Criado nas periferias de São Mateus, Zona Leste de São Paulo, Valdemir Pereira Cardoso, conhecido como Val Rua, cresceu rodeado da violência que atingia a capital paulista na década de 80. Junto com seus amigos, viviam inquietos em relação ao seu lugar no mundo. Foi então que ele e outros jovens de São Mateus deram origem ao Coletivo OPNI. Eles queriam mostrar através da arte a realidade que os rodeava, que muitas vezes não lhes dava visibilidade e oportunidade de vivenciar diferentes situações.
Hoje, morador do Bixiga, na região central da capital paulista, Val tem a oportunidade de levar mais autoestima, como ele mesmo define, ao lugar em que cresceu. Com o intuito de aproximar a arte da comunidade do extremo leste de São Paulo, foi um dos fundadores e cofundadores da Favela Galeria. A frente da proposta artístico-cultural desde 2009, Val acredita que a iniciativa ajuda a levar a cultura, muitas vezes vistas em locais de elite, para pessoas da comunidade e fala que todo o conhecimento adquirido ao longo dos anos pode ser sim compartilhado com aqueles que muitas vezes não tem a chance de vivenciar iniciativas voltadas a arte. "Não é sobre vencer na vida, mas sim viver a vida. (...) Somos a favor do ser humano", explica.
O artista também conta que o projeto consegue atingir as pessoas de diferentes formas. Alguns gostam e apoiam o trabalho feito, outros já acham algo marginalizado e se opõe aos grafites, por exemplo. Mas mesmo assim, ele acredita que em cada território, é necessário ter cautela, já que cada um tem sua realidade. "Chega 'fofo', pede licença, fala 'por favor' mesmo, porque com educação a gente chega a qualquer lugar".
Desde pequeno, teve contato com expressões artísticas de São Mateus que moldaram sua personalidade. Sempre teve interesse pelo hip-hop, rap, samba e também por desenhar. Seu foco é o grafite e a arte afro-contemporânea e assim, pode contribuir para colorir tanto a região da Vila Flávia quanto outros lugares em que já participou de projetos.
A arte da periferia ganhando o mundo
Sua arte atingiu vários lugares e pôde ser mostrada para o mundo. Ele cita sua participação no Jazz Festival, em Nova Orleans, nos Estados Unidos e também na palestra na Universidade de Belas Artes de Lisboa, em Portugal. “A minha arte é contra a miséria, contra o crime, contra a violência, né? Contra as indiferenças. É isso que a gente encontra dentro da nossa arte”.
Apesar desses momentos importantes, Val também reconhece as dificuldades de ser artista no Brasil e a necessidade de provar a todo instante que essa também é uma forma de trabalho. “O trabalhador da arte tem que ganhar o seu pão, pagar suas contas, sustentar ali, né? Então, é tudo muito no limite, mas a gente quer parar de viver no limite também”.
Val também fala que a arte é um diálogo, que ela está ali para entender o lado do outro, e por isso, nem sempre os moradores apoiam os grafites feitos pelo bairro. “Somos um fragmento da sociedade. Tem gente que nos ama, só falta colocar tapete vermelho pra gente e dar coroas de flores. Mas tem gente que quando começamos a pintar, chama a polícia achando que estamos fazendo algum tipo de marcação para o crime”, ele relata.
Desafios para crescer
Estudante de escola pública durante sua infância e adolescência, Val retrata uma realidade e uma vivência difícil nesse período da vida. “A gente sabe, desde criança, o que é uma pessoa morta, o que é qualquer diferença dos tiros, o que é uma pistola.” Mesmo tendo vontade de aprender, o artista enfatiza que foi possível ter sua educação na universidade, apenas com mais de 28 anos.
Val também relembra os momentos em que o professor não estava motivado para dar aula, algo que prejudicava o ensino dos alunos que queriam aprender. “A didática da escola, às vezes, não nos abraça para a gente poder buscar o conhecimento que a gente realmente gostaria de ter”.
Apesar dessas dificuldades, Val pretende seguir estudando. Segundo o curador, ele quer tentar um mestrado e também já pensa em fazer um doutorado. Ele acredita que a educação pode promover mais oportunidades, principalmente para as pessoas da periferia que não possuem a chance de ter um ensino público de qualidade.