Por Inaiá Misnerovicz, Helena Haddad, Julia Sena e Kaleo Ferreira
A proposta de construção da Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF) nasceu em 1996, quando o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) completava um pouco mais de uma década de existência e já se consolidava como um dos maiores movimentos sociais da América Latina. Naquele momento, a Direção Nacional do MST viu a necessidade de criar um espaço permanente de formação política para a militância e para a classe trabalhadora.
Segundo Geraldo Gasparin, membro da Coordenação Político-Pedagógica da ENFF, a proposta surgiu durante uma reunião da Coordenação Nacional do MST, no Espírito Santo, quando amadureceu a compreensão de que o Movimento precisava de uma escola própria para formar seus quadros e fortalecer os processos organizativos em todo País.
Nos três anos seguintes, o MST organizou uma ampla campanha para arrecadar recursos para a construção. Grande parte do financiamento veio da venda do livro Terra, uma obra coletiva que reuniu fotografias de Sebastião Salgado, textos de José Saramago e trilha sonora de Chico Buarque. Os três artistas doaram integralmente seus direitos autorais ao projeto. A campanha também contou com o apoio de sindicatos, organizações populares, comitês internacionais e entidades solidárias de diversos países.
A construção teve início no ano 2000, em Guararema, a cerca de 80 quilômetros da capital paulista, e logo se transformou em uma experiência pedagógica em si mesma. Cerca de 1.200 trabalhadores Sem Terra participaram das brigadas de construção ao longo de cinco anos. Organizados em grupos de 50 a 60 pessoas, eles permaneceram por cerca de dois meses na Escola, dedicando seu trabalho à construção dos prédios.
Tijolo por tijolo, a Escola foi sendo erguida pelas mãos daqueles que também seriam seus sujeitos políticos. Os tijolos foram produzidos na própria escola com a técnica de solo-cimento, uma alternativa mais econômica e sustentável que reduz significativamente o uso de ferro, aço e cimento em comparação aos métodos convencionais.
Mas a construção não se limitava às paredes. À noite, quem ainda não havia concluído os estudos participava de atividades de escolarização. Aqueles que já possuíam maior formação seguiam em processos de estudo e formação política. Enquanto a escola ganhava forma física, também se construíam conhecimentos, vínculos e consciência coletiva.
A escolha do nome não foi por acaso. Florestan Fernandes foi um dos mais importantes intelectuais brasileiros, e ao longo de sua vida jamais se separou das causas populares. Filho de mãe imigrante que trabalhava como empregada doméstica, Florestan começou a trabalhar aos seis anos como engraxador e passou por diversos ofícios antes de ocupar o espaço acadêmico. Ao longo da vida, escreveu mais de cinquenta obras, e sempre defendeu que o conhecimento deve ser um instrumento de emancipação para a classe trabalhadora. O MST não teve dúvidas de que esse seria o nome da Escola, por tudo que o sociólogo representava na luta de classes, e também pelo apoio que ele sempre deu à luta pela Reforma Agrária e ao próprio Movimento.
No dia da inauguração, Heloisa Fernandes, filha de Florestan, afirmou que com essa homenagem, seu pai retornava às suas três casas: a casa do conhecimento, a casa de seus ancestrais camponeses, e a casa de seu projeto de sociedade: o socialismo.
Os demais espaços da ENFF também carregam nomes que constroem uma memória coletiva de luta: Frida Kahlo, Patativa do Assaré, Rosa Luxemburgo, Antônio Cândido, Marielle Franco, Paulo Freire, Josué de Castro, Pagu, Doutor Sócrates Brasileiro. Cada homenagem expressa os valores e referências que ajudam a orientar o projeto político-pedagógico da Escola.
Após cinco anos de trabalho coletivo, a Escola Nacional Florestan Fernandes foi inaugurada em 23 de janeiro de 2005, com festa, mística e presença de militantes de todo o Brasil e do mundo. Desde então, foi consolidado um modelo de formação que articula estudo, trabalho, convivência e organização coletiva.
Na ENFF não existe separação entre “quem pensa e quem faz”. Todos os estudantes participam das tarefas necessárias para a vida cotidiana da Escola, desde a manutenção dos espaços até as atividades de cozinha e limpeza. O trabalho coletivo é compreendido como fundamental no processo educativo.
Para Sandra Procópio, militante do MST no Mato Grosso do Sul, a Escola expressa concretamente os valores da sociedade que o Movimento busca construir. Ao chegar à ENFF é possível perceber a revolução presente na arte, nas relações humanas, na agroecologia, na educação e na forma de organizar a vida coletiva. Para ela, a formação política está profundamente ligada à beleza, à cultura, à imaginação, à música, à dança e à capacidade de sonhar com um futuro diferente.
Os cursos variam de uma semana a três meses, e abrangem áreas como Filosofia Política, Teoria do Conhecimento, Sociologia Rural, Economia Política da Agricultura, História Social do Brasil, Conjuntura Internacional, Administração e Gestão Social, Educação do Campo, Estudos Latino-americanos. Além disso, oferece cursos superiores e de especialização, em convênio com mais de 35 universidades, mestrado e doutorado em Desenvolvimento Territorial na América Latina e Caribe, por meio de convênio com a UNESP e Cátedra UNESCO de Educação do Campo. Os professores, em sua grande maioria, atuam de forma voluntária, fortalecendo uma ampla rede de solidariedade acadêmica.
Desde o início, a ENFF foi pensada como um espaço sem fronteiras. Embora esteja localizada no interior de São Paulo, sua atuação se estende ao mundo todo. Seu modelo pedagógico parte da convicção de que quem estuda ali não estuda só para si mesmo. Estuda para voltar ao seu território e colocar em prática o que aprendeu.
Essa dimensão internacionalista pode ser vista nas turmas que reúnem participantes de diversos países. Leonardo Araújo, militante do MST do Espírito Santo e estudante do curso de Formação de Formadores Latino-Americanos, destaca a riqueza da convivência entre educandos de diferentes realidades. Em uma turma composta por representantes de 16 países da América Latina e da Europa, ele relata que o intercâmbio de experiências e os debates ajudam a compreender melhor os desafios enfrentados pelos povos do continente e a fortalecer a consciência política dos participantes.
Com professores vindos de diferentes regiões do mundo, especialmente da América Latina e do Caribe, a escola se tornou um importante ponto de encontro para militantes da Via Campesina, sindicalistas, educadores e ativistas populares. Em algumas formações, as aulas são ministradas em diferentes idiomas, refletindo o alcance internacional de uma escola nascida da luta pela terra no Brasil.
Para Igor Cordeiro, militante do MST no Ceará e participante do curso de Formação de Formadores Latino-Americanos, a importância dessas formações está na possibilidade de aprofundar o estudo da teoria social, da economia política e dos processos históricos que moldam a realidade dos povos. O conhecimento adquirido fortalece a capacidade de organização das comunidades, da juventude, dos trabalhadores urbanos e camponeses, contribuindo para os processos de transformação social.
Em dezembro de 2009, um grupo de professores, militantes e colaboradores fundou a Associação de Amigos da Escola Nacional Florestan Fernandes (AAENFF), para garantir uma campanha permanente de apoio e financiamento à escola. A iniciativa reforçou o caráter coletivo da escola, que segue sendo sustentada por uma ampla rede de solidariedade nacional e internacional.
Mais de duas décadas após sua inauguração, a ENFF continua sendo uma obra em construção. Não apenas porque seus espaços físicos seguem recebendo melhorias, mas porque cada turma, cada educador e cada militante que passa por seus corredores ajuda a renovar seu significado. Como define Sandra Procópio, trata-se de uma escola da classe trabalhadora, construída para formar sujeitos capazes de sonhar, criar, organizar e transformar a realidade.