Especial MST | Sem floresta agroecológica não existe futuro

Sistemas agroflorestais conectam moradores da ocupação Comuna da Terra Irmã Alberta e mantêm viva uma luta construída há mais de duas décadas
por
Jessica Castro e Isabelle Rodrigues
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17/06/2026

Por Jessica Castro e Isabelle Rodrigues

 

Na zona noroeste da capital paulista, entre ruas de terra e terrenos antes marcados pelo abandono, surgiu, há mais de duas décadas, uma outra forma de ocupar áreas improdutivas. A Comuna da Terra Irmã Alberta nasceu da luta de famílias sem moradia e sem acesso à terra, organizadas pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que enxergaram em um terreno degradado de Perus a possibilidade de reconstruir não apenas o espaço, mas também os vínculos entre as pessoas e a natureza. Muito mais do que hortas, árvores frutíferas e sistemas agroflorestais, a ocupação foi crescendo junto com as relações criadas ali. No plantio, laços fortes e profundos são cultivados entre os membros da comunidade.

A relação entre agroecologia e pertencimento aparece de forma intensa na trajetória de Joselene Araújo, de 53 anos, moradora da ocupação há mais de uma década. Nascida em Iaçu, na Chapada Diamantina, na Bahia, ela conta que a conexão com a terra começou ainda na infância, quando passava os finais de semana na roça do avô. Anos depois, já vivendo em São Paulo e trabalhando em diferentes funções para sobreviver, encontrou na Comuna da Terra Irmã Alberta uma possibilidade inesperada de reconstrução.

Joselene chegou ao território sem saber plantar. O primeiro canteiro, feito na frente de casa, quase não cresceu. Foi observando outras mulheres da ocupação e participando de cursos de agrofloresta que começou a aprender sobre manejo do solo, cobertura orgânica e recuperação da terra. Aos poucos, o cultivo deixou de ser apenas uma atividade cotidiana e passou a reorganizar sua própria relação com o lugar.

Hoje, enquanto caminha entre a mandala agroecológica que fizeram no espaço de plantio comunitário, cobertos por folhas secas, ela fala da floresta como quem fala de um organismo vivo. Na agrofloresta, árvores, hortaliças e outras culturas crescem juntas, tentando reproduzir a dinâmica natural da mata. As folhas secas que cobrem os canteiros ajudam a manter a umidade da terra, enquanto restos de poda, capim triturado e matéria orgânica voltam para o solo em um ciclo contínuo de recuperação.

A experiência nesta ocupação faz parte de uma realidade presente em todo o País. Segundo o Censo Agropecuário do IBGE, cerca de 77% dos estabelecimentos agropecuários brasileiros pertencem à agricultura familiar. Embora ocupem uma parcela menor das terras destinadas à produção agrícola, esses agricultores desempenham um papel fundamental no abastecimento alimentar brasileiro. São responsáveis por uma parcela significativa da produção de alimentos como feijão, mandioca, leite, hortaliças e outros itens que compõem a alimentação cotidiana da população brasileira. Em Perus, essa realidade ganha forma em escala comunitária, onde o cultivo da terra também se tornou uma forma de resistência.

A agrofloresta como modelo de cultivo tem ganhado destaque justamente por combinar produção agrícola e recuperação ambiental. Os sistemas agroflorestais permitem que áreas degradadas recuperem parte de suas funções ecológicas ao mesmo tempo em que continuam produzindo alimentos. Ao favorecer a conservação do solo, a retenção de água, o aumento da biodiversidade e a captura de carbono, a agrofloresta propõe uma lógica diferente daquela baseada na exploração intensiva da terra.

Joselene defende que plantar árvores não é só uma escolha ambiental, mas uma forma de garantir água, alimento e permanência para as próximas gerações. A lógica da agrofloresta, baseada na convivência entre diferentes espécies e no cuidado contínuo do solo, atravessa também as relações construídas dentro da ocupação. O conhecimento circula entre vizinhos, é compartilhado em mutirões e passa de mão em mão, como aconteceu quando dona Maria Alves lhe ensinou a primeira lição sobre como ouvir a terra antes de cultivar nela.

Hoje, o grande desafio enfrentado pela ocupação está no próprio perfil de quem mantém a produção funcionando diariamente. A Comuna da Terra Irmã Alberta é formada majoritariamente por pessoas idosas, muitas delas presentes no território desde os primeiros anos da ocupação. São moradores que carregam décadas de trabalho físico acumulado e que, mesmo com limitações do corpo, continuam responsáveis pelo cuidado das hortas, pela manutenção dos canteiros e pela preservação das áreas de mata.

Na prática, isso significa uma rotina pesada. Carregar regadores, preparar a terra, controlar pragas, revirar os canteiros e lidar com as mudanças do clima exige esforço constante. Em vários lotes, a produção depende quase exclusivamente do trabalho manual dos moradores, que seguem cultivando por necessidade, mas também por vínculo afetivo com o território construído ao longo dos anos.

A permanência dessas famílias também revela a dificuldade de renovação dentro da comunidade. Muitos jovens acabam buscando trabalho fora da ocupação e se afastam do cultivo agrícola, tornando incerto o futuro da produção agroecológica no local. Ainda assim, os moradores mais antigos seguem tentando transmitir os conhecimentos aprendidos ali, desde o manejo da terra até o entendimento de que preservar a floresta é também garantir água, alimento e continuidade para quem vive naquele espaço.

A preocupação não diz respeito apenas à ocupação. Em um País onde a agricultura familiar continua sendo uma das principais responsáveis pela produção de alimentos, a transmissão de conhecimentos entre gerações tornou-se um desafio crescente. O envelhecimento da população rural e a saída dos jovens do campo colocam em risco saberes acumulados ao longo de décadas, muitos deles fundamentais para a manutenção de formas de cultivo mais sustentáveis e adaptadas aos diferentes territórios brasileiros.

Preservar esse equilíbrio tem se tornado cada vez mais difícil. A presença de pessoas que não fazem parte da organização do movimento e passaram a ocupar áreas do território de maneira irregular cresceu. Segundo os agricultores, muitos desses espaços acabam sendo vendidos informalmente, descaracterizando a proposta coletiva construída desde o início da ocupação. Para quem vive da terra e participa da luta pela reforma agrária há anos, ver o território tratado como mercadoria provoca um sentimento constante de insegurança.

Joselene conta que a tensão se tornou parte da rotina de quem tenta preservar as áreas de cultivo e de mata. Em alguns casos, plantações já foram destruídas por incêndios provocados dentro do território. O fogo, além de atingir diretamente a produção de alimentos, compromete o solo, afasta animais e enfraquece o trabalho de recuperação ambiental feito ao longo do tempo. Em um espaço onde cada canteiro exige tempo, cuidado e manejo constante, perder uma área cultivada significa também perder parte da história construída ali.

Há ainda os desafios silenciosos do próprio cultivo agroecológico. Sem o uso de agrotóxicos, os produtores precisam lidar diariamente com pragas que afetam as hortaliças, principalmente as formigas, apontadas pelos moradores como uma das maiores dificuldades da produção. Muitas vezes, basta uma noite para que folhas inteiras de alface, couve ou escarola sejam destruídas. O combate acontece de forma manual, com manejo natural e observação constante dos canteiros, exigindo um trabalho muito mais cuidadoso e demorado.

Mesmo diante das dificuldades, os moradores seguem insistindo no plantio. Em meio ao avanço das ocupações irregulares, às queimadas e ao desgaste físico acumulado por quem trabalha na terra há décadas, a agrofloresta continua crescendo devagar, quase no mesmo ritmo das pessoas que decidiram permanecer ali. Enquanto fala sobre o futuro da ocupação, Joselene aponta para as mudas de árvores nativas separadas ao lado da horta. São dezenas delas, prontas para o plantio. Na ocupação Comuna da Terra Irmã Alberta, reflorestar é uma maneira de resistir e permanecer.

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