Especial MST | A revolução tem voz de mulher

Entre desafios cotidianos e disputas por espaço, lideranças femininas do MST mostram como a organização busca transformar a política e as relações de poder
por
Amanda Campos e Lorena Basilia
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18/06/2026

Por Amanda Campos e Lorena Basilia 

 

A exclusão da mulher de posições de poder é resultado de uma estrutura social historicamente marcada pela desigualdade de gênero. No Brasil, o movimento sufragista, que garantiu o direito ao voto feminino foi conquistado apenas em 1932, há menos de um século, e muitas das garantias legais voltadas à equidade ainda são recentes. Em 2023, por exemplo, foi sancionada a Lei nº 14.611, que fortaleceu mecanismos de transparência e fiscalização para combater a desigualdade salarial entre homens e mulheres. A necessidade de uma legislação específica demonstra que, apesar dos avanços jurídicos, as oportunidades ainda não são plenamente iguais. Relatórios do Ministério do Trabalho indicam que as mulheres continuam recebendo, em média, cerca de 20% menos que os homens, mesmo quando ocupam funções semelhantes.

As conquistas ainda estão em curso e há uma luta diária para, não só a conquista de direitos, mas a resistência das mulheres em preencher espaços que não são designados a elas. Para liderarem, a segregação de gênero é ainda mais escancarada. Segundo uma pesquisa do IBGE de 2025, apenas 39% das posições de chefia e liderança são ocupadas por mulheres no Brasil, apesar de elas representarem mais da metade da população economicamente ativa no país.

Organizações sociais que investem em mecanismos de participação e formação política feminina podem representar um respiro para uma realidade tão dura. No Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), a existência de um setor de gênero e a adoção de políticas de incentivo à participação das mulheres buscam garantir um maior equilíbrio nos espaços de decisão.

A construção da liderança feminina dentro do MST ultrapassa a simples ocupação de cargos; ela representa uma reconfiguração profunda da política, onde o território e o corpo são compreendidos como espaços indissociáveis ​​de resistência. Essa trajetória é marcada pelo rompimento de cercas físicas e simbólicas, em um processo que desloca a mulher da invisibilidade dos bastidores para o protagonismo nas mesas de negociação e análise de conjuntura. Trata-se de uma transição complexa, onde a paridade de gênero deixa de ser uma métrica estatística para se tornar uma cultura política que exige uma transformação das condições materiais de participação.

As trajetórias de Elaine e Elizete ajudam a mostrar como esse modelo é efetivo, em contextos distintos, ambas encontraram no movimento oportunidades de formação, protagonismo e exercício da liderança que ainda permanecem restritas para muitas mulheres brasileiras. Enquanto Elaine precisou enfrentar o preconceito da própria família e da sociedade para construir sua atuação no MST, Elizete cresceu em um ambiente onde a militância já fazia parte da vida cotidiana.

Elaine, 43 anos, assentada pelo MST mais da metade de sua vida e membro da coordenação, compartilha sua luta pelo fim do preconceito com a mulher e o movimento sem terra. Ela nasceu no interior do norte da Bahia e sempre teve  gana por uma realidade digna. Na juventude, foi quando Elaine conheceu os assentamentos, surgiram como uma dose de esperança. Porém sua família não entendia tanta entrega da jovem a um propósito. "Olha, você esquece que você tem uma família aqui, porque você não tem necessidade", lembrou a mãe, numa frase que condensava tanto o afeto quanto o preconceito.

Por trás do apelo familiar havia uma visão amplamente difundida pela sociedade: a de que o movimento é sinônimo de invasão, de desordem. "Aquela visão que a sociedade constrói sobre nós enquanto Movimento Sem Terra, que a gente rouba terra", completou Elaine.  Romper com essa narrativa foi parte do seu processo de formação política e de emancipação pessoal. Recém formada em pedagogia e sem esperanças da casa própria, foi a entrada no MST que proporcionou uma mudança de perspectiva. Hoje, Elaine cursa mestrado no Movimento e já ocupa cargo de liderança no estado da Bahia, conquistou sua casa e se alimenta da sua plantação, com qualidade de vida e dignidade.

No estado do Pará, Elizete viveu uma história diferente com o MST, a paraense já nasceu no movimento. Seus pais eram participantes ferrenhos e desde criança o movimento foi seu ambiente natural de formação. Não há, para Elizete, uma vida apartada do MST, são ambos uma única força. Com 27 anos, ela mora na Escola Nacional Florestan Fernandes, em Guararema, no interior de São Paulo. Faz parte da Brigada Apolônio de Carvalho há um ano, as brigadas são instâncias de formação política do MST compostas por jovens militantes que se dedicam integralmente à organização durante um período determinado, onde vivem coletivamente e se preparam para assumir responsabilidades de direção. O nome é uma homenagem ao militar e revolucionário brasileiro Apolônio de Carvalho, símbolo da resistência à ditadura.

Elizete expôs seus sentimentos de como é desafiador estar longe da sua família para cumprir essa missão. “A gente tem que fazer escolhas, né? E pra mim é muito gratificante fazer parte desse movimento, então, a gente precisa estar longe da família para lutar pelo que a gente acha que é certo”. A frase é simples, mas carrega uma maturidade política construída ao longo de uma vida inteira dentro do movimento.

As histórias de Elaine e Elizete revelam como a liderança feminina é construída a partir da formação política, da autonomia e da capacidade de romper barreiras históricas. Mesmo com vivências tão distintas, Elaine e Elizete dividem a luta como mulheres do MST. A conquista de espaço dentro do movimento reverbera nos moldes da sociedade, o MST propicia um ponto de partida para a expansão do feminismo além das cercas, sejam as de arame, sejam as simbólicas.

Embora a paridade de gênero tenha se tornado uma norma institucional dentro do MST, a resistência à liderança feminina frequentemente se manifesta por meio de mecanismos sutis. Se antes o desafio era garantir a presença das mulheres nos espaços de decisão, hoje o debate se desloca para a forma como o trabalho e o protagonismo político são distribuídos no cotidiano da organização.

Lizandra Guedes, dirigente do setor de gênero, explica que muitas mulheres continuam concentradas em funções historicamente à “cozinha” do movimento — uma metáfora que abrange tanto o espaço literal quanto a gestão da logística, do cuidado e da organização interna —, tarefas que "põem a casa de pé" e exigem uma capacidade organizativa superior, mas que são menos reconhecidas do que a infraestrutura ou a articulação política, onde os homens aparecem como rosto público. Segundo ela, essa dinâmica pode ser observada em grandes atividades organizadas pelo MST, como as Feiras da Reforma Agrária. Embora as mulheres representem a maioria dos participantes e frequentemente sejam responsáveis pela condução organizativa dos eventos, os homens ainda costumam ocupar posições mais visíveis. 

Esse cenário, entretanto, tem passado por uma transformação estrutural nas últimas décadas. Se antes as mulheres eram frequentemente associadas às funções de apoio e organização interna, hoje ocupam cada vez mais os espaços de formulação política e direção. O protagonismo político feminino tem crescido a ponto de, em regiões como o Maranhão e o Pará, a maioria esmagadora das dirigentes serem mulheres. No âmbito nacional, a composição da nova direção reflete essa mudança: dos 15 dirigentes escolhidos, 10 são do gênero feminino.

Fernanda Farias, que integra a Coordenação Nacional pelo Coletivo de Juventude, pontua que, embora o MST não esteja isolado da sociedade machista e patriarcal, ele busca criar mecanismos para enfrentá-la internamente. Nesse sentido, a formação política das mulheres e o fortalecimento de sua autoestima tornam-se ferramentas centrais para que elas reconheçam e questionem processos históricos de subordinação.

A progressão para o topo da posição política, contudo, não ocorre sem fricções. A ascensão feminina representa a emancipação de uma relação humana historicamente pautada pela submissão, o que significa que, para uma mulher ocupar um espaço de poder, um privilégio masculino precisa ser deslocado. Em uma sociedade na qual o exercício da autoridade foi tradicionalmente associado ao masculino, a ampliação da participação feminina implica necessariamente uma redistribuição de poder. Lizandra Guedes é enfática ao associar essa dinâmica às disputas de poder que acompanham a emancipação feminina: “Quando há violência, há uma relação desigual de poder que está em jogo”, afirma. Seu apontamento sugere que a violência é um mecanismo de manutenção de hierarquias que são ameaçadas quando as mulheres passam a ocupar posições de liderança. O enfrentamento dessa realidade está, portanto, indissociável do enfrentamento às relações de poder tradicionais.

Para além da segregação mais explícita, há nuances do cotidiano feminino que acabam produzindo um afastamento dos espaços de liderança política. Mesmo quando existe paridade formal e incentivo à participação das mulheres, a responsabilidade pelo cuidado continua recaindo de forma desproporcional sobre elas. Lizandra Guedes aponta que muitas militantes enfrentam obstáculos que seus companheiros raramente precisam considerar. "Tem um filho, uma filha em idade escolar, uma sogra doente", exemplifica. Essas responsabilidades, associadas ao trabalho doméstico e à manutenção da vida cotidiana, frequentemente limitam a presença das mulheres em reuniões, formações e instâncias de direção

A desigualdade se manifesta de maneira prática. Segundo Lizandra, mesmo em espaços onde há previsão de representação paritária, nem sempre as mulheres conseguem ocupar plenamente as vagas destinadas a elas. O desafio da participação feminina ultrapassa a garantia de assentos ou cargos de liderança. Trata-se também de criar condições materiais para que as mulheres possam exercer esses espaços. A chamada dupla jornada — entre a militância, o trabalho e as responsabilidades familiares — continua sendo uma barreira concreta para muitas dirigentes

Por isso, o MST tem investido na formação política das mulheres desde a juventude. Para Lizandra, a exclusão histórica das mulheres dos espaços de debate e decisão produz inseguranças que precisam ser enfrentadas coletivamente. "Grande parte daquilo que nos é negado, enquanto mulheres, é justamente essa formação política e ideológica", afirma. Fernanda afirma que a questão de gênero está inserida em uma discussão mais ampla sobre o tipo de sociedade que se pretende construir. "O MST tem uma discussão de novas relações humanas". Fernanda acredita que sua própria consciência sobre as desigualdades de gênero foi construída a partir dos processos de formação política promovidos pelo movimento. 

As mudanças também passam pela participação dos homens nesse debate. A pauta feminista não pode ser tratada como uma responsabilidade exclusiva das mulheres. "O MST tem entendido que a pauta da mulher não é só para a mulher discutir, mas o homem tem que se responsabilizar", explica Fernanda. Essa compreensão se traduz em iniciativas concretas, como a presença de homens na condução do setor de gênero, numa tentativa de envolver toda a organização no enfrentamento ao machismo e à violência de gênero.

Fernanda observa sinais de mudança, especialmente entre os mais jovens. Ela identifica uma geração preocupada em construir relações humanas emancipadas, livres da violência e baseadas em novos valores de convivência. Sua expectativa para o futuro é ambiciosa e, ao mesmo tempo, reveladora do papel que atribui às mulheres nessa construção. "A Revolução vai ser feminista, e vai ser as mulheres que vão conduzir", afirma. Na sua visão, as mulheres do campo carregam uma experiência política e coletiva capaz de contribuir para a construção de um projeto popular para o Brasil. As histórias de Elaine, Elizete, Lizandra e Fernanda demonstram uma luta permanente pela transformação das relações sociais e pela construção de um futuro em que liderança, cuidado e poder deixem de ser definidos pelo gênero.

 

 

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