Por Gabriela Blanco e Manuela Schenk
Quando se fala no Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o debate público costuma girar em torno da luta pela terra. Mas, longe dos holofotes das disputas agrárias, existe uma outra frente de atuação que há décadas transforma vidas em assentamentos e acampamentos espalhados pelo Brasil: a educação. Mais do que garantir acesso à escola, o MST construiu ao longo de sua história um amplo projeto educacional que vai da alfabetização infantil à pós-graduação. A proposta combina ensino formal, formação política, valorização da cultura do campo e parcerias com universidades públicas. Hoje, segundo dados do próprio movimento, mais de 200 mil crianças, jovens e adultos têm acesso à educação em cerca de duas mil escolas públicas localizadas em assentamentos e acampamentos da reforma agrária. Além disso, mais de 100 cursos superiores já foram realizados em parceria com universidades públicas, beneficiando milhares de estudantes.
A importância desse investimento aparece de forma concreta na trajetória de famílias que encontraram na educação uma oportunidade de romper ciclos históricos de exclusão. É o caso de Albertiza da Costa Fernandez e Wilmer “Paco” Fernandez. Hoje assentados depois de anos vivendo em bairros periféricos de São Paulo, o casal decidiu ingressar no movimento em busca de um futuro diferente para os filhos.
“Vivemos por muitos anos nas periferias de São Paulo. Além de ser perigoso, não tinha muita perspectiva de estudo para meus filhos. A única saída era ir para lá [assentamento]”, relata Paco ao recordar sua chegada ao assentamento. A mudança não significava apenas conquistar um pedaço de terra, mas garantir condições para que os filhos pudessem crescer em um ambiente mais seguro e com acesso à educação.
A aposta deu resultado. Hoje, a família comemora conquistas que pareciam distantes décadas atrás. “A Bianca estudou na PUC, se formou em Sociologia. A Wanessa na UFSCar”, conta Albertiza. Outro filho cursa Administração e o caçula também ingressou no ensino superior. Histórias como essa ajudam a explicar por que a educação é considerada estratégica dentro do movimento.
Segundo dados do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera), criado em 1998, já ofereceu 545 cursos em todos os níveis de ensino e atendeu 192.764 estudantes em todo o País. Atualmente, milhares de jovens e adultos seguem matriculados em cursos que vão da alfabetização à pós-graduação. O programa nasceu justamente para enfrentar um dos principais problemas históricos do campo brasileiro: a exclusão educacional das populações rurais.
Entre os beneficiados por essas políticas está Wanessa Fernandez, filha de assentados e educadora da Ciranda Infantil do MST. Sua trajetória representa uma geração que cresceu dentro dos assentamentos e alcançou a universidade por meio das políticas educacionais voltadas ao campo. Formada em Pedagogia da Terra pela UFSCar e agora fazendo especialização pelo Pronera ela afirma que o acesso ao ensino superior não pode ser visto apenas como uma conquista individual, mas como um processo coletivo construído ao longo de anos de luta.
A educadora também destaca o papel da chamada Ciranda Infantil, espaço pedagógico voltado às crianças dos assentamentos e acampamentos. Segundo ela, o objetivo é garantir que os pequenos tenham acesso à educação desde cedo, valorizando suas experiências, identidades e vínculos comunitários. Ela acredita que a sociedade pode se transformar de uma outra forma. “A gente só confia naquilo que aprendeu e confia naquilo que pode mudar.”
O Pronera, responsável por parte dessa transformação, tornou-se uma das mais importantes políticas públicas voltadas para a educação rural no Brasil. Os cursos são desenvolvidos por universidades públicas em parceria com movimentos sociais, Prefeituras, governos estaduais e o Incra. O modelo busca adaptar os processos de aprendizagem às especificidades da vida no campo, permitindo que estudantes conciliem estudo, trabalho e permanência em suas comunidades.
Leonardo Severo, coordenador do setor de distribuição de bolsas do MST, conta um pouco sobre a importância do investimento na educação para o movimento: “é uma vida de mão dupla. Então, a gente divulga, ela tem autonomia para decidir que curso vai fazer. Geralmente, por elas estarem inseridas em suas tarefas, e a gente sempre vai mediando um pouco com o que a pessoa gosta de fazer para ela poder se desenvolver até melhor”. Programas como o Pronera não só ajudam a mudar a vida de milhares de beneficiados por meio da educação, mas também mantém a luta pela reforma agrária viva.
Outro símbolo desse projeto educacional é a Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), localizada em Guararema, interior de São Paulo. Fundada em 2005, a instituição tornou-se referência internacional em formação política e educação popular. Ao longo de duas décadas, recebeu milhares de estudantes, militantes, pesquisadores e lideranças sociais do Brasil e de diversos países. A escola oferece cursos de formação, especializações, seminários e programas voltados para trabalhadores do campo e da cidade.
Mais do que um espaço físico, a ENFF representa a ideia de que a luta pela terra também passa pela democratização do conhecimento. Em 2025, a instituição completou 20 anos e segue formando educadores e lideranças populares. Somente o Curso Nacional de Pedagogia do Movimento já formou aproximadamente mil participantes em diferentes estados brasileiros.
Para Paco, a educação oferecida pelo movimento foi decisiva para o desenvolvimento dos filhos e para a própria permanência da família no assentamento. “Eles tinham escola, tinham a cirandinha para crianças. Vinham da escola e iam para a ciranda. Sempre estavam ocupados e brincando”, relembra. “O mais interessante é que o MST cuida desse estilo de educação.”
A fala revela uma dimensão frequentemente ignorada no debate público: a educação não é apenas um instrumento de formação profissional, mas também de proteção social. Em comunidades marcadas pela pobreza, pela violência e pela ausência histórica do Estado, a escola representa um espaço de acolhimento, segurança e perspectivas de futuro.
Wanessa reforça essa ideia ao defender uma educação baseada em solidariedade e valores humanos. “Trazer novas perspectivas que não são as que são colocadas sempre. Com outros valores. Valores humanos, a solidariedade, a empatia”, afirma.
Os números ajudam a dimensionar o alcance desse projeto. Segundo dados do MST, mais de 50 mil adultos foram alfabetizados ao longo das últimas décadas, cerca de 10 mil educadores atuam em escolas localizadas em áreas de reforma agrária e aproximadamente dois mil estudantes frequentam atualmente cursos técnicos e superiores ligados às iniciativas educacionais do movimento. E muitos dos educadores que hoje trabalham para o movimento são pessoas como a Wanessa, que tiveram suas vidas mudadas para melhor com ajuda do MST e hoje trabalham para que outras pessoas tenham a mesma oportunidade.
Em um País onde o acesso à educação ainda é profundamente desigual entre campo e cidade, essas experiências mostram que a escola pode ser muito mais do que uma sala de aula. Pode ser um instrumento de permanência no território, de mobilidade social e, sobretudo, de construção de novos horizontes.
Para famílias como a de Paco e Albertiza, os resultados já estão diante dos olhos: filhos universitários, profissionais formados e uma realidade muito diferente daquela encontrada nas periferias onde viveram durante anos. Histórias que ajudam a explicar por que, para milhares de trabalhadores rurais brasileiros, a luta pela terra e a luta por uma educação transformadora caminham lado a lado.