O Museu de Arte a Céu Aberto (Museu CÉU) é a primeira instituição museológica sem fins lucrativos da América Latina dedicada exclusivamente às artes urbanas. Criado com a proposta de transformar o acesso à arte e à cultura em um direito de todos, o museu busca romper com a ideia de que a experiência museológica deve estar restrita aos espaços tradicionais. Em vez de esperar que o público vá até o museu, é o próprio museu que ocupa as ruas, praças e territórios das cidades, aproximando a produção artística do cotidiano das pessoas.
A iniciativa parte do entendimento de que grande parte da população brasileira permanece distante das instituições culturais. Segundo dados apresentados pelo próprio Museu CÉU, apenas 1,8% dos brasileiros frequentam museus. Diante desse cenário, a instituição propõe novas formas de democratizar o acesso à cultura, utilizando o espaço público como equipamento cultural de livre acesso e promovendo experiências coletivas por meio de murais, grafites, projeções e outras linguagens características das artes urbanas.
Além de realizar exposições ao ar livre, o Museu CÉU atua na preservação da memória dessas manifestações artísticas, historicamente marcadas pela efemeridade e pela falta de reconhecimento institucional. Para isso, mantém um acervo digital composto por filmes, documentários, entrevistas e registros audiovisuais que documentam a trajetória da arte urbana no Brasil. O material é disponibilizado gratuitamente ao público, contribuindo para pesquisas, ações educativas e para a valorização de artistas e coletivos culturais.
A instituição também desenvolve projetos voltados à participação da sociedade na construção desses espaços culturais. Um deles é a plataforma Pintaki, que permite que escolas, prédios residenciais, estabelecimentos comerciais e comunidades se inscrevam para receber intervenções artísticas em seus muros. A proposta fortalece o diálogo entre artistas e moradores, amplia a circulação da arte nos territórios e incentiva o sentimento de pertencimento em relação aos espaços urbanos.
Ao reconhecer as ruas como locais legítimos de produção cultural, o Museu CÉU contribui para a ressignificação da arte urbana, antes frequentemente associada apenas à marginalidade. Seu trabalho evidencia que essas manifestações são também formas de memória, identidade e expressão social, reforçando que o acesso à cultura não deve ser entendido como privilégio, mas como um direito fundamental garantido a toda a população.
A ocupação das empenas e a ressignificação do espaço urbano
Dentre as obras do Museu Céu, as mais chamativas são as coberturas de empenas cegas, termo utilizado para as fachadas laterais de prédios que não possuem portas ou janelas. Este grande espaço, quando utilizado de tela para artistas, possibilita a criação de artes que se destacam no meio urbano. O artista e produtor cultural Kleber Pagu comenta que esse tipo de obra possibilitou uma maior visibilidade para este tipo de arte urbana, que teve origem na marginalidade. Ele também chama a atenção para o fato de o Elevado Presidente João Goulart, popularmente conhecido como Minhocão, ter mais laterais de prédio ocupadas por grafites do que qualquer outro lugar do mundo.
Conseguir aprovação para este tipo de trabalho é demorado. É preciso passar por uma reunião de condomínio e conseguir o consentimento de mais da metade dos moradores do prédio, o que pode levar de seis meses a um ano, de acordo com Pagu. “Tem prédio que precisei de oito anos para conseguir a autorização. O processo de educação, de convencimento do prédio para obter a concordância também pode ser muito denso”, desabafa o grafiteiro.
A permissão do prédio para a produção do grafite não significa que não aconteceram conflitos entre artistas e moradores. O artista relata que realizou uma obra na Rua Augusta, na região central da cidade, na qual os moradores autorizaram o uso tanto das laterais quanto da fachada frontal, mas que muitos moradores se tornaram obstáculos após o início da pintura. De acordo com ele, a confusão foi resultado de os moradores associarem a estética da sua obra com “pixo”, gerando arrependimento em alguns que antes haviam autorizado a arte.
Foi necessário que Pagu e sua esposa, a bailarina Fernanda Bueno, que também participa do Museu Céu, fossem de porta em porta nos apartamentos do prédio para explicar novamente o projeto e sanar as dúvidas que surgiram no meio do trabalho. Uma moradora em específico recebeu destaque em sua história; ao entrar em seu apartamento, ele percebeu que se tratava de uma apreciadora de arte pelas várias obras espalhadas por sua moradia. Ela argumentava que o seu problema era não entender o que estava escrito na pintura das fachadas, o que foi rebatido pelo grafiteiro. Ele utilizou um dos quadros dela com escritas em hieróglifos, que ela também não sabia identificar. “Ela cedeu e admitiu que estava sendo preconceituosa ao perceber que também não conseguia ler o que estava escrito naquela língua do Egito antigo, mas que dava valor a ela ao mesmo tempo em que desvalorizava a nossa produção”, diz Pagu.
Isto foi resultado de um processo muito comum no imaginário popular: o de que a diferença entre a pichação e o grafite mora no quesito estético. O que realmente separa um do outro é o fato do primeiro ser feito às margens da lei, já o segundo é feito com autorização e sem nenhuma ilegalidade em sua produção.
Projeto de lei consolida a importância dos museus a céu aberto
No dia 27 de maio foi aprovado o Projeto de Lei 379/2020 que reconhece oficialmente a Arte Urbana como patrimônio artístico, cultural, turístico e histórico da cidade de São Paulo. Em uma decisão considerada histórica para a cultura paulistana, a Câmara Municipal de São Paulo aceitou a proposta que consolida os grafites e intervenções urbanas, espalhadas pela cidade, como fundamentais para a construção da identidade paulistana, representando um importante legado cultural para as futuras gerações. Isso abre caminho para o financiamento público e privado de novas manifestações artísticas do tipo na cidade.
De acordo com um vídeo divulgado no perfil de Eliseu Gabriel, vereador e membro da Comissão de Educação, Cultura e Esportes da Câmara, o artista Kleber Pagu esteve diretamente envolvido na elaboração da proposta legislativa. Ao lado da produtora cultural Fernanda Bueno, Pagu participou da construção conceitual e da mobilização que deu origem ao PL, defendendo o reconhecimento da arte urbana como um dos maiores patrimônios culturais da cidade.
Desde o início da tramitação, o projeto propunha o reconhecimento de dezenas de espaços públicos onde há arte urbana e a valorização de galerias de arte a céu aberto, como o Museu Céu. A medida fortalece a preservação dessas manifestações artísticas e amplia o debate sobre políticas públicas voltadas à proteção delas.
A aprovação do projeto representa uma conquista para artistas, coletivos culturais e moradores que, há décadas, transformam os muros da cidade em espaços de expressão, resistência e pertencimento. O PL também reforça a posição da cidade como uma das maiores referências mundiais em arte urbana, reconhecendo oficialmente um patrimônio construído diariamente nas ruas e que durante muitos anos atrai visitantes e admiradores de diferentes partes do Brasil e do mundo.