O Minhocão, nome popular do atual Elevado Presidente João Goulart, é uma das obras urbanas mais emblemáticas e controversas da cidade de São Paulo. Inaugurado em 25 de janeiro de 1971, durante a gestão do prefeito Paulo Maluf, o elevado foi concebido como uma solução para os graves problemas de trânsito enfrentados pela capital paulista em um período de intenso crescimento urbano e industrial.
Poucos equipamentos urbanos sintetizam tantas contradições quanto o Elevado Presidente João Goulart. Ao mesmo tempo em que funciona como corredor de mobilidade para milhares de motoristas, o viaduto também é apontado por estudos oficiais como uma fonte de poluição sonora, degradação paisagística e desconforto urbano para quem vive ao seu redor.
O início do projeto
A história do Minhocão começa em um período em que São Paulo passava por uma rápida expansão econômica e populacional e apostava em grandes obras viárias para responder ao crescimento acelerado da frota de automóveis. Entre às décadas de 1950 e 1970, o elevado foi concebido dentro de uma lógica urbanística que predominava em diversas metrópoles do mundo: abrir espaço para os carros e acelerar os deslocamentos urbanos.
Com cerca de 3,4 quilômetros de extensão, a estrutura liga a região central à zona oeste da cidade, passando por bairros como República, Santa Cecília, Vila Buarque, Campos Elíseos e Barra Funda. Segundo informações divulgadas pela Prefeitura de São Paulo, o elevado tornou-se um dos principais eixos de ligação leste-oeste da capital.
Na época de sua construção, a obra era apresentada como uma solução para os congestionamentos crescentes da região central.
O projeto, elaborado em 1968 pelo arquiteto Luiz Carlos Gomes Cardim Sangirardi, do Departamento de Urbanismo da Prefeitura, seguia uma lógica semelhante à adotada em outras cidades do mundo, onde vias elevadas passaram a ser vistas como instrumentos capazes de aumentar a velocidade dos deslocamentos sem exigir grandes desapropriações.
Inicialmente, a proposta não foi executada pelo então prefeito Faria Lima, que priorizava investimentos no metrô. Entretanto, em 1969, Paulo Maluf retomou a ideia e determinou a construção da obra. O elevado foi erguido em aproximadamente onze meses, com cerca de 950 trabalhadores envolvidos na construção, sendo inaugurado em 1971 com o nome de Elevado Presidente Costa e Silva, em homenagem ao segundo presidente do regime militar brasileiro.
Por mais de cinco décadas, ele atravessou diferentes versões de São Paulo. Inaugurado como símbolo da modernização viária da cidade, tornou-se alvo de críticas de urbanistas, moradores e gestores públicos.
Hoje, divide opiniões entre aqueles que defendem sua preservação como parque suspenso e os que consideram a estrutura um erro urbanístico que deveria ser removido.
O que era solução virou um problema
Desde os primeiros anos de funcionamento, moradores passaram a relatar impactos diretos causados pela proximidade entre a estrutura e os edifícios residenciais. Em alguns trechos, o elevado foi construído a poucos metros das janelas dos apartamentos. O fluxo constante de veículos transformou a paisagem urbana e alterou as condições de vida de milhares de pessoas.
O ruído excessivo, já que os níveis variam entre 69 e 76 decibéis (dB) quando o tráfego de veículos está liberado, podendo chegar a picos de até 85 dB, são um dos pontos negativos do espaço. Os valores ultrapassam o limite recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que é de 55 dB para áreas urbanas.
Além disso, perda de privacidade, poluição atmosférica e desvalorização imobiliária tornaram-se temas recorrentes nas discussões sobre o futuro da estrutura. Décadas depois, parte dessas críticas passaria a aparecer também nos próprios documentos produzidos pelo poder público.
O Projeto de Intervenção Urbana (PIU) do Minhocão, elaborado para subsidiar o debate sobre o futuro da estrutura, reconhece a existência de elevados índices de incomodidade urbana na região. Segundo o estudo, a circulação intensa de veículos gera impactos relacionados à poluição sonora e ambiental, além de prejudicar a qualidade dos espaços públicos localizados sob o elevado. O mesmo documento aponta que a estrutura interfere na iluminação natural, na ventilação e na percepção da paisagem urbana nos bairros atravessados pelo viaduto.
A partir dos anos 1970, começaram as discussões sobre formas de reduzir os impactos da obra. Em 1976, o elevado passou a ser fechado durante a madrugada, entre 00h e 05h. Com o passar dos anos, em 1989, os horários de fechamento foram ampliados, das 21h30 às 06h durante dias úteis e o aos domingos, o local ficava totalmente interditado para carros, permitindo que a população utilizasse o espaço para caminhadas, corridas, ciclismo e atividades de lazer. Essa mudança transformou gradualmente a relação dos moradores com o local, que deixou de ser visto apenas como uma via expressa para automóveis.
Em 2018, uma nova ampliação do horário de fechamento foi feita. De segunda a sexta-feira, o Minhocão ficaria fechado para os veículos das 20h às 7h, e em feriados e aos finais de semana, o fechamento seria total e em período integral para o lazer das pessoas, atendendo à Lei 16.833, que cria o Parque Municipal do Minhocão.
O Minhocão como local de lazer
O que inicialmente era apenas uma consequência operacional acabou se transformando em um novo uso urbano. Foi nesse processo de reapropriação do espaço urbano que a arte passou a desempenhar um papel fundamental. A partir dos anos 2000, o Minhocão e seu entorno consolidaram-se como um dos principais pontos de expressão da arte urbana em São Paulo. Os grandes paredões dos edifícios localizados ao longo do elevado tornaram-se suporte para murais, grafites e intervenções artísticas de grande escala, transformando a paisagem da região.
A cidade de São Paulo já possuía uma tradição importante no grafite desde as décadas de 1980 e 1990, sendo reconhecida internacionalmente por sua produção artística nas ruas. Nesse cenário, o Minhocão destacou-se como uma espécie de galeria a céu aberto. A circulação de pedestres durante os períodos de fechamento da via possibilitou uma observação mais próxima dessas obras, fortalecendo a conexão entre arte, espaço público e vida urbana.
Essa apropriação espontânea se tornou um dos principais argumentos dos grupos que passaram a defender a transformação definitiva do Minhocão em parque.
A arte urbana pelo Elevado
Artistas renomados, como Eduardo Kobra, contribuíram para a valorização da arte urbana na região central da cidade. Seus murais, conhecidos pelas cores vibrantes e pelas referências históricas e culturais, ajudaram a consolidar São Paulo como uma das capitais mundiais do grafite. Além dos artistas individuais, diversos coletivos culturais passaram a promover intervenções artísticas, eventos e ações comunitárias ao redor do elevado.
A presença dessas manifestações culturais alterou significativamente a percepção sobre o Minhocão. Um espaço antes associado principalmente ao trânsito, à poluição e à degradação passou a ser reconhecido também como local de convivência, lazer, cultura e expressão artística. Essa transformação influenciou debates urbanísticos sobre o futuro da estrutura, incluindo propostas de demolição, manutenção ou conversão definitiva em parque público.
As controvérsias do projeto
A controvérsia em torno do Minhocão envolve diferentes visões sobre o que deve ser a cidade. Para seus defensores, o elevado representa uma oportunidade rara de ampliar áreas públicas de convivência em uma região historicamente carente de espaços livres.
A transformação em parque permitiria consolidar usos já existentes, incentivar atividades culturais e criar novas áreas verdes em uma das regiões mais adensadas da capital. Para seus críticos, entretanto, a existência do parque não elimina os problemas estruturais causados pela obra.
A própria documentação técnica utilizada pela Prefeitura para embasar o debate sobre o futuro do Minhocão reconhece impactos negativos associados à presença do elevado, como poluição sonora, poluição atmosférica, degradação da paisagem urbana, redução da iluminação natural, prejuízos à ventilação e fragmentação do espaço urbano.
Essa dualidade transformou o Minhocão em um dos maiores símbolos das contradições urbanísticas de São Paulo. O mesmo equipamento que conecta regiões da cidade também cria barreiras físicas.
A mesma estrutura que produz áreas de lazer é apontada como responsável pela degradação do entorno. O mesmo elevado que passou décadas sendo criticado tornou-se, para parte da população, um espaço de convivência que muitos moradores não querem perder.
A disputa sobre o destino do Minhocão ganhou novo capítulo em 2014, quando o Plano Diretor Estratégico de São Paulo, aprovado pelos vereadores da cidade, passou a prever a desativação progressiva do elevado como infraestrutura viária e determinou o ano limite de 2029 para que o Minhocão fosse desativado. De acordo com a Prefeitura de São Paulo, essa medida faria com que fosse construído um corredor de 6,9 quilômetros chamado de Boulevard Marquês de São Vicente.
Com seus 55 anos, o Minhocão representa muito mais do que uma obra viária. Sua trajetória reflete diferentes momentos da história urbana paulistana: o período de valorização do automóvel, os impactos das grandes intervenções urbanas, os processos de ocupação cidadã dos espaços públicos e o fortalecimento da arte urbana como elemento de identidade cultural. Ao longo de mais de cinco décadas, o elevado deixou de ser apenas uma solução para o trânsito e tornou-se um símbolo das transformações sociais, culturais e urbanísticas da cidade de São Paulo.