Especial MST | A luta pela terra conecta gerações

Kallen, Rafael e Issanã têm origens diferentes, mas compartilham um mesmo vínculo com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Entre árvores plantadas, eventos organizados, cooperativas, assentamentos e projetos sociais, suas histórias mostram como a relação com a terra e a construção coletiva seguem moldando trajetórias pessoais e profissionais em diferentes regiões do País.
por
Dhara Yuki
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18/06/2026

Por Dhara Yuki

 

Kallen aprendeu a ler a terra antes mesmo de estudar sobre ela. Neta e filha de agricultores no norte de Minas Gerais, cresceu em um ambiente onde plantar, colher e observar os ciclos da natureza não eram conceitos, eram rotina. Quando chegou o momento de escolher uma profissão, não havia exatamente dúvida, mas continuidade.  O curso de Agronomia apareceu como caminho natural, quase como extensão de uma história que já vinha sendo escrita há gerações. Formada em agronomia, ela não passou por outros trabalhos. Saiu da universidade direto para o campo onde, de alguma forma, sempre esteve. Desde 2016, atua na construção da agroecologia, já com 10 anos nessa caminhada, marcando o tempo não apenas em anos, mas em processos.

Hoje, vive em São Paulo, mas seu trabalho mantém os pés firmes em territórios espalhados pelo País. No Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), ela ocupa múltiplas frentes: integra o setor de produção, coordena uma escola de agroecologia e também participa da articulação de um dos principais projetos ambientais do movimento. A rotina não cabe em uma função só, e talvez nem faça sentido tentar organizá-la dessa forma. A escola onde atua, localizada no interior paulista, funciona como espaço híbrido, produção agrícola, formação política e articulação coletiva acontecem ao mesmo tempo. Em um território de 21 hectares, o trabalho se divide entre plantar, ensinar e organizar. Não há uma separação rígida entre teoria e prática, ambas se misturam no cotidiano.

Hortifruti Armazém do Campo
Hortifruti orgânico do Armazém do Campo / Foto: Dhara Yuki

Em paralelo, Kallen integra a coordenação do Plano Nacional Plantar Árvores, Produzir Alimentos Saudáveis, uma iniciativa que nasceu em 2020 como resposta direta à crise ambiental. Mais do que um projeto técnico, ela descreve o plano como fruto de experiência vivida através da própria vivência do povo sem terra. Desde então, o movimento já plantou cerca de 45 milhões de árvores em 24 Estados. A meta é chegar a 100 milhões em uma década. O número impressiona, mas, para ela, o foco está menos na escala e mais na lógica que sustenta o trabalho, recuperar territórios, fortalecer sistemas agroflorestais e construir uma agricultura que não esteja em conflito com o meio ambiente, pois em meio a um período de emergência climática, é necessário fazer uma agricultura que esteja aliada à natureza.

Esse princípio atravessa todas as frentes em que atua. A agroecologia, no contexto do MST, não é apenas um método de produção, mas uma estrutura que conecta diferentes dimensões: alimentação, educação, cultura e até tecnologia, onde o desenvolvimento de ferramentas de inteligência artificial voltadas à reforma agrária se torna uma tentativa de integrar inovação técnica com práticas tradicionais. Kallen não se descreve como exceção. Pelo contrário, insiste em se colocar dentro de um coletivo maior, como a classe trabalhadora do Brasil. Ainda assim, sua trajetória carrega uma coerência difícil de ignorar, da infância no campo à coordenação de iniciativas nacionais, há uma linha contínua guiada pela relação com a terra. No fim, mais do que cargos ou projetos, o que define sua história é essa permanência. Um vínculo que não foi interrompido pela formação acadêmica, nem deslocado pela mudança de Estado, foi apenas transformado e ampliado.

No centro da cidade de São Paulo, o Armazém do Campo, espaço ligado ao MST que reúne comercialização de produtos da reforma agrária, atividades culturais e debates políticos, também tem histórias para serem contadas.

Fachada do prédio do Armazém do Campo
Fachada do prédio do Armazém do Campo / Foto: Dhara Yuki

Rafael Portacio cresceu em um assentamento da reforma agrária antes mesmo de compreender o significado político daquele território. Nascido em Marabá, no Pará, passou a infância no assentamento Vila 1º de Março, assentamento onde a vida cotidiana era atravessada pela experiência da terra, embora o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra não estivesse tão presente em sua rotina quanto viria a estar anos depois. Aos 21 anos, Rafael vive em São Paulo e trabalha no Armazém do Campo. Sua trajetória no movimento, no entanto, começou longe da capital paulista.

Foi no Rio Grande do Sul que ele teve contato mais profundo com a organização do MST. Ao ingressar no curso técnico em Administração e Gestão de Cooperativas, passou a compreender o funcionamento do movimento para além da experiência vivida no assentamento. A formação ocorreu em uma escola de ensino integral ligada ao MST, onde estudantes de diferentes regiões do país permaneciam durante meses em regime de alternância entre estudo e comunidade. Durante três anos, a rotina foi marcada por períodos de imersão na escola e retornos às bases. As aulas dividiam espaço com uma intensa organização coletiva. Núcleos de base, coordenações estudantis e espaços de debate faziam parte do cotidiano, criando uma estrutura em que decisões eram discutidas coletivamente antes de chegar às instâncias de coordenação.

Foi nesse ambiente que Rafael participou de mobilizações, marchas e atividades de militância. Participou de campanhas de solidariedade internacional e esteve presente em ocupações e manifestações organizadas pelo movimento. Mais do que uma formação técnica, o período representou sua principal aproximação com a dimensão política do MST. Apesar de ter se formado na área de gestão, não foi nela que encontrou seu espaço profissional. O vínculo com o movimento acabou pesando mais do que a identificação com o curso. Ao concluir a formação, buscou novos caminhos e encontrou no Armazém do Campo uma oportunidade de estágio.

Produtos a venda
Produtos à venda no Armazem do Campo / Foto: Dhara Yuki

O que começou como estágio rapidamente se transformou em trabalho permanente. Rafael passou pelo atendimento ao público, atuando no café e na lanchonete do espaço, até encontrar uma nova função. Com o crescimento das demandas internas, a equipe foi reorganizada e ele migrou para a área de comunicação e produção de eventos. Hoje, sua rotina consiste em coordenar atividades que acontecem simultaneamente dentro do Armazém do Campo. Debates, lançamentos de livros, apresentações culturais e encontros políticos dividem espaço no mesmo ambiente, exigindo articulação constante para que diferentes programações convivam sem conflitos.

Mesmo reconhecendo que sua trajetória dentro do MST ainda é recente, Rafael identifica na formação e no trabalho atual uma continuidade de sua própria história. A relação com o movimento começou na infância, ganhou novos significados durante os anos de estudo e hoje se manifesta no cotidiano profissional. Entre o assentamento onde cresceu, a escola onde se formou e o espaço onde trabalha atualmente, existe um percurso marcado menos por rupturas do que por permanências. Um caminho construído a partir da convivência com diferentes experiências do movimento e que, aos poucos, segue encontrando novas formas de participação, e neste caminho, fez amizades com pessoas que possuem uma trajetória tão movimentada quanto a sua.

Issanã não lembra de um momento em que o MST não fizesse parte da sua vida. Aos 17 anos, a militante catarinense costuma dizer que é “sem terrinha desde que se conhece por gente”. A expressão não funciona apenas como uma forma de identificação, mas como um resumo de uma trajetória construída dentro de assentamentos, encontros do movimento e experiências coletivas que atravessam sua história familiar. Filha de militantes e neta de assentados da reforma agrária, ela cresceu em um ambiente onde a presença do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra fazia parte do cotidiano. Os avós viveram a experiência dos assentamentos, os pais também, e a participação nas atividades do movimento acabou se tornando algo natural desde a infância.

Recentemente, Issanã deixou Santa Catarina para morar em São Paulo. A mudança veio acompanhada de uma nova etapa. Depois de concluir o Curso Técnico em Administração de Cooperativas, iniciou um estágio no Instituto Cultivar, organização responsável por desenvolver e administrar projetos ligados ao MST. O trabalho acontece nos bastidores de iniciativas que se espalham por diferentes regiões do país. Sua função está ligada à prestação de contas dos projetos financiados por instituições parceiras. Recursos destinados a atividades do movimento passam por processos de controle, organização e acompanhamento antes de serem convertidos em ações concretas nos territórios.

Embora esteja na área administrativa, o trabalho a mantém conectada a diferentes iniciativas do MST. Projetos ambientais, atividades produtivas e grandes eventos nacionais fazem parte do cotidiano da equipe. Entre planilhas, relatórios e documentos financeiros, ela acompanha como recursos são transformados em ações voltadas para a agricultura, educação, cultura e organização popular. A experiência recente em São Paulo contrasta com a formação construída ao longo dos últimos anos. Foi durante o período de estudos que sua relação com o movimento se intensificou. Antes disso, participava de encontros ao lado da mãe, frequentava cirandas infantis e acompanhava atividades organizadas em seu Estado. A partir da entrada na escola, porém, a militância passou a fazer parte da rotina.

Os dias eram marcados por tarefas coletivas, estudos e atividades organizativas. A agroecologia ocupava um lugar central na formação. Além das disciplinas, os estudantes realizavam semanas agrícolas, ações de plantio de árvores e visitas a cooperativas ligadas ao MST. A convivência com experiências produtivas permitia compreender não apenas os aspectos técnicos da agricultura, mas também a organização econômica dos assentamentos.

A escola em que estudou está localizada em uma região de produção de arroz orgânico, uma das referências do movimento no país. O contato frequente com as cooperativas fazia parte do processo de aprendizagem. Os estudantes acompanhavam diferentes etapas da produção, desde o cultivo até a organização coletiva necessária para manter os sistemas produtivos funcionando. Para ela, a solidariedade é uma das características que melhor representam o movimento. Mais do que uma organização voltada para a reforma agrária, o MST aparece como uma rede de apoio capaz de mobilizar pessoas diante de diferentes situações de vulnerabilidade.

Arroz orgânico produzido pelo MST e vendido no Armazém do Campo
Arroz orgânico produzido pelo MST e vendido no Armazém do Campo / Foto: Dhara Yuki

 

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