Por Julia Berkovitz
Susto, medo, tremor. Gotículas de suor na pele. Dor, mágoa, alívio, culpa. Coração acelerado. Estas são algumas das sensações que uma pessoa pode sentir ao ser assaltada. A violência urbana é um temor constante na vida de todos os cidadãos. Ter um bem roubado, seja ele um celular, um computador ou um acessório que carrega um significado, abre uma ferida por vezes inconsolável. Ana Carolina Moura passou por isso quando foi vítima de um assalto em que perdeu um colar dado por sua tia quando nasceu.
Diante deste episódio traumático e revoltante, ela foi capaz de ressignificar os sentimentos de vulnerabilidade e impotência e passou a buscar no esporte uma ferramenta de autodefesa. Carol tinha uma rotina caótica dividida entre trabalho, faculdade e treinos. Em paralelo, o parataekwondo se consolidava no Brasil, sobretudo após sua formalização como modalidade paralímpica pelo Comitê Paralímpico Internacional em 2015. Carol se engajava cada vez mais neste universo e, após vencer o seu primeiro campeonato brasileiro, decidiu que queria participar dos Jogos Paralímpicos. Mesmo sem dimensão de todo o percurso que traçaria para realizar esse sonho, ela conseguiu e, em Paris, conquistou sua medalha de ouro.
Todavia, mesmo sendo campeã paralímpica, Carol conta que sua vida não se tornou mais fácil. Ela tinha uma expectativa de encontrar pessoas mais comprometidas e estruturas adequadas, oferecendo o suporte necessário. Mas, o cenário com que ela se deparou não foi este e, diariamente, ela e todos os atletas paralímpicos, lidam com uma lacuna social, estrutural e política. Para além da falta de visibilidade e transmissão de campeonatos paralímpicos, a mídia insiste em “vender” as histórias destes atletas como sendo, única e exclusivamente, de superações. Para Carol, isso é extremamente desgastante, uma vez que as particularidades e trajetórias pessoais são ignoradas e resumidas a uma ideia comercial. Há mais de uma década, a escritora nigeriana, Chimamanda Adichie, já alertava sobre o perigo da história única.
Não bastassem todas essas dificuldades, os atletas não são ouvidos dentro de seus próprios centros de treinamento. Autoridades administrativas que comandam os espaços querem que eles apenas obedeçam e sufocam a todo custo suas reivindicações. O Comitê Paralímpico Brasileiro é uma organização que oferece uma estrutura impecável para os atletas que podem usufruir dela, mas aqueles que não conseguem seguem sendo retaliados, lidando com obstáculos sufocantes.
Dentro do CPB há pessoas que atuam todos os dias para transformar a realidade dos atletas paralímpicos, fazendo um trabalho que vai além do esporte e se estende à conscientização da sociedade e ao enfrentamento do preconceito. Edoardo Lazzaretti é um deles. Trabalha há 12 anos no Comitê Paralímpico Brasileiro e entre tantas memórias marcantes, ele detalha com precisão um momento inesquecível: 2016, Paralímpiadas sediadas no Rio de Janeiro. No final de uma prova de natação, na modalidade revezamento 4x100 metros medley, a arena tremia. As pessoas gritavam, torciam, choravam e, naquele momento, o Brasil não se atentava à deficiência dos atletas, mas ao rendimento daquela Seleção Brasileira que conquistou a medalha de bronze.
As Paralimpíadas foram criadas em 1960, em Roma. O Brasil participou do evento esportivo pela primeira vez em 1972. Mesmo sem conquistar medalhas, a Seleção não recuou e, aos poucos, foi consolidando sua presença e se tornando um verdadeiro fenômeno nesta competição internacional. Na última edição, em Paris 2024, os atletas ganharam 89 medalhas e posicionaram o Brasil em 5° lugar na colocação geral. Conhecido mundialmente como “o País do futebol”, com uma tradição esportiva centenária, era de se esperar que a sociedade brasileira torcesse, se engajasse e se tornasse fanática pelas Paralimpíadas e pelos campeonatos e torneios paralímpicos. Todavia, talvez o termo certo para definir o Brasil seja “o País do preconceito”.
Por anos os atletas paralímpicos sofreram com a falta de patrocínio da iniciativa privada. Até hoje o Comitê trabalha para não depender apenas dos recursos públicos, buscando investimentos de empresas. Para Edu, o maior desafio existente é quebrar a imagem capacitista que ainda é associada à pessoa com deficiência. Por mais que a sociedade tenha evoluído em matéria de inclusão e acessibilidade, o preconceito segue, a todo custo, tentando anular a potência de atletas paralímpicos — uma dor que também atravessa a trajetória de Carol.
E, causa feridas profundas. Pessoas que convivem e trabalham com atletas paralímpicos se colocam acima deles, os usando como vitrines para conseguir investimento, mas não escutando suas demandas e, por vezes, até os sabotando, conta Carol. Diariamente ela escuta frases afirmando que os atletas devem ficar quietos sem reclamar. Seja ele olímpico ou paralímpico, o atleta é e deve ser sempre o centro. Comportamentos como estes vão contra tudo o que o esporte defende e busca promover.