todos os estados americanos. Essa falta de equidade inspirou a revolta de Stonewall, um marco de coragem.
Na madrugada de 28 de junho de 1969, a polícia fez mais uma batida no Stonewall Inn, um dos bares gays mais conhecidos de Nova York, prendeu funcionários e agrediu frequentadores travestis e drag queens que não usavam pelo menos três peças de roupa "adequadas" ao gênero, conforme a lei da época. O caos se transformou em rebelião, conhecida como "A Revolta de Stonewall". Esse movimento inspirou a criação das primeiras organizações nos EUA, como a Frente de Liberação Gay, e originou a data do Orgulho LGBTQIAP+. Desde então, as drag queens têm sido uma representação poderosa da luta da comunidade LGBTQIAP+.
Em 1990, surgiu RuPaul Andre Charles, famoso como RuPaul, um homem negro, alto, de peruca loira e estética excêntrica. O artista se destacou na cena em Nova York com performances em boates gays. Aos poucos, caiu nas graças da mídia, e os holofotes não demoraram para brilhar sob a nova referência drag. RuPaul apareceu em programas televisivos, filmes e álbuns, com seu hit "Supermodel (You Better Work)" alcançou o segundo lugar na Billboard. Em 2009, RuPaul registrou sua marca ao se tornar apresentador do reality Rupaul 's Drag Race, abrindo espaço e oportunidades para Drag Queens em uma competição pelo título de superstar. A cada temporada é possível ver muitos talentos, performances de alto nível, habilidades artísticas, atuação e danças impecáveis. É certo afirmar que RuPaul rompeu estereótipos e aumentou a visibilidade da cultura LGBTQIAP+ para milhões, e até inspirou artistas como Pabllo Vittar e Gloria Groove. Não só RuPaul, mas grandes figuras nacionais também abriram caminhos no Brasil, como Vera Verão e Suzy Brasil, que já eram ícones da TV nos anos 80.

Em clubes, palcos e redes sociais, drag queens oferecem apoio e inspiração. Ter uma pessoa montada em drag à frente é como ter uma bandeira, e talvez passe mais confiança e credibilidade um espaço que tenha a presença das drags. Além de criar um ambiente acolhedor envolvido com aceitação, amor à comunidade e ao movimento. Ser drag é uma forma poderosa de manifestar identidade e desafiar normas, libertando-se das amarras sociais, até por ser uma arte que abrange todas as outras de uma forma glamourosa e extravagante, e não deixa de ser uma declaração política. Em um mundo onde opressão e discriminação persistem, ela é um ato de coragem.